Natural

Mestre,

Como você gosta de fazer, hoje, fui eu quem buscou o significado do seu nome e além de você ter nascido no dia da poesia, para meu espanto, seu nome tem exatamente o que você é… O mais engraçado é que nos dias de hoje, geralmente, as mães buscam os significados dos nomes para seus filhos, mas, nos nossos casos, acho que não havia isso e sua mãe escolheu seu nome você vestiu toda simbologia do nome ou foi a simbologia do nome que se vestiu de você.

Não preciso falar sobre a amizade e companheirismo, porque quem te conhece já sabe disso e no seu dia, mais uma vez, venho aqui agradecer pela mão estendida, pelo olhar dedicado e ombro amigo. E o que mais me deixou impressionada é que seu nome significa: Natural e isso me lembrou da natureza, das serras nobrenses, da magia do cerrado e escolhi a foto que tirei na região de Nobres, em uma das idas por lá. Tão natural como você e seu abraço amigo.

Segue abaixo o que achei sobre seu nome:

Qual é a personalidade de Alírio?
Costuma ser criativa e agir com felicidade para lidar com situações difíceis. Alírio na maioria das vezes, é extremamente otimista e desligado de coisas banais.

Qual é a ambição?
Paz e tranquilidade são sempre bem-vindos para quem se chama Alírio. Está sempre procurando a harmonia interior.

Como é a expressão?
Não tem medo de enfrentar a vida e correr atrás dos desejos e anseios. Alírio se concentra para fazer sempre bem feito tudo aquilo que se propõe.

Pontos positivos de se chamar Alírio?
Líder, pioneiro, corajoso e independente, esses são os pontos positivos de quem se chama Alírio

Sobre os pontos negativos, me recuso a colocar porque não concordo com nenhum, afinal de contas, não devemos concordar com tudo que se vê na internet.

Abraço carinhoso,
Mariana Gouveia

Fonte: https://www.significadodonome.com/alirio/

– Ocupar o silêncio da casa

Bambina mia,

Eu nunca consegui ocupar o silêncio de uma casa… pelo menos, não me lembro. Desde pequena, com seis irmãos, a algazarra era imensa e mesmo eu sendo a mais quieta entre eles, o silêncio não existia e fui deixando o barulho gritar em mim.

Dos barulhos que eu mais gostava era o dos trovões e mesmo com todos os espelhos tapados com lençóis e o medo de minha mãe dos raios que sempre acompanhava a fala do céu quando acontecia uma tempestade, para mim, o trovão era a voz do céu… rompia o silêncio ou abafava os gritos dos irmãos em correria pela casa e eu ficava em pé, na porta ou janela, maravilhada com o eco a estrondar enquanto meus irmãos se escondiam. Buscavam abrigo no colo ou ao lado da mãe.

Com o passar do tempo e a distância entre os meus irmãos, eu rompo o silêncio que em alguns momentos me ronda com música, o canto dos pássaros e o vento.

Hoje, meu dia foi quase igual ao seu e enquanto sua missiva ganhava minha emoção, trovejava aqui… e como se fosse sintonia, o toc toc da mensagem ecoou com seu nome sendo gritado no quintal.

Esteve quente o dia inteiro e antes que o aroma que nós duas amamos – o petricor – exalasse por aqui, trazendo a docilidade de suas letras, trovejou… e ao gritar seu nome lembrei-me que descobri sobre o nome petricor dias desses – que é nada mais que o cheiro do pingo da chuva na terra seca. Fluído etéreo. Sangue dos deuses – é quase poesia… já, imaginou, bambina, a poesia no nome das coisas? O aroma que a chuva provoca ao tocar o solo… é como se perfumar para encontrar alguém e juro que me lembrei de sua rinite e sorri quando descobri que esse cheiro é quase como o cheiro do seu abraço…

E veio o vento, trovões e chuva e meu quintal vibrou com o petricor a aromatizar o jardim enquanto chorei… Essa semana, foi de partidas e de nascimento. Alguém se foi, porque era o tempo de ir e um menino nasceu sob meus olhos. E sob seus olhos, um ninho se fez colo… Fico me perguntando onde as coincidências nos alcançam sempre?

Enquanto os relâmpagos cortam o céu eu encontro a resposta: é no silêncio que se ocupa de nós. O da sua casa e o da minha… nesse piar que ocupam sua varanda e o meu quintal. O silêncio que grita em nós.

Amo tu imenso!

Bacio,
Mariana Gouveia
Ph: Imagem: Pinterest
#projeto52
Scenarium Livros Artesanais

Mãe,

Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.

Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: “Fulano de tal comunica
ao mundo que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio”.

E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimônia, viríamos todos assistir
a despedida. Apertos de mãos quentes.

Ternura de calafrio.
“Adeus! Adeus!”
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes

… (primeiro, os olhos… em seguida, os lábios… depois os cabelos…)
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo… tão leve… tão subtil… tão pólen…
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono

ainda tocada por um vento de lábios azuis…
José Gomes Ferreira

rasgando os dias no calendário já conto 39 anos que você se foi… seria estranho dizer que parece que foi ontem e que sua falta é esse abandono na alma. Queria que fosse igual ao poema e pudesse te alcançar em uma nuvem… mas, as nuvens são feitas para chuvas – você diria – ou para desenhos engraçados no céu.

Confesso que gostei mais da alusão das nuvens, do que da fumaça, que ronda meu lugar, o cerrado transformando em um cenário desolador. Não sei se você gostaria desse tempo…

Além dos aniversários, eu te escrevo sempre nessa data, como forma de te manter aqui, ainda na memória viva do tempo em que fui sua filha. Não temos muitas fotos suas e as que tínhamos se perderam em álbuns guardados em fundos de baús. Essa, acima, recebi a pouco tempo e lembro-me bem desse riso, dessa pose e de tudo que retrata a fotografia. Lembro-me até da cor do vestido, que foi feito por você quando saiu do luto pela partida do meu avô.

Hoje, falando com uma amiga, em outro contexto, falei sobre a canção que fala do sol quarando as roupas no varal e essa é uma memória que nunca vai se apagar de mim… os lençóis sendo quarados, o cheiro de roupa limpa, o anil sendo preparado para as roupas… nossa, mãe! Parece que é agora e já foi há tanto tempo.

Essa carta é só para dizer que ainda tenho tantas perguntas sem respostas, mas que também tenho recordações de tantos momentos que dizem muito mais do que posso escrever. As perguntas ficarão para outro momento, dentro de um tempo em que poderá responder.

Um abraço cheio de saudades,

Mariana Gouveia
25 de Setembro de 2021.

Minhas coleções.

Eu tenho uma caixinha. (Que boba! Antes, deixe-me explicar.)
Ela não é grande, nem pequena…

é bordada por amor, trancada por causa do medo, feita com o tempo…
O que há dentro? Pessoas; mas somente as que souberam trapacear minha proteção.
Lembranças; algumas nem tão felizes, porém bonitas, resistentes. Necessárias.
Juliana Lohmann

Bambina mia,

Eu também tenho uma caixa, que antes era um baú e foi perdido por descuido de alguém que não vale a pena falar – acho até que já falei sobre isso – e nessa caixa tenho as minhas coleções… Desde pequena que me tornei colecionadora. De papéis de cartas, de canetas e lápis e diários.

Com o tempo passando, e já dona de casa, passei a colecionar imãs de geladeira. Eu tinha vários, de tantas lugares diferentes enviados por amigos que sabiam que eu gostava. Minha geladeira, teve uma época parecia um desses quadros de brinquedinhos de criança. Depois, com a troca da geladeira, vieram parar na caixa, aguardando outro lugar para ficarem.

Sabe, bambina, posso enumerar várias coleções que tive e que depois de um tempo perderam o significado inicial ou algum outro motivo especial como minha pequena coleção de pedras… isso mesmo, pedras de formatos diferentes que eu encontrava nos caminhos onde andava. Tinha uma que parecia um disco voador, caveira, osso, coração, bombons e por aí vai… essa, doei para uma menina que precisava mais dela do que eu… Hoje, uma que ganha minha atenção são as desses bonequinhos – não estão todos aqui e ainda me falta o Charlie Brown – que amo.

Não poderia faltar também a coleção de xícaras e adoro! Elas tem um lugar reservado na estante e ali, fazem a cada dia meu café mais delicioso…

A de carrinhos antigos, começou por causa de meu filho e aqui ficaram quando ele se mudou. São 50 carrinhos, de vários modelos e ainda faltam aqui o fusca e uma Kombi, que ainda não consegui comprar.

Mas, além de algumas outras como das revistas manequim ponto cruz completa – haja armários para caberem – e outras de receitas de crochê, a minha favorita é a coleção de conchas. De vários tamanhos e cores e não cabem na mesa para a foto. Não me canso de admirar e sempre ganho alguma nova, enviadas por amigos.

E para além das fotos e por fim, atualmente, coleciono suculentas. Talvez seja a coleção que mais cuido. Sou aquela menina que colecionava cartas, envelopes e sonhos e hoje, as flores dominaram meu quintal.

Bacio,

Mariana Gouveia
Blogagem Coletiva Interative-se
Scenarium Livros Artesanais
Participam desse Projeto:
Isabelle BrumLunna GuedesObdúlio Ortega

*Não sei se irá chover ou não…

Se eu pudesse dar somente um conselho pra Savana de ontem, eu diria:
“Acolha seu passado,
se preocupe menos com o futuro
e renasça quantas vezes for preciso no presente.
Isso é muito poderoso!”
Savana Leão

Querida Savana,

O dia amanheceu mais fresco porque ontem choveu aqui… não aquela chuva que a gente gostaria que caísse, a tal chuva da manga e do caju mas senti o cheiro de terra molhada – um dos cheiros mais deliciosos que senti na vida – foi passageiro, e os pingos deixaram sua presença no quintal.

Sorri quando descobri que era seu dia e logo a caneta ganhou forma no papel e vim aqui te abraçar. Roubei a sua frase e iniciei a carta com ela. Lembrei-me de quando ouvi seu nome pela primeira vez. Havia um matéria em um blog, com um texto belíssimo e ali, me apaixonei por você… a menina que costurava roupas para bonecas e que ama a magia da costura.

Lembrei-me da mulher corajosa, que renasce a cada dia, mesmo com todas as perdas e adversidades. Lembrei-me da mulher que escolhe as cores, que traça moldes e cria mais do que uma peça que veste o corpo… cria roupas que abraçam a alma.

Durante anos, fiquei a te acompanhar de longe. Eu, a menina dos retalhos, patchwork, bordados e crochê, encantada com a menina da costura, tecidos e criatividade. Até o primeiro abraço, até o primeiro vestido, até o primeiro riso – tímido seu – e estava ali, em minha frente a mulher que desbrava as retas, tesouras e linhas. E eu descobri que você era a mesma que criava as saias de tule e possuía de fato, a alma de leão.

Sei que esse ano foi difícil, mas assim, como a frase sua lá em cima, você renasce na dor e se fortalece na família… e a poesia ronda tuas mãos no doce ato de costurar a vida. E que bom que minhas poesias conseguiram te ajudar, em algum momento.

Nesse seu dia, há previsão de chuva… não sei se irá chover ou não… a previsão, às vezes, falha… mas o que não pode falhar é a sua fé em dias melhores… é a sua coragem diante da dor… o que não pode falhar são os traços feitos dentro dos dias para que você seja feliz.

Dias felizes para você, além de aniversários e vida afora.

Beijo,

Mariana Gouveia
Agosto é o mês de Savana e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia Leonardi – Obdúlio Ortega Lunna Guedes Roseli Pedroso – Adriana Aneli – Darlene Regina
*Essa carta também faz parte do Projeto 52 Missivas – Scenarium Plural Livros Artesanais.

Para o caso de chover na tua rua…

Bambina mia,

Resolvi te responder, através dessa missiva, sobre limpar as gavetas em agosto. Acho que desde sempre, dentre todos os meus irmãos, eu sou a única que ainda segue alguns dos vários rituais de meu pai. E esse é um deles.

Para meu pai, agosto era o fim e o início de um ciclo. Era quando encerrava a colheita e preparava o solo para outro plantio. Ensacar a safra nova, retirar o que sobrou da colheita do ano anterior. Hora de limpar o paiol, trocar as sementes velhas pelas novas, fazer a queimada da área de roça de toco, mudar as coisas de lugar e isso, incluía a casa toda. Limpar as gavetas, os baús… trocar espelhos quebrados, coisas trincadas, roupas rasgadas… ceder espaço para coisas novas e boas entrarem.

A sua ligação com os santos sempre foi muito viva e se mantém até hoje e o último dia para toda essa “limpeza” era dia 24 de agosto, onde na folhinha marcava – e marca – o dia de São Bartolomeu. Nem sei se ele sabia da história e das lendas envoltas em torno do nome do santo, mas nesse dia, em todos os anos, era nossa data limite para tirar tudo que era velho, que não iríamos usar mais e começava um novo ciclo, porque nesse dia, independente do ano, chovia. Era a chuva da limpeza, da renovação e da temperança.

Até hoje, bambina, lembro-me do cheiro da terra molhada – depois de dias secos de outono – a exalar do chão. Parecia que a terra guardara o perfume para receber a chuva. A lavoura era preparada nesse dia, para no dia seguinte, abraçar novas sementes e outros rituais seguiam a ordem cronológica de quem plantava. Durante muito tempo, eu fiquei a imaginar como meu pai sabia dessas coisas, mas, depois, parei de querer saber e passei a entender e a continuar os rituais dele… e esse mês, repeti os mesmos gestos… limpei as gavetas e a alma ao longo dos dias de agosto. Não custa nada seguir o rito.

Hoje, na previsão do tempo, aqui na cidade, o rito é outro e não temos previsão de chuvas. Ao redor, a Chapada e o Pantanal queimam. Os resquícios dessas queimadas caem no meu quintal… o céu, está opaco, cinza, devido a fumaça das queimadas.

Não sei a previsão do tempo aí, na sua cidade, mas para o caso de chover na sua rua, molhe as mãos na água da chuva por mim.

Bacio,

Mariana Gouveia

Agosto é o mês dos rituais e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia Leonardi – Obdúlio OrtegaLunna GuedesRoseli Pedroso – Adriana Aneli – Darlene Regina

*Tudo vai ser diferente quando eu abrir os olhos…

Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar.
Sophia de Mello Breyner Andresen

Querida A.

Eu já te contei que nunca vi o mar? Mas, que ainda assim, eu sou marítima? Que eu percorro em meu quintal o oceano inteiro buscando coisas que não lembro que vivi, mas que continuam intactas aqui, dentro de mim?

Isso me faz lembrar de quando eu era criança e fechava os olhos passando as mãos – ainda pequenas – no rio que margeava a fazenda do meu pai e dizia para minha mãe que eu estava no mar.

De mar, eu só entendia as ondas que ouvia nas conchas que vieram parar ali, no meio dos livros, em um baú, onde eu guardava meus tesouros.

Por muitas vezes, simulei meu encontro com o mar… e de como eu sentiria a brisa marítima na pele. E a maresia? Como será o cheiro dessa tal maresia tão cantada em canções e poemas? A areia fina sob meus pés e eu cantava ali, de frente para ele todas as canções de Caymmi que fala de mar… Ensaio tal qual um jovem cria versos e poemas de amor…

Durante muito tempo repeti os versos de Sophia que abre essa carta e nem preciso dizer que amo meu cerrado e sou adoradora dele e sei que é impossível que as duas coisas acontecessem simultaneamente… mas, já desenhei ele e o bordei em linho, para uma encomenda de artesanato. Era como se as ondas fluíssem para dentro de mim e isso se tornasse um sonho…

Enquanto isso, fico aqui sonhando… e quando chegar o dia, sei que estarei de olhos fechados, sentindo a brisa, a maresia mesmo tendo ensaiado instantes desde criança tudo vai ser diferente quando eu abrir os olhos diante dele.

Beijo,
Mariana Gouveia
Agosto é o mês de enviar cartas e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia Leonardi – Obdúlio Ortega – Lunna Guedes – Roseli Pedroso – Adriana Aneli – Darlene Regina

*Este post também faz parte do Projeto Blogagem Coletiva da Scenarium Livros Artesanais

Pedras no caminho de ninguém

Querido Pedro,

Quis te escrever para falar da pedra que você me deu e lembro-me o dia e do que falamos na ocasião. Admirei a ônix – assim pensávamos que era – e detalhei para você o sentido da palavra e da misticidade que envolvia a pedra. Embora, acredite na simbologia da pedra/palavra e quando falava que uma de suas características é capaz de elevar nossa energia vital você me deu ela.

Dentro do abraço de amigo, a gente falou sobre os rituais e de que ela seria essa fonte de proteção do lugar, onde quer que estivéssemos… Acredito nisso… não importa onde estamos o elo fica no universo e volta em pensamentos bons.

Pois bem, a pedra, que por um acidente caiu de minha mão, lascou e como pode ver na foto que acompanha essa carta, mostrou que era apenas uma tinta que alguém passou e vendeu como se ônix fosse. Na hora, pensei em te ligar e falar sobre… não que fizesse diferença para mim ela ser uma simples pedra – pintada, claro – mas uma simples pedra… Ao invés de ligar, resolvi escrever. O moço da loja de artigos místicos te enganou e vem enganando tanta gente… Fiquei chocada, Pedro! Eu mesma comprei uma turmalina para presentear um sobrinho que ama as pedras, assim como eu e eis que numa tentativa de descobrir, joguei-a ao chão e não é que também era uma pedra comum?!

Mas, como não quero ser pedra no caminho de ninguém deixo que o destino cuide das pedras do caminho dele… e o que quero te falar é que apesar de não termos o mesmo contato de antes, e nossas conversas longas sobre, livros, pedras, espiritismo, tatuagens e donuts – que eu morro de vontade de comer – e combustíveis a energia vibrante que te ronda cabe aqui em mim em forma de oração.

Embora a cor da pedra real esteja longe de ser ônix, o significado dela permanece aqui. Riso farto, alma limpa, plantar e colher, ação e reação… essas coisas que acredito que o universo nos dá de acordo conforme o que pedimos.

Que você continue forte, inspirado e amigo… e as cores que te tocam na forma simbólica de alegria sejam as dos donuts mais deliciosos que comi.

Abraço carinhoso
Mariana Gouveia
Agosto é o mês das misticidades e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia Leonardi – Obdúlio Ortega  Lunna Guedes – Roseli Pedroso – Adriana Aneli –Darlene Regina

A alegria é um aroma de tangerina na ponta dos dedos.

Pai,

A foto foi tirada em outro tempo, onde a vida “normal” me permitia te ver. Fui contar no calendário e perdi a noção dos dias. Mas, a minha memória ainda traz a tradição das cartas, enquanto no vizinho as canções antigas me lembram que você gostava das modas antigas e o som da viola – que é o que toca aqui – e chego a pensar que a gente é feito dessas lembranças.

A gente comemorava o dia dos pais, mas a gente comemorava todos os outros dias… e dentro de minhas memórias a roça, a horta e o pomar eram os contextos nos nossos dias. O cheiro do arrozal quase pronto para a colheita, o cafezal em flor tal qual a canção de outrora, as hortaliças exalando o cheiro ao menor toque e as tangerinas no ponto de colher… Os irmãos, no riso, entre uma fruta descascada e outra, à espera de que você fizesse isso para a gente… ali, eu vivia a alegria refletida no aroma de tangerina entre seus dedos. O sabor a fruta era o nosso ponto de amor na partilha. O pomar, apenas o ponto de ensinamento de plantar e colher.

O tempo passa, a gente recorda, busca nas lembranças as coisas e no peito a nostalgia dos dias, pai… E já são tantas cartas que te escrevi e ainda assim, não me sinto repetitiva, com a rara exceção do meu amor, que é o mesmo sempre e terno. E assim, no seu dia, te abraço dentro das minhas palavras.

Feliz dia dos pais!
Te amo!

Mariana Gouveia
Agosto é o mês do dia dos pais e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia Leonardi  Obdúlio Ortega – Lunna Guedes – Roseli Pedroso – Adriana Aneli – Darlene Regina

Gosto de existir no mistérios das coisas…

Arterapia:
desenhe sua casa.
As minhas sempre foram ocos de árvore ou botas com chaminés Tudor
ou abóboras com escadas e varais ou cogumelos com hortas.

Luciane Lucieri

Luci,

Estive visitando seus lugares e me perdi entre os mistérios que te rodeiam e a maciez com que você toca minha alma. Vi que encontrou uma carta de amor e que não era destinada a você e resolvi te escrever… não é uma carta de amor ou até é… de um amor nas coisas que gostamos e que guardam mistérios que não sabemos desvendar, nem resolver.

O sol filtrou aqui também, logo além do bosque que já nem existe mais – estão derrubando todas as árvores de lá – onde conheço cada uma.

Dizem que vão construir no lugar mil e quinhentas moradias e sabe-se lá quantos jardins… Mas, já era um jardim que eu mesma fotografei mais de mil e quinhentas vezes os bichos, os brotos dos ipês que nasciam das sementes trazidas pelo sanhaço azul e por descuido ele deixava cair. Fotografei ali vários fins de tardes e algumas manhãs acabadas de acordar. Os cogumelos que nasciam por ali pareciam doces de vó ou o sorvete de flocos da sorveteria da infância. Dava até vontade de comer. A pata de vaca muitas vezes me cedia folhas para o chá contra infecções e as libelinhas azuis cabiam num canto qualquer de tão pequenas que eram.

Agora, aquilo tudo vai se transformar em moradia e hoje, quando fui buscar as cestas para as doações vi tudo limpo. Deu um vazio no peito… Corri para seu lugar e fui beber poesia nos estuques do muro. Ainda bem que tenho as sementes de quase tudo que tinha lá… a maioria brotou como que por encanto e fui estrada afora cavando covinhas e deixando elas em uma nova morada. Achei que devia te escrever sobre isso, Luci e sei que o que sinto é que o mesmo que sentiu quando seu coração se tornou em um cemitério de borboletas tocando Mozart… O meu, hoje se transformou em um de cogumelos, florestas e seres cheios de mistérios que existiam por lá… e não tocava canção nenhuma.

Hoje, tive que criar um lugar para eles no meu quintal, Luci… por que em alguns momentos gosto de existir no mistério das coisas em que ninguém mais acredita.

Abraço carinhoso

Mariana Gouveia
Agosto é o mês dos bosques derrubados e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia Leonardi – Obdúlio Ortega – Lunna Guedes – Roseli Pedroso – Adriana Aneli – Darlene Regina