Das rotinas · Mariana Gouveia

Trouxe flores para você

Fiquei grávida de poesia depois de te amar. Há dimensões de vida inteira florindo no quintal.
O cheiro de terra molhada perfuma o quarto. Não sei se era o desejo maior ou se era fome de uma eternidade – esse meu sorver da vida – que aflora e vira flor.
A latitude inteira cruza meu quintal. Te dou o canto do beija- flor no meu bom dia.
Mil beijos despedindo rotinas desavisadas.
O som do piano nas figurinhas extraordinárias embala o nascer de mais poesia. Nascerão todas entre o agora e o depois.
E entre a paixão e a felicidade plena, trouxe flores para você.

Mariana Gouveia

Mariana Gouveia · Todas as ruas

Acho que gosto de São Paulo…

A primeira vez que fui em São Paulo foi em 2005. Fui participar de um evento e fiquei poucas horas. Vi São Paulo de relance, entre os vidros da janela do ônibus e não foi amor à primeira vista.

Em 2015, quando vi São Paulo do alto eu apaixonei. Eu ficaria horas vendo aquela imensidão e vi São Paulo com olhos de paixão. A cidade me acolheu e me fez sentir em casa e fui guiada pelas ruas e calçadas como se fosse um primeiro amor.

Fui acolhida como se já tivessem me esperando, com mesa posta, sorriso largo e abraço aconchegante. As ruas eram extensões do meu quintal e as pessoas sabiam-me em amor. Me vi dentro das canções que retratam a cidade e vivi as melhores emoções nas noites da cidade.

Voltei mais vezes – algumas até – e revivi tudo de novo e o amor e a intimidade foi aumentando. Eu amo a cidade pensando nas pessoas que enfeitam meu olhar pelo ângulo dessa imensidão que é São Paulo.

469 anos e São Paulo vive suas contradições e seus afetos e sei que muitas outras vezes, vou olhar a cidade do alto, de perto, de pé no chão, nas ruas e no coração dos que amo e vou voltar como se nunca tivesse partido.

Mariana Gouveia

De todas as estações · Marítima · Mariana Gouveia

tua voz há de ecoar eu te amo como quem sonha

Ph: Tumblr

Nascia uma árvore no quintal. Abracei o vento como quem dança valsa na vida. Os pés alados atravessam o oceano a nado. O corpo, essa sede de toque, quase súplica para o desejo. Apenas o resquício de uma vontade que já foi. Pedindo voz para dentro do beijo. Alguém me disse que o amor nascia hoje, pelo riso dado e as declarações feitas. Lembrei-me da diferença da estação. A meteorologia e sua fúria em errar as previsões. As palavras do dia – lá, naquele passado estranho – revividas em contagem regressiva para desejar o amor e tua voz há de ecoar eu te amo como quem sonha e minha delicadeza comerá ternura dentro dessas palavras. Nascia a sorte nas cartas lidas, nos símbolos onde o coração foi rabiscado nas paredes tortas, nos trevos de três folhas mesmo com uma joaninha a dançar na folha. Quando os poros irreconciliáveis, com a pele que implora toque no braço que se abraça e a distância dita – quase nenhuma – entre o som do riso e a voz. Dentro da curva da noite, a chuva – na gota – coincidência do nada entre o nascer do amor aconteceu o mar.

Mariana Gouveia

Do lado de fora

Lembrei-me de ti hoje

Ph: Pinterest

Lembrei-me de ti hoje
E por mais que eu queira
Não consigo esquecer-te
Porque ainda ouço
As nossas canções
As que tu fizeste para mim
Amava-te sem que soubesses
Mas sabia que me amavas também
Isso eu via nos teus olhos
Sempre que olhavas para mim

Luís Rodrigues Lobo
In, Dádivas

Das palavras das cartas · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

Para além dos dias de afeto

Mary,

já faz tempo que quero te escrever e por acaso, nessa data tão especial – o dia em que seu pai completa 80 anos – pensei que seria o dia. E para além das tardes de afeto eu venho agradecer e declarar meu carinho.

Tenho acompanhado as fotos de sua viagem com sua mãe e cada foto me atravessa a alma e meu coração se emociona com o brilho nos olhos de vocês. Engraçado pensar que nunca te abracei e te sinto tão parte de minha vida.

Lembro-me de sua acolhida ao meu filho na primeira mudança para o Rio. E de como sua família o acolheu e o protegeu em tantos momentos. Sou pura gratidão, Mary. Nem conseguiria expressar em palavras. Fico grata pelo universo ter colocado você no caminho dele. Seus pais foram de uma generosidade sem tamanho e você, de uma ternura imensa comigo.

Depois disso, a internet nos uniu e vi seu filho crescer através de fotos, vi você se formar, acompanhei seus passeios, aprendi a amar seus bichos e fiz parte de suas lutas, sua indignação e vibrei com seus momentos felizes.

Sempre quando penso em você, meu coração se enche de carinho e hoje, mais do que nunca, meu carinho abrange os oitenta anos de seu pai. É um privilégio viver isso, Mary! É uma benção, na verdade, assim como também é uma benção você levar sua mãe pela mão e viver tantos momentos lindos juntas.

Mary, sei que ainda vamos nos abraçar de verdade e vou poder demonstrar meu afeto para além dos dias. E sei que você também quer isso, e como eu te disse uma vez que quando duas Marianas têm a mesma opinião sobre determinado assunto, vira deixa de ser decreto, vira lei.

Que esse dia seja especial para além de aniversário, mas que seja muito mais por causa dele. Que seu pai seja inundado pelo seu amor de filha e que sua mãe seja para você o exemplo de ternura.

Meu abraço cheio de gratidão a vocês.

Mariana Gouveia
Projeto Blogvember – Scenarium Livros Artesanais
Participam juntos comigo: Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins
Ph: Mary Bernadi – arquivo pessoal

Divã · infinitamente · Mariana Gouveia

Tem jeito de anjo, a moça

mas passou a ser indecente
olhar perdido nas nuvens
Resolve ser na mão de alguém

Vivendo doces mentiras do dia,
na noite se fantasia com asas
e pensa em salvar o final feliz da história.

Enclausurada, lá pela meia noite tira a roupa
Traz sempre um cheiro de rosas
(anjo cheira a nuvens – eu acho)

exala amor novo
Sabe ser quente
sabe ser porto – ela diz

e no conto de areia de água doce disfarçada de mar
quer um final feliz.
Satisfazendo os desejos dela dou-lhe o céu e fim

Mariana Gouveia
*imagem: Kamil Vojnar

Mariana Gouveia

Feliz dia do professor!

De todas as sortes que tive, havia sempre um professor(a) que estava comigo. Até quando eu pensava que chorava dores de amor, tive uma voz, um amparo, uma seta que me indicava o caminho.

Tive e tenho mestres que são mais do que mestres. São amigos que por fim, me orientam e ensinam a fé, perseverança, esperança, equilíbrio e coragem.

Muitos me ensinaram as letras, adjetivos, e tantas coisas que vão além do plano educacional. Mas, também aprendi que a educação transforma e que os professores vão muito mais do que uma profissão… Ser professor é uma missão e nos tempos atuais, é uma guerra. E vão à luta todos os dias, mesmo com todas as adversidades que uma guerra apresenta…
Hoje, vocês, professores, são mais importantes do que nunca.

Muito obrigada por tudo!

Mariana Gouveia
Ph: Pinterest

Mariana Gouveia

Carta para ela…

Minha irmã querida,

Às vezes, me pego revirando as lembranças… lá dentro delas está você e seu jeito único na dimensão do amor… e confesso que nesse tanto de tempo que já vivi, conheci poucas pessoas com um amor tão grande pelos outros como você.

Não me lembro de você que não seja sendo mão, amparo, equilíbrio, conforto, cuidadora e vó… sua melhor versão, toda derretida e com o amor derramando nos olhos. E sua voz sendo prece é sempre a certeza de que as coisas vão melhorar, vão acontecer e tudo ficará bem.

Se eu soubesse desenhar dentro dos dias seria a figura de mãe, de amiga, de irmã, de vó que eu pintaria e seria o quadro mais perfeito. Seu olhar encontra o outro e sempre enxerga a melhor versão e mesmo quando tudo parece perdido, o seu sorriso evoca a confiança que as pessoas precisam para acreditar.

No seu dia, essa carta é apenas um carinho para você que me oferece suporte em todas as horas em que perco a fé, em que me desanimo… Você sempre está lá, de abraço terno e coração amoroso me indicando a coragem para seguir.

Que tudo isso que você transmite, seja vivificado em você todos os dias.
Feliz Aniversário!

Te amo muito
Mariana Gouveia

De todas as estações · Mariana Gouveia

Era primavera em qualquer lugar

misturou riso com lágrima
comprou coisas pela net.
rasgou a renda da saia
atendeu um moço que pedia água
fazia tempo que ninguém pedia água pra ela.
Era quase despejar o que chorou no copo.
Lembrou qualquer coisa da infância.
A lembrança fez qualquer coisa de grito dela.
redemoinho e nuvens vasculham o céu.
espalhou as flores no outono. Era primavera em qualquer lugar.
A dor veio de novo e deu as boas vindas.
Afinal, eram companheiras inseparáveis.

 

Mariana Gouveia
Agosto é o mês de todas as estações e de Beda
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura – 
Suzana Martins – Roseli Pedroso
imagem: Elisa Lazo de Valdez

 

 

Mariana Gouveia

Até que um pássaro me saia da garganta

“Horas, horas, sem fim,
pesadas, fundas,
esperarei por ti
até que todas as coisas sejam mudas.

(…)

Até que uma pedra irrompa
e floresça.
Até que um pássaro me saia da garganta
e no silêncio desapareça.”

Eugénio de Andrade

Eu esperei muito antes de escrever, mas descobri que só colocando as palavras para fora essa solidão dolorida caiba em algum canto. Já te disse que desde ontem eu estou me sentindo estranha e que mesmo que busque dentro de mim o motivo ele foge como se fosse ágil demais para essa letargia que sinto.

Foram poucas vezes que senti essa imensa vontade de chorar. Você sabe que as emoções, pra mim, sempre vem em camadas e que na maioria das vezes consigo atravessá-las sem maiores danos… mas ainda não vou chorar hoje… O dia afinal, será amanhã… Amanhã vou chorar até que um pássaro me saia da garganta, tal qual o poema do Eugénio… hoje, serei apenas essa vontade desavisada de que posso esperar mais um dia… o dia em que estarei só e ninguém poderá perguntar o motivo.

Por hoje apenas espero a lua caminhar no céu enquanto o cheiro de ervas exalam no quintal e brisa suave invade a noite… Por enquanto, hoje apenas repito seu nome como quem canta uma canção.

Mariana Gouveia
fotografia: Pinterest