Das rotinas · do verbo voar · Mariana Gouveia

Rituais do toque

Costurava afagos dentro do que a memória lembrava.
A alma conhecia o toque e sabia dele de séculos passados.

Era jeito de asas na palma da mão.
Era mão sentindo o ritmo do coração.

Pertencia ao mundo criado ali no quintal e sentia-se plena diante da magia que a vida oferecia todos os dias.
Cabia nas madrugadas junto ao canto e quando o horizonte lhe mostrava a manhã que surgia sabia que podia tocá-la se quisesse.

Sempre queria.

Mariana Gouveia
Dos rituais do toque

Diário das quatro estações · do verbo voar · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

Da anatomia dos voos

Ph: Smooth

Fiz um tutorial sobre perdas seguindo à risca cada etapa. Mas na hora h, quando o vento lateral veio com notícias de ida sem volta, esqueci as regras. Abri os braços e pensei ser janela aberta para o mar; apaguei o rito do nascer. As asas perderam o sentido de voos e tudo ficou cinza. E se eu não for poesia amanhã? E se a metamorfose não fizer jus ao instante? E se a morte rasgar a pele e camuflar a vida com outas formas desconhecidas? Vou ter que esperar amanhecer para saber outro dia. Existem muitas maneiras de ir embora, apenas uma de ficar.

No fim do dia serei apenas uma sombra na parede.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
Scenarium Livros Artesanais
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Divã · do verbo voar · Mariana Gouveia

Às vezes, é preciso enfrentar o imaginário.

Ph: Omerika

Ela senta. Anota.
– Sugiro que fale mais sobre isso.
Disparo a falar sobre possibilidades de espera.
O mundo é um lugar comum. Dispensa atenuantes de comparação.
O sonho de conquistar o mundo cabe em um abraço.
Meninos espreitam a solidão, enquanto espanto pássaros no jardim.
Levo eles para o céu. É a estação que sopra em direção do voo.
Coisa de menina dentro da estação..
Despeço do homem na porta da esquina.
Lembro do corpo dela dentro de mim.
Lembro dela dentro de mim.
Eu. Dentro dela.
A pele com cheiro da maresia. Ela todo mar. Direção da minha nau. Ela, meu porto.
Divago sobre vento. Falo da alusão ao que minha mãe dizia:
– Vento é o Espírito Santo. Assovie e ele virá.
Faço isso só pra demonstrar. Uma brisa suave mexe o cabelo dela. Anota.
Imagino roubar as anotações dela.
Ela me pergunta sobre o que penso do imaginário – suspiro –
– voos…
– Pássaros?
– Asas. Liberdade. O voo não é solúvel no ar. De toda queda. Só às vezes, eu quero o chão. Há dez maneiras do imaginário agir.
-Liberdade?
– De dançar, voar, pousar…
Empurra os pássaros com a mão.
Ela anota. Pega na minha mão. Olha na direção da janela.
– Me mostra.
E começa a falar de ninhos.

Mariana Gouveia
– Divã

Divã · do verbo voar · Mariana Gouveia

Às vezes, é preciso enfrentar a verdade…

Ph: Amanda Mason

Aquela que dói no peito e bate na porta avisando: não tem jeito.
Eu anoto.
Não antecipei o contexto. Apenas repeti. E previ.
Era outono nas manhãs do nada. Um pássaro morre no meu quintal. Tento fazer a simpatia que minha mãe fazia quando eu era criança. Coloco o pescoço do pássaro em volta dele mesmo. Molho a cabeça dele e depois o coloco debaixo de um balde. Dou as três batidas e mais três. Já não tem vida ali.
Já não há voos na minha manhã sombria. Pensei que seria véspera de asas. Acabou.
– Tem dificuldades em lidar com o que acaba?
– Não! Sou áspera na palavra respirar. Acato. Aceito. Sou submissa na atenção dos dias. O fim é sempre uma porta para um novo começo.
– Mas?
– É a reconstrução de um tecido que já foi rasgado. Ditados populares de séculos – Não deite remendo novo em pano velho – e por aí, vai. Diante da verdade possível fica um vão de medo. Planejei o dia de hoje em uma conversa simples, limpa, feliz e pensei nisto com o coração, lembrei de todas as conversas que quis ter, cafés, sorvetes, sombras e varais repletos de palavras e libélulas penduradas na palavra acariciar.
– E não aconteceu?
– Não. Tive de lidar com a morte logo cedo.
Seria possível remendar sonhos?
Anoto eu mesma a minha resposta.
A verdade é que às vezes, é preciso enfrentar a verdade.
Há um pássaro vazio de voo na minha mão.
Hoje, ela não fala…

Mariana Gouveia
– Divã

do verbo voar · Mariana Gouveia

a vida não era abandono de céu.

Alguém rompeu com a tranquilidade do ninho…
A árvore sofreu cortes nos galhos e o vento tratou de levar o que era lar.
Havia um quintal onde os grãos eram jogados e as frutas disputadas no telhado e só por isso, a vida não era abandono de céu.

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · do verbo voar · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

e mil orações aos céus

para a vida apagar de uma vez
Flávia Côrtes – As estações

Cris,

lembra quando eu te disse sobre o círculo de vida da libélula? Acho que nesse dia eu toquei sua tatuagem como se quisesse te dar asas. Você é esse encontro de vida e de almas de outros tempos. Acho que te reconheço de outras vidas. Essa sua mão já tocou a minha em infinitas vezes quando quase todo mundo soltou. Mas, você se encanta pelo ser que voa. Quase um dragão de asas. Fui até estudar a vida delas, Cris.

Há três estágios de vida e nem vou me atentar aqui, Cris, na nomenclatura que a biologia explica. Eu quero apenas te associar a elas, já que você ama tanto essa fada que voa. Eu te disse e acredito que elas sejam fadas, mas isso, é apenas a parte lúdica de nosso carinho.

Ovo, ninfa e adulto… esses fatos e ciclos devem ser explicados em sua aula de biologia, Cris, aqui no meu quintal, eu as protejo do siriri – um pássaro lindo, mas que fica atento aos bichos que voam – e vez ou outra, me pego chorando quando vejo ele com uma para além dos muros, no fio de energia elétrica, no bico.

Confesso que fico rezando para que elas nem sofram e que ele – o pássaro – cumpra sua função de predador e a vida delas apaguem de uma vez. Fico pensando se é a que pousou em meu dedo horas antes.

Depois, Cris, te ligo e me conformo com as etapas da vida e a velha frase de que tudo acontece ao seu tempo: nascer, viver e morrer… o extraordinário acontece quando a gente menos espera na metamorfose. Tudo se reconstrói, Cris… a gente só não sabe como…

Mas sabe quando me reergo e me vejo capaz de seguir em frente? Quando teu olho me alcança e nele vejo as mil possibilidades de viver. Seja em asas, em voos ou simplesmente, em uma metamorfose.

Te amo sempre,
Mariana Gouveia
Projeto Blogvember – Scenarium Livros Artesanais
Participam juntos comigo: Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins
ph: Mirjam Appelhof

Das palavras das cartas · do verbo voar · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

Em delírio me transporto ao limbo

Maria querida,

Hoje escureceu mais cedo por aqui… também choveu o dia inteiro e a rua ficou deserta. No meu quintal, as sombras se projetaram como se os galhos ganhassem vida, as roupas ainda úmidas no varal e o pássaro – que parecia perdido em seu canto – no canto do muro.

Lembra de como a gente falava dessas noites estranhas em que o medo é muito maior que a coragem? Acho que hoje ela aconteceu por aqui. Li o poema da minha tão minha Katia Castañeda e vi ali nossa conversa, Maria:

E se durante a noite ela vem
e me toma
Me cega e eu
Em delírio me transporto
ao limbo
Dos inquietantes sintomas
Com final e sem luz
Nesse túnel
Psico ansiolítico
da noite longa

Teria de ter sido eu a te dizer que a rua de cima ficou vazia o dia inteiro e que essa escuridão é tão sua como minha. Eu vi em seus olhos, Maria, essas coisas de mar aberto que você traz no peito em noites assim. Essas coisas internas suas que você carrega e solta por onde anda, como se despejasse vontades para além de onde veio. Como se uma noite escura durasse uma eternidade.

Sabe, Maria… já te falei das minhas noites frias e brancas em cartas? Já te contei sobre os monstros que em algumas noites se transportam para o meu quintal quando não tem lua? Foi por isso, que comprei lanterninhas e espalhei pelo jardim, para que o escuro não predominasse por aqui em noites assim e que junto com as lanterninhas, os vagalumes também brilhassem.

Lembro-me de que você riu e achou graça da palavra vagalumes e pronunciou bem baixinho a palavra pirilampos e ficamos horas a rir disso. Nessa noite – recordo-me – que não houve delírios nem medo. Apenas o sussurro de uma palavra ganhando cor em nós.

Por isso, antes que escureça mais ainda resolvi te escrever e te lembrar do som das asas dos pirilampos a voarem por entre as lanterninhas que coloquei por aqui, só para que você saiba que a luz acaba com as sombras. Mesmo as que insistem em habitar dentro de nós.

Abraço carinhoso,
Mariana Gouveia
Projeto Blogvember – Scenarium Livros Artesanais
Participam juntos comigo: Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins

do verbo voar · Mariana Gouveia

Escrevi mil cartas no meio da tarde…

Repeti nelas o episódio do dia. 
O pássaro de todo dia a vasculhar momentos no quintal.
O vento traz a brisa mansa.

Desenho rotinas dentro da memória.
Fotógrafo a ave que te falei para que fique registrado. 
Algumas das cartas rasguei, sem colocar no envelope.

O sol colore o céu com suas nuances de laranja.
Chamei seu nome mil vezes ao anoitecer.
Cabia saudade dentro da palavra falta.

Mariana Gouveia

azul em qualquer céu. · do verbo voar · Mariana Gouveia

A tarde amena chega dentro da canção de procurar desenho em nuvens.

O gato no telhado arrisca entre os pulos dos cães. Ostentou a palavra solidão na amplitude da tarde.
O pássaro vagueia entre o roubo da fruta ou a água do beija-flor. Reencontro o poema perdido na gaveta das linhas. O céu anuncia uma tempestade junto com o vento e seus trovões que me lembra alguém. Descubro o desencanto na pergunta perdida. O quintal é esse portal aberto para o nada.

Mariana Gouveia

De todas as estações · do verbo voar · infinitamente · Marítima · Mariana Gouveia

dos seus pássaros que voaram…

ficou aquele na mão, preso – a gaiola dependurada no peito – sem jeito de asa ou ninho. Contei nos dedos os séculos sem você e o relógio na parede, vazio de horas e em silêncio lembrou-me da vitrola quebrada sem os vinis. A dispensa abarrotada de lembranças e o céu rendado de tela não me permitiu te oferecer asas. Não posso ver daqui, pela janela fechada a alegria nos teus olhos pelo voo dos teus pássaros.

… que marítimos não atravessam para meu rio.

… que brigam com os meus

… que migratórios não atravessam o oceano.

… que os meus voam rasantes com medo do voo perto desse abismo.

… que é essa solidão…

que moram na árvore morta onde não podem fazer ninhos nem migrar para te oferecerem asas.
… que descobrem que a estação muda de acordo com o destino do quintal que não alcança a maresia que alimenta o jardim.

Mariana Gouveia