Das rotinas · Mariana Gouveia

*a fabricar tempestades particulares 

Ph: Ziqian Liu

Choveu em uma tarde banhada de sol enquanto eu lia meu diário. Rabisquei algumas palavras mudando o sentido das coisas. Depois reguei as flores que não receberam as gotas da chuva.

Depois de dois convites para sair – que recusei apenas com resmungos – fui andar descalça no quintal enquanto Ed Sheeran tocava no repeat. Às vezes, minha solidão precisa da companhia de canções. Desfiz o naperon de crochê – errei na cor da linha – e recomecei do zero. Já reparou que, às vezes, o zero, é um começo?

Marte em sua melhor presença segue a lua em seu quarto crescente ou seria ao contrário? Fico pensando se é ela que ronda as estrelas em busca de companhia. Aprendi o nome de uma planta que nasceu no quintal sem que eu tivesse as sementes. As sombras invadem as janelas abertas enquanto minha mão fabrica chuvas nos vasos que ficam dentro da varanda.

Guardo as fotografias em preto e branco dentro do diário em uma data preferida. No coração, trovoa. Enquanto penso em coisas que eu gostaria que acontecesse começa a tempestade no interno de mim. Alerta vermelho de explosões vulcânicas na alma.

Mariana Gouveia
*frase do poema de Egito Gonçalves

infinitamente · Mariana Gouveia

Exorcizada

em sua melhor fase queriam exorcizá-la
colaram nuvens ao seu redor
criaram eclipses,
efeitos solares

em sua melhor noite
inverteram o céu – tão lunar ela era

apontaram-na como bruxa – um caso perdido
que só um ritual complexo poderia curá-la

quando cheia, ela cansou de tudo isso
lambeu os dedos 
e os queimou na fogueira que ardia dentro dela.

Mariana Gouveia
Das coisas breves
Ph: Tumblr

Das rotinas · Mariana Gouveia

Conheci uma menina que andava descalça,

e possuía sapatos dourados.

Em uma das mãos o rio desaguava.
Levava a correnteza no sentido dos dedos,
e fazia o vento desmaiar nas margens
onde olho nenhum conseguia alcançar.

Na outra, possuía o dom do deserto
– Onde oásis era miragem mesmo –
e a flor que brotava desenhava
espinhos nos cabelos dela.

Cabia dentro do riso do dia
e nas noites de insônia colecionava a saudade
subversiva de amar.
Cantava canções de mar…

Declarava poesia de rio
e repentinamente desavisava o redemoinho de vento.
Criava casulos para se renovar.
Era mão para pouso,
ao mesmo tempo que amava a liberdade de voar…
Sabia da necessidade de sentir,
mas mudava a metamorfose de viver.


Mariana Gouveia
Das coisas breves
Ph: Howard Schatz

Mariana Gouveia

Depois da colheita

Depois da colheita feita
Desenhou a lápis seu próprio jardim

Cavou as linhas aleatórias da vida
o filtro dos sonhos pendurado no teto
o adubo, colocado um a um 
preparando a terra – afinal, é ali que se planta e se colhe
na palavra – dizia o pai – que há tempo para tudo
histórias desenhadas no vestido de flor.

plantou e fez a colheita, como era de fato, o tempo para  renascer, abriu mão da própria coragem 

Algumas coisas na vida nos cobra o medo.
Quem tem coragem de criar o próprio abismo
quando já tem asas para voar?

Mariana Gouveia
Das coisas breves

Mariana Gouveia

Em outra vida

Cortou o cabelo, deixou de pintar as unhas com o verniz escarlate e assumiu as brancuras dos fios. Fingia não ver o espelho a desenhar as rugas dentro do riso. Gostava de dar nomes às nuvens.

Era outra, aquela menina de antes e embora ainda escrevesse em cadernos
e diários nas noites quentes já não era a mesma. Gozou quando conseguiu descobrir o nome da estrela de estimação. Mas, isso foi em outra vida.

Mariana Gouveia
Das coisas breves

Mariana Gouveia

essas coisas do destino vêm ao acaso…

Conheceu outros lugares, de vida e de alma e disseram-lhe que aquele lugar novo não possuía os ritos, nem o cordão umbilical plantado como se fosse sementes…, mas, sentiu a vida nova pelas ruas e muito além dos corredores, uma porta se abria e estava viva.

Não sabia quanto tempo duraria isso, ou se renasceria de novo, nunca se sabe

essas coisas do destino vêm ao acaso

Mas, enquanto molhava os pés de hortênsias no vaso, as rosas do deserto florindo no seu canto, a horta toda verdejante, lá se sabe por que, ela vibrou de novo pela segunda vez que nasceu.

Mariana Gouveia
Das coisas breves

InspirAção

Viu o jardim em flores,

alguma cor diferente nas folhas que sempre caíram – Já não era o ocre, nem o cinza, nem a ferrugem no portão – havia cores em todos os lugares que olhava.

Mariana Gouveia
Das coisas breves… 

Mariana Gouveia

3 D

Os dias passaram como nos filmes
E a imensidão do mundo ganhou caos em seus olhos…
Mas, um dia, não se sabe por que razão, quis viver a fama de louca
E de fato, rasgou as roupas que lhe impuseram… nunca pensou que era tão bonito morrer

E ali, nasceu pela segunda vez.

Mariana Gouveia
Das coisas breves

Mariana Gouveia

Dançava com o vento,

na maioria das vezes, continha o riso para não escandalizar os ausentes.

Diziam que tinha a loucura no olhar.

De vez em quando, por reflexos, através de um espelho, via a vida como se fosse um autógrafo para que ninguém apagasse dela o costume de viver. Ainda assim, todo dia escrevia uma carta sem destinatário contando seus segredos internos… Ou seu diário de amor.

 Mariana Gouveia
Das coisas breves

Mariana Gouveia

Se apaixonou por heras,

Por folhas secas que caiam como brindes do quintal da vizinha.
Desenhava nos muros coisas aleatórias de quem acreditava que só se vive uma vez.
Essas coisas de quem se acostuma com uma única estação – o outono era sua preferida –
O ocre das paredes sem estuque, também.
Conhecia os odores da terra e o cheiro de chuva quando cai.

Mariana Gouveia
Das coisas breves