Das palavras das cartas · dos diários · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

Carta grifada

Querido diário,

Escrever é parte de um ritual de todo dia. Às vezes, o papel e caneta ficam obsoletos no canto da mesa e a opção é o teclado.
Diante do desafio de escrever sobre as palavras mais comuns do meu vocabulário me sento e repito o mesmo ritual. Aí está uma palavra que uso muito – você sabe bem – ritual.

Levanto-me cedo e vou seguir o ritual do café. Ligo a cafeteira – somente nos fins de semana que mudo para o ritual do coador de pano, mas isso, é outra história. Enquanto a luzinha pisca, seleciona o ristretto de sempre.

Depois do café feito, enquanto os olhos passeiam pelas notícias do dia, é hora de viver o ritual do quintal – outra palavra tão comum em mim – com a xícara na mão… quem sabe, mais um café? – você conhece bem essa palavra por aqui. Basta vasculhar as folhas escritas e deve ter em média umas quinhentas mil vezes escritas, ouvidas e faladas – café. A própria palavra quase me define.

Sabe, diário, o quintal me pertence e eu a ele. Molho as plantas, retiro as folhas secas… Adoro varrê-las… a sinfonia que elas fazem é música para meus ouvidos. E vem a palavra música que repito tanto aqui… vamos ouvir uma música? Vamos dançar essa música e assim, a musicalidade alcança meu dia.

Meu bebezinho… e já adianto que falo isso para o Chiquinho – meu beija-flor – que me acompanha em voos quando grito por seu nome. Chamo assim Yoshi também e essa é outra palavra que se tornou comum por aqui: onde anda Yoshi, Lolla? Cadê meu bebezinho? Isso acontece todos os dias e em grande parte da manhã…

Quem chegou? – essas palavras causam grande euforia nos cães, e repito várias vezes, que já é comum.

Falo vento, pensamento e até calor… de futebol… de fisioterapia e você sabe do que estou falando… Os movimentos limitam-me na escrita com você.

Ah, são tantas as palavras que falamos que a experiência se torna estranha. Anotar a mais usada é quase clichê… sabe qual é a palavra que mais eu repito por aqui? E serve para quase tudo que busco e penso: cadê? Cadê pai, cadê Yoshi, cadê Lolla, cadê a lua? cadê meu telefone, cadê minha linha, cadê minha agulha?!!! Isso não quer dizer que eu não seja organizada e não saiba onde guardo ou deixo as coisas… Na maioria das vezes, as coisas estão nas minhas mãos ou ao alcance…Cadê meu diário?

É assim, diário, que finalizo com um beijo e vou ali no quintal ver se tem nuvens com formato de amor.

Beijos,
Mariana Gouveia
Projeto Blogvember – Scenarium Livros Artesanais
Participam juntos comigo: Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins

Das palavras das cartas · Mariana Gouveia

Existe política além do voto.

Querida Maria,

Como vai? A leveza de sua liberdade te leva livre, com o riso no rosto pelos caminhos que percorre? Espero que sim… eu quero saber de você e também preciso entender como ignora a tarja exposta sobre meu país…

Se bem que hoje… eu prefiro não perguntar sobre o tempo… que é esse menino fujão a nos roubar a razão. O tempo é esse voo rasante na soleira dos dias, onde o horóscopo assombra o decanato dentro do ascendente que atravessou o dia em que meu país errou feio, perante o mundo — e eu, que simpatizava com astrologia —, me desencantei.

Eu vi no cartum do jornal do dia, bem no meio da página, a sua pergunta — “você votou em quem?” — e colhi o seu espanto diante de minha resposta, que foi cercada de outras perguntas.

Logo você, que possuía todas as probabilidades de ser afetada pelos gestos de um futuro governo inconsequente. Falei sobre o que acredito. Da liberdade que grita em minha pele e que vejo nos olhos de amigos, que sofrem todos os dias na rua. Maldita indiferença, intolerância, desrespeito que marca muros e calçadas das cidades desse país, tão cheio de fronteiras e divisas.

Se eu te contar que minha posição é ideológica, será uma mentira. A ideologia estampou minhas camisetas em uma adolescência que não vivi e cantava no meu jeans rasgado e no Karaokê: “ideologia, eu quero uma pra viver”. E você queria me ver ideológica aos 40?… depois aos 50? Impossível… tudo se quebrou diante dos mitos falsos… eu sei o nome de todos que surgirão ao longo dos anos desde o nascimento.

Não, Maria! A ideologia é apenas mais um cartaz exposto nas estações e nos muros pichados. Deixou de ser a frase de camisetas de pessoas rebeldes — como eu fui nesse antigamente, que ninguém se lembra.

Não pude fazer grande coisa, o medo tornou-se real e a afronta diária.

Hoje, no entanto, o meu medo tornou-se aliado do existir e com isso (r)eeinvento uma cidadã, que achei e não pensei existir ainda. Sou a própria resistência e indecência… a própria (r)existência dentro de um Sistema… e é como estar a bordo de um trem, que me renova a cada parada ou obstáculo. Não luto por mim e nem vou às reuniões no meio da noite pela minha paz. É pelos que amo que saio de casa. É por estranhos que insisto.

A tua visão de cidadã do mundo podia ser pragmática diante do que a imprensa de meu país espalha e justo eu que adoro as notícias, me vejo boicotando-as. Pior, duvido de tudo que leio e me espanto no que ouço-vejo nas pessoas, essa fé cega, essa esperança de futuro.

Portanto, Maria, a mudança está acontecendo aqui, ao meu lado… logo mais adiante, em um bairro distante… noutra rua-casa. No meu país e talvez eu não seja afetada pelas manobras do governo atual. Talvez muitos não sejam. Mas sei que alguma pessoa, em algum lugar, será… e por isso cumpro meu estado de (r) Existir. Preciso ser forte e seguir adiante, com a minha luta diária, que é a mesma luta de muitos.
#ninguémsoltaamãodeninguém #elenão #Lulalá!

Beijo,
Mariana Gouveia

De todas as estações · infinitamente · Mariana Gouveia · Via Solar

*Feliz primavera!

Andamos lado a lado enquanto eu ia em direção ao ponto de ônibus. Percebi como ele cresceu, e senti que ele queria falar e começou a dizer:
– Eu não entendo algumas coisas.
– Para te falar a verdade eu não entendo muita coisa também. – Tentei buscar uma explicação mais plausível para que a conversa fluísse normalmente – eu, por exemplo não entendia por que meu filho adorava ouvir Link Park. Hoje, eu entendo.
– Entende Link Park?
– Entendo a poesia através dos instantes que meu filho ouvia Link Park.
 – Não entendo poesia.
– Não é para entender. É para absorver.

Silêncio…

– Como se absorve poesias?
– Sei lá. Fecha os olhos, respira…inspira. Solta o ar e você acabou de comer poemas.
– Humm. Acho que sei como é.

Silêncio…

 – Esse silêncio é poesia?
– Pode ser. Depende da maneira que você vê.
– Então tudo que vejo pode ser poesia?
– Sim e não.
– Pode ser mais específica?
– Esse momento pra você é o que?
– Puxa, eu pergunto e tu me tascas pergunta pior? Quando converso com você minha alma fica leve. Vou embora mais sábio.

– Poesia. – Digo isso emocionada, mas não o deixo perceber – Isso é poesia. Só depende da maneira que você vê. Quando a menina da sua escola, passa por você e parece que o vento vai atrás dela e seu coração dispara quase ao ponto de sair da boca e você mal consegue disfarçar, isso é poesia.
– Isso é bruxaria. Te contei isso faz dois anos e tu lembra?
– Me lembro de muitas coisas que falamos e isso também é poesia.

– Sabe que dia é hoje?
– Sei e isso para mim também é poesia. O dia em que você nasceu e quando você nasceu nos meus braços e eu te mostrei pra sua mãe… eu disse a ela que você nasceu abençoado.
– Hum…
– É verdade! Você nasceu no dia em que se inicia a primavera… A estação mais linda… e por onde passar levará e espalhará sementes de bondades. E eu, fui a jardineira que ajudou você a nascer.
– Gosto quando você fala dela. As lembranças que mantenho vivas em mim são das coisas que me fala.
– Também trago muitas lembranças dela em mim. E a sinto mais viva nessa época. Você só precisa lembrar dela com carinho e viver teu caminho, cuidar do teu jardim… e isso é poesia.

Silêncio…emoção…

Entrego uma coletânea de Fernando Pessoa em um papel de presente. As palavras vagueiam entre nós com cumplicidade.

– Uma vez, eu ainda era menina. Nós fomos à beira de rio pescar e lá na beira do rio, eu comecei a construir uma casinha de areia porque nessa época eu nem sabia de castelos; construí aquela casinha com tanto primor e meus irmãos me diziam que eu era boba ao construir aquela casinha tão linda, ali de areia, se íamos embora no fim do dia e eu não poderia levar a casa comigo. Na hora, eu quase parei de fazer e ia desmanchar tudo, mas, eu retruquei e disse:

– Não vou poder levar ela comigo, mas vou poder dizer que fiz a casa de areia mais linda que pude e vou levar comigo o sentimento de ter feito e vivido esse momento.

– Seu ônibus tá vindo… mas antes, deixa eu te dizer que enquanto eu fizer anos e mesmo que tu fique velhinha eu vou me lembrar desse momento em que você me ensinou a viver poesia.

– Feliz primavera, menino! Viva tua estação lindamente. O mundo é teu jardim!
 

Entrei no ônibus e ainda pude avistá-lo com o sol colorindo o dia dele. Segui em direção ao dia com a sensação de ter ganhado o mundo…

Mariana Gouveia/Lucas Steffano

* Lucas nasceu em minhas mãos em 2004, em uma manhã de primavera. Sua mãe, Leonora foi uma presença linda em minha vida e se foi em 2012. Desde então, em todo início de primavera, eu e Lucas plantamos sementes em abraços e afeto.

infinitamente · Mariana Gouveia

Exorcizada

em sua melhor fase queriam exorcizá-la
colaram nuvens ao seu redor
criaram eclipses,
efeitos solares

em sua melhor noite
inverteram o céu – tão lunar ela era

apontaram-na como bruxa – um caso perdido
que só um ritual complexo poderia curá-la

quando cheia, ela cansou de tudo isso
lambeu os dedos 
e os queimou na fogueira que ardia dentro dela.

Mariana Gouveia
Das coisas breves
Ph: Tumblr

Livros · Scenarium Livros Artesanais

Uma casa cheia

As lembranças me levam para minha infância.
A algazarra dos meus irmãos em suas brincadeiras de meninos. Uma irmã, na janela – seu lugar favorito – e a outra me desafiando a recitar poesia pegando as palavras que ela dizia.

Naquele tempo a casa era cheia.  Os sete filhos de seu Laurindo e Dona Ercina mal cabiam no banco comprido que contornava a mesa.

Cada um tinha seu lugar preferido naquela casa, mas acabávamos sempre disputando o lugar mais perto da mãe. O caldeirão da sopa no centro da mesa e os pães ao lado.
Até hoje, o cheiro daqueles momentos se faz presente.

A mais velha casou-se primeiro. Foi a primeira vez que minha mãe sentiu a sensação do ninho vazio. Um lugar no banco ficou vago. Mas, em cada refeição era como se ela estivesse ali. Com o prato estendido, sendo servida primeiro por ser a mais velha. Nos primeiros dias a poesia se calou em mim. Quando a outra se casou o vazio ampliou-se nos quartos. O meu irmão foi trabalhar fora e a gente ficou parecendo um colar que perdeu as contas. Os suspiros eram ouvidos diariamente entre as falas de minha mãe.

Minhas irmãs vinham em datas especiais. Natal, Páscoa e aniversários da mãe e do pai – mas já não era a mesma coisa.
 
Tudo ficou ainda mais estranho quando minha mãe foi morar com minha irmã mais velha para tratar de um problema de saúde.

O vácuo ficou ainda maior… a casa cheia e barulhenta ficou silenciosa. Nem o rádio de pilha no programa favorito mudava a sensação de orfandade que sentir. Eu, meu pai e os meus três irmãos mais novos nos fortalecíamos nas lembranças e nas brincadeiras em que sempre faltava um.

O tempo tratou de levar a gente para longe um do outro. E com a morte de minha mãe ficou muito difícil reunir todos.

Mesmo nas datas especiais a rotina de cada um interferia no encontro. Mas, os nossos corações estão ligados e quando acontece algum encontro – mesmo que falte um ou dois -, a memória de tudo que vivemos é refletida nas histórias que replicamos… e o riso ecoa de novo.

Os cheiros, a comida, a sensação da casa cheia regressam e atingem em cheio o coração e a alma.

Ao me sentar aqui para escrever… rememoro tudo. A sensação de aconchego eco na pele e eu me sinto cheia, o corpo convertido naquela casa. As histórias percorrem cada canto do meu corpo-memória e eu ouço a voz do pai e vejo os ingredientes da receita favorita do domingo da mãe sendo misturados. Tudo isso me faz uma casa habitada de saudades.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês de casa cheia e de Beda
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura – 
Suzana Martins – Roseli Pedroso
Texto publicado no Projeto Coletivo Casa Cheia
Scenarium Livros Artesanais

Das rotinas · De todas as estações

Tem dia…

que é um pássaro estranho que aparece no quintal – sem jeito de voar – e a liberdade é esse sentido esquisito de pouso fora do ninho e o ramo a oferecer amparo… o vento a abraçar o corpo desatento… e o dia a ser esse monte de pena dentro da alma.

Tem dia que é tão vago que não vale a pena desencantar.

Tem dia que a tarde parece noite no vazio das horas e que o quintal é um deserto apenas com um pássaro estranho.

A árvore cheia de frutas verdes que amadureceu a força e a travessa da cozinha vazia, espreitando o retrato na parede e a ave sendo esse objeto fora das coisas que eram para ser ditas e há apenas o canto do pássaro que vagueia por ali.

Tem dia que a madrugada é turva e os olhos não entendem os sinais de palavras sem liberdade não podem voar.

Mariana Gouveia
dos dias aleatórios
©️Alif Sanem Karakoç 

Das rotinas · De todas as estações

Mudou a rotina dos dias… 

abraçou a menina que pedia colo na madrugada. Alguém perdeu a alegria logo ali, entre a esquina de baixo e a caixa d’água.

A estrela gigante se ampliou no riso dela e o afago apenas foi automático.

Cantou as canções que lembrava da infância. Simulou esperança nas folhas e captou a ternura no olho de amor. As coisas miúdas criam fases de encantamentos.

Buscou histórias infinitas vividas nos dias. Desenhou nas mãos a minuta do sonho.

Às vezes, a vida tem coisas estranhas que escapam do normal

Todo dia é um instante de loucura dentro da lucidez.

Mariana Gouveia
dos dias diferentes dos outros dias
*Imagem: Gennady Tarakanov