As borboletas nascem pela manhã

As borboletas nascem pela manhã

Ouço o barulho da asa… É quase como ouvir silêncio.
Não abuso dos suspiros que é para não acordar as flores e nem interromper o nascimento.

Dou pausas…Ela precisa de silêncio pra nascer…
Shiiiu… As folhas secas do pé de maracujá silvestre balançam a canção de boas vindas para que ela rompa a crisálida, ou casulo, nunca me lembro o certo.

Leio o meu horóscopo no jornal, a seguir no caderno geral um artigo que explica como um cinto de ligas e uns sapatos vermelhos poderiam mudar a minha vida afetiva e sexual e eu me pergunto se com um cinto de ligas os iogurtes fora do prazo desapareceriam do congelador?

Ouço o vento de outubro bailando.
Marco as horas…
Falo com ela anunciando o sol dourado que vai ajudá-la a voar.
Ela nascerá na manhã mais linda, de sol intenso e de um azul brilhante.

O programa da TV toca uma floratta onde meninas fazem acrobacias da ginástica rítmica.
É Bach. As fitas das mãos delas bailam e agorinha mesmo as asas dela também ganhará o espaço.
As borboletas nascem pela manhã e eu conto os minutos que antecedem…presencio o nascer da borboleta e emocionada brindo a vida.

Mariana Gouveia

dos olhos…

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Uns olhos que diziam mais que quaisquer palavras.
Estavam agora calados. Deixara de os ouvir.
Tantas promessas lhes ouvira e tantas vezes neles embarcara. Viagens para não mais esquecer.
É na sua ausência que os recorda melhor. Como uma qualquer luz no corredor dum passado ainda presente.
Agora fecha os seus para não deixar fugir quanto lembra.

Rosa Maria Ribeiro

Das coisas breves

Tatuou a vida nas costas, assim que nasceu a primeira vez – a mãe “plantou” o cordão umbilical embaixo dos pés de bananeiras. Era a magia de permanecer na essência de quem acredita em coisas surreais, de geração em geração… Assim que entendeu que o seu lugar era o mundo teceu as asas de borboletas e descobriu que podia voar…

Mariana Gouveia
Das coisas breves

Do dia em que ela eclipsou

Os cheiros do céu cuidam da semente na terra. A racionalidade do sol e a emoção da lua influi na paciência da espera. Era ali, a estação da alma. Dentro dela o cheiro dos cravos chineses e a borboleta encantando o mar enquanto o rio se desenha além dos muros. Dentro dela, eclipse. 

Mariana Gouveia
Ser de flor
Texto publicado no livro Sete Luas
Scenarium Plural Editora

Havia um riso estranho no homem da esquina.

…ele perguntou meu nome duas vezes
E quis saber das horas.
Recolhi as folhas que caíram do outono
passado e molhei as flores na estação delas.
Preparei o chá de frutas amargas
para aliviar a tensão.
Alguém na casa do lado… canta uma canção
em alto e bom som. E a dor desafina
em La Maior.
Ouço uma voz entalada no grito
enquanto eu recordo das promessas.
…um corpo branco onde eu brincaria texturas
e registraria minhas digitais.
…uma boca em meus lábios
para descer rio-pele adentro,
Ser flor em mim.

…na febre teria o abraço como conforto
Me amaria nas manhãs mornas
e me traria a chuva.
…uma praia de espuma onde só há rio
– foi o que cantou nos versos de poemas –
… e uma polaroid para fotos noturnas.

Me deu a lua todas as noites
E o sol todos os dias.
Depois os tomou de volta.
Disse num-voz-sereno que traria de novo
…quando a maresia acontecesse por lá.

Para reavivar minhas lembranças mandou-me o mar
…derramado em conchas
E quando não havia mais nada para prometer,
…falou de amor nas palavras escritas de sempre.
Entrelinhas, foi o que disse.

Eu a vi dentro de um brinquedo a dirigir com um riso
…e não era eu atrás da polaroid – que não veio.
O negativo em preto e branco derramou Flor.

Nem era primavera ainda… mas o sol árido lá fora
desaba folhas no meu quintal. E quando eu já nem pensava mais nela
…me deu um ‘quase fado’ e eu morri no nosso jardim.

Mariana Gouveia
Ser de flor
Desvios para Atravessar Quintais
Diário das Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais

— Lembrou-se do filho que não viveu.


Ouviu Adele enquanto o pensamento voava. Rezou milagres na memória.

Escreveu o nome dele no ar — era asa e virou voo. Metamorfose em alguma mão. Viu asas na roupa do menino. O céu era horizonte azul. Havia verde em qualquer folha. Colocou cor no olho da moça de riso fácil.

As mãos eram frias e frágeis. Cabia a liberdade nas mãos. Viu as estrelas brilharem na água… O tempo refletiu nas lembranças e já era tanto tempo. Sentiu o toque da vida — que era vida em qualquer lugar — a capacidade de viver no exato momento da dor mesmo quando as asas cansam do voar… e pousam.

Mariana Gouveia
Desvios para Atravessar Quintais
Diário das Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais

Casulo

De dia, escondia-se nas letras

escrevia sobre política, religião.
Costurava as vontades como casulos

ao redor do riso, do olhar

da boca, dos sonhos.

Era artesã do desejo.

À noite, ela descobria-se
Com asas plenas de sonhar

Se mostrava.

Amava ela, em metamorfoses em que as asas

davam lugar

às imaginações.

Mariana Gouveia

— que nome dar para esse rio que vaza do meu peito?

– Você viu a lua nessa madrugada? além dessa que surge cheia em teus olhos? — Viu Júpiter que dormiu de conchinha com ela?

O vento veio suave na pele. Pensei em carícias e toques. Os poros soerguerem e a vida se transformar nesse pulmão de respirar… As asas não respeitam a densidade das pedras.

E as flores…? — não captam a solidão dentro da noite — aceitam os casulos que se abrem e a metamorfose acontece. Enquanto você vê seu mar nessa sombra de asa, o ar sendo presságio de coisa boa. De presença além do infinito e dos séculos e séculos — amém — e pousando em um beijo que é tua boca e voo… Pulmão. Cadê meu ar de respirar dentro dessa ausência que se impôs? E esse rio que vaza entre as folhas?

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
Scenarium Livros Artesanais

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b.e.d.a – dos rituais dos girassóis…

Ele disse: – Você parece mel. Ela disse: – E você, um girassol.

Caio Fernando Abreu

Minha doce Rose,

Queria te falar sobre os rituais. Meu pai sempre disse que vivemos de rituais, mesmo quando achamos que não. Eu sou dos rituais… desde quando acordo até ir dormir. E em um desses rituais de amor eu plantei girassóis no meu quintal pensando em você e ele cresceu tão lindamente que resolvi te escrever para te contar.

Você já sentiu o cheiro de mel de um girassol? Fico horas cheirando as flores dos que plantei aqui. Assim como você, também tenho uma ligação especial com eles. As borboletas adoram… E talvez, nossa ligação vai muito além da poesia e você seja a menina do girassol de minha vida.

Sabe, dias desses, dentro das memórias do dia lembrei-me de você e do cheiro de sua mão… acho que foi ali que senti o cheiro de amor que você carrega na alma.

Agora, que os girassóis floriram lembro-me de você todos os dias… na hora de molhar eles, falo com eles como se estivesse falando contigo… é um ritual que sigo para assim amenizar a saudade que sinto.

E seguindo o rito das flores te abraço esperando que tudo isso passe logo e a gente possa se abraçar de novo. Assim, te espero todos os dias dentro dos rituais que meu coração segue pensando em você.
Amo tu!

Um abraço carinhoso

Mariana Gouveia
Participam dessa blogagem coletiva:
Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Obdulio Ortega – Roseli Pedroso