Das rotinas · Mariana Gouveia

*a fabricar tempestades particulares 

Ph: Ziqian Liu

Choveu em uma tarde banhada de sol enquanto eu lia meu diário. Rabisquei algumas palavras mudando o sentido das coisas. Depois reguei as flores que não receberam as gotas da chuva.

Depois de dois convites para sair – que recusei apenas com resmungos – fui andar descalça no quintal enquanto Ed Sheeran tocava no repeat. Às vezes, minha solidão precisa da companhia de canções. Desfiz o naperon de crochê – errei na cor da linha – e recomecei do zero. Já reparou que, às vezes, o zero, é um começo?

Marte em sua melhor presença segue a lua em seu quarto crescente ou seria ao contrário? Fico pensando se é ela que ronda as estrelas em busca de companhia. Aprendi o nome de uma planta que nasceu no quintal sem que eu tivesse as sementes. As sombras invadem as janelas abertas enquanto minha mão fabrica chuvas nos vasos que ficam dentro da varanda.

Guardo as fotografias em preto e branco dentro do diário em uma data preferida. No coração, trovoa. Enquanto penso em coisas que eu gostaria que acontecesse começa a tempestade no interno de mim. Alerta vermelho de explosões vulcânicas na alma.

Mariana Gouveia
*frase do poema de Egito Gonçalves

Das rotinas · infinitamente · Mariana Gouveia

Das infinitudes

O dia parece aquelas fotos antigas penduradas na parede. A família toda reunida em volta da mesa, e o retrato ali, lembrando os ausentes. Contando histórias de antes. O vento a dançar com as cortinas e os risos fáceis das crianças na rua.

Ainda era ontem e a felicidade estampada nos jornais. As palavras cruzadas rabiscadas nas folhas e o disco de vinil cantando a canção. Era assim antigamente…

– Não era aquela canção que a mãe gostava?

O sapato de verniz voltou à moda de novo e outra vez o rosa millenium é a cor da estação.

Releu para todos o horóscopo do jornal.

A moça do tempo refez as previsões da semana. O cheiro de pão da padaria faz lembrar quantos blocos a calçada tem até lá. A árvore favorita da rua de cima floresceu de novo. Alguém disse que havia magia naquela árvore desde tempos atrás. O café feito da maneira antiga e de novo as lembranças de outro tempo no álbum de retratos. O riso, ali, na face da criança que nem parecia ela…

A garrafa de leite que era da mãe, a panela de barro, a música e a saudade a ecoar palavras de sorte. Colocou o vestido que usava só para os dias de festa. A vida, às vezes, parece detalhe de livro.

Mariana Gouveia

Das rotinas · infinitamente · Mariana Gouveia

Antes do temporal,

na rua de cima – era ainda a manhã e o sol de todo dia – os ipês festejaram o vento e espalharam suas rosas e as paletas de cores a desenhar o céu.

As crianças brincavam na rua com seus gritos e falas apressadas. Um gato subiu no telhado e a ave de todo dia dormiu no varal que dançava com as roupas e seus prendedores…

Li Clarice em um instante do dia, uma frase qualquer, dessas que todo mundo repete por ser o dia do poeta – como se poeta precisasse de dia para ser – e tomei chá gelado.

Da varanda eu via as nuvens e sua pressa em correr o céu e as flores que ainda eram da árvore desprendeu – se todas e fizeram um tapete no chão.

E de repente, como se os ninhos fossem sobreviver à tempestade das coisas, veio a fúria do dia dentro do vento…

Alguém contou o que se passou sobre as águas… havia o menino tentando afogar os brinquedos na poça que se formou no quintal.

As mulheres recolhendo a roupa do varal e os muros sendo derrubados onde a parede morreu.

Como se a terra fosse feita de papel e as fronteiras com o medo fossem feitas de nada nenhum esculpimos as palavras em orações e alguém desejou a sorte do dia.

E onde o vento bateu fiquei sem saber o nome das árvores…

Foi quando o abraço conheceu o sentido do afeto.

Mariana Gouveia
das infinitudes

Das rotinas · Divã · Mariana Gouveia

Revirou a terra e inventou sementes.

Cavoucou na parede o estuque. Descobriu o azul morto três tinturas depois – ou seria o verde desmaiado do ano anterior? – e se perdeu dentro da cor, nas lembranças.

Salvou a formiga do afogamento em um balde e a viu segura duas folhas do gervão depois da cerca.

O vento mudou-se daqui – pensou – pois já não sente mais a presença dele. Depois do vazio das árvores não ouve mais a canção das folhas. Tudo é esse desgaste de tempo.

Replantou o jardim de novo. Revirou a terra e inventou sementes.

Daqui alguns meses a estação terá mudado, mas reviverá a primavera no amanhecer.

Mariana Gouveia
Das infinitudes

Das rotinas · infinitamente · Mariana Gouveia

Dessa vez, para sempre.

Esses vãos escondidos no branco dos olhos
criou de tanto olhar, saudade.
E a chuva não aguou os instantes
que seriam para a eternidade.

Ah, esses vãos subtraídos
dos instantes todos
recolhem vestígios de gozo
nos dedos
sabor agridoce na alma
e cheira a lua que todo mundo espia
e que reflete a vontade
e o silêncio que dura uma eternidade.

Ah, esses desavisos de agonia no peito.
É noite, onde pisei descalça
em homenagem ao sonho que fica e dura.
Essa ansiedade toda de que a lua faça
você abrir a janela, pensar em mim e voltar.
Dessa vez, para sempre.

Mariana Gouveia
Ph Philippe Deutsche

Das rotinas · Mariana Gouveia

Era o filme 3d…

Não fosse eu, nessa tarde insolente
e a essência das folhas a povoar o quintal.

Não fosse eu, seria o pássaro a descobrir a madrugada
no seu canto sobre a parabólica ainda envolta no breu.

Era o filme a desvendar nas mãos a analógica do dia.
O céu a despontar centímetros no avançar dos segundos,
a povoar de cores as nuvens no rompante do amanhecer.

A vida a acontecer minúscula no rumo das coisas.
Não fosse eu, era você.

Mariana Gouveia

Das rotinas · De todas as estações · Mariana Gouveia

Devia ver as roupas secando no varal…

O vento convidando para o lençol dançar e a ave, com seu jeito de asa sendo instante no momento. Era primavera dentro dos dias no quintal.

Na estante, os bibelôs trazem lembranças de um tempo que já não é – a vida desavisa os calendários – e a lua, incerta do caminho do sol muda o decanato em meu mapa astral desenhado a dedo no vidro da janela embaçada.

Ainda era ontem, menina eu e os lençóis de linho branco, bordados com monogramas em ponto cruz e a mãe, ali, ao pé do rio, a água a correr e o riso dos irmãos a brincarem de viver.

Devia ver as roupas secando no varal e quem sabe as suas histórias se parecessem com as minhas e a carta de um parente distante, com fotografias desbotadas de quando ainda era a menina de trança.

O olho perdido no espaço e a irmã a relembrar que ela já fora personagem de um filme e que abraçava o cão da infância com nome de Capuchinho – de tão peludo que era – e que toda cidade lotou o único espaço da cidade para ver ela.

A filha do pai que carregava o cão no colo e tinha olho de voo.

Devia ver as roupas no varal… ali, estendeu as lembranças de uma vida toda e até as cartas de amor.

Mariana Gouveia
Entre uma estação e a primavera

Das rotinas · Divã · Mariana Gouveia

Horóscopo do dia

Me pediram o horóscopo do dia. A pessoa que fazia isso morreu – ou viajou, ou mudou – sei lá!
Há uma contradição dos astros hoje. O astral me povoa. Cria multidão em mim. Estrelas cintilam nos olhos dela.
O vento empurrou Júpiter para perto de Vênus. Marte partiu.
Seu signo combina com o meu. O Decanato mora na esquina da rua detrás. Chamam-no pelo apelido. Nunca atende pelo nome dele.
Hoje será seu dia de sorte. Amanhã também. Isso se não enlouquecer pensando nos sentidos que as várias fases da Lua tem.
O tempo muda hoje. Continue nas rotinas do dia.
Vai conhecer o amor da sua vida – isso, se já não conheceu.
Momento dos mais benéficos para viver ou morrer.
De amor.

Mariana Gouveia 

Das rotinas · Mariana Gouveia

Conheci uma menina que andava descalça,

e possuía sapatos dourados.

Em uma das mãos o rio desaguava.
Levava a correnteza no sentido dos dedos,
e fazia o vento desmaiar nas margens
onde olho nenhum conseguia alcançar.

Na outra, possuía o dom do deserto
– Onde oásis era miragem mesmo –
e a flor que brotava desenhava
espinhos nos cabelos dela.

Cabia dentro do riso do dia
e nas noites de insônia colecionava a saudade
subversiva de amar.
Cantava canções de mar…

Declarava poesia de rio
e repentinamente desavisava o redemoinho de vento.
Criava casulos para se renovar.
Era mão para pouso,
ao mesmo tempo que amava a liberdade de voar…
Sabia da necessidade de sentir,
mas mudava a metamorfose de viver.


Mariana Gouveia
Das coisas breves
Ph: Howard Schatz

Das palavras das cartas · Das rotinas · Divã · Mariana Gouveia

Das cartas que nunca enviei.

Escrevi para ela enquanto as roupas quaravam no jirau feito de angico. Fazia parte de um ritual antigo que minha mãe adorava repetir. Os lençóis de linho a branquear ao sol.

O cheiro do sabão de dicuada, ali, a clarear as roupas e o sol e o vento…

Era isso… enquanto eu escrevia o vento trazia na memória o balanço das folhas, da rede, do cabelo que caía na boca e a voz da minha mãe a ecoar lições.

Contei sobre o tempo de ontem e que havia um bando de pássaros a desenhar poemas no céu.

Amanhã chove – a moça do tempo confirmou com mapas e cores densas – a apontar o dedo para a parte que no mapa, é meu estado.

Brotou flores novas no quintal. Rosa, rosinhas, cravos e as trapoeirabas azuis.

Quando os pássaros cantam eu corro para o quintal a espiar o céu. Eles revoam no sentido contrário e lembro de coisas que te falei. Devo dizer que ganhei o sentido de asa. Os cães quase voam de um sofá para o outro. O pássaro de todo dia aparece e eu escolho palavras ao acaso para desenhar minhas emoções.

Apago, escrevo e torno a apagar. Algumas palavras ganham formas diferentes e sentido igual. Risco e coloco o ponto final
Os pássaros voltam novamente e mais uma vez recomeço a escrever.
Coloco a data, a cidade e por fim, termino uma carta que nunca vou enviar.

Mariana Gouveia
©️ Anne Kramer
Das palavras das cartas