Divã

Entrei. Sentei-me na poltrona onde podia ver a janela. Pediu que eu falasse sobre o que eu sentia. Calor – o sol está castigando esses dias – há um sol para cada um nesta cidade… Acaba com meu jardim. Ela se sentou no divã vermelho. Clássico. 
e desabou a falar de flores. Quis descobrir o que eu sabia das lanternas chinesas e comecei a falar de luz. Falei das histórias que li e do poema em mandarim do livro verde e de como a semente veio parar em minha mão. Ela achou tudo poesia pura e me pediu para voltar amanhã.

Mariana Gouveia
Ser de flor
Desvios para atravessar os quintais
Diário das Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais

A manhã surgiu rodeada de nuvens.

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Contei os dias de espera.
Eram muitos e não couberam nos dedos.
Um pássaro surgiu amedrontado do nada. Um gato espiava o feito da janela vizinha.
No telhado, as mangas caíram com o vento que cantou seu nome a noite inteirinha.
Havia cheiro de maresia nas cortinas, nas palavras que a canção entoava. Havia você ali em tudo que é vontade.
Li poemas antigos que eram seus. Que são seus.
Lembrei do gosto do café em sua boca. Da palavra estranha dita em outro idioma.
Você bebia sol nas manhãs que eu te dava. Como se fosse pílulas para curar a solidão.
Hoje, olho o frasco vazio e cheio de saudade.
Nada cabe em mim na imensidão das coisas. Tudo é essa presença vazia da palavra.
Tudo que te mando volta como se fosse recusa.
E cada dia morre em mim a esperança.

Mariana Gouveia
*imagem: Tumblr

Tenho tido visões marinhas no tapete da sala…

Dizem que enlouqueci nos últimos dias. Deve ser abstinência de sua voz ou essa mistura de estações dentro do dia. Vejo o tempo todo asas que voam a esmo nas ondas que crio na mente.

Sinto essa obsessão incessante sobre você e suas lendas acontecendo no meu quintal. Viajo contigo pelas ruas do bairro. O horizonte se veste de cinza dentro do jardim. Por sorte, os correios hoje não funcionam. Escrevo cartas que não enviarei.

A solidão tem esse dia de domingo tatuado na pele. Tem toque onde a sensação de sua pele em minhas digitais arrepia a alma.

Deu vontade de morrer de amor. A gente deveria morrer aos domingos – quando as sombras das amoreiras ficam mais leve – de frente para o quintal em seu instinto de asa. Essa fome de maresia rasga a pele e esse muro que não rompe os diques do rio que deságua na minha rua e conto no calendário os dias que te perdi.

Mariana Gouveia
Ph: Nicoletta Ceccoli

das impressões do dia seguinte

Guardou-me dentro das fotografias. Pendurou-me no lado esquerdo da porta. A chave, de cores variadas lembrava a conversa sobre os séculos habitados de ausências. Eu só queria dizer que choveu e que as cartas que foram esquecidas no baú, ganharam atenção em cada palavra. Os desenhos feito à mão e o eco do mar a desafiar minha lembranças das coisas. As poesias escritas por suas mãos cabem na minha saudade. Enquanto revirava o baú, fiquei ali confinada nas tuas fotografias de vento. Cabelo preso em alguma folha que lembrava um coração. A frase que você descobriu em um muro, era apenas motivo de quebrar regras. Quase ganhei asas nas tuas cores e sua voz ecoa feito onda do mar. Quando a janela se fechou, virei quadro caído na parede, inseto parado na mão e história para ser contada depois, como se o pretérito imperfeito fosse o ponto principal de um século inteiro que passou. A ave ecoa o silêncio na árvore seca. Tudo era solidão dentro da tarde onde as cartas viraram asas de papel ao vento.

Mariana Gouveia
*imagem: Nishe

Imaginário

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Repete a história mais uma vez. E outra. Ela anota.
Tem detalhes que sempre esquece.
O poema da camiseta. O gosto da boca.
Fecha os olhos e desenha a cena.
Rápido, a água que caia. O cheiro do sabonete líquido.
A cor da pele. As pintinhas no corpo dela.
A mão que toca e o olho que mapeia tudo.

Respira.
Sente vontade de chuva.
Pensa em pouso. Fala em pouso. Ela anota.
– Pouso reflete segurança – ela diz.
– Não acredito nisso. Se fosse assim, não haveria desassossego na alma.
Vai até a cortina.
Abre a janela.
O olho vasculha pontos além do pode enxergar. Enquanto ela anota.
Pergunta se não quero sentar.
Não respondo.
Em meu braço pousa pássaros coloridos.
– São imaginários – ela diz – não existem.
Mais uma vez eu repito minha frase mágica:
– Às vezes, é preciso enfrentar o imaginário.
Respiro.
Conto mais uma vez a história.
Dessa vez falo sobre a canção que ela cantou.
Ri de mim.
E começa a falar de saudades.

Mariana Gouveia
* art: Jun Kumaori

Fico a mercê das horas.

Fico a mercê das horas.

O relógio me cata a procura de tempo.
Enquanto viajo para dentro do aconchego, o espaço viaja dentro de mim.
Respiro ansiedade para o encontro. Sei que vou sentir saudades, mas vou.
Às vezes, é preciso enfrentar as lembranças. Reviver instantes de ontem.
Colher sorrisos de crianças que brincam. Conhecer outras que nasceram e são tão minhas que se misturam em mim.
Hora de pintar nas emoções do dia a cor do amanhecer, o tom elevado que desponta horizonte afora.
É ali, dentro da memória que busco esperança.
O dia já é quase e a noite já foi.
Amanhã já é quase hoje e é pra lá que eu vou.
Vou colher vontades e respirar melodia no riso que ainda vou viver.
Às vezes, é preciso repor a energia perdida.
Hora de voar.

Mariana Gouveia
*fotografia: Marc Lamey

meio amargo meio doce

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Nas cores tão vibrantes, fica marcado no vermelho-rubro a lembrança de você me doando por companhia a solidão.
 
Da minha lucidez na tua cama esvazio de mim desejos meus de ser tão (e tão e só) tua.
 
Me dá teu doce, teu cio, senão fico divagando sobre o medo,o segredo…
 
Do amor, o meu, tão seu, tão tudo. Mas é de entrega que falo. Dessa entrega que sou quase você de tanto amor.
 
Eu fico meio doce, meio amargo então. Quebro rotinas, derreto geleiras.
 
Fico assim, de querer muito você, de querer e gostar de ser tua.
 
Tanto faz que eu exista em você tanto e tanto. O que quero é sentir você nas digitais tatuadas no corpo onde tuas mãos me tocam, ou no ar que eu respiro você.
 
Mariana Gouveia
*imagem: Oleg Oprisco

Tudo aconteceu no tempo do abraço.

Tudo aconteceu no tempo do abraço.

Era ali, onde eu morava. Meu país era o aconchego dos braços dela.
Mesmo quando não havia presença era ali que eu me aninhava e estava segura. Feliz. Em paz.
Mas, em guerra, o peito dela não abriga mais minha cidade. Transformou em ruínas o que era meu lugar.
Virei peregrina desse deserto intenso. Endoideci.
Vaguei incessante em terras alheias buscando abrigos.
Nenhum lugar me pertence.
É comum em noites banais desenhar ela, seu nome, suas lembranças em meu corpo todo.
É comum ela estar em mim.
Enquanto vagueio, meu olhar de louca procura sinais de uma reconstrução que não tem mais.

Mariana Gouveia – do Divã
*imagem: Ali Perrault

Maria

Maria

Revirou o baú e encontrou lá perdida sua boneca de pano. Lembrou das coisas da infância. De tudo que viveu – ou quase tudo – com ela.
Onde quer que fosse, lá ia a pobre boneca debaixo do braço.
Dentro dela batia um coração imaginário. A mãe o colou lá, quando fez ela. Enquanto a linha dava vida à sua boneca, a mãe lhe contava histórias de amor.
Aprendeu desde pequena o sentimento das coisas.
Depois dela feita teria de por um nome. A chamou de Maria. E com isso podia rimar o nome com o que quisesse ou fizesse a mãe sorrir.
A irmã mais velha que tinha o nome de Maria não gostou. Depois teve de acostumar.
Quando a esquecia em algum lugar, o nome gritado e repetido gerava confusão, porque Maria sempre respondia e a boneca Maria não.
A batizou mesmo com as broncas do pai, que sempre levou a sério as rezas e orações.
O tempo passou e a companheira foi ficando de lado, na cabeceira da cama, depois foi ocupando espaços aqui e ali.
Até ontem, quando falou com ela sobre bonecas – de pano, ela também teve – Essas coisas marcam pra sempre.
– A minha está em algum baú das lembranças.
– A minha foi destruída pela cachorrinha do meu filho.
Ela anota.
Eu coloco em cima da mesa e a olho.
Juntas vivemos a mesma história.

Mariana Gouveia
*imagem: Pinterest