Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

b.e.d.a – Carta ao Coletivo

“Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir. 
Sentir tudo de todas as maneiras”. 
Álvaro de Campos

Devo confessar que mudo sempre de lado quando viajo e nem sempre é permitido abrir as janelas. Entre as ruas, enquanto o coletivo se desloca, a paisagem muda completamente. Dos bosques do meu lugar – cada vez mais raros – aos modernos edifícios, as ruas e seus viadutos. As casas antigas e suas vielas.

Lá fora, tudo é barulho. O silêncio acontece internamente. Avisto o cão com seu humano a atravessar a rua. As pombas na praça à espera das migalhas que sobram da barraca de lanches.

É o caminho por onde levo vocês.

Nessa viagem que fiz com vocês, dentro de Coletivo diversificado eu abri cada janela e me deparei na docilidade do Medo de Aden.
 Perdi-me – perco-me sempre com ela – nos Caminhos de Adriana.

Respirei pelos poros de encanto com Pele de Caetano e juntei os Pedaços de Chris. Ingrid me deixou em Silêncio – mesmo – e de um fôlego só, nem suspirei. Cada palavra me abraçou e passou a fazer parte da minha bagagem.

A viagem é essa troca de perceber lugares, se descobrir no olho do outro e foi isso que aconteceu com Gestos de Marcelo. Já Maria Vitória, para mim é aquela pessoa que embarca, e você não para de olhar. Não cansa de olhar. Quer ouvir a voz, saber nome, endereço e seu lugar no mundo. As Memórias dessa menina se uniram às minhas. E quando essa pessoa desce, você quer descer junto e pedir o número do telefone, a cor preferida, e a viagem passa a ser mais sem graça sem ela.

Os lugares do caminho me deixaram sem voz e a minha Boca abre em espanto. A Tristeza de Obdulio me fez refletir sobre o outro que senta ao meu lado e em silêncio carrega sua dor-confusão-guerra interna e revi cada rosto que conheci nesses caminhos.

Virginia me fez movimentar sete vezes em seu Dilúvio de poesias. Quase pequei por desejar eu ter escrito as palavras dela.

Embarcamos em travessias diferentes, estações opostas, mas ligadas entre si e quando todo mundo se encontra o Coletivo ganha de fato, o sentido da palavra embarcar.  A viagem se adere aos detalhes do caminho percorrido, atravessa por atalhos não programados e que acaba sendo a melhor parte da viagem. Passamos a fazer a cidade desperta, insone, comum, original, diferente, como nunca visto e em cada um o gesto novo e com o objetivo é alcançado.

Asfalto e poeira. Poema e poesia. Tempo dos grandes espaços urbanos, das casinhas pequenas nas vilas quase cobertas pelos prédios e pelas suas alturas. O desenho da palavra do lado de fora e dentro, cada um, em seu lugar, caminhantes, tantas vezes de solidão, com suas rotas próprias e o mapa feito da palavra sonhar.

Olho lá para fora e descubro o ponto de chegada – que é o continuar constante de outra viagem – entre o azul intenso do céu e a cidade cinzenta ganhando vida pela janela. A mesma janela que me traz um pequeno raio de sol e agradeço por fazer parte desse Coletivo cuja pretensão é levar até vocês o roteiro. A perceber que o Coletivo é o todo dentro do embarque e que quando chegamos no ponto final já se agigantava dentro da gente uma nova pessoa.

Grata pela companhia de cada um. Que venham as próximas viagens!

Mariana Gouveia
Carta publicada na Revista Plural Trezentos e Sessenta – Scenarium Plural Editora
*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.

5 comentários em “b.e.d.a – Carta ao Coletivo

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