Divã

Vivi um século em um dia. 

Comi palavras doces e delirei amor.
Previ as cores dos girassóis de Van Gogh. Entre Matisse e Monet cantei Gadu.
Tenho na ponta dos dedos a percepção da pele. A dela.
E a magia do jardim onde a toco.
Visito mitos para abrir caminhos. Acendo estrelas para ela sorrir.
Um século em uma frase de amor.
A cor que ela deu ao meu dia.
Escrevo o nome dela em tudo que toco.
De um poema sem nome eu só sei sentir.
E assim, caminho na beleza onde ela planta todo dia encanto na lentíssima explicação do divino.
(O nosso amor).

Mariana Gouveia
* Imagem: Anna O Photografy

Das rotinas · De todas as estações · Divã

Lembro o branco sobre o branco…

Perto da janela desejou voltar no tempo,
costurar pedaços pequenos de lembranças na memória.
Sentia que esquecia,
às vezes,
as sensações que viveu.

Tocou o céu com os olhos.
Lembrou das chuvas.
Mexeu nas anotações da mesa.
Sentiu saudades.

A flor, quase sol em giro,
trazia à memória os poros.
Miúdas flores como se fosse pele.
Digitais


No canto do lugar
– o cheiro –
como um arqueólogo
vasculhou antiguidades dentro dela.

Revisitou estações noites inteiras.
Pele, toque, mão.
Os sentidos aguçados no instante de amar.
Ela – artista –
quando a amo e desenho partituras em seu corpo.

Um modo de amar é assim.
Na loucura que herdou.
Em silêncio e cansaço.
Em guerra e paz.

Da pele
– a palavra –
de um dia que se abria
e que não havia código a decifrar…
Era apenas ela e mais nada.

Mariana Gouveia
Ph: Els Vanopstal

dos diários · Livros

Toquei…

O botão da flor foi tocado. Em círculos para a profusão do instante.
Gritei liberdade nas mãos dela. Sussurro além do limite do extraordinário.
Às vezes, é preciso imitar as canções.

Mariana Gouveia
Diário das Quatro Estações – Cadeados Abertos
Scenarium Plural Editora
*Imagem: Antonie de La Roquelle

Mariana Gouveia

O futuro demorou dentro dos dias…

A carta fora escrito no tempo do passado. As flores se preparavam para o fruto da estação. O céu tinha cores dentro dos olhos dela e a gente se despedia dos dias.

Ela falava de outro país e das ruas em que andou em peregrinação. Eu, dos insetos diferentes que surgiram no meu lugar.

Ela passava por um inverno castigante, lareira, vinhos… ruas com neve e fogueiras sem luar. Eu, os chás frios na madrugada quente, o calor a arder a pele e a alma.

Escrevia-me aos pés da torre famosa e eu, do meu quintal simples de todo dia. Um universo de distância nos separavam e nunca estivemos tão juntas como se as mãos pudesse tocar.

Perguntava das árvores que quase tocavam o céu dentro do quintal que ela deixara e eu dos cheiros das flores de lá.

Inventei orquídeas novas para ela que nunca existiram – só para ver o brilho nos olhos cheios de expectativas – e ela me dizia sobre o perfume da laranjeira no meu quintal onde a joaninha se aninhava.

Eu, era a menina laranja para além dos dias e ela a moça lilás que foi colher futuro. O futuro demorou dentro dos dias e quando ela voltou já não havia mais tempo.

Deu-me a moça subversiva e revolucionária dos poemas e apresentou-me o paraíso com nome de filtro de cor.

A vi dentro do sonho que tive e brilhava lindamente dentro da minha poesia.

Mariana Gouveia
das palavras das cartas
Ph: Ekaterina Ignatova 

Mariana Gouveia

Era um ano longo como um século ou um século curto como um dia? 

Por cima dos móveis pela casa só despojos quebrados: copos retratos livros desfeitos
Éramos sobreviventes duma derrocada dum vulcão de correntes enfurecidas e despedimo-nos com a vaga sensação de termos sobrevivido mas não sabíamos para quê.

Cristina Peri Rossi

Olga,

Alguns dias são ocos e feitos para esquecer. Era dia da terapia e vi o recado na porta azul – luto em família e o endereço da capela – onde todo mês busco refugio em um divã ocre. Já fazem alguns anos que você é minha rotina mensal. Passei a ser aquela que você anota, escuta e faz perguntas que quase sempre me recuso a responder. Dali, saio inspirada para as palavras – quase sempre – e volto para casa com notas mentais ou escritas em rascunhos no celular. O seu divã me acolhe, mesmo quando saio de lá sem dizer nada.

Mas, hoje não… hoje segui rumo a capela e isso me fez retroceder em alguns passos… eu a vi de longe, os olhos perdidos no pequeno lago em frente as salas. Seu olho vigiava a dança que os peixes dali faziam como se estivessem em rota de fuga. Na última vez que estivemos juntas aqui, a dor era minha e sua mão me alcançou e depois disso, nunca mais me largou. A gente sempre falou sobre esse lago e se seriam os mesmos peixes ali, já não tão ariscos, acostumados com os olhares de dores de quem anda por esse lugar.

O nosso olhar se cruzou e seu riso opaco fez com que eu sentisse a sua dor – a mesma minha, talvez – já acalmada a muitos anos – e a sua tão latente, sangrando e você falou tudo que estava preso no coração. De repente, mudamos de lugar. Era eu a sua ouvinte, mãos dadas, olho perdido, colo abraço e passos curtos em uma solidão que já conheci bem.

Você falou de um vazio que ainda vai sentir e de como às vezes, a vida é esse sopro que rouba de nós as presenças. Era ontem ainda e ela estava ali, na sua sala, com o vinho e a massa a esperar – como a gente faz para voltar o relógio nos minutos antes de tudo? – e o atraso que acaba com tudo? – como somos incompetentes em tantas coisas e nos achamos o máximo em outras?

De repente, eu não sabia como te responder. De repente, fui ombro para sua cabeça e só. Essa carta, foi um pedido seu… embora, tantas vezes, eu tenha saído de seu lugar comum, fico a cata do que te escrever para que não doa tanto, para que não seja em vão minhas palavras e para que elas te abracem.

Estou aqui sempre!
beijo meu


Mariana Gouveia
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega –  Ale Helga – Mãe Literatura 

só porque hoje me pediu para trocar de lugar com você

Divã · Maria Gadu · Mariana Gouveia

Teu aroma de vinil

seu aroma de vinil

“Analógica você
Cartas num papel de pão
Teu aroma de vinil
Me inspira”
Maria Gadu

Permitiu a espera.
Passos lentos atrás da cortina. Canção que fala de música.
Quis dançar. Lembrou de danças de outrora. No quintal vazio. Só as duas. O céu povoado de estrelas. Abraço apertado enquanto olhos vasculham se alguém espia pelo muro. Coloca no repeat a música. Já sabe a letra de cor.
Digita errado o recado que queria dar.
Fala apressada, como se depois não conseguisse mais.
Foi dia de cumprir promessas. Tudo saiu fora da rotina.
Ela não anota nada. Pensa apenas que viveu tudo que podia viver.
Tem ainda o gosto do beijo na boca. Inventa nomes para os sabores sentidos.
Agridoce na lógica da alma.
Pensa nos signos e no mapa astral que a música sugere.
Viu os recados enviados na ausência. A secretária do médico lembra do exame. Alguém disse que sentia saudades. Não tinha ligações dela. Nem podia.
Faltou o ar. Corre até a janela. Reparou que a cortina foi trocada.
O estilo meio vintage combina com o dia de hoje.
A moça do tempo fala de mais frio. O pé gelado aquece o outro.
Sai sem despedir -é possível que ainda volte hoje – há tanta coisa pra falar. Momentos vividos que a canção registra.
Lembra do disco de vinil da canção preferida. Perdido no baú das lembranças.
Faz o que a canção sugere ao tocar o dedo na boca.
Inspiração no aroma do vinil que Maria Gadu canta.
Analógica se sente. Vai em busca da vida.

Mariana Gouveia –
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega –  Ale Helga – Mãe Literatura 

*fotografia Tumblr

só porque em alguns dias nem a terapia resolve

 
Mariana Gouveia · Raquel Serejo Martins

O dia em que a terra parou.


eu não sabia que tinha um coração de porcelana,
eu de vassoura e pá a recolher os cacos,
eu a tentar não cortar os dedos e provar o meu sangue,
eu sentada no chão de azulejos da cozinha
no chão azulejos que não azulejam,
a chorar lágrimas azuis

Raquel Serejo Martins

Devia ser como o dia de hoje aquele dia que a minha memória ainda relembra. Era um dia febril, em que a terra também sentia o calor profundo do sol. E deve ter sido difícil também para você ver o azul do céu com as cores que mais gostava. Era mais ou menos igual a vários poemas lidos que cita essa dor no peito. Era em um dia como hoje – disso, eu me lembro – e de como o olhar ia se despedindo horas antes de ir.

Alguma coisa já antecipava esse gesto – e as solidões, nossas, juntas, tão iguais e desiguais – de adeus. Parecia ser apenas um até breve, a partida, já com data marcada, mas sem previsão de ida. Depois disso, foi só o céu visto das nuvens, o rio contornando a cidade. Lembrou-se da palavra do poema onde eu citei isso – você me disse depois, em um carta que nunca chegou. Viu o azul do céu lá do alto, o avião contornando algumas nuvens. Ainda podia sentir as mãos tremendo e relembrou das promessas feitas que sabia que não podia cumprir. Seu amor era bonito demais, alguém aconselhou em terapia que amor assim deve ficar só nas lembranças.

Alguém lhe disse também que o tempo curava tudo e acho que essa foi a última palavra que ouvi de você… e foi daí que tirei forças para atravessar os dias. Comecei a contar primeiro os dias sem notícias, depois, os dias em que vivemos o que de mais belo poderíamos ter vivido… depois, as contagens foram se misturando e eu já não sabia qual foi o dia em que a terra parou de existir. Nem qual foi o dia em que a emoção mudou de lugar com a saudade. Esse sentimento vago que ninguém fala que é bonito, mas que para mim, tem seu nome, como se fosse tatuagem na pele.

Mas, hoje, em uma data que a memória trouxe, sabe-se lá porque, recordei a data sem querer. E quase como em um ritual peguei as cartas do baú e refiz cada intenção de dor que o tempo ainda não curou…

Mariana Gouveia
* fotografia: Ines Kozic
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega –  Ale Helga – Mãe Literatura – Darlene Regina

só porque hoje é 13 de abril

Mariana Gouveia · Raquel Pellicano

Guardei meu amor, bem guardadinho…

A,

Escondi no meu baú a palavra doce. Guardei-a como as meninas de antigamente guardavam os anéis.
Guardei a aliança de prata também. E os dias vividos com você no meu quintal. Dentro do baú antigo, onde guardo minhas memórias guardei a vida. Deixo lá com todos os instantes de riso que vivemos. Das palavras que precisavam de traduções.
Guardei as fotos que você tirou. Não é bom ver fotografia de flor com essa fome constante de flor. Os poemas escritos com seu nome. As cartas que nunca tive coragem de enviar. Tudo isso faz companhia para a minha solidão.
Lá, tem um papel de bala dado um nó, desses que se você quisesse um abraço mais forte, teria de apertar mais. Também tem junto, dentro do baú, o riso de minha mãe, que ecoou no meu coração em uma noite fria quando senti vontade de comer flor.
Já era bem de antes essa vontade contida. Lembro-me que ela riu quando eu disse: um dia, planto uma flor vermelha só para comer.

Guardei no baú tantas lembranças para quando eu me perder das memórias, possa abrir e ver esse sentimento que invento para você. O sentimento da espera.
Todo dia, pego o baú nos braços, passeio com ele pelo quintal e pela milésima vez faço a promessa de só abri-lo quando puder te tocar outra vez. Ou ouvir sua voz, que coloquei ali, num cantinho, para evocar a canção monocórdica que cantou para mim.
Guardei dentro dele as sementes da flor. Plantei uma apenas e converso com ela na delicadeza dos raminhos que crescem e brota a cada dia uma nova folha. Logo, terei uma papoula vermelha na intensidade da fome.
Os vizinhos dizem que estou louca. Os loucos, me chamam de sã e na minha lucidez desvairada, eu, só chamo você.

Mariana Gouveia
* fotografia: Raquel Pellicano
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega –  Ale Helga – Mãe Literatura – Darlene Regina

só porque os baús guardam as lembranças

Diário das quatro estações · Mariana Gouveia

O tapete amarelo no chão…

já tinha se tornado húmus e o vento arrastava as folhas secas, fora da estação.
O rádio antecipava as notícias de amanhã e a certeza de que tudo é breve veio com a flor no chão.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
Scenarium Plural Editora
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Ph: Anja Bührer 

Mariana Gouveia

O mapa a desenhar as partes dos atlas.

Quando a vida passa e o tempo e seus sonhos passam juntos, o mês desanda a correr dentro dos dias. A estação muda as cores e o sentido e a secura amarela as folhas enquanto a ave espreita o vento que muda o tempo – mas eu nem tenho tempo. O moço que se encanta pela cidade pequena cria histórias que não existe dentro da minha história. Ele passa silencioso na imensidão da manhã. Culpa o sistema pela vontade exagerada entre voar e sentir. Não sente urgência na palavra amor e a paisagem traz a fumaça do mês que ainda nem veio. Podia ser um nome em sentido de asas. A palavra curta definida no pouso. O jardim a crescer com as ervas daninhas. Se eu pudesse, apagaria os instantes diante da dor e o século seria o momento seguinte que ainda não vivi. O mapa a desenhar as partes dos atlas. O muro feito de prego e o verbo era suspirar.

Mariana Gouveia