Poemas indizíveis

Poemas indizíveis-1

Revirei meu baú de lembranças…
Encontrei as coisas como que procurando lembranças do que não vivi, cheiros que nunca senti.
Confusões de sentimentos que meu coração desfolha.

No baú da minha existência existe tanta coisa que ainda nem desfrutei e as lembranças vivem.
Entre tantas coisas guardadas, você se atreveu a estar presente em cada uma delas mesmo não estando por lá.

E o teu cheiro eu aspirava mesmo não sentindo.

Quase comemorei a fotografia que não vi de ti.
Quase toquei tuas mãos em lembranças que ainda busco nas tuas palavras escrita.
Busquei você, além dos sentidos. Nas histórias de contos de fadas que leio e no final você sempre está.

Mariana Gouveia

*poemas indizíveis*

Depois da colheita

Depois da colheita feita
Desenhou a lápis seu próprio jardim

Cavou as linhas aleatórias da vida
o filtro dos sonhos pendurado no teto
o adubo, colocado um a um 
preparando a terra – afinal, é ali que se planta e se colhe
na palavra – dizia o pai – que há tempo para tudo
histórias desenhadas no vestido de flor.

plantou e fez a colheita, como era de fato, o tempo para  renascer, abriu mão da própria coragem 

Algumas coisas na vida nos cobra o medo.
Quem tem coragem de criar o próprio abismo
quando já tem asas para voar?

Mariana Gouveia
Das coisas breves

3 D

Os dias passaram como nos filmes
E a imensidão do mundo ganhou caos em seus olhos…
Mas, um dia, não se sabe por que razão, quis viver a fama de louca
E de fato, rasgou as roupas que lhe impuseram… nunca pensou que era tão bonito morrer

E ali, nasceu pela segunda vez.

Mariana Gouveia
Das coisas breves

Mãe,

Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.

Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: “Fulano de tal comunica
ao mundo que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio”.

E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimônia, viríamos todos assistir
a despedida. Apertos de mãos quentes.

Ternura de calafrio.
“Adeus! Adeus!”
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes

… (primeiro, os olhos… em seguida, os lábios… depois os cabelos…)
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo… tão leve… tão subtil… tão pólen…
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono

ainda tocada por um vento de lábios azuis…
José Gomes Ferreira

rasgando os dias no calendário já conto 39 anos que você se foi… seria estranho dizer que parece que foi ontem e que sua falta é esse abandono na alma. Queria que fosse igual ao poema e pudesse te alcançar em uma nuvem… mas, as nuvens são feitas para chuvas – você diria – ou para desenhos engraçados no céu.

Confesso que gostei mais da alusão das nuvens, do que da fumaça, que ronda meu lugar, o cerrado transformando em um cenário desolador. Não sei se você gostaria desse tempo…

Além dos aniversários, eu te escrevo sempre nessa data, como forma de te manter aqui, ainda na memória viva do tempo em que fui sua filha. Não temos muitas fotos suas e as que tínhamos se perderam em álbuns guardados em fundos de baús. Essa, acima, recebi a pouco tempo e lembro-me bem desse riso, dessa pose e de tudo que retrata a fotografia. Lembro-me até da cor do vestido, que foi feito por você quando saiu do luto pela partida do meu avô.

Hoje, falando com uma amiga, em outro contexto, falei sobre a canção que fala do sol quarando as roupas no varal e essa é uma memória que nunca vai se apagar de mim… os lençóis sendo quarados, o cheiro de roupa limpa, o anil sendo preparado para as roupas… nossa, mãe! Parece que é agora e já foi há tanto tempo.

Essa carta é só para dizer que ainda tenho tantas perguntas sem respostas, mas que também tenho recordações de tantos momentos que dizem muito mais do que posso escrever. As perguntas ficarão para outro momento, dentro de um tempo em que poderá responder.

Um abraço cheio de saudades,

Mariana Gouveia
25 de Setembro de 2021.

João.

Quando o jardim chegou ao ápice virou colo, a flor.
O cheiro exalando fragrância de terra molhada.
Um menino, que enfeita meus dias nasceu há cinco anos atrás. O verbo do dia cheio de desejo de riso e o pólen, saciando fome do inseto que voa.
Tem dia que a festa é dentro do coração.

Mariana Gouveia

A poesia é algo que acontece na alma quando uma palavra faz o corpo tremer.

Eu devia ter uns sete anos quando me apaixonei pelas cores grená, verde e branco. Na verdade, eu nem sabia quais eram os tons que o narrador do rádio traduzia nas palavras. Mas, o que eu sabia era que amava o som da torcida que ecoava o hino e fazia acontecer em mim a emoção.

O velho motor rádio do meu pai dava lugar e voz para Valdir Amaral e Jorge Cury nas narrações do tricolor da Laranjeiras e foi ali, pelas ondas do rádio que o Fluminense ganhou meu coração. Eu queria muito saber o tom que tinha as cores que o narrador contava. Mas, minha cartilha só ensinava as cores básicas e conhecidas na tabela de cores.

Eu sabia o nome de Wado, Telê e outros, e até as cores verde e branco, porém, o grená atiçava minha curiosidade até o dia em que em uma revista Placar, que chegou entre os livros que ganhei deu cor e mais amor ainda ao meu time. E eu que já amava aquela camisa tricolor, e só a conhecia pela descrição dos locutores de rádio, mesmo sem saber a cor passei a entoar o hino com mais emoção.

Comemorei muitos títulos, chorei várias derrotas, vibrei com tantos jogadores e mesmo tão longe, mesmo sabendo que ninguém do time sabia sobre mim, eu sentia que minha torcida se juntava à todas aquelas vozes que o rádio trazia até onde eu estava. Domingo era dia de jogo e o rádio, a ponte que me ligava ao Fluminense.

Se a poesia é algo que acontece na alma quando uma palavra faz o corpo tremer e a poesia acontece em mim de várias maneiras, mas quando o time entra em campo e o hino ecoa meu corpo ganha o poder de torcedora.

Nunca tive uma camisa do meu time. Sempre que havia um plano de comprar surgia algum imprevisto ou alguma urgência e a camisa ficava em segundo plano, embora meu amor pelo clube, não. Esse é ecoado em verso, como se fosse uma oração.

Hoje, resolvi escrever esse texto, porque semana que vem o meu time vai jogar aqui, na minha cidade. Tão perto e a emoção já toma conta de mim. Sou apaixonada pelo Fluminense desde quando nem entendia de futebol. Por que acho que torcer para o clube é algo que vai além de quem ou para quem você deseja torcer. Você já nasce sendo.

Sou tricolor de coração
Sou do clube tantas vezes campeão
Fascina pela sua disciplina
O fluminense me domina
Eu tenho amor ao tricolor!

Salve o querido pavilhão
Das três cores que traduzem tradição
A paz, a esperança e o vigor
Unido e forte pelo esporte
Eu sou é tricolor!

Vence o fluminense
Com o verde da esperança
Pois quem espera sempre alcança
Clube que orgulha o Brasil
Retumbante de glórias e vitórias mil!

Sou tricolor de coração
Sou do clube tantas vezes campeão
Fascina pela sua disciplina
O fluminense me domina
Eu tenho amor ao tricolor!

Salve o querido pavilhão

Das três cores que traduzem tradição
A paz, a esperança e o vigor
Unido e forte pelo esporte
Eu sou é tricolor!

Vence o fluminense
Com sangue do encarnado
Com amor e com vigor
Faz a torcida querida
Vibrar com a emoção do tricampeão!

Vence o fluminense
Usando a fidalguia
Branco é paz e harmonia
Brilha com o sol da manhã
Qual luz de um refletor
Salve o tricolor!

Mariana Gouveia
Fotografia: Pinterest

Carta para ela…

Minha irmã querida,

Às vezes, me pego revirando as lembranças… lá dentro delas está você e seu jeito único na dimensão do amor… e confesso que nesse tanto de tempo que já vivi, conheci poucas pessoas com um amor tão grande pelos outros como você.

Não me lembro de você que não seja sendo mão, amparo, equilíbrio, conforto, cuidadora e vó… sua melhor versão, toda derretida e com o amor derramando nos olhos. E sua voz sendo prece é sempre a certeza de que as coisas vão melhorar, vão acontecer e tudo ficará bem.

Se eu soubesse desenhar dentro dos dias seria a figura de mãe, de amiga, de irmã, de vó que eu pintaria e seria o quadro mais perfeito. Seu olhar encontra o outro e sempre enxerga a melhor versão e mesmo quando tudo parece perdido, o seu sorriso evoca a confiança que as pessoas precisam para acreditar.

No seu dia, essa carta é apenas um carinho para você que me oferece suporte em todas as horas em que perco a fé, em que me desanimo… Você sempre está lá, de abraço terno e coração amoroso me indicando a coragem para seguir.

Que tudo isso que você transmite, seja vivificado em você todos os dias.
Feliz Aniversário!

Te amo muito
Mariana Gouveia

*Traços

Só a rajada de vento
dá o som lírico
às pás do moinho.
Somente as coisas tocadas
pelo amor das outras
têm voz.


Fiama Hasse Pais Brandão

Dobrei os tsurus como a minha mãe havia me ensinado e lembrei – me dos dedos dela a fazer as dobraduras como se tivesse feito aquilo a vida toda. Tinha habilidade com as mãos, sabia disso desde cedo quando a via nas costuras… a tesoura a cortar os quadrados para a colcha de retalho, o tecido a ganhar contornos de roupas. Mas o que mais me encantava era a maneira que ela criava os desenhos para os bordados.

Ela nunca fizera nenhum curso de desenho e conseguia com suas mãos delicadas – as mesmas que revolvia a terra, no preparo da horta – criar a borboleta pousada na flor no papel vegetal ou em um saco de pão e conseguia transformar o desenho em um bordado. As mãos contornavam o papel com a ponta do lápis e surgiam aves, flores, jardins, castelos e paisagens.

Era uma mulher forte e ao mesmo tempo suave. Os olhos conheciam um a um dos sete filhos com suas diferenças e jeitos. Conseguia arrancar de cada um de nós o seu melhor. Em cada canto da casa seu traço estava explícito. Nas prateleiras dispostas na parede da cozinha de frente para a porta, onde as panelas de alumínio reluziam sobre as tolhas bordadas, feita por ela mesma.

Colhia as flores de lavanda e na água do enxague o cheiro rescendia na casa toda, enquanto os lençóis quaravam ao sol. O rio a margear a tábua de bater a roupa e a pedra, moldada pela correnteza, onde no fim do dia, sentava-se e cantava para espantar o mau agouro. Tinha fé nas coisas simples, seja ela uma pena que ganhava força com o vento ou na ave colorida que roubava os coquinhos na palmeira do quintal.

Os cabelos imensos, ora em tranças, – ou esvoaçante no vento, enquanto secava – ou em um coque perfeito, tal como a canção que falava sobre uma índia: “índia seus cabelos nos ombros caídos negros como a noite que não tem luar “ – que é o que ela era – e traçava os sentidos em nós da alegria de ser… O pai deve ter apaixonado por aqueles cabelos que chegavam abaixo do meio das costas, como uma cascata negra – pensava sempre nisso. Sua presença trazia cores e sons pela casa. A máquina de costura a bordar, as panelas a cozinhar alguma guloseima e a canção antiga na beira do rio, até hoje, traz os traços dela:

“Mandei caia meu sobrado, caiei, caiei, caiei.
Pintei de azul e branco, caiei, caiei, caiei.
Eu pintei de azul e branco, caiei, caiei, caiei.

Mandei pintar na varanda, mandei, mandei, mandei.
Eu pintei de roxo e amarela, caiei, caiei, caiei.
Eu pintei de roxo e amarela, caiei, caiei, caiei.

Mandei pintar na janela, mandei, mandei, mandei.
Eu pintei de verde e cinza, caiei, caiei, caiei.
Eu pintei de verde e cinza, caiei, caiei, caiei.

Mandei pintar meu luar, mandei, mandei, mandei.
Com as cores do arco-íris, caiei, caiei, caiei.
Com as cores do arco-íris, caiei, caiei, caiei.”

Ela era literal – e não há como escrever sobre ela senão literalmente – gostava das dobras… em tecidos ou em papel e de traçar os próprios riscos na bordadura. Conhecia o barulho da máquina e dos ventos. Sabia quando o vento trazia a chuva logo para além da porteira e quando falava da vida, era de poesia que falava. Quando abro os braços e chamo o vento, é nela que penso em sua filosofia de que o vento é o Espírito Santo.

Não dá para saber como as dobraduras de uma arte secular do outro lado do mundo chegou até ela. Imagino que fosse pelos livros – os milhares que ocupavam um baú de mogno moldado pelo pai – com os desenhos feitos por ela eram reverenciados como oração. Acreditava que eles possuíam o poder de não envelhecer e ela não envelheceu.

O movimento de ida foi rápido e desenhado dias antes da partida. O vento era seco e uma mariposa gigante pousou no colo dela. O olho grande, ganhou contornos de conformismo e ela pediu apenas que a arte fosse parte da vida da gente.

“É ela quem dá fôlego quando o ar falta de diversas maneiras. E quando, porventura, faltar apoio nas lutas.”

Não sei de qual luta ela falava. Traçou tantas em tão pouco tempo. Fez diferença em tantas outras vidas como a dela. Ensinou traços a muitas “filhas avulsas “do mundo e virou traço além, em algum lugar em que acredito.

De vez em quando, em um fim de dia, quando o céu expande formas e cores eu me lembro de seus traços e nesse momento faço um tsuru como maneira de seguir a arte que ela tanto amou.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês de Tsurus e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia Leonardi Obdúlio Ortega Lunna GuedesRoseli Pedroso – Adriana Aneli – Darlene Regina
*Texto publicado na Revista Plural Traços
Scenarium Livros Artesanais

Incompleta…

Levantou-se e pensou na vida. Observou o dia claro, as nuvens, poucas no céu. Lembrou-se das escolhas, dos caminhos. Procurou entre seus pensamentos algo que realmente a deixasse feliz, e percebeu que sua infância havia lhe proporcionado vários momentos de felicidade.

Desejou encher sua barriga com uma criança, dar vida com uma outra vida. Vê-la crescer. Imaginou-se falando:
– Desce, filha(o), daí… vai se machucar.

Lembrou que tinha que comprar comida para o cachorro. Sorriu ao imaginar o sorriso de seu futuro filho.

Não existia ainda um futuro, mas era bom saber que poderia imaginar isso quantas vezes quisesse. Lembrou-se das vezes em que, sentada na sala, montava sua casa de boneca… adorava ver desenhos e se imaginar a princesa da escola. Olhou o relógio e apressou-se… estava atrasada. Havia muitas coisas para cumprir, compromissos inadiáveis, telefones que insistiam em tocar. Mas ela estava lá, parada no tempo. Vendo a vida como se estivesse na janela. As pessoas passando e ela como expectadora.

Gostava de andar com os pés descalços, e estava – naquele momento – descalça. Aprendera que não podia… uma proibição. Regras. Quando era criança, não podia, mas agora, depois de grande, precisava andar descalça. Liberdade para suas manias.

Lembrou-se da cólica, das dores, lembrou-se de um amor passado. Olhou para o chão, conteve-se em procurar um chinelo, mas desistiu. Havia muitas coisas para cumprir. A comida do cachorro para comprar. Olhou a porta e viu recados. Leite. Precisava tomar café. Não havia pães, ficou com fome e pegou um pacote de bolacha. Em sua cabeça, pensamentos soltos, regime, fome, dia, regras, nenéns que não existem, comida do cachorro, bola, brinquedo, pés. Sonhou em estar em uma praia. Escolheu a roupa do armário e colocou a música para tocar. No rádio, notícias. Olhou o céu azul e desejou ouvir uma música alegre. Mudou de estação. Notícias, propaganda e, de repente, um som que preencheu a alma. Pensou novamente no futuro. Queria ser mãe. Não era o momento, mas queria. Vestiu-se.

Por ora, esqueceu-se dos momentos ruins. Fez uma menção aos santos para iluminar seu dia e saiu… como quem cumpre suas diretrizes, como quem sonha em conquistar o mundo…

P.S.: Anos depois, o filho – já grande – chega da faculdade e fala da Grécia. Muda a estação do rádio, põe numa música engraçada e gritante.

– Mãe, tem de comprar a ração da Meg…

O sorriso do rapaz era largo ao brincar com a cachorrinha… e, nesse instante, revivi aquele dia em que desejei ter meu bebê, lembrando-me de todos os anos. O primeiro dia na escola, o primeiro tudo dele…

Vendo-o assim, bebendo água na boca da garrafa pela milésima vez, reprimo… e, pela milésima vez, ouço o “relaxa”…

P.S.²: A vida levou o homem para longe… e depois de anos realizou o desejo de subir degraus em busca da fé e mais uma vez, descalça, reviro os textos que falam do meu amor por ele. Por acaso, encontrei esse e achei que precisava de um complemento melhor. Lembrei-me de uma frase do meu pai de quando me casei: ” Depois que se constrói uma família, tudo que você deseja é que seu filho seja forte… para enfrentar os momentos bons e ruins. Voar é só uma parte do caminho, no alto. De resto, o chão é onde o pouso é seguro e a estrada te espera para seguir adiante.”


Meg se foi há alguns anos e hoje, Yoshi e Lolla cumprem a função de cuidar dessa humana aqui, que mesmo depois de tantos anos ainda pensa se ele comeu, se dormiu, se lavou o uniforme, se levou casaco… essas coisas de mãe. Da mãe que eu queria ser e sou.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês de dizer eu te amo e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia LeonardiObdúlio Ortega – Lunna Guedes – Roseli Pedroso – Adriana Aneli – Darlene Regina

Um amor desses de livro

Eu morava perto de um bosque e todos os dias eu a ajudava pela manhã a colher cogumelos nas redondezas. Meus irmãos e os meninos da vizinhança tinham um medo terrível dela. Eu, não! Para mim, ela era aquela fada das histórias que eu lia e que falava tanto de bruxa, duendes e príncipes.
Ela me olhava com aquele olhar de poesia quando eu me aproximava… Cantarolava uma musiquinha que tinha meu nome no meio e me ensinava a distinguir os cogumelos bons dos ruins.
Um dia, eu falei das poesias, que eu queria aprender. Ela sentou-se na relva, mandou que eu fizesse o mesmo e pediu que eu descrevesse o que via. Além da visão normal, da vida do meu lugar eu via nuvens, pássaros, e o cheiro do capim me transportava pra uma visão diferente do que eu via normalmente.
– Pronto! – disse-me ela – Acabou de criar uma poesia.
– Mas eu quero uma poesia que fale de amor. – eu falei – de um amor tão intenso que um dia vou sentir. E que estando junto vou querer ficar para sempre e estando longe, vai parecer que estou junto. E o meu coração vai estar sempre em sintonia com ele, e minhas mãos vão querer tocá-lo, e o sol vai brilhar para nós dois. Um amor desses de livro.
Ela riu e eu vi um brilho tão intenso no seu olhar; murmurou algo inaudível aos meus ouvidos de menina…
Levantou-se e saiu como se quisesse voar…
– Eu volto… mas esse amor aí de que fala, essa poesia, já existe aí dentro. Só precisa do tempo para vivê-la.
Hoje eu percebo isso… eu já o amava desde a infância. Só era preciso te encontrar para dizer. E eu o encontrei a 35 anos atrás e até hoje, esse amor me faz ser quem sou, dentro dos instantes de poesia e cuidados.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês de sonhar e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia Leonardi Obdúlio Ortega Lunna GuedesRoseli PedrosoAdriana Aneli – Darlene Regina