Corredores · Livros

Corredores, codinome: Loucura.

* aqui, você pode ler o primeiro capítulo.

Corredores chegou até a mim em um dia chuvoso. As palavras se uniam em tom de desabafo e Maria surgiu aos meus olhos nua e crua. Resiliente e aspirante no modo amar. O medo em cada gesto e um desejo absurdo de falar.

Maria me usou para ser voz e ao mesmo tempo me silenciei e dei voz à ela.

Maria se viu presa em um hospício depois de ser molestada seguidas vezes pelo homem que morava com sua mãe e ainda menina viveu e vivenciou todos os tipos de castigos impostos aos “loucos”.

Talvez você se encante pelos excluídos. Talvez você se inquiete com alguns personagens, mas o que posso garantir é que Corredores te levará pelas mãos rumo ao destino.

E do destino, você não tem como fugir.

Mariana Gouveia
Corredores – Codinome Loucura.
Scenarium Livros Artesanais
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Das palavras das cartas · Efeito borboleta · Projeto52

Um elogio à sombra.

Do Sul, do Leste, do Oeste, do Norte
convergem os caminhos que me trouxeram
a meu secreto centro.
Esses caminhos foram ecos e passos,
mulheres, homens, agonias, ressurreições,
dias e noites,
entressonhos e sonhos,
cada ínfimo instante do ontem
e dos ontens do mundo


Jorge Luís Borges

Luci,

ontem senti tanta vontade de te escrever que acho que senti no meu coração o seu, todo doído. O tempo não é nosso, Luci… A gente olha a hora só de teimosia. Porque quando for o tempo de acontecer, seja voo, seja pouso a gente só vira essa miudez. Mas o tempo também é remédio e eu queria te dar um abraço nessa hora, sem tempo de largar.

Foi meu pai que me ensinou que o tempo cura e que a gente não deve temer as coisas que acontecem, pois de alguma forma, elas já estão destinadas a acontecer. Isso do destino, Luci, não tem como fugir, você sabe. Caetano já dizia que o tempo é um dos deuses mais lindos. Nana Caymmi, que ele é uma eterna criança que não soube amadurecer…

Sabe, Luci, a gente gasta tempo – que nem é nosso – demais com pensamentos ruins e às vezes, se esquece que a mente atrai as coisas. Então, que tal deixar essa sombra escura e começar a ver as coisas do seu lado da janela, com a visão que tem, de lugar bom e por isso, coisas boas te acontecem. Existe o lado bom, mesmo que a gente não veja, não perceba.

Eu espero que seu pai te receba com um riso hoje e que ele esteja forte par seguir vida afora. Ainda me lembro do tempo em que ele não queria comer. Você sabia, Luci, que os pais depois de um tempo viram crianças de novo? Meu pai está desse jeito. Mesmo com o olho lúcido e uma vontade grande de viver, ele, às vezes, parece que fica um tempo determinado em uma história que ele mesmo criou, como se fosse um personagem de um livro. O pai que vira menino e que conta causos que me faz ter medo das sombras.

Eu ouvi que somos o reflexo de nossa própria sombra, Luci e considerando todos os ensinamentos do meu pai a sombra não existe e eu fiquei olhando a borboleta pousada no chão do quintal e seu reflexo ali, grudado no cimento. Seria ela reflexo da asa da borboleta? Você entende de borboletas, Luci. Até cuidou de uma doente em sua casa.

Eu elogiei a sombra da borboleta e quando ela voou a sombra foi atrás, bailando como se dançasse, mas eu não consegui fotografar isso, porque parei no tempo, Luci, pensando no seu céu, no meu céu e no céu dos passarinhos… seria o mesmo céu das borboletas? Vamos tentar descobrir isso juntas?

Olha, Luci, essa minha carta é para te abraçar e dizer que às vezes, a beleza está no modo que vemos as coisas… mesmo em momentos tristes. A sombra pode vir até minha mão mesmo que a dona dela esteja de asas machucadas. A vida é assim. A única coisa que não podemos mudar é o tempo… mesmo que a gente possa pensar que pode.

Te amo, Luci.

beijo meu,
Mariana Gouveia
Projeto 52
Scenarium Livros Artesanais
Lunna GuedesObdúlio Nunes Ortega

Das palavras das cartas · Livros

Carta ao amor… sem mestre.

{E de repente
o resumo de tudo é uma chave.
Carlos Drummond de Andrade}

Querida Flávia, ou seria Luziana?

Confesso que ao ler seu livro-conto fiquei em dúvida. Escrevo para a autora ou para a personagem? Misturei a história contada com as das mulheres que conheço e que nem posso chamá-las pelos seus nomes. Elas fazem parte de um programa de proteção de testemunhas, porque em algum momento na vida delas, foram Luzianas. A maioria vive com outro nome, outra casa e perderam a identidade para não perderem a vida.

Faço parte de um grupo que dá apoio e aulas para que elas sigam um novo caminho e comecem de fato, uma vida nova. Levarei seu livro no nosso próximo encontro. Acho que será mais um ponto de apoio e esperança para elas.

Sabe, Flávia, quando vemos uma história como a de Luziana, a vontade que dá é de sacudir, gritar e mostrar tudo que já aconteceu com as mulheres que eu conheço. Eu mesma, já fiz isso… daí, você se coloca no lugar da outra, pensa nos sonhos e ao mesmo tempo na realidade. Alguém me perguntaria: mas mulher não pode sonhar? Mulher não pode ser a protagonista de sua própria história?

Eu te diria que mulher tem que ser forte – antes de tudo, ser forte – como Luziana foi, como a Flávia é. A sociedade cobra isso, mas não nos oferece segurança. Claro que sonhamos com esse amor redondinho das poesias e dos contos. Ou pelo menos, com um amor que nos respeite. E quando isso não acontece, temos que gritar, e mostrar tão bem como você mostrou que o amor não precisa de mestre.

Amor sem Mestre é a realidade pura de tantas Marias, Joanas, Luzianas, etc.. não há um dia em que os relacionamentos abusivos não estejam estampados em jornais, manchetes de telejornais. A história que você escreveu traz para essas mulheres a esperança e a certeza de que é possível recomeçar.

Seu livro deve ser lido por todas as mulheres… não como um guia, mas como um abraço e mãos ofertadas. Não posso deixar de falar da edição primorosa de Lunna Guedes e das ilustrações – maravilhosas – de Carly Ca. Tudo se transforma em um afago na alma quando a beleza da escrita vem junto com a dedicação da Scenarium.

Flávia querida, eu diria para você que me vi representada em suas palavras. Precisamos escrever mais sobre isso para dar voz a quem se vê em relacionamentos que machucam e sangram, literalmente, sem ter força para gritar. A Scenarium já fez isso com Alice, Uma voz nas Pedras, de Lunna Guedes e os meus Corredores, codinome Loucura e Portas Abertas, Codinome Lucidez. Mas ainda é pouco. Precisamos de mais vozes ecoando em nome dessas mulheres para que isso se torne menos frequente.
Para Luziana eu daria apenas meu abraço. Porque acima de tudo, ela usou a coragem para dizer o não quero mais.

Finalizo essa carta estendendo a mão para você… Nela tem uma chave… é cópia da minha chave de abrigo, porque no fundo só precisamos que alguém nos dê essa chave que abre as portas da coragem e do coração.

Abraço carinhoso,
Mariana Gouveia
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Para conhecer um pouco mais da Flávia, aqui está o cantinho dela

dos diários · Livros

Toquei…

O botão da flor foi tocado. Em círculos para a profusão do instante.
Gritei liberdade nas mãos dela. Sussurro além do limite do extraordinário.
Às vezes, é preciso imitar as canções.

Mariana Gouveia
Diário das Quatro Estações – Cadeados Abertos
Scenarium Plural Editora
*Imagem: Antonie de La Roquelle

Das rotinas

Polaroid

Roubei os momentos instantâneos do dia em
que te encontrei e escrevi cartas sobre isso…
A voz rouca a suspirar vontades
A carta lida como se não tivesse sido entregue.
Na janela, a moldura escondida com o teu nome rabiscado.
Mais de mil vezes desenhei um coração e apaguei…
E o teu olhar ainda mora em mim e a estrofe do
poema morre de solidão em dias que nunca terminam…

Mariana Gouveia
Coletivo Mosaicum
Scenarium Livros Artesanais

Sete Luas · via lunar

Super Lua de Morango

Primeira Super Lua do ano. Cuiabá, 14 de Junho de 2022

Pesca a lua de noite, no céu.
Em noite de lua cheia,
a pescaria flui para além dos olhos.

Tem nos olhos a espera gravada.
A vida toda descrita nas linhas das mãos.

A mulher que lê a sorte disse que vai chover amanhã.
Aconteceu o eclipse solar em algum lugar do mundo.
Tudo era obra do acaso perante as estrelas.
Etérea a vida feita de amor e de lua.

Mariana Gouveia
Sete Luas
Scenarium Livros Artesanais
6 on 6 · Mariana Gouveia

6 on 6 – 3×4

Exato
De fato,
o corpo briga,
a vontade chega.
Retrato,
de 3×4
na semana inteira.


Quando revirei o baú de retratos as carteirinhas com os retratos 3×4 feitos para os documentos trouxe para o momento as memórias antigas. Junto delas, os monóculos que trazem lembranças de um tempo que não voltam mais.

Desde a morte de meu avô paterno minha mãe vivia sempre de luto. As fotos – tão poucas – que restam dela, não difere tanto uma da outra. Mesmo quando precisava de fotos para algum documento, lá estava ela e seu vestido preto. Ela só veio tirar o luto um mês antes de sua morte. Foi quando vestiu o vestido florido que ela mesmo fez.

Algumas fotos arrancam risos por aqui e muitas vezes me pergunto quais os sonhos que povoava a cabeça daquela menina-mulher? A foto acima era para o crachá da emissora de rádio e naquele tempo eu só queria usar o microfone para falar de poesia e canções.

Com o passar do tempo os cabelos foram modificando e os sonhos também. Mas a arte sempre presente de alguma maneira e as borboletas também.

O baú, além de fotos antigas, guarda também momentos. O filho tão menino ainda, na foto que o colocava como cidadão do mundo no primeiro documento.

Para tão logo depois – como o tempo passa rápido dentro dos dias – ser senhor de si e sair à procura de seu lugar.

As fotos desbotadas mostram os dias dentro de nossas vidas. Os monóculos guardam memórias. O casamento de meus pais. Eu, a segunda na foto, em cima de uma cadeira. A mãe e o olho de luto nesse dia em que a vida se perdeu. O baú hoje, trouxe apenas saudades.

Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6 – Scenarium Livros Artesanais
Participam desse projeto:
Obdúlio Nunes OrtegaRoseli PedrosoLunna Guedes

Projeto52 · Scenarium Livros Artesanais

Duas pessoas sentam-se à mesa.

Marcelo querido,

Eu poderia começar essa carta da mesma maneira que comecei naquele caderno que te dei – lembra? – contando o que aconteceu de mais importante no ano em que você nasceu até chegar o dia de hoje… mas naquele ano, o fato mais importante foi mesmo seu nascimento. Então, vou falar de outras coisas.

Duas pessoas sentam-se à mesa e ali, durante quatro horas usam o microfone para levar informações e entretenimento para quem está do outro lado do rádio. Ainda tenho na memória algumas frases, alguns nomes ditos com a zueira de Ronaldinho Gente Fina e suas mensagens. Poderia repetir algumas, hoje já conhecidas por tantos. Foi ali que eu o encontrei… Você ainda quase um menino e através de uma mensagem sua mão me tirou de um fundo do poço… Depois disso, eu apenas continuei gostando de você.

Passei a ser sua amiga e isso me honra muito. Passei a fazer parte de sua vida através de sua mãe e como eu já disse acho que foi o destino que te trouxe até mim através de um MHz… Quando você ganhou asas e voou além do rádio sua falta foi suprimida pela nossa bandida. Todos os sábados, eu atravessava a ponte e passava o dia com ela. Era quando eu sabia de você e de como a vida te guiava nos caminhos.

Semana passada, revirando meu baú de fotos encontrei uma foto nossa, tirada na rádio, próxima da mesa que nos ligou. Lembrei-me de uma pergunta que sua mãe fez uma vez: por que eu gostava de você? Lembro-me de que na época falei sobre o sentimento de gratidão e ela disse que gostar era relativo. Talvez você não compartilhasse desse gostar.

Tempos depois, ela te trouxe à minha casa. Era uma visita inesperada. Você era apenas meu ídolo e estava ali, no sofá da minha sala, conversando com meu marido sobre futebol… sua voz que havia me acompanhado em tantos momentos ecoava no meu quintal. Naquele dia, eu amei ainda mais a sua mãe. No sábado seguinte, ela repetiu a pergunta… nesse dia eu soube explicar: gostar de você é simples. Qualquer pessoa que te conheça sabe do que falo. Gostar não tem justificativa e nem explicação.

Se eu fosse contar os anos de você na minha vida contaria os 23 anos desde então… mesmo que a gente fique sem falar por um tempo, quando te chamo, é como se estivesse sempre ali. Me emociono saber que você é o elo que me liga com sua família.

No seu dia, os meus pensamentos te acolhe com carinho. Te desejo todas as bênçãos do mundo e vou estar sempre aqui, se precisar.


Feliz Aniversário!
Beijo meu,

Mariana Gouveia
Projeto 52
Scenarium Livros Artesanais

* Você pode acompanhar a voz de Marcelo Venturin aqui
Confira a programação.

Lunna Guedes · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

Vermelho por dentro.

Quinta-feira… o sol a pino e uma fuga por ruas inventadas para automóveis e não para pessoas.
O silêncio dos contornos a faz feliz.
Ela dispara seus passos e leva consigo qualquer coisa de felicidade.”

Pela quarta vez – e como se fosse a primeira – li Vermelho por dentro, de Lunna Guedes, publicado pela Scenarium Livros Artesanais. A primeira vez que o li, ele trazia o cheiro de livro novo, com a delicadeza das ilustrações de Adriana Aneli. Sorvi o livro em dois dias, na época, como se bebesse uma taça de vinho. A história me encantou. Mãe e filha e seus sentimentos misturados em mágoa, ausência, distância e ainda assim, o amor e seus paralelos mesmo com tantas contradições nessas relações.

Na segunda vez, fiz uma leitura via chamada de vídeo com uma amiga. De tanto eu comentar sobre a história, nas manhãs de terças e quintas-feiras eu lia para ela. Foi como ofertar um presente. Explicar os personagens, comentar sobre algumas frases. Levamos um mês para ler as 323 páginas. O livro já não tinha cheiro de livro novo, mesmo porque já havia sido emprestado para algumas pessoas… mas tinha cheiro dos lugares que o livro descrevia… era como se eu estivesse andando pelas ruas de Paris ou São Paulo.

Na terceira vez, li o livro em um projeto que faço parte, onde cuidamos de mulheres em situações de risco, ou sofreram agressões de seus companheiros e senti que a leitura foi um bálsamo para elas. O livro tinha o cheiro de esperança. Nas manhãs de sábados, passávamos duas horas entre aulas de artesanatos e leituras. Era uma desculpa para que pelo menos, em algum momento, elas se desprendessem das suas próprias histórias e embarcassem numa viagem… Confesso que em muitos momentos me emocionei e de como algumas partes do livro cabiam na vida de cada uma delas.

No mês de abril, ao abrir a estante o livro me chamou. Foi um convite. Ele se ofereceu e eu mergulhei de novo na história de Eva e Deborah. Confesso que sou apaixonada pela Anne. Talvez pela paixão pela fotografia tenha nos unido. Novamente me vi envolvida na história e foi como se tivesse lendo pela primeira vez. Não vou dar spoiler por que quero que você descubra e se encante pelo Vermelho por Dentro.

Respirou fundo… a cabeça estava cheia, a alma em suspenso e todas as coisas de sua vida embaralhadas. Sentiu o coração palpitar, o ar lhe faltou.
Medo da vida, dos afetos… de acreditar de novo e falhar. Deu um passo para trás, baixou os olhos para ver dentro.
Sentiu o toque na pele… o beijo nos lábios…

Vermelho por dentro me vermelhou em encantamentos. É uma história que te prende do início ao fim e por fim só nos faz suspirar. Se eu fosse você, eu clicava aqui e pedia um para chamar de seu.

Mariana Gouveia

Mariana Gouveia · Revista Plural · Scenarium Livros Artesanais

Lembranças

O doce branco do açúcar
a ativar o café torrado…
o bule antigo, com florzinhas
decoradas, cor verde-oliva.
Alguém… na carta disse
que o azul das pétalas lembrava
a cor do céu e que não mudava
o sabor e nem o aroma
do café a espalhar essências
pelos quartos e acordar o dia
na canção.

A mãe teimava que azul era o céu
quando o relógio dava
meio-dia.

Alguém saboreava histórias escritas
mas o livro do sebo não tinha
as dez páginas finais…
E teve de recriar a história
com os irmãos. Depois se descobriu
que a irmã tirou de propósito
as folhas…

O riso do irmão mais novo
era afago… um dia seria palhaço de
circo e viveria a desafiar
o globo da morte.

Não foi…

Mas os filhos acabaram
dentro do globo
da morte-vida

No quarto ao lado,
o baú, na casa antiga
da infância… descobriu
o sentimento que sentia
todas as vezes que alguém
falava de saudade:

Era amor!

Mariana Gouveia
Texto publicado na Revista Plural Inéditos & Dispersos
Scenarium Livros Artesanais