Divã · infinitamente · Mariana Gouveia

Tem jeito de anjo, a moça

mas passou a ser indecente
olhar perdido nas nuvens
Resolve ser na mão de alguém

Vivendo doces mentiras do dia,
na noite se fantasia com asas
e pensa em salvar o final feliz da história.

Enclausurada, lá pela meia noite tira a roupa
Traz sempre um cheiro de rosas
(anjo cheira a nuvens – eu acho)

exala amor novo
Sabe ser quente
sabe ser porto – ela diz

e no conto de areia de água doce disfarçada de mar
quer um final feliz.
Satisfazendo os desejos dela dou-lhe o céu e fim

Mariana Gouveia
*imagem: Kamil Vojnar

azul em qualquer céu. · Divã · Mariana Gouveia

Ela é sóbria

Não tem moedas para pagar o preço de ser livre.
Cruza pontes estreitíssimas e ri.
Adoro a estrela que se insinua em seu riso.
Corteja os azuis em um tempo manso.

Tem vontade de voltar para casa,
se bem que a casa dela é em qualquer lugar.
Brinca com as correntes que não fez. Eu rio.

Ora para que o plano A dê certo,
e no C cruza os dedos.

A vida sorri para ela.
Às vezes, ironicamente.
Mas ri quando no pote de feijão encontra sorvete… e amor.

Plena e indizivelmente batiza seus silêncios.
Tem álibi, atreve-se. Ama.
Sempre se deixa enternecer pelo que a alcança.
Talvez, por isso, as pedras não sejam pedras, mas flores.

E tudo que desejo é que o amor há de encontrá-la
desatenta e assim, entre as palavras e o sorriso ela seja feliz.

Mariana Gouveia.
*imagem: Tumblr 

Das rotinas · Divã · Mariana Gouveia

Revirou a terra e inventou sementes.

Cavoucou na parede o estuque. Descobriu o azul morto três tinturas depois – ou seria o verde desmaiado do ano anterior? – e se perdeu dentro da cor, nas lembranças.

Salvou a formiga do afogamento em um balde e a viu segura duas folhas do gervão depois da cerca.

O vento mudou-se daqui – pensou – pois já não sente mais a presença dele. Depois do vazio das árvores não ouve mais a canção das folhas. Tudo é esse desgaste de tempo.

Replantou o jardim de novo. Revirou a terra e inventou sementes.

Daqui alguns meses a estação terá mudado, mas reviverá a primavera no amanhecer.

Mariana Gouveia
Das infinitudes

Divã · Do lado de fora

O teu poeta mistura lilases para avivar o que fala.

Ph: Natália Drepina

Na terra onde deságua as almas mortas
Misturam-se memória, desejos e a chuva que tudo lava,
Onde não há luto o anseio floresce,
A terra revolta produz mais
A primavera agasalha o inverno,
Em algum lugar há um café passado esperando por nós dois,
Um bolo de aniz, uma banheira de açucena
Que pena que o teu caminho não passa por aqui
Quando éramos crianças, na casa mais da esquina moravas
E eu tive medo.
Medo de não ser seu, de que um dia esse malefício tomasse o meu coração
Leio muito à noite e viajo sempre no verão,
Mas fora isso eu não tenho rotinas, tenho medo de ficar paralisado,
Do beijo ficar no meio do caminho
Não podes dizer sequer das estimas, ou das lastimas que o hábito aprisiona
O de me desconhecer em tudo que é tão usual
Não pus o teu retrato na parede e nem cultivei manhãs de sol
E as árvores me cobram as tuas costas dispostas nelas
Os grilos guardam os seus cantos para ti,
Os rumores das águas se perdem em algum ponto do rio
Quando os teus pés foram embora o caminho se desfez
Uma sombra medra sob esta rocha que à tua espera
As ervas de mato me dizem da tua sombra a caminhar sobre elas,
A natureza me pergunta quando tu voltas
Tudo te distingue e eu com esse sorriso parado,
Ai de mim que nem sei o que dizer a elas

Charles Burck

Das rotinas · Divã · Mariana Gouveia

Horóscopo do dia

Me pediram o horóscopo do dia. A pessoa que fazia isso morreu – ou viajou, ou mudou – sei lá!
Há uma contradição dos astros hoje. O astral me povoa. Cria multidão em mim. Estrelas cintilam nos olhos dela.
O vento empurrou Júpiter para perto de Vênus. Marte partiu.
Seu signo combina com o meu. O Decanato mora na esquina da rua detrás. Chamam-no pelo apelido. Nunca atende pelo nome dele.
Hoje será seu dia de sorte. Amanhã também. Isso se não enlouquecer pensando nos sentidos que as várias fases da Lua tem.
O tempo muda hoje. Continue nas rotinas do dia.
Vai conhecer o amor da sua vida – isso, se já não conheceu.
Momento dos mais benéficos para viver ou morrer.
De amor.

Mariana Gouveia 

Divã · Mariana Gouveia · via lunar

contraventor

Fala das horas mortas – embora vivas – todo dia.
Do fascínio que uma menina faceira provoca nele.
repete o nome dela infinitas vezes.
Assiste sua dança no seu quintal.
A chama de deusa e eu, atrevida, dou-lhe o nome de deuso.
Nome que achei para a magia das palavras que ele assopra em um teatro de ousadias.

É contraventor.
Usa anagramas e se perde dela em um céu vermelho quando desaba um temporal.
Não se cala, fala, inventa idiomas, cria cidade.

Como as mãos da cartomante, corta baralho de linhas e letras.
Dá voz ao poder de lua, mesmo ela querendo minguar.
Mas toca o que é proibido,
Porque ousa quebrar os espelhos
E me chama ela pelo nome que acha mais bonito.

Pinta flores em carvão ou giz
usa origami mesmo sem dominar.
Chama os ventos astrais para as marcas da pele
onde o vento não voa e cria mais sentidos numa noite simples.

enquanto eu, em sessão solene vivo a poesia
porque a ousadia não pode parar.

Mariana Gouveia
*imagem: Tumblr 

Divã · Do lado de fora

ser a laranja na tua sede

a redonda palavra
na tua boca
onde o silêncio sopra
segredos
inteiros
rebeldes securas
a cobrir-te a pele.
e nos dias pardos
inventar a luz
sacudir poeira
e deixar em ti
o brilho do orvalho
das manhãs

Rosa Maria Ribeiro
Ph: Irina Kotova

Das palavras das cartas · Das rotinas · Divã · Mariana Gouveia

Das cartas que nunca enviei.

Escrevi para ela enquanto as roupas quaravam no jirau feito de angico. Fazia parte de um ritual antigo que minha mãe adorava repetir. Os lençóis de linho a branquear ao sol.

O cheiro do sabão de dicuada, ali, a clarear as roupas e o sol e o vento…

Era isso… enquanto eu escrevia o vento trazia na memória o balanço das folhas, da rede, do cabelo que caía na boca e a voz da minha mãe a ecoar lições.

Contei sobre o tempo de ontem e que havia um bando de pássaros a desenhar poemas no céu.

Amanhã chove – a moça do tempo confirmou com mapas e cores densas – a apontar o dedo para a parte que no mapa, é meu estado.

Brotou flores novas no quintal. Rosa, rosinhas, cravos e as trapoeirabas azuis.

Quando os pássaros cantam eu corro para o quintal a espiar o céu. Eles revoam no sentido contrário e lembro de coisas que te falei. Devo dizer que ganhei o sentido de asa. Os cães quase voam de um sofá para o outro. O pássaro de todo dia aparece e eu escolho palavras ao acaso para desenhar minhas emoções.

Apago, escrevo e torno a apagar. Algumas palavras ganham formas diferentes e sentido igual. Risco e coloco o ponto final
Os pássaros voltam novamente e mais uma vez recomeço a escrever.
Coloco a data, a cidade e por fim, termino uma carta que nunca vou enviar.

Mariana Gouveia
©️ Anne Kramer
Das palavras das cartas

Divã · Do lado de fora

Navegar…

no espaço de um segundo. Ser pássaro, ainda que peixe.
Mergulhar nas nuvens.
Voar no mar.

Joakim Antonio
imagem: Anka Zhuravleva

Divã · Mariana Gouveia

Nós somos o tempo.

É para ti que transbordo todos os dias
E desenho corações nas flores
E dedico-te o raio mais vibrante do sol.

É para ti que me dispo
Tiro o véu, desfolho as vontades.
Que em camadas encobre meu desejo de ti.
E quando vai, e deixa em mim teu gosto agridoce,

Em mim o sabor de teu amor
Eu suspiro, pela alegria viciante de te ter.
Eu te amo e em todas as músicas de amor
As palavras falam de você.

Quando acorda com vontade de mim, faminta de amor,
e teu olhar inquieto me busca e a gente fala do tempo de querer…
Do tempo que te quero e então,
o tempo não é nada, porque nós somos o tempo.

Mariana Gouveia
Ph: Christophe Gilbert