Delírios Comunistas · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

Correspondência

“Nesta ausência que me excita, tenho-te, à minha vontade, numa vontade infinita…
Distância, sejas bendita! Bendita sejas, saudade!”
Gilka Machado

Caro vento,

Talvez abrir os braços e te acolher dentro de mim, incorporando roupas e cabelos, seja pouco… o que eu quero é redemoinho. Aquele lá da infância onde você surgia miúdo e ia ganhando os beirais dos currais e de repente estava lá, espalhando os lençóis nos varais e as pipas dos meus irmãos.

Você me lembra a liberdade… essa frase solta que calada não tem a força e que represada – igual minha mãe dizia — vai roubando instantes nos quintais vida afora. Você se tornando redemoinho fica igual menino furioso e o infinito se torna tão curto para além das cercas.

Tenho em mim os ideais de sua força… é como a força do mar, que ganha do rio as gotas e se transforma em gigante. Já imaginou se cada um de nós tivesse na mente a sabedoria de sua força?

O que me lembro de sua fúria, vem pelo olhar de minha mãe — eu, menina olho de poesia, e os arames farpados em nossa frente — e a cadeira preferida dela em seu centro e as folhas das palmeiras que circuncidavam nosso quintal viraram picadinhos enquanto seu furor rompia o monjolo, as telhas e além da cerca, a árvore de minha infância.

O medo, é esse bicho troncho, que nem avisa quando é de verdade e quando devemos realmente temer. Voltar é impossível na existência — minha mãe repetia — o olho deve ir além. Amanhã é outro dia, ela repetia, tal qual a palavra do filme, que ela nunca viu, mas ouvia via na rádio: E o vento levou era mantra aqui.

Esse rompante que ultrapassa as barreiras e invade os varais me fascina — é verdade — e ao mesmo tempo me retrai e se eu disser que hoje consigo lidar com seus avanços, minto.

Você é essa lembrança imperiosa que a mente não consegue apagar e ao mesmo tempo é essa ânsia de vida que acolhe o peito e transforma tudo que toco em redemoinhos.

Sou tão pouca diante dos retratos preparados e sou tão frágil feito pena aos seus olhos. A vida tem a dimensão exata do que você é capaz. Uma onda que escapa do mar e causa rebuliço no campo e arranca as roupas dos varais, mas que não pode comigo quando me permito voar.

Mariana Gouveia
Carta publicada no livro Delírios Comunistas
Scenarium Livros Artesanais
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Adriana Aneli Costa Lagrasta · Delírios Comunistas · Scenarium Livros Artesanais

Misfits

Começa a notar que as coisas se inverteram na ordem? Caminho por esta avenida sem calçadas. Carros, desde que se tornaram importantes, ocupam os jardins das casas. Moramos sob a laje. Entre grades. Nesta gaiola insana.

É verdade que alçarão a segunda e a terceira lua ao espaço? Até 2022, prometem… Baita economia de iluminação pública! Vai brilhar mais que a lua original!…

Vi uma estrela tão alta,/

Vi uma estrela tão fria…

Protestam os namorados e os lobisomens.

Nesta cidade, as coisas endividam pessoas. São descartáveis. Também as pessoas.

Ou então

Partimos numa viagem secreta. Há de ter algum grotão neste mundo. Ainda há. Com boa literatura.

A esperança

Não há lugar para pessimismo. A vida é una, indivisível, improrrogável. Ouço-o gritando enquanto corre em ziguezague por entre os carros.

Depois se recolhe em sua lata de lixo. O último fecha a tampa.

Adriana Aneli
Texto publicado no livro: Delírios Comunistas
Scenarium Livros Artesanais
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Anna Clara de Vitto · Delírios Comunistas · Scenarium Livros Artesanais

quem sobreviveria?

“com os olhos à deriva na janela, tentei me convencer de que não, corujas não voam para cima de telhados em plena manhã, não, nenhum presságio, talvez o ruído indevido da rua anuncie o final dos tempos sem direito a funeral, a mesma paisagem cínica, de máscara? nem isso. as horas são todas iguais, o oxímetro separa o pânico da pneumonia, é melhor trabalhar antes que eu morra, são tantas janelas, nenhuma é a minha, é necessário tomar sol, disseram, mas o ruído indevido da rua ensurdece o desejo de estar viva, não, normalidade não há mais, não há normal nem anormal, o nada é o horizonte que nunca decepciona. aqui, cinco mil trezentos e sessenta horas de conteúdo gratuito para o seu desenvolvimento pessoal durante a quarentena, disponíveis durante os próximos quinze dias, apresse-se, mas eu só queria estar vazia. entende? o nada é o horizonte que nunca decepciona. o nada nasce bom. a espera o corrompe. entende o que eu quero dizer? talvez o cheiro da comida empurre vida num corpo morto que se bate contra as paredes. mas como, um corpo morto de rosto rosado e mãos quentes? talvez um creme na cara. hora de gritar na janela. fora, genocida! fora, eu não quero morrer de vírus! mas, no fundo, sei que estou condenada. foi antes, bem antes de algum prenúncio do apocalipse. foi na época das eleições. não, eu não leio nenhum livro sagrado. orações não me interessam. estou já condenada, eu sei, para o inferno com essa fé de barganha! tento me convencer que fé e esperança são defeitos distintos. em mim, talvez nem uma, nem outra sobreviveram aos naufrágios sucessivos. quem sobreviveria?

mas hoje você me chamou pelo nome como se chama algo
perigosamente próximo
do coração”.

Anna Clara de Vitto
Texto publicado no livro: Delírios Comunistas
Scenarium Livros Artesanais

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Delírios Comunistas · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

A teoria dos dois demônios

Eu nem estava por aqui quando o país enfrentou a grave ameaça comunista obrigando seus Militares — homens de bem, trajando fardas bem lustradas, com os peitos estufados, salários pontualmente pagos e armas toscas em punho — se viram obrigados a defender a Pátria… espanando a pobre Democracia, que convenhamos, por aqui, nunca foi lá uma de.mo.cra.cia.

Não sei se sabem, mas a tal da Proclamação da República — um ato não tão bem encenado do passado — foi um feito Militar ou como eles não gostam de afirmar: um Golpe contra o Império, que nesse caso não foi capaz de contra-atacar.

O fato é que naqueles tempos o exército brasileiro se considerava uma força política capaz de confrontar a aristocracia do Império tupiniquim e o fez. Mas não demonstrem surpresa ao saberem que uma mentira foi o estopim para tudo acontecer.

Essa mania que a história dos homens tem de se repetir… é tão monótona. Mas, acontece. Não há dados que nos posicione a respeito. De quanto em quanto tempo isso acontece. Nem a moça do tempo é capaz de aferir uma previsão a respeito. Duvido que algum cientista conceituado tenha se dado ao trabalho de investigar tal fenômeno.

Mas vamos lá… um fato que não se confirma, mas que eu desconfio é de que todo brasileiro é meio ditador. Adora apontar o dedo na direção do outro ou passar adiante a culpa. Responsabilizar o outro faz bem… principalmente à tal Elite brasileira — esse fenômeno quase impossível de identificar. Foco no quase! — por aqui, pobres pensam, classe média pensa… que é Elite! Se ganhar bem e realizar o tal sonho da casa própria, que pode — e acontece com frequência — virar um terrível pesadelo, pronto… é Elite e saí por aí com o nariz empinado no ar, com o rabinho a abanar. Porque o importante é sair sacudindo o molho de chaves e riscar o quadradinho do imóvel próprio na hora de fazer um cadastro em algum lugar. Se tem um carro — financiado em eternas prestações e juros absurdos — é o Senhor da rua e ouve na sua cabeça a marcha imperial. Convertido em Darth Vader, a criatura passa no sinal fechado, ao estacionar não deixa espaço para o outro. Não liga se a vaga é preferencial. Grita alucinado com o outro motorista e buzina com o pedestre que está sempre errado. O Cara é proprietário de uma máquina… abram caminho que ele está passando — cada vez menos, já que o preço do combustível, o desemprego, a inflação. Muita informação para um único dia em que pode terminar com ele instalando o aplicativo da Uber no celular para poder pagar as suas contas no final do mês.

E se o sujeito mora bem… ah é o Cara! Chega em casa com meia dúzia de cervas bem geladas, um pedaço de carne e vamos de churras na varanda, onde pode acender um cigarro e contribuir com o ar da cidade, cada vez mais seco e poluído. Tem aquele papo de aquecimento global — que chatice! É nessa hora que o cidadão — imita os milicos, estufando bem o peito — e do alto de sua santa estupidez, diz bem alto para os vizinhos

escutarem e fazerem coro com toda a raiva acumulada na vida: “isso é coisa de comunista”. E pronto… vai dormir satisfeito porque a sua bandeira jamais será vermelha e ele precisa acordar cedo pela manhã para manter as engrenagens do sistema funcionando.

Ano que vem tem eleição e ele já tem discurso pronto: nesse diabo que está aí eu não voto mais. E muito menos naquele outro, o barbudinho bandido de nove dedos que acabou com o meu Brasil.

Bom mesmo era no tempo dos Militares, que salvaram o país dos comunas — lembra que eu mencionei que o Império caiu graças a uma mentira? Pois é, a Democracia também.

Mas naquele tempo era bom… não se falava em corrupção, assalto, roubo. A gente saía às ruas numa boa. Ninguém ouvia falar em mulher que apanhava, criança estuprada. Não tinha esse mi mi mi de preto-gay e esse papo de gênero isso, gênero aquilo. Criança se educava no tapa e todo mundo crescia sem frescura. Existia limite. Filho tinha medo do pai. Mulher tinha medo do marido. Naquele tempo as coisas funcionavam… e tudo estava no seu devido lugar. Nunca existiu ditadura no meu país. Foi um momento militar e foi muito bom para todos nós. Um verdadeiro milagre brasileiro!

E lá vai o homem da zelite dormir seu sonho feliz de Brasil do passado… ops!

Tecla verde e confirma… quem sabe tudo volta! Mas sabe como é sonho, sempre pode virar pesadelo. Já pensou se o botão fica vermelho? Que diabos!

Lunna Guedes
Texto publicado no livro Delírios Comunistas
Scenarium Livros Artesanais