Dançava com o vento,

na maioria das vezes, continha o riso para não escandalizar os ausentes.

Diziam que tinha a loucura no olhar.

De vez em quando, por reflexos, através de um espelho, via a vida como se fosse um autógrafo para que ninguém apagasse dela o costume de viver. Ainda assim, todo dia escrevia uma carta sem destinatário contando seus segredos internos… Ou seu diário de amor.

 Mariana Gouveia
Das coisas breves

Carta para ela…

Minha irmã querida,

Às vezes, me pego revirando as lembranças… lá dentro delas está você e seu jeito único na dimensão do amor… e confesso que nesse tanto de tempo que já vivi, conheci poucas pessoas com um amor tão grande pelos outros como você.

Não me lembro de você que não seja sendo mão, amparo, equilíbrio, conforto, cuidadora e vó… sua melhor versão, toda derretida e com o amor derramando nos olhos. E sua voz sendo prece é sempre a certeza de que as coisas vão melhorar, vão acontecer e tudo ficará bem.

Se eu soubesse desenhar dentro dos dias seria a figura de mãe, de amiga, de irmã, de vó que eu pintaria e seria o quadro mais perfeito. Seu olhar encontra o outro e sempre enxerga a melhor versão e mesmo quando tudo parece perdido, o seu sorriso evoca a confiança que as pessoas precisam para acreditar.

No seu dia, essa carta é apenas um carinho para você que me oferece suporte em todas as horas em que perco a fé, em que me desanimo… Você sempre está lá, de abraço terno e coração amoroso me indicando a coragem para seguir.

Que tudo isso que você transmite, seja vivificado em você todos os dias.
Feliz Aniversário!

Te amo muito
Mariana Gouveia

Praticamos o nosso modo coffee talk…

Era aquela alegria conservada guardada em potes,
como a poesia da mãe
Tudo feito em desconcertos para consertar a alma.
Era como se tudo antecedesse o tempo
Por isso, em alguns dias difíceis
Ela ia lá no pote
Respirava a poesia
E com isso, conservava a alegria de viver.
Mariana Gouveia

Chegou o último dia de agosto… E minha carta hoje é para agradecer a você que esteve comigo nesse agosto diferente.  Tentei aqui te entreter com poesia, com minhas emoções. Conseguimos praticar o nosso coffee talk. Você esteve aqui, e a gente trocou mais do que poemas e histórias. A gente esteve junto. Mesmo em dias complicados ou não, você estava aqui com seu like, seu comentário e até sua quietude.

Em agosto, temos o Beda – blog Every Day – que acontece duas vezes ao ano, em abril e em agosto. É um desafio postar diariamente, mas também é muito gratificante ver o engajamento, tanto dos blogs participantes, quanto dos leitores fiéis do blog.

Nesse agosto, derramei aqui poesias, cartas, desabafos e histórias vividas por mim. Espero que você tenha gostado.

Setembro vem aí… e a gente logo pensa na tão falada canção de Beto Guedes – sol de primavera – que exalta a primavera e as boas novas:


“Quando entrar setembro
E a boa nova andar nos campos
Quero ver brotar o perdão
Onde a gente plantou juntos outra vez”

Mas, a canção que ficou mais gravada em mim, diante de tudo que escrevi para vocês em agosto, é a música da Vanusa, no refrão que ecoa agora:

Fui eu que em primavera
Só não viu as flores
E o Sol
Nas manhãs de Setembro

Eu quero sair
Eu quero falar
Eu quero ensinar
O vizinho a cantar

nas manhãs de setembro”

E é isso que desejo para você nesse mês que começa amanhã… que você cante e viva a vida, apesar de tudo que está aí.

Conto com você que esteve comigo aqui todos os dias e que possamos fazer com que a primavera seja vivificada dentro de nós… e que possamos fazer valer a frase da música de Beto Guedes que citei lá em cima:

Já choramos muito
Muitos se perderam no caminho
Mesmo assim não custa inventar
Uma nova canção
Que venha nos trazer
Sol de primavera
Abre as janelas do meu peito
A lição sabemos de cor
Só nos resta aprender

Aqui vai ser sempre um cantinho onde você terá seu lugar, independente de qual cidade do mundo pertença. Seja em silêncio ou comentando… vai haver sempre uma xícara de café te esperando.

Grata tanto!

Mariana Gouveia
Agosto é o mês de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia Leonardi Obdúlio OrtegaLunna GuedesRoseli Pedroso – Adriana Aneli – Darlene Regina

Para o caso de chover na tua rua…

Bambina mia,

Resolvi te responder, através dessa missiva, sobre limpar as gavetas em agosto. Acho que desde sempre, dentre todos os meus irmãos, eu sou a única que ainda segue alguns dos vários rituais de meu pai. E esse é um deles.

Para meu pai, agosto era o fim e o início de um ciclo. Era quando encerrava a colheita e preparava o solo para outro plantio. Ensacar a safra nova, retirar o que sobrou da colheita do ano anterior. Hora de limpar o paiol, trocar as sementes velhas pelas novas, fazer a queimada da área de roça de toco, mudar as coisas de lugar e isso, incluía a casa toda. Limpar as gavetas, os baús… trocar espelhos quebrados, coisas trincadas, roupas rasgadas… ceder espaço para coisas novas e boas entrarem.

A sua ligação com os santos sempre foi muito viva e se mantém até hoje e o último dia para toda essa “limpeza” era dia 24 de agosto, onde na folhinha marcava – e marca – o dia de São Bartolomeu. Nem sei se ele sabia da história e das lendas envoltas em torno do nome do santo, mas nesse dia, em todos os anos, era nossa data limite para tirar tudo que era velho, que não iríamos usar mais e começava um novo ciclo, porque nesse dia, independente do ano, chovia. Era a chuva da limpeza, da renovação e da temperança.

Até hoje, bambina, lembro-me do cheiro da terra molhada – depois de dias secos de outono – a exalar do chão. Parecia que a terra guardara o perfume para receber a chuva. A lavoura era preparada nesse dia, para no dia seguinte, abraçar novas sementes e outros rituais seguiam a ordem cronológica de quem plantava. Durante muito tempo, eu fiquei a imaginar como meu pai sabia dessas coisas, mas, depois, parei de querer saber e passei a entender e a continuar os rituais dele… e esse mês, repeti os mesmos gestos… limpei as gavetas e a alma ao longo dos dias de agosto. Não custa nada seguir o rito.

Hoje, na previsão do tempo, aqui na cidade, o rito é outro e não temos previsão de chuvas. Ao redor, a Chapada e o Pantanal queimam. Os resquícios dessas queimadas caem no meu quintal… o céu, está opaco, cinza, devido a fumaça das queimadas.

Não sei a previsão do tempo aí, na sua cidade, mas para o caso de chover na sua rua, molhe as mãos na água da chuva por mim.

Bacio,

Mariana Gouveia

Agosto é o mês dos rituais e de B.E.D.A
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Minha nossa estranha loucura

Por isso, preste atenção nos sinais –
não deixe que as loucuras do dia-a-dia
o deixem cego para a melhor coisa da vida: O AMOR.
Carlos Drummond de Andrade

A primeira vez que a palavra loucura atravessou minha vida foi ainda quando era criança. E a curiosidade assombrava-me os dias. Ela morava do lado da minha casa. Devia ter quase a mesma idade que eu. Os cabelos longos e os olhos medrosos através das cortinas, eu via sempre que dava pela fresta da janela.
Algumas vezes eu ouvia gritos rua afora. Mas até aí, nada demais. Meus irmãos gritavam várias vezes, todos num uníssono som, seja pela bola de gude perdida, seja pela pipa arrebentada, seja pelo gol perdido. Grito nem era sinônimo de loucura – argumentei várias vezes com minha mãe – Eu a achava normal. E a sentia leve quando nossos olhares se cruzavam no relance entre um bailar de cortina, ou do vento que parecia que ela adorava. Para que respeitássemos algumas regras havia sempre a rigidez das minhas irmãs mais velhas e a qualquer tumulto elas mencionavam chamar a menina louca. O que causava silêncio imediato entre meus irmãos. Eu mentalmente desejava que chamasse. Só não tinha coragem de admitir.
Nosso primeiro encontro de fato, aconteceu numa tarde em que por descuido meu, ou de minha mãe, o quintal me coube livre, sozinha. Silêncio ruminando nas ruas. Ela estava na beira da cerca de arame, que separava nossos quintais. Os braços abertos e o corpo rodopiavam ao som do vento. Um riso intenso no olhar. Parou tudo quando me viu. Eu e minha boneca Maricota, feita de tecido preto, cabelos grenhos e boca vermelha. Os olhos pararam no brinquedo que eu trazia sempre. E sem saber como e porque entreguei Maricota através da cerca. Os olhos ávidos e as mãos que ajustavam os cabelos da minha boneca de pano.
– Foi minha mãe que fez. Você tem boneca também? – arrisquei.
O sacudir negativamente com a cabeça me causou emoção e pena. Eu não podia imaginar alguém sem boneca.
– O que é ser louca? – na minha curiosidade de menina perguntei, já imaginando o resgate de Maricota entre as mãos dela.
– Você tem medo de mim? – e nos olhos dela eu vi a esperança de que eu dissesse não. E naquele momento não tinha mesmo.
– Medo não. Curiosidade. – vozes de mãe e irmãos que chamavam meu nome.
Voz de mãe que chamava por ela e Maricota que pendia a cabeça na entrega que ela fazia através da cerca. E eu deixando que ela levasse minha boneca de anos. E o riso dela agradecendo o gesto. E os lábios que murmuravam um “ amanhã eu te entrego”. E o vulto dela entrando casa afora. Um aceno de tchau que jurei ver entre as cortinas.
A primeira vez ensaiou outras vezes. Algumas, permitidas pelas mães que acharam que uma cerca de arame farpado não causava perigo.
Outras, no subterfúgio da noite onde dançávamos com o vento, cada uma no seu quintal. Rindo como se fossemos loucas, mas sabíamos que não éramos. Também ganhei a fama de louca por brincar com a menina que sonhava com o vento. De repente, as portas já não se fechavam mais, porque vivíamos na doce loucura de descobrir a vida. E isso, já não causava mais medo em ninguém.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês da amizade e de B.E.D.A
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Tentei escrever-te, sem sucesso…

“Meu corpo é um marasmo. E eu não posso mais escapar dele.”
Frida Khalo

My Lady,

Tentei te escrever sem sucesso por diversas vezes e no emaranhado de cartas por aqui me deparei com a última que ainda aguarda o endereço e por isso, não enviei e antes de rasgá-la leio e penso em uma frase que vi em uma série que acompanho: “não somos definidos pelo que acontece conosco, somos definidos como reagimos com o que acontece conosco.”

Separei o livro, alguns posters e uma boneca, tudo da Frida, porque sabia que ia gostar. Isso era para dizer que pensei em você e na menina laranja que encantava meus dias. Muitas vezes reembalei o mesmo pacote esperando um endereço que nunca veio e parei de perguntar enquanto o pacote foi ficando ali, em uma gaveta da cômoda e vez ou outra me esbarro nele.

Agosto é esse mês que devora minha alma e uso os dias para rasgar papéis esquecidos em gavetas, coisas que vou guardando como se fosse precisar um dia e justo hoje, precisei desse espaço da gaveta e desfiz o pacote. Vou dar um outro destino para a boneca – a menina da rua de cima, com certeza irá gostar – e os posters couberam em um envelope onde estão aguardando outra direção.

Achei tão simbólica a imagem de Frida em La Columna Rota e quando vi, percebi que cabia em seus dias e pelo seu fascínio com que iria adorar tudo. Imaginei que pudéssemos falar sobre ela e a frase que até falamos sobre um dia:

“Somos simplesmente essa amálgama de carne e de sangue. Só isso? Somos essa maravilha. Um corpo surpreendente onde se inscrevem todas as feridas.”


O papel de bolhas a proteger cada quadro foi estourada uma a uma e o “para que estou fazendo isso se juntou com a decisão de “não quero mais fazer isso” e mais uma vez a carta escrita foi amassada e rasgada como se nunca tivesse sido escrita e com ela a intenção do “estou aqui, se precisar”.

Eu acho que tenho saudades do encanto laranja que tanto fala sobre nós, mas hoje, ele é apenas o que se tornou: saudades.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês de limpar as gavetas e de B.E.D.A
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6 on 6 – Vícios

As paixões, quando mandam em nós, são vícios.
Blaise Pascal

O tema do 6 on 6 de hoje é vícios… Poderia falar sobre vários temas dentro da imperfeição que a palavra define. Considerado como ruim, a palavra derivada do latim vitium me levou por outros caminhos… Ouvi de amigos desde sempre sobre meus “vícios” dentro das coisas que gosto e me fazem bem e no fim, fazem parte de minhas paixões… estão preparados?

Xícaras… Mais do que a palavra café, um dos muitos vícios que tenho são as xícaras. Tenho uma infinidade delas, de variados tamanhos e modelos diferentes. A maioria delas foram presentes de amigas. Algumas, perdi após quedas ou estão esquecidas em alguma caixa ou baú… As das fotos são as que estão sempre à mão… seja para uso, ou expostas na estante.

Artesanatos… ainda menina aprendi o crochê e o bordado. Já adolescente, além da pintura, me apaixonei pela máquina de costura e seu poder de juntar retalhos e transformá-los em arte. Desde então, como artesã – acho que minha primeira profissão – passei a fazer vários tipos de artesanatos e esse é um dos “vícios” que me acalma, e me rende uma renda extra no orçamento.

Fotografia… sem dúvida é o “vício” maior que possuo… O meu quintal é o lugar preferido e os pássaros, joaninhas, borboletas, etc… os modelos preferidos. Onde estou, sempre tenho minha câmera – ou câmeras – comigo. E sim, eu ainda uso a velha Kodak, com seus filmes 35mm, e em sua maioria das vezes, em preto e branco. Costumo dizer que comecei na fotografia, mais por hobby e levada pelo problema de usar imagens de internet com seus direitos autorais e resolvi usar minhas próprias imagens. Sem nenhum conhecimento técnico, seguia apenas o impulso e apaixonei. Claro, que depois de um tempo fiz alguns cursos, aulas e aperfeiçoamento com leituras e estudos sobre fotografia, embora, as câmeras dos celulares hoje, ganham em imagem, nitidez e rapidez. Mas, eu ainda prefiro as fotos de minhas boas – e nem tão velhas assim – câmeras.

Cartas… esse é um vício desde a adolescência… escrever cartas. Adoro o cheiro do papel, a letra de quem envia… os envelopes coloridos e as palavras. O carteiro da minha rua já sabe dessa paixão e embora possa colocar a carta na caixa de correspondência, como faz em todas as outras casas, ele disse que prefere ver a alegria do meu olho ao pegar o envelope. Não sei explicar a sensação de abrir o envelope e ler… nem da emoção de responder uma carta recebida, seja de parentes dando notícias, ou mesmo de alguém do outro lado do oceano falando de poesia e mar…

E por falar em mar… as conchas marinhas me encantam. Mesmo sendo alguém que nunca pisou na areia do mar. As conchas chegam até a mim trazendo o barulho do mar e a poesia marítima – ser que sou – e oceânica que quero ser. É algo que não sei dizer ou explicar… sou quase maresia, mesmo sendo gente de rio e córregos.

E a caçulinha dos vícios – entre outros tantos menos danosos – as suculentas. De várias espécies e tamanhos e não couberam na fotos todas juntas. Passo horas inteiras cuidando, admirando e até conversando com elas. Há a preferida, a diferente, a comum – e ainda assim, magnífica – a mais nova, a que mais cresceu e a que precisa ser mais cuidada e no fim do dia, na leveza do tempo e no quintal, a observação delas.

Se você chegou até aqui, não diria que meus vícios sejam vícios… o chocolate – hummmm – o doce de leite da infância… e o café de todo dia cabem mais aqui, talvez… porém, a minha realidade caminha por atalhos diferentes e entre um gole de chá ou de café, essa sou eu.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês dos vícios e de B.E.D.A
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Entre o dia e a noite, há sempre uma pausa quebradiça…

Separo-me de ti nos solstícios de verão, diante da mesa do juiz supremo dos amantes.
(…)

Virás quando houver uma fala indestrutível devolvida à boca dos mais vivos. Então virás vivo também. Sempre esperei ver-te ressuscitado. Desiludiste-me.
(…)

Calo-me.
Reparei de repente que não estavas aqui. Pus-me a falar a falar. Coisas de mulher desabitada.

(…)

É a altura de escrever sobre a espera. A espera tem unhas de fome, bico calado, pernas para que as quer. Senta-se de frente e de lado em qualquer assento. Descai com o sono a cabeça de animal exótico enquanto os olhos se fixam sobre a ponta do meu pé e principiam um movimento de rotação em volta de mim em volta de mim … de ti.
Nunca te conheci – assim explico o teu desaparecimento.

(…)

Luiza Neto Jorge

O vulto na janela da casa 18 da rua de cima me intrigava e se hoje você for lá, não encontrará nada do que vou retratar porque entre o dia e a noite, há sempre uma pausa quebradiça e o silêncio habita atrás das cortinas. Porque silêncio é assim… se impõe e cria raízes onde a terra da solidão é fértil.

Era uma manhã escura dessas que não se costura com linhas. Lá fora, o pássaro agourento – segundo as lendas da minha mãe – grunhia como se isso fosse a missão dele. Depois disso, nada mais prestou – ela escreveu no diário que eu encontrei tempos depois no baú.

Havia vida ali, atrás das cortinas lilases e por algum motivo o riso se perdeu além das flores… a canção de amor perdido ficava no repeat o dia inteiro e estava escrita entre as notas feitas no diário, com caligrafia de quem treinou tanto as letras cursivas…

Cheguei a ver os olhos dela perdidos no nada… Um riso meio sem noção enquanto o cão latia denunciando minha presença e ela repetia o mesmo mantra de ontem-anteontem-trasanteontem – quero ficar sozinha…

De olho brando no carinho, lembrei a ela que estava ali… e ela dizia que não seguia regras – só os fracos seguem as regras… Os fortes, criam- nas… Morro de amor, e não te conto nada. Não falo das madrugadas insones, nem da falta que faz a cada dia. Dos meses que conto no calendário da cozinha, das plantas que arranquei sem mostrar. Porque essa saudade só diz respeito a mim… Escreva uma história, se preferir – e riu num quase sem voz e sumiu entre o esvoaçar das cortinas… Disse que a psicóloga falou que ela tinha um amor bonito. Cheguei a odiar essa psicóloga… devia ser a mesma que me trancou nos dias de confissão quando retratei meu mundo de amor.

Escrevi milhares de histórias depois disso… ainda continuo escrevendo sobre o amor e suas diversas nuances… Nenhum tempo é essa coisa de agora… Era Leonor seu nome, embora seus amigos e familiares a chamavam por outro nome. Mas, quando eu pensava nela era ternura que eu sentia e só de imaginá-la, era ternura que eu via.

Trocou a casa dela por aquela última da rua cheia de escombros e vive ali, na solidão que encontrei dentro do baú esquecido na casa 18 da rua de cima… sempre que passo por ali, ainda vejo um vulto na janela. Deve ser o fantasma do amor que ficou…

Mariana Gouveia
Agosto é o mês dos amores quebrados e de B.E.D.A
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É importante que continuemos a sonhar…

Querido Edi,

Durante muito tempo assisti seu aniversário como expectadora. Já conhecia os rituais que sua mãe seguia. Era sempre como se estivesse se preparando para uma festa – embora fosse mesmo uma festa o dia em que você nasceu.

Ela ficava contando as horas para quando o relógio movesse os ponteiros e trocasse o dia. Eu acompanhava isso e todos os desejos de bênçãos eram feitos e por isso, o dia de hoje – aí, já é 25 de julho – ficou em minha memória, assim como os dos outros seus irmãos.

Sei que está sendo difícil, mas quero, com essa carta, que seja menos dolorosa a lembrança. Em nossas conversas sempre tento dizer e reforçar o que ela mais queria: que você fosse feliz. Então, honre a vida que ela te deu fazendo de tudo para ser feliz. Ela acreditava muito em sonhos, então, é muito importante que continuemos a sonhar.

Eu o admiro muito e tenho na memória os dias em que ela passou aí com você. Essa foto foi enviada por ela… E com ela, simbolizo a beleza do lugar em que você vive com sua família.

Te desejo forças, te desejo paz e muitas alegrias. Criei um poema para você… Para que caiba em seus dias o homem extraordinário que você é:

Que os homens normais sejam extraordinários
e o extraordinário, poeta…

Que os homens normais sejam extraordinários
que o fardo pesado, leve

Que o vento te toque manso
o instante da dor,
breve

Que o comum, intenso
brilho
a rotina diferente, cada dia
que os atos de pai, irmão, marido, filho
de homem, de amor, amado
alegria

se transforme no riso entre gente
e os atos banais
raridade
e que tudo comum seja inerente
e teu coração
pleno de felicidade

Feliz aniversário!

Abraço carinhoso,
Mariana Gouveia

Hoje, o tempo…

1987 – a vontade de ser mãe fala mais alto no meu corpo feminino… Eu, semeadora que sou – quero gerar. Um amor que não posso medir começa a crescer em meu peito e a barriga traz a vida…

1988 – nasce um menino do signo de leão. Com a força habitada em seu decanato – embora, anos depois, ele ainda busque essa força. É o protagonista – mas precisa se reconhecer nisso – e dono de sua história… embora, eu saiba escrevê-la. Nasceu de mim.

Os anos são imensuráveis nos dias que ele cresce e os pés lhe dão a liberdade de ser o que quiser e ele quis… voou, pra longe do abrigo e foi ser.


2018 – entre idas e vindas, ele pegou mochilas, malas e foi… rumo ao destino que ele mesmo traçou… e  eu que fui ninho, fiquei vazia do “perto”. O menino voou, buscou lugares, amores e sonhos e eu, a limpar cabides vazios, quadros antigos nas paredes… os carrinhos da coleção ficaram ali, na estante, junto dos livros que não couberam na mala. Algumas camisas de time, a bola de futebol americano – que mofou – desgastada pelo tempo. 

2021 – Diante de minhas memórias hoje ele é tempo. Contado nos anos e nos dias em que passou a ser meu… meu filho e só quem é mãe entende esse amor.
Eu o ensinei a ter coragem… a lutar pelos sonhos e a respeitar as pessoas. O ensinei que se o caminho estiver errado, não faz mal nenhum voltar ao ponto de início. Era meu menino…
E o menino que realizou meu sonho virou homem e hoje, com a força habitada em seu instinto corre atrás dos seus.

Feliz aniversário!
Te amo imensamente!

Mariana Gouveia