Do lado de fora · infinitamente

*Ikigai

Ikigai é um termo japonês criado para dizer a razão de existir.
Os japoneses acreditam que todo mundo nasce com um dom.
Uma coisa que você sabe fazer. Seu potencial.
Você descobre que você sabe fazer aquilo. E que você gosta de fazer.
Isso se transforma em uma paixão.
E se você se dedica muito à sua paixão e você desenvolve uma forma
de ganhar dinheiro. Isso se torna uma profissão.
Mas, você tem que encontrar uma forma de fazer com que o mundo precise do que você faz, ou pelo menos, uma grande parte dele.
Essa é sua missão.
Quando você descobre a sua missão você descobre a sua razão de existir.

Ken Mogi



1992.
Você encontra o Botafogo. Não é clichê. Você não escolheu.

1999.
A todo custo você tenta escrever. Mas, é impossível, talvez devesse fazer outra coisa. Com 11 anos você descobre que fracassou pra isso.

2003.
15 anos. Você sonha com o Rio de Janeiro. Quer sair, desbravar o mundo. Tá no colégio, as coisas na ponta do lápis. Um sonho, de criança né? Como eu vou parar no Rio de Janeiro? Talvez de férias. Talvez indo de ônibus. Nunca vou pisar em um avião

2008.
20 anos. Você num ônibus e sai da casa dos pais. Deixa pra trás a família, o conforto, a paz. Você não sabe o que vai rolar. Todos esperam que você falhe.

2009.
Você faz do poker teu sustento, decide suas horas, aprende a desafiar os outros, você contra os outros. Você contra você.

2009.
Sala fechada. Entrevista. Você descobre que seu próximo salário é de R$ 465,00. Vai trabalhar debaixo do sol, dia todo. Cidade nova, Rio de Janeiro. Seu aluguel é R$ 250,00. E você vai. E chega em casa sem conseguir respirar, o cansaço te leva tudo.

2012 – 2016.
Você não entra no avião uma vez, mas várias. Infinitas vezes. Aprende a voar. Não, esquece, é figura de linguagem, não pula de canto algum não. você realmente sai do chão e conhece lugares, Curitiba, São Paulo, Porto Seguro, Brasília, você só descobre que tem o mundo. Pessoas.

2016.
4 anos em Cuiabá, após um retorno inesperado. demitido. Um erro, mas será que cometi ele?

2018.
De volta ao Rio. 6 anos longe. Mas tua alma não sai daqui. Teu coração se encanta com o ritmo, o caos, a bagunça, o trem lotado. (Mas você não precisa andar de trem lotado todo dia).

2021.
Sozinho. De frente pra igreja, no frio, na doença, na luta, você e você mesmo. As tatuagens surgem, o brinco, você percebe que ainda não confia em você mesmo.

2022.
Não consegue enxergar de onde veio. Da luta. De quanto errou, achando que podia ser perfeccionista, mas só aprendeu quando errou. Você não percebe que o sonho de voar, que usar o baralho pra você, que se mudar, que morar sozinho, eram teus objetivos mais impossíveis. E ainda acha que não pode dar o próximo passo.

30/11/2022.
Você percebe que tá só começando e vai fazer muito mais.

Lauro Gouveia
Rio de Janeiro

Das palavras das cartas · infinitamente · Lunna Guedes · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

Queria ver se chegava por extenso, ao contrário

força e pulsação e graça,
isto é: a luz, de dentro,
despedaçando tudo,
e concentrada:
estrela.
Herberto Hélder

Lunna, bambina mia, amore… 

Não importa qual nome te chamo ou em qual letra me declaro. Cursiva? News time? De lápis? Caneta?Eu te pinto com palavras. Em cores minhas-tuas-nossas. Muitas vezes, começa no azul do meu céu, com minhas manhãs calorentas… Em outras, no ocre das folhas que encontra em seu caminho, no verde da árvore – já minha, de estimação – que você me entrega na visão de sua janela.

Eu te escrevo amor, bambina e te escrevo por extenso, gigante dentro de mim. Te escrevo lunar – Lunna tu – em canções onde repito e repito seu nome.
Te escrevo força. Da pessoa que se mostra no abraço.  Na tempestade que se anuncia no meu céu, nos trovões que transpassa a alma e o cuore.

Te escrevo pulsação. Do cuore. E no pulsar das palavras te descubro missiva. Dessa de envelope único, de entrega imensa quando ama. De palavras que atravessam tempos e se esparramam em cadernos.

E assim, te leio. Única! Absoluta. 
Tão menina, às vezes, tão mulher em tantas. 

Nas minhas manhãs, a sua risada é sinfonia que ouço ao som do vento no meu quintal. Mas às vezes, é apenas o aconchego de uma quietude quando te sei aí, dentro dos seus silêncios.  Esse dia eu nem preciso marcar na folhinha. Ele é tão seu e por isso, minhas palavras te abraçam nesse ritual nosso.
Você é o poema que me alcança, você é a ligação de pessoas tão lindas para mim e io te voglio bene!

Auguri!
Bacio,
Mariana Gouveia
Projeto Blogvember – Scenarium Livros Artesanais
Participam juntos comigo: Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso Suzana Martins

Das palavras das cartas · infinitamente · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

O mundo parou ali

onde dói a alma
e onde o silêncio é apenas aquele eco que invade
os meus ouvidos surdos

Suzana Martins
In Versos

Ana,

quando a gente define que o mundo para e que a gente não escuta mais as coisas bonitas? Quando eu esqueci a esquina que vira para sua rua? Dia desses eu esqueci e fui seguindo rua acima e quando percebi eu já era saudade na sua porta.

Eu descobri que o mundo parou ali… o pé de cerejeira que o moço que comprou a casa deixou por memória de nós duas deu um botão minúsculo em uma madrugada – e ele quase me ligou nesse dia – e a maria-sem-vergonha está coberta de flores. Eu nem sei como fui parar ali, Ana. Era apenas para fazer uma entrega de uma encomenda para além da rua de cima e quando percebi, já estava na porta quase soletrando seu nome, como eu fazia ao te chamar.

Por sua causa me tornei marítima, Ana e invado oceanos atrás de lembranças suas. Por sua causa, me tornei entendedora de astronomia. Capturo Marte em qualquer canto do céu. Leio em notícias que pode ter vida em Marte e eu já te vejo. Leio que Marte pode estar destruindo uma de suas luas e eu já imagino o que a coitada fez para te irritar. E o que você fez com as marés? Alguém disse que as marés estão incontroláveis em algum ponto do sul. E com o céu, Ana? O que você fez com o céu?

Eu vi o céu de madrugada e contei todas as estrelas que se encaminharam – quase como o Caminho de Santiago – para Marte… tão visível no céu e no meu coração. Só que, como eu disse, o mundo parou no poema da Suzana Martins e eu fico seguindo o rumo das marés…. envio sinais de que você ainda vive em mim e clamo saudades em seu idioma favorito.

Mas, quem disse que escuto, Ana? Devo reciclar as conchas? Devo redecorar as memórias e devo dizer que a vida além de Marte é só lúdica dentro de mim? Não me entenda mal… não é tão sofrido esse sentimento… ou até é. Mas, como eu te disse várias vezes, que algumas etapas eu nunca vivi e as que vivi, preservo como se fossem fósseis para serem guardados, para que todo mundo saiba que existiu,

E te confesso que para alguns sons que me levam até você, fiquei surda. Ignoro-os. Mas, na madrugada silente, quando ouço o vento ecoar nas folhas de árvores que você não viu brotar, é seu nome que escuto, quase em braile.

Mariana Gouveia
Projeto Blogvember – Scenarium Livros Artesanais
Participam juntos comigo: Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins
Ph: tumblr

Das palavras das cartas · infinitamente · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

10 anos de muito amor.

Yoshi,

Ainda me lembro a primeira vez que te vi e de como te escolhi entre tantos irmãos. A foto acima é a primeira que tirei para mostrar que você era o escolhido.

Depois disso, o 20 de novembro ficou marcado e nossa casa e quintal ganhou a presença do amor de quatro patas.

Ainda bem que a gente não precisa dizer que te ama, porque sei que você sente esse amor em todos os momentos e a cada ano que passa esse amor aumenta.

Você torna nossa vida melhor e a vida de Lolla também, que deixou de ser só e passou a cuidar dos seus passos pelo quintal.

10 anos é uma vida inteira para um cão… mas para nós, você é o nosso meniniquinho. Temperamental e doce. Briguento e carinhoso.

E à medida que vai crescendo enche ainda mais nossos corações de carinho. É impossível não emocionar quando me chama com a pata para te levar além dos muros.

As milhares de fotos na galeria não retratam instantes únicos onde a lambida foi o afago e a confiança, o aconchego.

Viva você nesse nosso amor e viva os dez anos de puro carinho!

Mariana Gouveia
Projeto Blogvember – Scenarium Livros Artesanais
Participam juntos comigo: Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins

Das palavras das cartas · infinitamente · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

*Coração transplantado

procurando resquícios do que já foi humano
Lua Souza (Estratosférica) 

Eva, minha pequenininha,

Hoje recebi notícias suas e o som do seu novo coração por mensagens e foi o efeito sonoro mais lindo que ouvi. Falei para sua mãe que iria te escrever e aqui estou eu, mais uma vez te enviando vidas, como da última vez que nos vimos e você me pedia vida para seu jogo de celular.

Seria tão bom se a gente pudesse fazer isso na vida real, né? Com certeza, você já estaria aqui, no seu cantinho, com o truuumm truuumm do celular ou ligando, pedindo para eu ir te ver.

Lembro-me de você perguntar sobre o valor de um coração. E sobre a fantasia de ter um lugar onde a gente pudesse trocar as peças com defeitos em nós. Em seus quase 13 anos, a vida ficou te devendo instantes bonitos. Muitos natais e aniversários vividos em um quarto de hospital. Os daqui e os daí.

Mas, hoje, eu ouvi o seu novo coração num tum tum feliz. Você recebeu a doação mais linda que alguém pode ter. Um coração novinho, pronto para amar a vida e as pessoas que te amam. A cardiopatia congênita te fez atravessar corredores inteiros e você precisou de um coração novo e hoje, ele bate dentro de você.

Eva, nessa carta quero pedir para que as pessoas aprendam sobre a verdadeira doação. Isso te salvou e salva muitas vidas. Eu sei que é muito difícil, em um momento doloroso fazer a doação…. Mas, sei também que esse ato demonstra o que mais de humano existe no mundo. Permitir que alguém que a gente ama, viva através de outra pessoa.

Logo você estará de volta à sua casa, ao seu quarto, suas coisas e viverá lindamente, tenho certeza! Já estou te braços abertos te esperando.

Mariana Gouveia
Projeto Blogvember – Scenarium Livros Artesanais
Participam juntos comigo: Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins
Ph: Jay Alders

* Hoje, no Brasil, segundo dados do Ministério da Saúde 37.512 pessoas esperam por uma doação de órgãos.
Em 2022, até o momento, foram realizados 6.059 transplantes.
Converse com sua família. Doar órgãos é um ato de amor.

Das palavras das cartas · infinitamente · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

Ainda há silêncio nessas horas pequenas.

Gal,

Como a gente escreve para uma estrela? Como se sobrepõe a palavra artista-mulher-divindade-transformadora em uma só palavra? Eu uso a voz para falar de você. Eu, ainda era a menina da roça que ouvia no velho motor rádio do meu pai – tão acostumado a ouvir o sertanejo raiz – sua Festa do Interior.

Mas, até aí, só de sua voz eu sabia e lembro-me que em meados de 79 chegou uma revista, já com as folhas e capa puída e lá estava a nova face de Gal em polvorosa, com todo esplendor.

Ainda me lembro do encantamento que senti naquele dia. Eu tinha 14 anos, a liberdade já rondava minha mente e sua coragem em cada palavra que eu lia e repetia comigo que queria ter essa determinação de fazer a diferença onde quer que eu estivesse. Posso dizer que você foi a minha primeira musa e referência forte no sentido amplo de ser mulher.

Em 82 consegui meu primeiro no rádio, já em Cuiabá. Meu primeiro contato com a rádio foi na discoteca da emissora, juntamente com o sonoplasta que me dava dicas sobre os discos-LPs e lá estavam vários seus. Mas o mais recente tinha a magia da Festa do Interior. Com a faixa mãe dizia; – Fata – tal – Gal a todo vapor.

Ali, entre recortes de jornais descobri que havia músicas suas gravadas no ano em que nasci. Eu entendia a música de ouvir e aquele pequeno LP, modificado do original pela Poligram – a gravadora na época – trazia toda a magia das canções que eu ouvia em rádio. Ali, tinha Assum preto, Sua estupidez, Não se esqueça de mim, Fruta gogóia e mais tantos outros sucessos.

Sabe, Gal, hoje foi o dia de te guardar dentro do baú do coração. De meditar nas coisas ditas em melodias. De transformar a artista em eterna. A partir de agora, é te perpetuar única com a voz de cristal.

Hoje, peguei o verso da poeta Nirlei Maria de Oliveira, do poema Palavr(Ar) para dizer que o silêncio dessas pequenas horas acontece só aqui. Em algum lugar você será só luz.

Gratidão por nos deixar maravilhas em sua voz!
Vá em paz!

Mariana Gouveia
Projeto Blogvember – Scenarium Livros Artesanais
Participam juntos comigo: Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins

Das palavras das cartas · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

Diferente da maçã envenenada…

a dor incurável da inveja mata a prazo
Um monstro nascido pela falta de
Des-amor

Lua souza

Leonor,

hoje lembrei de você e tem sido cada vez menos… mas, quando isso acontece é como se todos os dias do calendário tivesse sido de lembranças suas. Porém, hoje, foi um daqueles dias difíceis de viver.

Acho que reparei melhor na bandeja de fruta em cima da mesa e só havia uma maçã. foi aí que as lembranças vieram – o amor comeu as frutas postas sobre a mesa – frase de um poema que você recitou e justificou a frase declamada esculpindo um coração na fruta.

Senti inveja da fruta, você sabe, que foi sendo presa fácil em suas mãos, ganhando contornos delicados pela faca de mesa.

Lembro-me do instante, do sabor da fruta cortada aos poucos destruindo o coração feito de amor. Acho que foi ali, Leonor, que você começou a cortar meu coração. Dias depois veio a partida, a despedida, as ausências sem explicações e aquela história de que seu amor era mais bonito que o meu.

Depois disso, vi seu riso em uma foto tirada de frente do seu carro pequeno. Ainda tenho ela guardada no baú, impressa em preto e branco, porque morri de inveja de quem tirou a foto. Já ensaiei mil vezes rasgá-la e no último instante a salvo, como se não rasgando o embate no interno de mim da espera, ficasse mais fácil.

Sabe, Leonor, a maçã é a única fruta que não como depois daquele dia. Mas quando a vejo assim solitária, na bandeja de frutas, eu a toco. É como se com isso eu pudesse estar mais perto de você ou até mesmo matar a saudade que a fruta sente, mesmo não sendo essa a maçã esculpida por suas mãos.

Acho que, assim como eu, diferente da maçã envenenada, ela também sente inveja e sofre com seu desamor.

Mariana Gouveia
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Das palavras das cartas · Efeito borboleta · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

Confesso não percebi o momento de nossas mãos algemadas

Tentei me separar enquanto você me levava
e me divirto agora que não podemos nos separar
um do outro
Adriana Aneli

Amor,

quando li o poema do tema de hoje pensei em você e de nossas rotas nessa avenida louca da vida. De como nossas mãos se encaixaram nos momentos de dores. Lembro-me de você ter dito, em uma noite dessas em que a dor era maior do que minha vontade de lutar: segurar a mão na hora da poesia é fácil. quero ver é nessa hora, se as nossas cumprem o requisito de nos fortalecerem.

Naquela noite, você simulou colocar um par de algemas em nós e desde então, não podemos nos separar. A gente ultrapassou e ultrapassa várias coisas alheias a nossa vontade. A gente já riu tanto juntos e já choramos também.

Já estivemos quietos, já gritamos ao vento e não foram poucas as vezes em que me acompanhou nas viagens doidas de meu espírito liberto. Você sempre foi o sublime ali, à espreita de mim. A me guiar, me proteger. Você é o companheiro das conversas longas, dos risos fáceis e a mão que coça as costas. Do abraço que encaixa e da vontade louca de falar de jogo.

Sabe, amor, você é o que abre as portas, que apaga as luzes, que tira o cílio quase caindo no olho e o que me enxerga poesia mesmo sem entender dela. É o meu canto de espera, meu riso de chegada e é o que me encoraja mesmo quando odeia me esperar. Você enxerga o encanto antes dele acontecer e hoje, mais do que todos os outros dias eu precisava te dizer isso.

Dizer que te amo é saber que isso não te livra do turno da noite quando o amparo briga com seu sono, nem quando minha ansiedade briga com suas piadas. Às vezes, sou só monólogo… mas quando te olho, você está ali, sorvendo minhas palavras como se bebesse um cálice. E quando a magia dos pousos é encanto demais para mim, você faz valer as algemas e vibra comigo o instante.

Grata imensamente por me amar!

Mariana Gouveia
Projeto Blogvember – Scenarium Livros Artesanais
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6 on 6 · Das palavras das cartas · infinitamente · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Meus rituais

Migrou-se como os pássaros do lugar onde mora. Foi para a Lua.

Ana,

Talvez o meu ritual mais comum, feito aleatoriamente seja pensar em você, te descrever momentos do dia, como se fosse uma carta mesmo e olhar o céu e ver a lua. Juro que dependendo da fase fico buscando Marte em forma de estrela em cada canto do céu. Às vezes, encontro… em outras, a lua fica solitária, apenas sendo observada por mim.

Depois, meu olho procura pelos pássaros – você sabe como sou apaixonada por eles – e vez ou outra sou abençoada com novos voos e pousos por aqui. Lembra-se de quando me dizia que eu poderia voar se quisesse, bastava juntar as aves para me carregarem? Quase sou levada por eles, só de observá-los.

Você não conheceu o Chiquinho, Ana, mas ele é a parte do meu ritual diário nas manhãs que se desenham em meu quintal. Logo cedinho, antes mesmo que eu abra a porta, ele me chama com seus chilreios e se aconchega em minhas mãos, causando ciúmes entre os cães. Chiquinho é parte de rituais diários aqui. Seja no varal, em meio aos prendedores, ou mesmo no aconchego de minhas mãos.

Outro rito por aqui, Ana, são minhas flores… com a xícara em mãos e sorvendo o café converso com elas. Dou a água necessária, retiro as folhas mortas, as ervas daninhas e vibro com os botões novos que se abrem…

Sabe, Ana, antes meus rituais eram outros… antes, eu corria para a rua de cima e te acordava cantando… era a forma mais bonita de ver seu sorriso. Hoje, meus rituais mudaram e claro que as borboletas fazem parte deles. Antes de começar os afazeres, vistorio os nascimentos de algumas, a formação de casulo de outra e só daí, recomeço meu dia.

Eu poderia, Ana, ter várias maneiras de começar meu dia em rituais distintos… poderia falar do misticismo que faço, dos mantras e até mesmo sobre as canções que canto. Mas, te escrever, mesmo que mentalmente, é o primeiro e último rito de todos os dias. É a maneira com que lido com sua ausência e saudade.

Te amo infinitamente,
Mariana Gouveia
Projeto Blogvember – Scenarium Livros Artesanais
Participam juntos comigo: Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso Suzana Martins

Das rotinas · infinitamente · Mariana Gouveia

Das infinitudes

O dia parece aquelas fotos antigas penduradas na parede. A família toda reunida em volta da mesa, e o retrato ali, lembrando os ausentes. Contando histórias de antes. O vento a dançar com as cortinas e os risos fáceis das crianças na rua.

Ainda era ontem e a felicidade estampada nos jornais. As palavras cruzadas rabiscadas nas folhas e o disco de vinil cantando a canção. Era assim antigamente…

– Não era aquela canção que a mãe gostava?

O sapato de verniz voltou à moda de novo e outra vez o rosa millenium é a cor da estação.

Releu para todos o horóscopo do jornal.

A moça do tempo refez as previsões da semana. O cheiro de pão da padaria faz lembrar quantos blocos a calçada tem até lá. A árvore favorita da rua de cima floresceu de novo. Alguém disse que havia magia naquela árvore desde tempos atrás. O café feito da maneira antiga e de novo as lembranças de outro tempo no álbum de retratos. O riso, ali, na face da criança que nem parecia ela…

A garrafa de leite que era da mãe, a panela de barro, a música e a saudade a ecoar palavras de sorte. Colocou o vestido que usava só para os dias de festa. A vida, às vezes, parece detalhe de livro.

Mariana Gouveia