Diário das quatro estações · dos diários · Livros · Missivas de Abril · Scenarium Livros Artesanais

Era uma vez, assim

Tem a flor estampada no vestido, o mês e seus dias de chuva atrapalham a visão da Lua. A rua de cima tem uma canção no repeat. Escrevo cartas pela metade. Folhas inteiras de frases inacabadas. A sensação de falta de ar no limite. O vento arrisca pela cortina e a solidão é esse emaranhado de ciclos repetitivos. A rua de cima tem dias de vazios nas árvores — cabia a brancura em qualquer canto — e as nuvens em espiral causando a plenitude do céu. Era uma vez, assim, a vontade de ser. Tem dia em que as histórias ficam sem o final.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
Scenarium Livros Artesanais

Das rotinas · Mariana Gouveia

*a fabricar tempestades particulares 

Ph: Ziqian Liu

Choveu em uma tarde banhada de sol enquanto eu lia meu diário. Rabisquei algumas palavras mudando o sentido das coisas. Depois reguei as flores que não receberam as gotas da chuva.

Depois de dois convites para sair – que recusei apenas com resmungos – fui andar descalça no quintal enquanto Ed Sheeran tocava no repeat. Às vezes, minha solidão precisa da companhia de canções. Desfiz o naperon de crochê – errei na cor da linha – e recomecei do zero. Já reparou que, às vezes, o zero, é um começo?

Marte em sua melhor presença segue a lua em seu quarto crescente ou seria ao contrário? Fico pensando se é ela que ronda as estrelas em busca de companhia. Aprendi o nome de uma planta que nasceu no quintal sem que eu tivesse as sementes. As sombras invadem as janelas abertas enquanto minha mão fabrica chuvas nos vasos que ficam dentro da varanda.

Guardo as fotografias em preto e branco dentro do diário em uma data preferida. No coração, trovoa. Enquanto penso em coisas que eu gostaria que acontecesse começa a tempestade no interno de mim. Alerta vermelho de explosões vulcânicas na alma.

Mariana Gouveia
*frase do poema de Egito Gonçalves

Do lado de fora · infinitamente

*Ikigai

Ikigai é um termo japonês criado para dizer a razão de existir.
Os japoneses acreditam que todo mundo nasce com um dom.
Uma coisa que você sabe fazer. Seu potencial.
Você descobre que você sabe fazer aquilo. E que você gosta de fazer.
Isso se transforma em uma paixão.
E se você se dedica muito à sua paixão e você desenvolve uma forma
de ganhar dinheiro. Isso se torna uma profissão.
Mas, você tem que encontrar uma forma de fazer com que o mundo precise do que você faz, ou pelo menos, uma grande parte dele.
Essa é sua missão.
Quando você descobre a sua missão você descobre a sua razão de existir.

Ken Mogi



1992.
Você encontra o Botafogo. Não é clichê. Você não escolheu.

1999.
A todo custo você tenta escrever. Mas, é impossível, talvez devesse fazer outra coisa. Com 11 anos você descobre que fracassou pra isso.

2003.
15 anos. Você sonha com o Rio de Janeiro. Quer sair, desbravar o mundo. Tá no colégio, as coisas na ponta do lápis. Um sonho, de criança né? Como eu vou parar no Rio de Janeiro? Talvez de férias. Talvez indo de ônibus. Nunca vou pisar em um avião

2008.
20 anos. Você num ônibus e sai da casa dos pais. Deixa pra trás a família, o conforto, a paz. Você não sabe o que vai rolar. Todos esperam que você falhe.

2009.
Você faz do poker teu sustento, decide suas horas, aprende a desafiar os outros, você contra os outros. Você contra você.

2009.
Sala fechada. Entrevista. Você descobre que seu próximo salário é de R$ 465,00. Vai trabalhar debaixo do sol, dia todo. Cidade nova, Rio de Janeiro. Seu aluguel é R$ 250,00. E você vai. E chega em casa sem conseguir respirar, o cansaço te leva tudo.

2012 – 2016.
Você não entra no avião uma vez, mas várias. Infinitas vezes. Aprende a voar. Não, esquece, é figura de linguagem, não pula de canto algum não. você realmente sai do chão e conhece lugares, Curitiba, São Paulo, Porto Seguro, Brasília, você só descobre que tem o mundo. Pessoas.

2016.
4 anos em Cuiabá, após um retorno inesperado. demitido. Um erro, mas será que cometi ele?

2018.
De volta ao Rio. 6 anos longe. Mas tua alma não sai daqui. Teu coração se encanta com o ritmo, o caos, a bagunça, o trem lotado. (Mas você não precisa andar de trem lotado todo dia).

2021.
Sozinho. De frente pra igreja, no frio, na doença, na luta, você e você mesmo. As tatuagens surgem, o brinco, você percebe que ainda não confia em você mesmo.

2022.
Não consegue enxergar de onde veio. Da luta. De quanto errou, achando que podia ser perfeccionista, mas só aprendeu quando errou. Você não percebe que o sonho de voar, que usar o baralho pra você, que se mudar, que morar sozinho, eram teus objetivos mais impossíveis. E ainda acha que não pode dar o próximo passo.

30/11/2022.
Você percebe que tá só começando e vai fazer muito mais.

Lauro Gouveia
Rio de Janeiro

Das palavras das cartas · Efeito borboleta · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

Aos cuidados do meio-dia…

Ph: Ziqian Liu

Helena,

Eu deveria te escrever com meu vestido de poás laranja e assim, atravessar esse oceano e te contar coisas do meu quintal. O sol do meio-dia se impõe e hoje, parece mais quente que os dias normais. O vestido dá lugar para o conjunto de short e camiseta e nem vou te falar sobre poás.

Ou talvez vá… a borboleta laranja que voa aqui, parece ter poás nas asas – claro que isso é imaginação minha – e veio essa semana toda. Lembrei-me de um poema de Graça Carpes: “Tenho o tempo das borboletas. Uma semana, é uma vida” e eu fico pensando se é a mesma que veio todos esses dias ou se a semana dela já passou.

Não sei se te contei sobre o vento morno daqui e se na densidade das horas a vida é igual para você. O calendário parece acelerado. Foi ainda a pouco que retirei a folhinha de ontem e o hoje já é quase amanhã. Será que passaremos a ter o tempo das borboletas? Amanhã já é dezembro, Helena! E daqui a pouco, já estarei escrevendo para o novo ano.

O dia ganha contornos laranjas no meu quintal e leio sobre pássaros em poemas que não escrevi enquanto meu pássaro de todo dia vagueia por aqui. Ele se coça e uma peninha se solta. Isso me dá uma ternura imensa. Lembro de você e do seu sorriso quando te conto histórias sobre ele.

Sabe, Helena, os meninos da rua de cima já correm atrás de pipas. Os cães latem enquanto um dos meninos tenta roubar a pipa do outro. Já fiz muitas pipas para eles em outros tempos. Até hoje, há um esqueleto de uma que fiz presa no fio de alta tensão.

As sombras já contornam o pé de ipê e já invade minha janela. Alguns raios do sol atravessam as telhas e formam uma luz difusa na minha cozinha. A vida tem essas coisas mínimas no dia da gente. Um voo de borboleta, um pouso de pássaro, uma nuvem em forma de coração, uma folha que cai e às vezes, nem reparamos nos instantes de ternura. Você tem reparado nas ternuras daí, Helena?

Um beijo meu,

Mariana Gouveia
Projeto Blogvember – Scenarium Livros Artesanais
Participam juntos comigo: Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins

Das palavras das cartas · infinitamente · Lunna Guedes · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

Queria ver se chegava por extenso, ao contrário

força e pulsação e graça,
isto é: a luz, de dentro,
despedaçando tudo,
e concentrada:
estrela.
Herberto Hélder

Lunna, bambina mia, amore… 

Não importa qual nome te chamo ou em qual letra me declaro. Cursiva? News time? De lápis? Caneta?Eu te pinto com palavras. Em cores minhas-tuas-nossas. Muitas vezes, começa no azul do meu céu, com minhas manhãs calorentas… Em outras, no ocre das folhas que encontra em seu caminho, no verde da árvore – já minha, de estimação – que você me entrega na visão de sua janela.

Eu te escrevo amor, bambina e te escrevo por extenso, gigante dentro de mim. Te escrevo lunar – Lunna tu – em canções onde repito e repito seu nome.
Te escrevo força. Da pessoa que se mostra no abraço.  Na tempestade que se anuncia no meu céu, nos trovões que transpassa a alma e o cuore.

Te escrevo pulsação. Do cuore. E no pulsar das palavras te descubro missiva. Dessa de envelope único, de entrega imensa quando ama. De palavras que atravessam tempos e se esparramam em cadernos.

E assim, te leio. Única! Absoluta. 
Tão menina, às vezes, tão mulher em tantas. 

Nas minhas manhãs, a sua risada é sinfonia que ouço ao som do vento no meu quintal. Mas às vezes, é apenas o aconchego de uma quietude quando te sei aí, dentro dos seus silêncios.  Esse dia eu nem preciso marcar na folhinha. Ele é tão seu e por isso, minhas palavras te abraçam nesse ritual nosso.
Você é o poema que me alcança, você é a ligação de pessoas tão lindas para mim e io te voglio bene!

Auguri!
Bacio,
Mariana Gouveia
Projeto Blogvember – Scenarium Livros Artesanais
Participam juntos comigo: Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso Suzana Martins

Das palavras das cartas · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

Aprendi com as palavras

o que não consegui com as asas:
voar!
Suzana Martins – In Versus

Ph: Tumblr

Sandra, minha querida,

desde quando a borboleta nasceu no seu lugar que eu queria te falar sobre voos – esses, pelos quais você me leva por seu lugar.

Você sempre me leva os teus voos, sejam de asas ou de palavras. E me faz voar com as canções. Por sabe que as melodias também me fazem voar para além dos momentos. Sabe, Sandra,

Você me leva pelas ruas de Paris, pelas vielas do seu lugar e faz com minhas palavras sejam asas por onde anda. E nas minhas manhãs, você me faz voar por jardins, dentro do aconchego das imagens que me envia. Me faz voar com sua arte e com a magia que transmite através dela.

Dentro dos voos que traz vejo o lírico na singeleza das coisas. É como se você me levasse como expectadora dos seus voos, nas manhãs dos seus dias e isso, Sandra, transcende o comum. A sua janela se abre para mim e seu jardim se une ao meu… o seu céu se liga ao meu nesse voo de ternura única e às vezes, é só uma palavra, um bom dia, uma imagem.

Mas, sabe, Sandra? Quem oferece tanto carinho assim, sabe voar, mesmo que em terra firme e quem estende a mão com flores, sabe voar mesmo que não tenha asas.

Grata por me permitir voar com você para além das asas!

Beijo meu
Mariana Gouveia
Projeto Blogvember – Scenarium Livros Artesanais
Participam juntos comigo: Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins
Ph: Sandra Silva – arquivo pessoal

Das palavras das cartas · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

Para além dos dias de afeto

Mary,

já faz tempo que quero te escrever e por acaso, nessa data tão especial – o dia em que seu pai completa 80 anos – pensei que seria o dia. E para além das tardes de afeto eu venho agradecer e declarar meu carinho.

Tenho acompanhado as fotos de sua viagem com sua mãe e cada foto me atravessa a alma e meu coração se emociona com o brilho nos olhos de vocês. Engraçado pensar que nunca te abracei e te sinto tão parte de minha vida.

Lembro-me de sua acolhida ao meu filho na primeira mudança para o Rio. E de como sua família o acolheu e o protegeu em tantos momentos. Sou pura gratidão, Mary. Nem conseguiria expressar em palavras. Fico grata pelo universo ter colocado você no caminho dele. Seus pais foram de uma generosidade sem tamanho e você, de uma ternura imensa comigo.

Depois disso, a internet nos uniu e vi seu filho crescer através de fotos, vi você se formar, acompanhei seus passeios, aprendi a amar seus bichos e fiz parte de suas lutas, sua indignação e vibrei com seus momentos felizes.

Sempre quando penso em você, meu coração se enche de carinho e hoje, mais do que nunca, meu carinho abrange os oitenta anos de seu pai. É um privilégio viver isso, Mary! É uma benção, na verdade, assim como também é uma benção você levar sua mãe pela mão e viver tantos momentos lindos juntas.

Mary, sei que ainda vamos nos abraçar de verdade e vou poder demonstrar meu afeto para além dos dias. E sei que você também quer isso, e como eu te disse uma vez que quando duas Marianas têm a mesma opinião sobre determinado assunto, vira deixa de ser decreto, vira lei.

Que esse dia seja especial para além de aniversário, mas que seja muito mais por causa dele. Que seu pai seja inundado pelo seu amor de filha e que sua mãe seja para você o exemplo de ternura.

Meu abraço cheio de gratidão a vocês.

Mariana Gouveia
Projeto Blogvember – Scenarium Livros Artesanais
Participam juntos comigo: Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins
Ph: Mary Bernadi – arquivo pessoal

Das palavras das cartas · infinitamente · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

Entalhadas nas nervuras do corpo

ser — semente — flor
 Nirlei Maria Oliveira, As estações

Flor,

lembra-se que eu te chamava assim e seu riso disfarçava o brilho no olho? Às vezes, acontece da gente se perder no meio do caminho. Uma vez, você disse que os atalhos é a melhor parte de uma viagem. E que de alguma forma, foi um atalho que nos ligou. Mas e o fim do caminho, flor?

Sabe, flor, nós fizemos das sementes, flores… essas coisas que o jardineiro cuida do jardim para ver os voos das borboletas. Você nem acreditava que elas pousavam em minhas mãos. Precisou atravessar um oceano inteiro para descobrir, que por acaso, o meu jardim é um borboletário e um portal para magias – isso foi você quem disse – e fatos extraordinários.

Lembra quando uma ave pernalta, típica do Pantanal veio pousar no telhado da vizinha e ficamos horas a fotografar as poses? Foi no dia da tempestade – quase particular para você – e o céu ficou quase cinza e você se encantou pela singularidade que as coisas aconteceram.

Foi naquele dia que o jardim virou poema e lemos Maria Teresa Horta em idiomas que sabiam sabor a mar. E eu acreditava que você era a maresia. Fiquei repetindo mantras como se fossem poesias e o vento da tempestade a te envolver como se você fosse a própria tempestade e o pássaro lá… no telhado e eu temendo os sinais de nunca mais.

Flor, quer café? O que você quer, flor? E o jardim se confundia com a palavra e a rosa se confundia com a pétala e a pele. Esse foi o dia em que caí da escada… eu poderia marcar cada um dos quinze dias como se fossem cem e chega finalmente o dia em que podemos denominar o fim… e alguém canta uma canção antiga como trilha sonora e as sementes começam a brotar.

E a avião ganha contornos de céu e para quem vai e quem fica o vão das coisas ficam como ponto final e o 3452703 e mais alguma coisa fica mudo. As cartas ficam registradas como recebidas e as respostas vagas – o meu amor era mais bonito que o seu… a especialista disse – e às vezes, por compaixão repetia a frase da canção de Caetano – de perto ninguém é normal – e foi quando comecei a contar até mil… até que você dissesse alguma coisa.

Depois, chegou as sementes em envelopes pardos sem endereço e plantei. As rosas e os cravos vingaram todos, mas a papoula só deu uma flor e morreu… foi quando a insônia veio morar aqui, inquilina da noite. Mas, sabe, flor, o que a noite me reserva em noites de insônia? As rosas com suas nervuras tatuam sombras em minhas pernas e eu flutuo. E todos os dias amanheço no jardim chamando seu nome.

Mariana Gouveia
Projeto Blogvember – Scenarium Livros Artesanais
Participam juntos comigo: Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso Suzana Martins

Das palavras das cartas · do verbo voar · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

e mil orações aos céus

para a vida apagar de uma vez
Flávia Côrtes – As estações

Cris,

lembra quando eu te disse sobre o círculo de vida da libélula? Acho que nesse dia eu toquei sua tatuagem como se quisesse te dar asas. Você é esse encontro de vida e de almas de outros tempos. Acho que te reconheço de outras vidas. Essa sua mão já tocou a minha em infinitas vezes quando quase todo mundo soltou. Mas, você se encanta pelo ser que voa. Quase um dragão de asas. Fui até estudar a vida delas, Cris.

Há três estágios de vida e nem vou me atentar aqui, Cris, na nomenclatura que a biologia explica. Eu quero apenas te associar a elas, já que você ama tanto essa fada que voa. Eu te disse e acredito que elas sejam fadas, mas isso, é apenas a parte lúdica de nosso carinho.

Ovo, ninfa e adulto… esses fatos e ciclos devem ser explicados em sua aula de biologia, Cris, aqui no meu quintal, eu as protejo do siriri – um pássaro lindo, mas que fica atento aos bichos que voam – e vez ou outra, me pego chorando quando vejo ele com uma para além dos muros, no fio de energia elétrica, no bico.

Confesso que fico rezando para que elas nem sofram e que ele – o pássaro – cumpra sua função de predador e a vida delas apaguem de uma vez. Fico pensando se é a que pousou em meu dedo horas antes.

Depois, Cris, te ligo e me conformo com as etapas da vida e a velha frase de que tudo acontece ao seu tempo: nascer, viver e morrer… o extraordinário acontece quando a gente menos espera na metamorfose. Tudo se reconstrói, Cris… a gente só não sabe como…

Mas sabe quando me reergo e me vejo capaz de seguir em frente? Quando teu olho me alcança e nele vejo as mil possibilidades de viver. Seja em asas, em voos ou simplesmente, em uma metamorfose.

Te amo sempre,
Mariana Gouveia
Projeto Blogvember – Scenarium Livros Artesanais
Participam juntos comigo: Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins
ph: Mirjam Appelhof

Das palavras das cartas · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

As memórias ficam suspensas dentro de mim

Como se fosse roupa
guardada no armário,
os cabides segurando as alças,
s memórias ficam suspensas
dentro de mim
Mariana Gouveia – As estações

Paty querida,

quando penso em você as minhas memórias se voltam para minha mãe costureira. É como se você colocasse o fio na agulha e puxasse as lembranças e elas me levam à Outras costuras.

A linha, a agulha, o tecido, os pontos… tudo foi me ligando a você e quando veio a pergunta sobre o que significa bordar e costurar, as respostas de quase todas as meninas foram as lembranças de mães e avós. Eu vivi doçura ali, Paty e mergulhei nos tecidos guardados. Nesse dia, eu fui costurar, lembro-me bem.

Eu já te contei que minha costurava e bordava? Mas, antes disso tudo, minha mãe parecia uma alquimista, daquelas que são personagens de livros. Nas sextas-feiras de lua cheia minha mãe nos levava para a floresta adentro, e ali, colhia as folhas de determinadas árvores. O angico, a aroeira, o mogno, o cedro e outras espécies “cediam” suas folhas/galhos/cascas e alguns frutos para nós.

O ‘ceder” era quase um pedido de oração e desculpas. Havia um ritual a seguir e assim, a floresta era a doadora dos restos de seus galhos/folhas/cascas e voltávamos com os cestos cheios para casa. No dia seguinte, o caldeirão era colocado no fogo e cada espécie tinha um tipo de procedimento para tingir os fios.

Depois de colher o algodão, Paty, a minha mãe tecia em uma roca o fio. O varal ficava lindo de ver as nuances de cores se formando depois do tingimento. Só depois de dias secando é que o fio virava tapeçaria/roupas/linhas. A organza ganhava a tonalidade creme depois de envolvida na água das cascas de cebolas e assim por diante. E meu vestido de bolinhas era feito na velha máquina Singer, assim como as roupas dos meus irmãos.

Por várias noites, minha mãe se debruçava sobre a máquina para costurar. Dali, saía as nossas roupas, os lençóis de linho bordados para enxovais das minhas irmãs e das meninas da redondeza. E as colchas de retalhos feitas com as sobras de tecido nos aqueciam em noites frias.

Foi ali, ao pé da máquina, enquanto minha mãe costurava que aprendi a bordar. Seguindo os riscos que ela mesmo criava e só depois, através dos livros do Instituto Universal Brasileiro, que chegavam pelos correios que desenvolvi a arte da costura e dos bordados.

Eu quis dividir com você sobre isso, porque assim, costuro minhas memórias às tuas e juntas resgatamos momentos queridos. Paty, eu te gradeço por me permitir esse instante. Faz tempo que eu queria te contar essas coisas e de como Outras costuras toca meu coração. Os pontos alinhavados no aconchego que sinto quando penso em você. É assim que a gente borda a amizade.

Abraço carinhoso
Mariana Gouveia
Projeto Blogvember – Scenarium Livros Artesanais
Participam juntos comigo: Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins