Diário das quatro estações · Efeito borboleta · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

Preciso sobreviver ao encanto…

que teus olhos me apresentam em miudezas e rotinas.
Dou-te os sentidos plenos no toque das palavras,
invento recantos onde seu amor me ampara
Para isso, basta sentir-me tua.
Adivinho que você nasceu em algum canto do mundo. E os séculos nos pertencem.

Mariana Gouveia|
In: Cadeados Abertos – Diário das Quatro Estações – Scenarium Plural – Livros Artesanais, p. 93 |
*Imagem: Laura Makabresku

azul em qualquer céu. · Divã · dos diários · Efeito borboleta

Quero mudar. De mim.

De vez em quando eu a procuro no meu quintal.
E te vejo nos instantes que vivi ali.
A solidão esmagadora e essa maldita espera e minha mão transgressora que toca lembranças que quero esquecer. Até mudo as coisas de lugar.

Coloco a horta onde o vento bate e onde eu abria os braços para te abraçar. Assim, ele não me lembrará mais seus cabelos revoltos e o brilho no seu olhar.
Quero mudar de casa, porque essa tem aquele canto insistente que você ficava e a cadeira e o seu nome rabiscado nos muros onde desenhei mil corações.

Quero mudar de bairro – porque nesse – as ruas que te mostrei escancaram debochadamente me lembrando do riso que você deu, das cores que você gostou e do retrato seu seguindo por elas, devorando os becos com seu olhar de espanto, colhendo a miudeza das flores, bebendo o sabor do sol, só porque lembra onde você nasceu.

O meu lugar lembra o seu lugar. Quero mudar de cidade, de mundo, de planeta.
Ir para onde não aja lembranças e onde você não viveu. Onde em cada direção que eu olhar não veja marcas de sua presença. Aqui, há presença demais. Há lembrança demais e há saudade demais.
Aqui, o vento dança e rasga a pipa que algum dos meninos não conseguiu resgatar e o som dela balançando ao vento me lembra você.
Aqui há cheiro de pele na mão, nas roupas de cama e até o cheiro do sabonete líquido me lembra você.

Mudo tudo de lugar e jogo lembranças fora.
Depois vou lá e cato tudo de novo e me sujeito novamente a elas.
Esfrego a pele para tirar seu cheiro, mas é estranho, porque ele está dentro de mim.
Quero mudar. De mim.

Mariana Gouveia
Das palavras das cartas
Agosto é o mês de mudanças e de Beda.
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura – 
Suzana Martins – Roseli Pedroso
Imagem: Christian Schloe

Divã · Efeito borboleta

Era, às vezes, nada.

Vestiu a incoerência das coisas. O telefone nunca mais tocou.
Tropeçou no chinelo que alguém deixou no caminho.
Um choro de criança ao longe. Um rádio toca uma canção. A hora dura nesse instante. Revisitou memórias e chorou de saudade. Fez faxina. O dia começa na lembrança dela. Rotinas fora do lugar.
Uma borboleta, um avião…
Diferentes estações de asas.
E era, às vezes, nada. Melhor ir realizar a perícia.
Veredito: sem lucidez.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês de todas as estações e de Beda
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura – 
Suzana Martins – Roseli Pedroso
*Imagem: Tumblr

Do lado de fora · Efeito borboleta

Neste começo d’hoje

tuas costas negavam
qualquer espécie de outono
Afinal
a ideia de estação
é só um tema ilusional
engendrado por humanos
que nunca puderam desenhar
tua coluna vertebral
a dedo nu


Matilde Campilho
Ph: Heather Marie

Das palavras das cartas · Efeito borboleta · Projeto52

Um elogio à sombra.

Do Sul, do Leste, do Oeste, do Norte
convergem os caminhos que me trouxeram
a meu secreto centro.
Esses caminhos foram ecos e passos,
mulheres, homens, agonias, ressurreições,
dias e noites,
entressonhos e sonhos,
cada ínfimo instante do ontem
e dos ontens do mundo


Jorge Luís Borges

Luci,

ontem senti tanta vontade de te escrever que acho que senti no meu coração o seu, todo doído. O tempo não é nosso, Luci… A gente olha a hora só de teimosia. Porque quando for o tempo de acontecer, seja voo, seja pouso a gente só vira essa miudez. Mas o tempo também é remédio e eu queria te dar um abraço nessa hora, sem tempo de largar.

Foi meu pai que me ensinou que o tempo cura e que a gente não deve temer as coisas que acontecem, pois de alguma forma, elas já estão destinadas a acontecer. Isso do destino, Luci, não tem como fugir, você sabe. Caetano já dizia que o tempo é um dos deuses mais lindos. Nana Caymmi, que ele é uma eterna criança que não soube amadurecer…

Sabe, Luci, a gente gasta tempo – que nem é nosso – demais com pensamentos ruins e às vezes, se esquece que a mente atrai as coisas. Então, que tal deixar essa sombra escura e começar a ver as coisas do seu lado da janela, com a visão que tem, de lugar bom e por isso, coisas boas te acontecem. Existe o lado bom, mesmo que a gente não veja, não perceba.

Eu espero que seu pai te receba com um riso hoje e que ele esteja forte par seguir vida afora. Ainda me lembro do tempo em que ele não queria comer. Você sabia, Luci, que os pais depois de um tempo viram crianças de novo? Meu pai está desse jeito. Mesmo com o olho lúcido e uma vontade grande de viver, ele, às vezes, parece que fica um tempo determinado em uma história que ele mesmo criou, como se fosse um personagem de um livro. O pai que vira menino e que conta causos que me faz ter medo das sombras.

Eu ouvi que somos o reflexo de nossa própria sombra, Luci e considerando todos os ensinamentos do meu pai a sombra não existe e eu fiquei olhando a borboleta pousada no chão do quintal e seu reflexo ali, grudado no cimento. Seria ela reflexo da asa da borboleta? Você entende de borboletas, Luci. Até cuidou de uma doente em sua casa.

Eu elogiei a sombra da borboleta e quando ela voou a sombra foi atrás, bailando como se dançasse, mas eu não consegui fotografar isso, porque parei no tempo, Luci, pensando no seu céu, no meu céu e no céu dos passarinhos… seria o mesmo céu das borboletas? Vamos tentar descobrir isso juntas?

Olha, Luci, essa minha carta é para te abraçar e dizer que às vezes, a beleza está no modo que vemos as coisas… mesmo em momentos tristes. A sombra pode vir até minha mão mesmo que a dona dela esteja de asas machucadas. A vida é assim. A única coisa que não podemos mudar é o tempo… mesmo que a gente possa pensar que pode.

Te amo, Luci.

beijo meu,
Mariana Gouveia
Projeto 52
Scenarium Livros Artesanais
Lunna GuedesObdúlio Nunes Ortega

Efeito borboleta

Fazia a magia acontecer,

Era humano
Alice

Começou a escrever a história pelas mãos dele,
– as mesmas que arrancam as ervas do jardim –
as que cuidam do jantar,
me levanta quando acontece dia como esse.

Calçou-me os sapatos e riu.
Brincou com as bolinhas da roupa.
Perguntou sobre a estação.
Colheu as amoras.
Quis receita de geleias.

Cantou desajeitado na sorte da palavra.
Sempre era o lugar daqui.

Ligou o rádio.
Me olhou com olhos de serenata.
A intimidade contemplada.

Desafiou-me ao riso.
Falou da geografia das horas.
– O tempo é o sinal de tudo –
tudo passa.

Mostrou-me o jardim.
Era ali a direção da cura.
Fui.

Mariana Gouveia

InspirAção

Das horas em que a vida me sorri.

“Não havíamos marcado hora, não havíamos marcado lugar. E, na infinita possibilidade de lugares, na infinita possibilidade de tempos, nossos tempos e nossos lugares coincidiram. E deu-se o encontro.”
Rubem Alves

amor,

mesmo depois de tantos anos juntos ainda me perco nas palavras para falar com você. Seria tão simples escrever as palavras de amor que conheço e estaria falando de você… mas, ainda assim, isso seria tão pouco. Das coisas que vivemos – e foram tantas – as que ficam na memória são aqueles instantes mais simples. Seu olho traz o brilho que aquece meu coração.

Seu riso quando chega de algum lugar, as brincadeiras banais onde sempre tenta arrancar um sorriso meu, além de tantas outras coisas que vivemos no dia a dia. A cumplicidade nos aproxima e faz com que minha admiração e respeito só aumente. Conheço o barulho de seus passos quando chega e muitas vezes, sem falar, já sei o que está pensando. Não somos um casal comum. Essa palavra não cabe em nosso dicionário, porque o comum não existe e nunca existiu nesses anos todos juntos.

Se eu fosse dizer uma só palavra que te traduzisse seria segurança… você é o chão onde piso descalça, a brisa que me acalenta em momentos difíceis e a mão estendida sempre. A liberdade que grito e busco para além dos nossos momentos me faz acreditar que você estará sempre logo ali, ao meu alcance, caso me desequilibre e caia. E seu riso será o momento mais bonito das horas que vivo.

Nesse seu dia, eu quero apenas te relembrar que te amo demais. Que vou estar aqui sempre e que meus dias ficam mais leves com você ao meu lado. Que a leveza como leva sua vida seja sempre constante em seus dias que também são os meus.


Feliz Aniversário!

Te amo,
Mariana Gouveia

Mariana Gouveia

Para sempre é muito tempo para quem não tem tempo.

No corredor, a cortina foi trocada por persianas por sugestão do vento que veio do sudoeste.
A esperança trazia a sorte na mão. As asas tinham a dimensão exata da dor.
Os vidros das janelas dos casarões da esquina foram quebradas além do muro.
Sentiu saudades da chuva. O céu anda tão estável. A mão é esse abandono de toque.
A vida, parada, sem diagnóstico e endoidava com a tarefa simples de viver.

Mariana Gouveia

Lua de Papel · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

a missiva que ficou nas pétalas de uma flor

eu nunca antes tive delírios
– mas dizem que tudo sempre aponta para um possível começo.
Seria esse o meu?…

Lunna Guedes – Lua de Papel

Bambina mia,

Já anoitece por aqui… enquanto no seu lugar o frio que tanto gosta dá sinais de aviso o meu lugar já sente a falta de umidade. Alguns diriam que já parece julho… Vejo o reflexo do sol na parede sem reboco da casa vizinha. Fica mais alaranjado meu quintal.

Ontem falávamos da flor que você viu e me lembrei da delicadeza que me ofereceu. Já era quase poesia a pequena pétala – imagine transformá-la em missiva, então? – e me recordei que tenho ela no quintal em suas várias cores. quando conheci a flor, descobri primeiro a de cor branca e só depois as outras vieram em forma de mudas.

Aqui, elas servem para as borboletas que são atraídas pelo cheiro de suas mini flores… mas, dizem que elas também servem de calmante, e por isso, ajuda a combater a insônia. Vou me lembrar disso em noites insones. Se chama lantana… mas achei lindo que algumas pessoas chamam ela de planta arco-íris. prefiro apenas que elas sejam o alimento das borboletas e joaninhas que moram por aqui.

Adoro esses mini buquês onde as cores se completam e suavizam. Parece até que a flor se veste para a festa… penso em você caminhando e de repente, o sol te traz o laranja vivo da flor e te faz pensar em missivas. Dei uma atenção especial a elas hoje e pensei nas palavras que te diria. A flor agora terá um significado diferente aqui.

Às vezes, acontece de cair quase todas petalazinhas e fica apenas uma resistente. Nem o vento consegue derrubá-la. Durante o inverno, o pé murcha e parece que vai morrer, mas isso dura pouco tempo. Logo ela surge de novo vigorosa, com flores mais robustas e assim segue em sua vida de flor.

Mas é agora no fim do dia que ela se faz presente com sua fragrância no quintal, como se fizesse perceber… pena que essa missiva não consiga te levar o perfume – suave- da flor… mas, com a delicadeza das florezinhas que te abraço enquanto a minha xícara de chá e uma canção espanta a solidão por aqui.

Te voglio tanto benne
Bacio,

Mariana Gouveia
Texto publicado na Coluna Plural – Scenarium Livros Artesanais
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega –  Ale Helga – Mãe Literatura 

só por desacato à flor

Mariana Gouveia · Plural · Revista Plural · Scenarium Livros Artesanais

A minha rotina clandestina

Sabe amor,
essa carta foi escrita antes do século virar. Os dias de ontem para trás foram confundidos um a um com a dor. Os corredores intensos-grandes fizeram as noites maiores. As paredes trazem recordações e fotografias recortadas onde minhas palavras vasculham a segurança do teu sono no quarto ao lado.
Na mesa da cozinha, rabisco as vontades dentro de um poema. Recordo os outros dias dentro desse mês que dizem ser o mesmo dos namorados e amanhã, justo amanhã, o dia principal. Que coisa estranha, amor! Ter um dia especial para celebrar o que é vivido todo dia. A Antônia da esquina me encomendou um poema para dedicar ao namorado e sei que você não compreende como alguém pode fazer um poema de amor para outra pessoa que nem conhece.
Quem escreve exala sentimentos na pele. Daí escrevo uma coisa, logo sai outra coisa e quando mostro para você, percebo que seu olho desvenda minha alma. Por isso, nem preciso dizer, já o sabe, que todo sentimento é igual, a solidão é a maior companhia de quem escreve e que as rotinas minhas vagueiam pelo quintal.
Da janela, vejo a rua inteira e se dobrar o pescoço colho a lua no quintal, com exceção de quando ela fica nova. Podia até pescá-la nessa fase. Vira isca, amor, no quadrante do pé de algodão.
Você sabe onde colho inspiração, ou melhor, em quais horas a rotina me abraça. Como pode uma noite roubar a rotina assim, de quem escreve? As horas avançam enquanto as estrelas se confundem umas com as outras quando choro… e finjo uma cantiga estranha no banheiro para que a desculpa do sabonete no olho não mostre para você que quem escreve o amor, mesmo sendo amada, chora…
Não é tristeza de pessoa, nem de amar… é a solidão que bate nas coisas mais vagas que a mão toca, seja um inseto pequeno na roseira que ganhei da amiga que enfrenta a morte, ou a borboleta – de todo dia – que me toca como se me benzesse.
Eu devia te falar das benzedeiras… as deusas que me ajudam na procura do que acredito. A força é logo ali, ao pé da cachoeira, onde te vejo dominando o lugar. É uma imensidão de coisas vinda de fora e onde me transformo em criança e suspiro em seu olhar.
Talvez eu te conte amanhã o que vivi ontem e depois de amanhã. Outra história onde desenho finais de tardes com você e com isso, vou narrando vivências e me juntando nas rotinas de outros amores porque escrever para mim… é isso: se misturar nas rotinas dos outros dentro das histórias de amor e vida. Pode até ser ficção, romance, tragédia…
E quando em silêncio, o vento sussurra e você me olha… parece quase amanhã. Esse seu jeito é a poesia que você diz não conhecer, mas que me oferece todo dia com abraço, força, fé e amor.
Te amo infinito dentro das histórias de amor que invento!

Mariana Gouveia
Texto publicado na Coluna Plural – Scenarium Livros Artesanais
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega –  Ale Helga – Mãe Literatura 

só porque hoje a borboleta apareceu por aqui de novo