quem sobreviveria?

“com os olhos à deriva na janela, tentei me convencer de que não, corujas não voam para cima de telhados em plena manhã, não, nenhum presságio, talvez o ruído indevido da rua anuncie o final dos tempos sem direito a funeral, a mesma paisagem cínica, de máscara? nem isso. as horas são todas iguais, o oxímetro separa o pânico da pneumonia, é melhor trabalhar antes que eu morra, são tantas janelas, nenhuma é a minha, é necessário tomar sol, disseram, mas o ruído indevido da rua ensurdece o desejo de estar viva, não, normalidade não há mais, não há normal nem anormal, o nada é o horizonte que nunca decepciona. aqui, cinco mil trezentos e sessenta horas de conteúdo gratuito para o seu desenvolvimento pessoal durante a quarentena, disponíveis durante os próximos quinze dias, apresse-se, mas eu só queria estar vazia. entende? o nada é o horizonte que nunca decepciona. o nada nasce bom. a espera o corrompe. entende o que eu quero dizer? talvez o cheiro da comida empurre vida num corpo morto que se bate contra as paredes. mas como, um corpo morto de rosto rosado e mãos quentes? talvez um creme na cara. hora de gritar na janela. fora, genocida! fora, eu não quero morrer de vírus! mas, no fundo, sei que estou condenada. foi antes, bem antes de algum prenúncio do apocalipse. foi na época das eleições. não, eu não leio nenhum livro sagrado. orações não me interessam. estou já condenada, eu sei, para o inferno com essa fé de barganha! tento me convencer que fé e esperança são defeitos distintos. em mim, talvez nem uma, nem outra sobreviveram aos naufrágios sucessivos. quem sobreviveria?

mas hoje você me chamou pelo nome como se chama algo
perigosamente próximo
do coração”.

Anna Clara de Vitto
Texto publicado no livro: Delírios Comunistas
Scenarium Livros Artesanais

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