b.e.d.a – Parabéns, Cuiabá!

Minha Cuiabá,

Seu nome ronda minha vida desde antes de vir morar aqui. Desde pequena, quando minha mãe falava de você, a imaginação me fazia passear por seus lugares. Me fascinava quando ela falava de suas árvores e de você ser conhecida como cidade verde.

Ainda lembro-me da primeira vez que andei pelas suas ruas. Eu era menina ainda e a sua avenida principal ladeada de palmeiras me encantou. Foi amor à primeira vista, e eu nem sabia que viria morar aqui.

Quando cheguei para morar foi encantador e desde então me apaixono sempre por você. Seu céu, o mais lindo que há! O sol, com toda fama de abrasador me traz amanheceres deslumbrantes e entardeceres magníficos.

A lua, tem a delicadeza de caminhar sobre seu céu de uma maneira que não se vê em nenhum outro lugar. E o seu povo, o mais acolhedor.

Hoje, você completa 302 anos. Tantas histórias, tantas transformações e ainda assim sempre minha cidade. Sempre meu lugar. Em todas as ruas, em todos os becos você tem a história detalhadas nas igrejas, nos casarios, na sua gente. As suas ruas me conhecem e seu rio me acolhe nos momentos de dor. Sou grata pela acolhida e por já fazer parte de você e de sua história!

Parabéns, Cuiabá!

Mariana Gouveia
Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Obdulio Ortega – Roseli Pedroso

A solidão é uma faca…

atravessando a garganta, o grito sufocado na dor. As paredes fechando em todas as portas e o vento trazendo as folhas para o quintal.
Tem noite em que o vazio atravessa a madrugada e o perfume das flores no jardim é apenas o aviso da passagem da lua pela décima casa astral.

A meteorologia erra a previsão enquanto o uivo do cão na rua de cima faz lembrar das coisas da infância — quando o mundo cabia até onde a vista alcançava.

Uma data me traz a presença de um menino que voou…

A vida é esse nocaute duro no peito a embrenhar lembranças do santo, vontades de céu em noite de lua…

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar os quintais
Scenarium Livros Artesanais

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É só chamar (11)99241-5985

Carta à minha irmã

Para te escrever eu cumpro um ritual de todo ano, nesse dia. Eu ajeito as lembranças uma a uma e vou celebrando você na minha vida.
Poderia dizer que é a minha inspiração desde sempre. Lembro-me de que guardava seus cadernos de poesia e desejava muito ter sido eu quem tivesse escrito. Rastreio na memória você ainda menina – com seu uniforme de normalista – a surgir na estradinha da fazenda nas sextas- feiras e a curiosidade não me permitia dormir para ouvir suas histórias da escola.
Depois, viajo mais adiante quando você se casou e foi viver sua vida. As minhas férias, a partir daí foram com você e seu jipe verde, a vasculhar seus batons com gosto de uva, a experimentar suas roupas e calçados. O melhor presente foi os meninos… Com eles, aprendi o amor incondicional de tia e a acolher seu olhar de mãe.
A vida foi dura com você… mas ao mesmo tempo foi generosa quando te deu as meninas. Te vi corajosa diante da perda. Gigante diante da dor… e frágil diante das netas.
Te vejo menina diante da vida, magnânima cuidando do pai e tão generosa com aqueles que te cercam. Para mim, você será sempre a minha Mia… aquela menina de uniforme, com meia 3/4 e sapatos de verniz. Uma guerreira que chora mas que todo dia levanta movida pela fé.
Uma artista sem igual, com a magia nas mãos a criar arte em forma de carinho.
A vida nos levou para longe uma da outra, mas estou mais perto do que imagina. Dentro dos dias na poesia que você retrata quando cria, no jeito corajoso ou medroso – de enfrentar a vida. Na última vez que nos vimos você me levou pelas ruas do seu lugar para conhecer os ipês que douravam a cidade. Essa foto é uma das muitas que encantei de ver sob seu olhar.
Ser sua irmã me torna melhor.
Hoje, te desejo amor além da medida e toda felicidade que alguém pode ter.
Agradeço a maneira como cuida do nosso pai. Te amo muito mais por isso.
Que tudo de bom te aconteça sempre!

Beijo

Te amo

Mariana Gouveia

b.e.d.a — blog every day august —
Adriana Aneli — Claudia Leonardi — Darlene Regina
Lunna Guedes — Obdulio Nuñes Ortega — Viviane Almeida

Dos sonhos de voos…

Dos amores impossíveis.

Filho, lembra-se quando eu brincava com você de voar? Meus braços te erguiam e te levava ao céu – como você dizia – e lembrava-me da frase de algum poema que dizia: “O céu, é o limite…”
E quando me perguntava sobre o limite, eu repetia o que meu pai me dizia quando eu ainda era menina: Limite é quando chega a mudança da estação. Uma não pode roubar os dias da outra. É esse limite que a gente mastiga todo dia. Um dia querendo roubar as horas do outro dia. O verbo rasgando dentro de outra palavra. A dureza da vida roubando de nós a alegria em algum momento. A liberdade, sendo colhida dentro de alguma regra. Algum “não pode”.
Eu sempre disse que podia. Para mim, a liberdade tem a ver com o céu – ou com o mar que nunca vi – e aquele azul imenso e que presenciei no meu primeiro voo de avião. Você era o menino do meu quintal. Aquele que sempre adorou a velocidade, os voos e a rebeldia do signo. Você sempre foi o sol do meu quintal. Aquele quintal onde desenhamos uma pista de fórmula um para você voar. E você voou. Seguiu seus voos e tem toda autonomia deles. Hoje, não é um dia comum. São 203 dias dos 365 dias do ano e é especial porque você nasceu nele. E eu te ofereço essa Lua minguante entrando em seu céu particular e que desenha sombras no teu quintal, que já não é mais só meu e que é quase uma floresta em teu exagero de reclamar. O céu é estrelado aqui e te ofereço esse céu como forma de abraço e quero dizer que depois de você eu fiquei completa e finquei raiz como as plantas que teimam em alastrar por aqui. O sonho revolve o mundo e dentro de cada sonho seu cabe minha oração de certeza. E como tudo que voa precisa de pouso, eu quero ser o lugar onde você pousa. Para a segurança na hora certa e para segurar a mão quando for difícil. Eu te ofereço voos. Os inteiros. Os quebrados. Os que ainda nem foram detalhados em toda essência de amar. Porque te amo de um modo único e real. Daquele que nenhuma poesia pode explicar. Que todos os momentos seus sejam de aprendizados, conquistas e um céu de brigadeiro para voar.
Feliz Tudo!

Mariana Gouveia
No bico do beija-flor beija a flor

dos desvios para atravessar os quintais.

Uso a lunação de câncer para traçar as rotas dos desvios para atravessar os quintais.
O baile imaginário no voo do pássaro enquanto um jazz toca na solidão da lua.
Haverá eclipse na madrugada e já antecipo a penumbra da noite. Fecho as janelas e as cortinas balançam com a suavidade do vento.
Leio poesias que alguém desenhou na pele e quase me perco dentro da dimensão dos arrepios.
Havia flores ao longo da rua quando a lua chegou em seu estado real de cheia e nem varal, ao invés das roupas brancas, o amor brinca de beijar a lua.

Mariana Gouveia
No bico do beija-flor beija a flor.

6 on 6 — Através da minha janela, eu vejo!

Da minha janela, os dias se escrevem com asas.

Tão logo amanhece – muitas vezes antes dele amanhecer – eu recebo a visita de Chiquinho – meu beija-flor – e minhas janelas se enfeitam com seus pousos e voos rasantes. O dia começa determinado em asas e cantos.

Das minhas janelas tenho a visão do quintal todo que é composto de dois pés de ipês – um rosa e outro amarelo – onde os pássaros fazem festas, um pé de algodão, a caixa com ervas, a escada que leva ao telhado, a moita de maria-sem-vergonha para as borboletas e um céu imenso, colorido de cada dia com suas nuvens parecendo potes de algodão.

Também vejo os varais onde estendo as roupas e disputam atenção com os camacicas – os quais chamo de intrusinhos, pois roubam a água de Chiquinho – e transforma o quintal em uma luta por espaço.

Com o olhar estendido, além dos muros, a mangueira soberana do quintal da casa de frente tem me proporcionado visões que eu não imaginaria, nesses tempos de quarentena e que se tornaram rotinas: tucanos que colorem a minha visão através da janela.

Para além das laterais, meus olhos vigia o céu, com suas nuvens e quisera eu não ter os telhados vizinhos que me podam algumas visões depois do sol nascer e também dele se por. Seis fotos são poucas para que eu traduza o que meus olhos veem através de quatro janelas pequenas, com grades entrelaçadas. Ficaram de fora as libélulas, os hibiscos, as lanternas chinesas e o trevo de quatro folhas de três espécies diferentes. Além dos bem-te-vis que roubam a comida dos cães.

Mas eu não poderia deixar de colocar a lua, que lindamente em suas diversas fases atravessa o céu do meu lugar e se acomoda entre os hibiscus mutabilis como se buscasse moldura para enquadrar sua beleza.
Foram seis meses, onde sob o olhar e direção de Lunna Guedes, da Scenarium Plural Editora compartilhei fotos que retrata parte de minha vida, do meu lugar.

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Scenarium Plural Editora

Participam desse projeto:
Darlene Regina — Isabelle Brum — Lucas Buchinger
Lunna Guedes — Obdulio Nunes Ortega


b.e.d.a – Há asas espalhadas…

em tudo que é pouso,
havia um vento feito de dança.
O rádio tocava uma canção antiga.
Os meninos ainda na rua e o barulho da bola no muro da frente.
Na ponta do telhado, a lua segue seu destino. quase indiferente à saudade que arrasta o pensamento e o coração.

Mariana Gouveia
Projeto Sete Luas – No cais Outra vez
Scenarium plural Editora

*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.

b.e.d.a – em solidão peculiar

N’outro dia, ao atravessar a rua
– em solidão peculiar –
avistei um pequeno traço de lua no céu…
um risco prateado – o teu sorriso dentro da
imprevisível quietude das coisas

Mariana Gouveia
Projeto Sete Luas – No cais Outra vez
Scenarium plural Editora

*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.


um dia acordarei o sol.

 que te podia eu dizer, depois de todas
as luas,
deitadas num céu perdido
entre as palavras enredadas
em conversas sem sono,
na luz da manhã
estremunhada, quando o teu cheiro
me desperta os dias
que deixei adormecer?

vivo neste interregno, em que me
visito, porta adentro,
pelos meus próprios passos.
e onde minhas mãos,
ocupadas,
tacteiam as luzes
por acender.

um dia acordarei o sol.

rosa maria ribeiro
*imagem: Google