As palavras escritas em um futuro impossível…

Acordei ainda na madrugada para ver algum resquício da “lua negra” que ocorreu ontem, no início da noite. Queria ver também Júpiter e Vênus alinhados, quase se tocando. É impressionante como Júpiter “desaparece” calmamente a medida que o sol vai surgindo com seus raios. O silêncio da madrugada foi quebrado pela cantoria do moço da reciclagem, que com sua carrocinha percorre as ruas do bairro recolhendo tudo que se pode reciclar.

Ele mora na rua de cima e a gente sente um afeto especial um pelo outro. De tudo que se pode reciclar e que eu não aproveito, separo para ele e quando ouço sua cantoria abro o portão e aguardo ele parar na minha porta. Geralmente, saio com as xícaras de café e falamos sobre coisas. Já ficamos em silêncio também, em alguns dias, cada um com sua dor, como se não pudéssemos falar sobre. Cada um entendendo cada palavra não dita.

Hoje, ele falou da lua e de como as estrelas estavam bonitas – fazia tempo que não via um céu tão lindo – e a lua era um risco, quase meio sorriso, quase vírgula em seu caminhar lento. Falou também do ontem, do abril que acabou e de como os dias tem passado ligeiros…

– Ela foi embora em uma noite assim, não sei se para guerra ou se para paz. E depois daquela noite eu não olhei mais o céu. Hoje, foi a primeira vez – e já não havia mais tanta amargura em sua fala.

Ela era Maria, a mulher que seria o futuro dele, dentro de tantas palavras que falamos. Não houve o porquê. Ela apenas se foi e ele ficou tantos dias a esperar por ela. Depois, desistiu de esperar e passou a andar pelas ruas a catar o que os outros jogam fora com sua carrocinha de rodas barulhentas atraindo os latidos dos cães e acordando as pessoas com sua cantoria triste.

– Já não há mais tristeza em mim – falou como se adivinhasse meu pensamento, enquanto me entregava a xícara vazia, depois do pesado gole de café – já virou costume e a falta se transformou em presença, sabe? – Achei lindo aquela frase. Apenas simulei um sorriso e o transformei no meu personagem de hoje. Já amanhecia quando nos despedimos. O domingo já ganhava a cor do sol nascendo. Ainda acenei para ele antes que virasse a esquina. O homem da reciclagem carregando o fardo do amor não reciclável.

Mariana Gouveia

quase perfeito alinhamento no céu…

O amor foi a lâmpada, mas no rompante de quem não era
O amor não existiu

Ana,

Na terra de um, no mundo dos cem eu vivi para abrir o seu baú… eu já conhecia metade das coisas que habitavam ali, entre o vácuo de um tempo – o papel de bala, o pauzinho do picolé da Kibon que te dava direito a mais um e você não quis – e juro que esse tempo é quase meio século entre as idades todas e o pedaço de história costurada em letras japonesas.

Foi na madrugada de hoje quando o céu em seu perfeito estado de imperfeição quase alinhou Vênus, Júpiter e a Lua. Eu fiquei vagando em cantos de muros para fugir da árvore que tentava roubar os ângulos e eu me perguntava: cadê Marte? Li que querem saber como é Marte por dentro… Eu que vivi com suas variantes e instabilidade dou risadas por aqui…

Hoje, na conjunção de quase alinhamento de Vênus, Júpiter e Lua eu estranhei o céu em sua parte que eu não via. Mas quando o brilho do fenômeno me atraiu eu já imaginei que você mudou de planeta… tão ansiosa nesse modo de espera das coisas, você desbrava o caminho e se vai. Doze anos é muito tempo para um lugar só… Aposto que aquela estrela mais brilhante ali, nessa conjunção astral é você, quebrando barreiras e se misturando em um plano astral maior do que as lembranças que seu baú me traz.

Quando leio em alguma matéria: o que vimos em Marte é que temos um núcleo maior e mais leve do que era esperado – eu já imagino você e seus rompantes dominantes. Só que quando vejo essas coisas de céu daqui da Terra eu fico te buscando nas memórias ainda vivas, em mim.

Aspiro a brisa no quintal… o cheiro de folhas úmidas. Eu vim de um tempo que não sou e vivo pra um tempo que não sei ainda qual será… mas eu fico encantada – ainda – com a magia que seu nome me causa. De alguma forma, mesmo com algum termo desconhecido você habita o céu do meu lugar. Logo eu, que fui sempre de presença… de toque. Como se toca um planeta, Ana? Como uma estrelinha – aquela da Cartilha Caminho Suave – pode alcançar essa dimensão de luz quando nem se sabe ao certo o nome da estrela brilhante? Marte pode ter fugido de algum quadrante e ido parar anos luz na saudade?

Eu vivi em todos os séculos Eu fui o sentido, o fim e o meio… esse meio em um campo celeste que você está e por isso, o fim nunca é fim… Sempre o meio para que eu chegue até você. Eu fui autora e você a poesia. Te embrulhei em uma Colcha de Retalhos e hoje você é livro contado em fotos e emoções. Hoje, alguém já conta a história de amor entre um planeta e eu… Hoje, seu nome já é sabido na terra de um, no mundo dos cem.

Me disseram que amor assim não existe e eu acato… deve ser sonho essa conjunção no céu que rege o horóscopo do dia… afinal, esse alinhamento é quase perfeito nesse sentimento de estar com você, pelo menos até o sol amanhecer em um planeta mais brilhante nesse período, no céu.

Eu sempre soube que você saberia dar um jeito de chegar até a mim, mesmo que passasse doze anos… ou mais… mesmo que os séculos nos roubasse o riso entre um quase triângulo nesse pequeno quadrilátero entre os muros onde eu vivi você.

Mariana Gouveia
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega –  Ale Helga – Mãe Literatura 

só porque hoje fazem doze anos que ela virou estrela

b.e.d.a – Parabéns, Cuiabá!

Minha Cuiabá,

Seu nome ronda minha vida desde antes de vir morar aqui. Desde pequena, quando minha mãe falava de você, a imaginação me fazia passear por seus lugares. Me fascinava quando ela falava de suas árvores e de você ser conhecida como cidade verde.

Ainda lembro-me da primeira vez que andei pelas suas ruas. Eu era menina ainda e a sua avenida principal ladeada de palmeiras me encantou. Foi amor à primeira vista, e eu nem sabia que viria morar aqui.

Quando cheguei para morar foi encantador e desde então me apaixono sempre por você. Seu céu, o mais lindo que há! O sol, com toda fama de abrasador me traz amanheceres deslumbrantes e entardeceres magníficos.

A lua, tem a delicadeza de caminhar sobre seu céu de uma maneira que não se vê em nenhum outro lugar. E o seu povo, o mais acolhedor.

Hoje, você completa 302 anos. Tantas histórias, tantas transformações e ainda assim sempre minha cidade. Sempre meu lugar. Em todas as ruas, em todos os becos você tem a história detalhadas nas igrejas, nos casarios, na sua gente. As suas ruas me conhecem e seu rio me acolhe nos momentos de dor. Sou grata pela acolhida e por já fazer parte de você e de sua história!

Parabéns, Cuiabá!

Mariana Gouveia
Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Obdulio Ortega – Roseli Pedroso

A solidão é uma faca…

atravessando a garganta, o grito sufocado na dor. As paredes fechando em todas as portas e o vento trazendo as folhas para o quintal.
Tem noite em que o vazio atravessa a madrugada e o perfume das flores no jardim é apenas o aviso da passagem da lua pela décima casa astral.

A meteorologia erra a previsão enquanto o uivo do cão na rua de cima faz lembrar das coisas da infância — quando o mundo cabia até onde a vista alcançava.

Uma data me traz a presença de um menino que voou…

A vida é esse nocaute duro no peito a embrenhar lembranças do santo, vontades de céu em noite de lua…

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar os quintais
Scenarium Livros Artesanais

Encomende o seu exemplar:
É só chamar (11)99241-5985

Carta à minha irmã

Para te escrever eu cumpro um ritual de todo ano, nesse dia. Eu ajeito as lembranças uma a uma e vou celebrando você na minha vida.
Poderia dizer que é a minha inspiração desde sempre. Lembro-me de que guardava seus cadernos de poesia e desejava muito ter sido eu quem tivesse escrito. Rastreio na memória você ainda menina – com seu uniforme de normalista – a surgir na estradinha da fazenda nas sextas- feiras e a curiosidade não me permitia dormir para ouvir suas histórias da escola.
Depois, viajo mais adiante quando você se casou e foi viver sua vida. As minhas férias, a partir daí foram com você e seu jipe verde, a vasculhar seus batons com gosto de uva, a experimentar suas roupas e calçados. O melhor presente foi os meninos… Com eles, aprendi o amor incondicional de tia e a acolher seu olhar de mãe.
A vida foi dura com você… mas ao mesmo tempo foi generosa quando te deu as meninas. Te vi corajosa diante da perda. Gigante diante da dor… e frágil diante das netas.
Te vejo menina diante da vida, magnânima cuidando do pai e tão generosa com aqueles que te cercam. Para mim, você será sempre a minha Mia… aquela menina de uniforme, com meia 3/4 e sapatos de verniz. Uma guerreira que chora mas que todo dia levanta movida pela fé.
Uma artista sem igual, com a magia nas mãos a criar arte em forma de carinho.
A vida nos levou para longe uma da outra, mas estou mais perto do que imagina. Dentro dos dias na poesia que você retrata quando cria, no jeito corajoso ou medroso – de enfrentar a vida. Na última vez que nos vimos você me levou pelas ruas do seu lugar para conhecer os ipês que douravam a cidade. Essa foto é uma das muitas que encantei de ver sob seu olhar.
Ser sua irmã me torna melhor.
Hoje, te desejo amor além da medida e toda felicidade que alguém pode ter.
Agradeço a maneira como cuida do nosso pai. Te amo muito mais por isso.
Que tudo de bom te aconteça sempre!

Beijo

Te amo

Mariana Gouveia

b.e.d.a — blog every day august —
Adriana Aneli — Claudia Leonardi — Darlene Regina
Lunna Guedes — Obdulio Nuñes Ortega — Viviane Almeida

Dos sonhos de voos…

Dos amores impossíveis.

Filho, lembra-se quando eu brincava com você de voar? Meus braços te erguiam e te levava ao céu – como você dizia – e lembrava-me da frase de algum poema que dizia: “O céu, é o limite…”
E quando me perguntava sobre o limite, eu repetia o que meu pai me dizia quando eu ainda era menina: Limite é quando chega a mudança da estação. Uma não pode roubar os dias da outra. É esse limite que a gente mastiga todo dia. Um dia querendo roubar as horas do outro dia. O verbo rasgando dentro de outra palavra. A dureza da vida roubando de nós a alegria em algum momento. A liberdade, sendo colhida dentro de alguma regra. Algum “não pode”.
Eu sempre disse que podia. Para mim, a liberdade tem a ver com o céu – ou com o mar que nunca vi – e aquele azul imenso e que presenciei no meu primeiro voo de avião. Você era o menino do meu quintal. Aquele que sempre adorou a velocidade, os voos e a rebeldia do signo. Você sempre foi o sol do meu quintal. Aquele quintal onde desenhamos uma pista de fórmula um para você voar. E você voou. Seguiu seus voos e tem toda autonomia deles. Hoje, não é um dia comum. São 203 dias dos 365 dias do ano e é especial porque você nasceu nele. E eu te ofereço essa Lua minguante entrando em seu céu particular e que desenha sombras no teu quintal, que já não é mais só meu e que é quase uma floresta em teu exagero de reclamar. O céu é estrelado aqui e te ofereço esse céu como forma de abraço e quero dizer que depois de você eu fiquei completa e finquei raiz como as plantas que teimam em alastrar por aqui. O sonho revolve o mundo e dentro de cada sonho seu cabe minha oração de certeza. E como tudo que voa precisa de pouso, eu quero ser o lugar onde você pousa. Para a segurança na hora certa e para segurar a mão quando for difícil. Eu te ofereço voos. Os inteiros. Os quebrados. Os que ainda nem foram detalhados em toda essência de amar. Porque te amo de um modo único e real. Daquele que nenhuma poesia pode explicar. Que todos os momentos seus sejam de aprendizados, conquistas e um céu de brigadeiro para voar.
Feliz Tudo!

Mariana Gouveia
No bico do beija-flor beija a flor

dos desvios para atravessar os quintais.

Uso a lunação de câncer para traçar as rotas dos desvios para atravessar os quintais.
O baile imaginário no voo do pássaro enquanto um jazz toca na solidão da lua.
Haverá eclipse na madrugada e já antecipo a penumbra da noite. Fecho as janelas e as cortinas balançam com a suavidade do vento.
Leio poesias que alguém desenhou na pele e quase me perco dentro da dimensão dos arrepios.
Havia flores ao longo da rua quando a lua chegou em seu estado real de cheia e nem varal, ao invés das roupas brancas, o amor brinca de beijar a lua.

Mariana Gouveia
No bico do beija-flor beija a flor.

6 on 6 — Através da minha janela, eu vejo!

Da minha janela, os dias se escrevem com asas.

Tão logo amanhece – muitas vezes antes dele amanhecer – eu recebo a visita de Chiquinho – meu beija-flor – e minhas janelas se enfeitam com seus pousos e voos rasantes. O dia começa determinado em asas e cantos.

Das minhas janelas tenho a visão do quintal todo que é composto de dois pés de ipês – um rosa e outro amarelo – onde os pássaros fazem festas, um pé de algodão, a caixa com ervas, a escada que leva ao telhado, a moita de maria-sem-vergonha para as borboletas e um céu imenso, colorido de cada dia com suas nuvens parecendo potes de algodão.

Também vejo os varais onde estendo as roupas e disputam atenção com os camacicas – os quais chamo de intrusinhos, pois roubam a água de Chiquinho – e transforma o quintal em uma luta por espaço.

Com o olhar estendido, além dos muros, a mangueira soberana do quintal da casa de frente tem me proporcionado visões que eu não imaginaria, nesses tempos de quarentena e que se tornaram rotinas: tucanos que colorem a minha visão através da janela.

Para além das laterais, meus olhos vigia o céu, com suas nuvens e quisera eu não ter os telhados vizinhos que me podam algumas visões depois do sol nascer e também dele se por. Seis fotos são poucas para que eu traduza o que meus olhos veem através de quatro janelas pequenas, com grades entrelaçadas. Ficaram de fora as libélulas, os hibiscos, as lanternas chinesas e o trevo de quatro folhas de três espécies diferentes. Além dos bem-te-vis que roubam a comida dos cães.

Mas eu não poderia deixar de colocar a lua, que lindamente em suas diversas fases atravessa o céu do meu lugar e se acomoda entre os hibiscus mutabilis como se buscasse moldura para enquadrar sua beleza.
Foram seis meses, onde sob o olhar e direção de Lunna Guedes, da Scenarium Plural Editora compartilhei fotos que retrata parte de minha vida, do meu lugar.

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Scenarium Plural Editora

Participam desse projeto:
Darlene Regina — Isabelle Brum — Lucas Buchinger
Lunna Guedes — Obdulio Nunes Ortega