Avareza

                                                                                                                               Era como se a cada passo eu me rasgasse um pouco, porque minha pele tinha ficado presa
naquela mulher

Chico Buarque

Cada vez que eu a visitava queria levar tudo dela em mim, inclusive o perfume. As digitais impregnadas no meu corpo, feitas no aperto dos abraços. O riso que eu capturava e guardava nas lembranças para recorrer a ele horas depois, quando a saudade teimava em morar em mim.
Dela eu queria tudo e não queria deixar nada, para que diante da falta sentisse que precisasse de mim. Mas ela não sentia, porque me tinha o tempo todo.

Mesmo quando eu não estava por perto, minha presença se fazia instante. Não queria dividi-la com ninguém. Nem com a chuva que por vezes caía, nem com o sol que dourava a pele dela. Avara de tudo que pertencia a ela. Do chá que ela bebia. Do aroma das flores que ela aspirava. Na boca que declamava poesias para mim. 

Por isso, gostava de levá-la para ver a lua quando não havia mais ninguém nas ruas e apenas um cão ou outro latia aos nossos passos e eu podia mostrar as estrelas sem que ninguém conhecesse o riso que brilhava dentro das meninas dos olhos dela.

Era assim que eu a tinha. Em sonhos e por ela eu nunca acordaria. Hoje, o eco da melodia me faz ser uma mendiga de vontades e revirando meu baú o cheiro dela permanece intacto no lenço que ficou. Na echarpe colorida que eu enrolava nos cabelos dela. Hoje, ela é apenas saudades.

Mariana Gouveia
Série Sete Pecados
Scenarium Livros Artesanais
Ph: Alexander Borisov

Gula

“A gula começa quando deixamos de ter fome…”
Alphonse Daudet

O melhor tempero era o que eu sentia junto com ela. Onde eu atiçava os desejos dela e os meus. O arder da chama, o cheiro dela e o querer de me querer era o prato que eu comia e repetia e queria e comia de novo. O gosto que invade a alma e a fome que alimenta o corpo e que mata vontades. Eu queria ter a gula da gula que ela sentia. Até fartar e depois querer mais. Até ser dela por inteira.
As horas voavam no arrastar do tempo e ela dizia:
– Insaciável! Nem a mim serve esse desejo, essa fome.
E entre risos queria de novo e outra vez devorava as vontades. Era sempre as vontades e as privações.
Quando a seda da roupa tocava a pele e era ela universo a incendiar minha alma.
Mesa posta, fome de beijo, sede de boca. Ela me oferecia banquetes e eu sentia a fome da leveza que os olhos dela me oferecia. Na loucura doce de viver.
Não conseguia imaginar minha vida sem ela. Mas devia. Era o rumo natural das coisas. A fome tinha outros paladares, outros pratos. Tão natural que fosse assim.
Mas, ali, em pleno leito de amor eu só pensava que tudo isso podia durar para sempre.

Mariana Gouveia
Série Sete Pecados
Scenarium Livros Artesanais
Ph: Tumblr

Ganância

Hoje aviso-te
que ficarei para sempre
arquejando no teu corpo…
Só o teu coração saberá
se é promessa ou ameaça,
mas ficarei para sempre
e basta.

Lourdes Espínola

Eu me rendia sempre à tentação de abrir a porta, atravessar a calçada revestida de cores nos ladrilhos lilases que formavam desenhos sobre os tons, abrir o portão da casa dela e entrar.
Às vezes, pé por pé para pegá-la em silêncio ou apenas vê-la entre o riso da surpresa e o abraço que me envolvia sempre que chegava.

Cada vez que eu fazia a cena da chegada era como se fosse a primeira vez. A cortina que o vento gostava de convidar para dançar. Os quadros nas paredes formando desenhos de jardim, as flores sobre a mesa, o vinho sempre à minha espera. Como eu queria e ansiava por aquilo durante uma tarde inteira. A gana de querer o abraço me fazia viver cada momento do dia só para que àquela hora chegasse.

Eu a tinha e a queria mais. Era como se tudo que eu desfrutava ainda fosse pouco e eu podia transformar o mundo apenas por estar com ela. A coragem passou a me habitar.

Querê-la era o essencial para que eu respirasse e tudo que vivíamos fazia meu peito bater de felicidades.
As sensações de vivê-la era o que me movia. A ganância de possuí-la me fazia dela, mais que tudo.
Sorvia da boca dela o ar que respirava e cobria-me da pele, das palavras.
O corpo dela, meu diálogo com o mundo e o riso, minha esperança de felicidade.
De dia, escondia-se nas letras escrevia sobre política, religião. Costurava as vontades como casulos ao redor do riso, do olhar da boca, dos sonhos. Era artesã do desejo.
À noite, ela descobria-se com asas plenas de sonhar. Se mostrava. Amava ela, em metamorfoses em que as asas davam lugar as imaginações. E sempre queria mais.

Mariana Gouveia
Poema da Série Sete Pecados
Scenarium Plural Editora – 2015
*fotografia: Dorina Costras

Orgulho

Há pecados tão agradáveis que,
se os confessasse, cometia o pecado do orgulho.
Sophie Arnould


Olho para ela pelo espelho e minha alma fica em êxtase. Em meu céu brilham as estrelas dos olhos dela.
Contorno toda sua silhueta como se a desenhasse e quero gritar bem alto. Dizer que a tenho e que cada dia aquele amor é maior do que meu peito suporta.
– Isso me deixa orgulhosa! – ela diz
– Orgulho é pecado capital. Eu digo.
e o riso dela ecoa pela casa afora, chamando atenção de quem passa na rua.
– Logo nós tão pobres pecadoras, preocupando-nos com apenas um dos pecados mortais? Estamos cheias deles.
– Mas me orgulho de você e da sua praticidade terna em punir sentimentos. Me orgulho de sua pinta nas costas. Dos dedos longos desabotoando a blusa. Da maneira como bebe o vinho…
– Esse orgulho não serve…Esse é dos pecados, o menor.
– E qual seria o maior?
– No conjunto universal, acredito que englobamos todos.
– Então te perdoo por todos os teus pecados e até mesmo pela culpa que teus olhos guardam. E não se fala mais de pecados nessa casa.
E não falamos. Eu ficava reduzida ao seu olhar e bebia orgulho dentro deles. Ela era minha. De posse mesmo. De contar vantagem que eu possuía o que de mais belo ela tinha. A beleza dela não me escapava. Media cada centímetro de sua pele com as mãos e saboreava a paixão que me sacudia a alma. Tinha a alegria que o vento do cabelo dela sentia ao tocá-la. Tão minha e tão livre.
E o riso. Ah, esse riso que ainda ecoa em mim cada vez que lembro dele. Chego a rabiscar a parede com poemas sobre o riso dela. Com os olhos dela eu rezava e com minha alma eu pecava, talvez motivada pelo orgulho maior de amar.

Mariana Gouveia
Poema da Série Sete Pecados
Scenarium Plural Editora – 2015
*fotografia: Dorina Costras

Preguiça

                                                        A alma toma cá um banho de preguiça aromatizado pela saudade e pelo desejo.
– É algo crepuscular, azulado e rosado;
um sonho voluptuoso durante um eclipse. 
 Charles Baudelaire

A manhã acorda em pássaros e a cama convida para não sair.
O corpo dela aquecendo o meu. – é assim que me lembro – o dia seguinte da descoberta mágica do amor.
A pele quente, a mansidão das horas, os pássaros cantando lá fora.
– É agora, vem agora! Vem pro banho! – ela disse.
E eu com preguiça de ir. Com medo de mexer e esparramar sentimentos. O medo de andar e a realidade vir bater à porta.
Nem sei se mistura preguiça ou vontade mesmo de ficar ali. Relembrando cada gesto. Cada palavra. Cada carinho trocado. Vontade apenas de ser nós.
A manhã transforma-se e o tempo já nem exige mesmo. Nem exige que eu me levante. Não exige que eu vá.
Os passarinhos que cantam no quintal dela, são os mesmos que cantam no meu quintal. É logo ali, duas casas depois da dela. Da minha janela dá de avistar a cortina de tecido florido que eu mesma fiz para a janela dela. É de onde eu vou passar a espiar de agora em diante, ela secando os cabelos e já memorizo as cenas e os acenos. Ela chama por mim.
O vento que balança as folhas da mangueira, passou agora pelo meu pé de abacate e eu pude ouvir o farfalhar que o vento sempre faz no canto do telhado e é essa preguiça que me faz mais plena das coisas que eu vivi.
Me sinto como se eu tivesse descoberto um tesouro e quisesse guardar só pra mim, ou estivesse fazendo algo proibido e quisesse guardar esse segredo para que ninguém mais soubesse.
Hoje, esse baú onde guardei as lembranças está sendo aberto e transcrevo aqui todas as coisas que vivi e se lembrança tivesse cheiro teria o cheiro de toda preguiça que senti nos braços dela.

Mariana Gouveia
Sete Pecados
Scenarium Plural Editora
Ph: Dorina Costras


Luxúria

Entregou-se tanto ao vício da luxúria
que em sua lei tornou lícito aquilo que desse prazer,
para cancelar a censura que merecia.

Dante Alighieri

Entrei chamando pelo nome dela. Uma canção e a voz dela cantarolando baixinho me fez rir. Pediu a toalha que estava sobre a cama e surgiu nua, dançando imitando o ritmo da música. Hoje tento lembrar qual, mas não consigo. Acho que a visão dela nua é a única coisa que minha memória registrou.
Na ordem a seguir do “enxugue minhas costas” minhas mãos a tocou. Senti que a pele arrepiou. A dela e a minha. Jogou os cabelos de lado, para que a toalha passasse pela nuca e nesse instante uma magia aconteceu. 
Não sei explicar qual desejo se apresentou maior. Ou se meu espanto diferenciava os momentos. O que sei foi que o que aconteceu a seguir ultrapassou a vontade normal.
Na mesa ao lado da cama, as taças, o vinho e as uvas envolvidas no gelo em uma travessa.
Ela riu e a segurança do riso, no toque me paralisou. Me pegou pela mão e me direcionou na tarde que se desenhava lá fora.
Não sei determinar quem começou ou qual respiração era mais intensa. O que sei é que fui levada ao labirinto mais mágico que vivi na vida. A sensação de plenitude me atingiu e ainda hoje, quando penso em tudo, sinto a mesma coisa.
Pensar em como aconteceu me faz reviver cada instante e é isso que me abastece de poesias para continuar vivendo.

– A tarde transpira ocasos na vida. Dos mais bonitos! – ela disse.
– A tarde transpira surpresas inimagináveis antes – eu disse.
– Algo como proibido?
– Algo como a luxúria…Algo que nunca pensei fazer. Mas agora fico a pensar que parece que estava a esperar por isso desde sempre.
– A tarde faz isso comigo. Sempre desenhei isso aqui, esse instante e agora que você está aqui, parece sonho.
– Um sonho bom, espero.
– O melhor dos sonhos! – ela disse num riso entre beijo e toque.
E a promessa de mais tardes e noites e manhãs febris me fez querer que os dias durassem mais do que as horas todas que eu teria, só para vivê-la.

Mariana Gouveia
Sete Pecados
Scenarium Plural Editora

Inveja

Nosso amor era tão perfeito, que o destino ficou com inveja.
Adriana Soleira

Ela era território meu. Lugar onde eu vagava e vivia e sentia quase posse. E sempre dentro da noite quando o silêncio dela chamava por mim, eu ia.
E assim, nas estações plenas que eu era feliz colhia vontades dela dentro de mim.
Ela era a origem onde meu poema nascia. Desenhada a dedo na pele nua.
Um dia e de repente alguém chegou. Primeiro, o riso dela dividiu-se e eu nem percebi. Mas, ela em sua transparência de rotinas me explicou sobre o desejo de ter um porto seguro. Eu, era a tempestade que a deixava plena, mas em voo constante.
(…)

Foi quando eu comecei a pecar. Sentir inveja…

Da lua que eu mostrei pra ela. Da cortina que o vento balançava e dançava pra ela. Invejava a rua que ela passava.
Eu era o hieróglifo onde ela gravara seu nome, seu código, seu mapa. Minhas histórias sempre terminavam nas dela. No meu quintal voavam os pássaros dela. Todo dia para mim era um recomeço e todo dia expiava meu pecado de invejar instantes dela.
(…)
Talvez a vida siga incompleta, talvez, talvez… Tudo é um caminho novo e desconhecido.
O que sei que é ali além das esquinas há um instante que invejo e que renego saber. O vento no telhado arrasta o nome dela e espalha pelo céu a imensidão de estrelas que ela fez nascer na minha vida, e enquanto abro o portão saio rua afora, reconhecendo os ladrilhos lilases na calçada e aliviada presencio a felicidade dela e para mim, é isso o mais importante.


Mariana Gouveia
Poema da Série Sete Pecados
Scenarium Plural Editora – 2015
*fotografia: Katia Chausheva