dos diários · Mariana Gouveia

Eu…

Eu, aos quatro anos na floresta encantada, andando com meu pai vendo um bezerro nascer, a comer uma fruta do conde e a olhar para a minha mãe, tão suave parecendo moldura de quadro, na janela da casa a sorrir.

Eu aos seis anos, com uma boneca de pano rasgada, a perguntar à minha mãe se ela morreu e se vai para o céu como os tios que já morreram.

Eu aos nove anos, com um cogumelo na mão entrava pela primeira vez na floresta adentro, cortei o dedo com o canivete e meu sangue se misturou à terra vermelha e fui batizada pela natureza, é o meu aniversário, estou feliz e as velas do bolo eram as estrelas no céu, e meu pedido era de que a poesia em que eu vivia preenchesse minha vida até o fim dos dias.

Eu aos treze anos sentindo a brisa no rosto, o sol do outono queimava a pele quase numa caricia, havia lido cartas de amor e sentia um fio de sangue quente e a voz da minha mãe a dizer-me que é assim mesmo, filha, agora já és uma mulher.

Eu aos quinze ano era coroada rainha da festa da cidade onde nasci, vestia o vestido bordado por uma fada e todos os olhares me fazia querer fugir e eu sem saber o que fazer. Via meu mundo mudar e a mãe ir para onde os tios já haviam ido e perguntava onde está minha boneca de pano e o cheiro da floresta e meu esconderijo de criança?

Eu aos vinte e um anos, recém-casada, a perceber que a vida real não era o conto de fadas, os pés inchados e a chuva súbita… um filho a crescer dentro de mim e a morte a tomar e eu a me perguntar se minha mãe o recolhia e cuidava dele pra mim.

Eu aos vinte e três anos mãe, a respirar comigo um menino que tinha olhos brilhantes e me fazia acreditar que havia um céu na terra.
Eu aos trinta anos num automóvel, morria de medo de dirigir e enquanto corria por medo de perder o ônibus a minha vida corria comigo, tal e qual como dizem que acontece a quem morre de repente ou ver um rio na tua frente e não sei nadar. Sinto o vento na cara, escrevo algo na janela, respiro e escrevo poesias…

(eu ainda escrevo poesias).

Eu, aos 43 anos descubro uma dimensão onde ela vive e passo a viver do mesmo ar e da mesma sintonia, me derramo em poesias e percebo que pra ser feliz é preciso pouco.

Eu, aos 46 anos volto ao mesmo lugar de antes, o lugar das poesias que revisitam meus sonhos e vejo que é o mesmo amor e há certa fascinação pelo abismo que é onde estou de pés no chão, prontos pra voar.

(e eu ainda escrevo poesias) …

Eu, aos 48 anos reparo que as rugas redesenham meu rosto e que alguma coisa sempre dói quando me levanto. Ainda não tenho netos. Visito a floresta de vez em quando. Vasculho as flores em busca de vidas mínimas, descubro que gosto mais de mim agora.

(eu ainda escrevo poesias, mas que para isso preciso de encantos).

Eu, aos 57 anos, ainda tenho muitas perguntas sem respostas – também tenho muitas respostas para algumas perguntas. Ganhei uma neta e um neto de coração. Ainda me encanto com as vidas miúdas, ainda sou dominada pelos animais.

(e ainda escrevo poesia – mesmo que o encanto não seja o ponto principal.)

Mais do que escrever poesias, já tenho 6 livros publicados. Ainda enfeito as tranças com fitas de veludo laranja – embora de cabelos bem curtos – a menina que habita dentro de mim.

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Mariana Gouveia

tem certeza de que a rosa era mesmo rosa?

Rose,

Quando você me deu essa rosa, era de um rosa mais rosa. Eu comemorava um aniversário e você, mais uma vez, com todo amor que lhe cabe, quis povoar meu jardim.

Com o tempo, o rosa foi purificando e a rosa se tornou multicor… Quase branca.
Hoje, o aniversário é seu e eu poderia dizer sobre tudo que vivemos… Nem vou dizer o tempo que vivemos, porque, por mais que eu escreva sobre… você é em mim, de tanto tempo que só digo que existo sempre em você.

Assim como a rosa mudou o tom, enfrentou diversidades, a gente também mudou. Depois de quase dois anos sem te ver, mas nesse mesmo tempo sendo presença uma na outra, pude te abraçar e sabe, parece que nunca nos separamos… O riso, a cumplicidade, o amor ultrapassam esse tal de calendário.

O meu desejo é o mesmo de quando te dei o primeiro abraço e parecia que eu já te conhecia de muito antes.
Que você seja feliz e eu vou estar aqui sempre, nos dias bons e ruins… Sendo guia ou apoiadora.
Te amo infinito

PS: tem certeza de que a rosa era mesmo rosa? Porque o que impera em meu amor e coração é tu, Rose.

Feliz aniversário!
Mariana Gouveia

Mariana Gouveia

Em outra vida

Cortou o cabelo, deixou de pintar as unhas com o verniz escarlate e assumiu as brancuras dos fios. Fingia não ver o espelho a desenhar as rugas dentro do riso. Gostava de dar nomes às nuvens.

Era outra, aquela menina de antes e embora ainda escrevesse em cadernos
e diários nas noites quentes já não era a mesma. Gozou quando conseguiu descobrir o nome da estrela de estimação. Mas, isso foi em outra vida.

Mariana Gouveia
Das coisas breves

Mariana Gouveia

Se apaixonou por heras,

Por folhas secas que caiam como brindes do quintal da vizinha.
Desenhava nos muros coisas aleatórias de quem acreditava que só se vive uma vez.
Essas coisas de quem se acostuma com uma única estação – o outono era sua preferida –
O ocre das paredes sem estuque, também.
Conhecia os odores da terra e o cheiro de chuva quando cai.

Mariana Gouveia
Das coisas breves

Mariana Gouveia

O dia que Saturno brincou de jardineiro

O caminho do sol segue a bússola da lua… Era ali, no quadrante leste do meu quintal que Saturno brincou de jardineiro. Um gênio partiu e sua arte fica gritante, viva, dentro da gente.
O calor incendeia os pensamentos no gesto e 44 graus vira poesia no vento morno. Marte e Saturno em sua quadratura recebe do caos uma forma que vaga. O regador cumpre a função. Revolver a terra, elaborar a alma para a perda… O rito é essa primavera desavisada de flor.

Mariana Gouveia
Ser de flor

Mariana Gouveia

João.

Quando o jardim chegou ao ápice virou colo, a flor.
O cheiro exalando fragrância de terra molhada.
Um menino, que enfeita meus dias nasceu há cinco anos atrás. O verbo do dia cheio de desejo de riso e o pólen, saciando fome do inseto que voa.
Tem dia que a festa é dentro do coração.

Mariana Gouveia

Mariana Gouveia

Para o caso de chover na tua rua…

Bambina mia,

Resolvi te responder, através dessa missiva, sobre limpar as gavetas em agosto. Acho que desde sempre, dentre todos os meus irmãos, eu sou a única que ainda segue alguns dos vários rituais de meu pai. E esse é um deles.

Para meu pai, agosto era o fim e o início de um ciclo. Era quando encerrava a colheita e preparava o solo para outro plantio. Ensacar a safra nova, retirar o que sobrou da colheita do ano anterior. Hora de limpar o paiol, trocar as sementes velhas pelas novas, fazer a queimada da área de roça de toco, mudar as coisas de lugar e isso, incluía a casa toda. Limpar as gavetas, os baús… trocar espelhos quebrados, coisas trincadas, roupas rasgadas… ceder espaço para coisas novas e boas entrarem.

A sua ligação com os santos sempre foi muito viva e se mantém até hoje e o último dia para toda essa “limpeza” era dia 24 de agosto, onde na folhinha marcava – e marca – o dia de São Bartolomeu. Nem sei se ele sabia da história e das lendas envoltas em torno do nome do santo, mas nesse dia, em todos os anos, era nossa data limite para tirar tudo que era velho, que não iríamos usar mais e começava um novo ciclo, porque nesse dia, independente do ano, chovia. Era a chuva da limpeza, da renovação e da temperança.

Até hoje, bambina, lembro-me do cheiro da terra molhada – depois de dias secos de outono – a exalar do chão. Parecia que a terra guardara o perfume para receber a chuva. A lavoura era preparada nesse dia, para no dia seguinte, abraçar novas sementes e outros rituais seguiam a ordem cronológica de quem plantava. Durante muito tempo, eu fiquei a imaginar como meu pai sabia dessas coisas, mas, depois, parei de querer saber e passei a entender e a continuar os rituais dele… e esse mês, repeti os mesmos gestos… limpei as gavetas e a alma ao longo dos dias de agosto. Não custa nada seguir o rito.

Hoje, na previsão do tempo, aqui na cidade, o rito é outro e não temos previsão de chuvas. Ao redor, a Chapada e o Pantanal queimam. Os resquícios dessas queimadas caem no meu quintal… o céu, está opaco, cinza, devido a fumaça das queimadas.

Não sei a previsão do tempo aí, na sua cidade, mas para o caso de chover na sua rua, molhe as mãos na água da chuva por mim.

Bacio,

Mariana Gouveia

Agosto é o mês dos rituais e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia Leonardi – Obdúlio OrtegaLunna GuedesRoseli Pedroso – Adriana Aneli – Darlene Regina

Mariana Gouveia

Tentei escrever-te, sem sucesso…

“Meu corpo é um marasmo. E eu não posso mais escapar dele.”
Frida Khalo

My Lady,

Tentei te escrever sem sucesso por diversas vezes e no emaranhado de cartas por aqui me deparei com a última que ainda aguarda o endereço e por isso, não enviei e antes de rasgá-la leio e penso em uma frase que vi em uma série que acompanho: “não somos definidos pelo que acontece conosco, somos definidos como reagimos com o que acontece conosco.”

Separei o livro, alguns posters e uma boneca, tudo da Frida, porque sabia que ia gostar. Isso era para dizer que pensei em você e na menina laranja que encantava meus dias. Muitas vezes reembalei o mesmo pacote esperando um endereço que nunca veio e parei de perguntar enquanto o pacote foi ficando ali, em uma gaveta da cômoda e vez ou outra me esbarro nele.

Agosto é esse mês que devora minha alma e uso os dias para rasgar papéis esquecidos em gavetas, coisas que vou guardando como se fosse precisar um dia e justo hoje, precisei desse espaço da gaveta e desfiz o pacote. Vou dar um outro destino para a boneca – a menina da rua de cima, com certeza irá gostar – e os posters couberam em um envelope onde estão aguardando outra direção.

Achei tão simbólica a imagem de Frida em La Columna Rota e quando vi, percebi que cabia em seus dias e pelo seu fascínio com que iria adorar tudo. Imaginei que pudéssemos falar sobre ela e a frase que até falamos sobre um dia:

“Somos simplesmente essa amálgama de carne e de sangue. Só isso? Somos essa maravilha. Um corpo surpreendente onde se inscrevem todas as feridas.”


O papel de bolhas a proteger cada quadro foi estourada uma a uma e o “para que estou fazendo isso se juntou com a decisão de “não quero mais fazer isso” e mais uma vez a carta escrita foi amassada e rasgada como se nunca tivesse sido escrita e com ela a intenção do “estou aqui, se precisar”.

Eu acho que tenho saudades do encanto laranja que tanto fala sobre nós, mas hoje, ele é apenas o que se tornou: saudades.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês de limpar as gavetas e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia LeonardiObdúlio Ortega Lunna Guedes – Roseli Pedroso – Adriana Aneli – Darlene Regina

Mariana Gouveia

É a morada onde a flor se esconde da chuva.

É a morada onde a flor se esconde da chuva.Anuncio no beiral jardim suspenso
e os lírios resolveram renascer
e oferece abrigo para a vida minúscula que passa por ali.
É a morada onde a flor se esconde da chuva.

Mariana Gouveia

InspirAção

Cicerone

Cicerone

É quando
a

flor
.
aceita, o seu destino
de, ser
flor; que
.
não submerso em obstáculos, que me
espreitam,
.
logo,

abaixo da epiderme…

Seh M. Pereira