Diário das quatro estações · dos diários · Livros · Missivas de Abril · Scenarium Livros Artesanais

Era uma vez, assim

Tem a flor estampada no vestido, o mês e seus dias de chuva atrapalham a visão da Lua. A rua de cima tem uma canção no repeat. Escrevo cartas pela metade. Folhas inteiras de frases inacabadas. A sensação de falta de ar no limite. O vento arrisca pela cortina e a solidão é esse emaranhado de ciclos repetitivos. A rua de cima tem dias de vazios nas árvores — cabia a brancura em qualquer canto — e as nuvens em espiral causando a plenitude do céu. Era uma vez, assim, a vontade de ser. Tem dia em que as histórias ficam sem o final.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
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quando restou apenas uma flor no ipê…

a ave de todo dia voou, já era tempo de espera para a cura.
A rua de cima invadiu o quintal com os gritos das crianças
empinando suas pipas e a vida, ali, parecia normal.
O tapete amarelo no chão já tinha se tornado húmus
e o vento arrastava as folhas secas, fora da estação.
O rádio antecipava as notícias de amanhã e a certeza
de que tudo é breve veio com a flor no chão.
Dessa vez, o pássaro apenas se conformou e ficou à espera de outro botão abrir…

Mariana Gouveia
Desvios para Atravessar os Quintais
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Fazia o chá para além das xícaras

– era a espera antecipada da estação –
amanheceu hoje com gosto de inverno.

O meu quintal é alheio a tudo – tem vida própria – pássaros cantam.

Refaço horóscopos para o mês seguinte. Os astros estão em ebulição. A natureza grita pelo vento de um furacão.

Veria algo novo no raiar do dia…. A maresia chegou de mansinho pelas palavras dela. O pássaro voa alheio a tudo. O cão late na folha seca que cai.

Remexe nas sementes perdidas. Escoa a água da pia. O chá ferve.

Aprisiona desejos secretos. Ri sozinha dos pensamentos loucos.

Refaz o roteiro do horóscopo. Alterna os dias. Gelo para a luxação do pé. A dor acalma quando a alma dança. Chorou no poema que leu. Havia coração em toda parte.

Morde a fruta e vai esperar o dia de amanhã.

Mariana Gouveia
Desvios para Atravessar os Quintais
Entre uma estação e a primavera
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Revisitou o baú das lembranças.

Fez o café com a indicação da amiga — tirando a água antes que fervesse — aspirou o aroma e o sabor era o mesmo de sempre. Abelhas vasculham em busca de mel. O dia, na delicadeza das coisas era gris — a palavra lembrou uma canção — dentro dela escreveu rotinas, redesenhou segredos, esculpiu letras. Buscou temperos e adiantou a hora do lugar. Isso de fuso deixa tudo confuso.

Gerou três poesias…nasceu origamis no seu quintal. Colocou para voar o mais esperto e assim, os enjoos matinais no verbo nascer pedia ajuda na lição do dia. Enquanto gerava cantos na barriga, os pássaros de papel ganhavam a dimensão da asa.

Ali, presos, podiam voar.

Mariana Gouveia
Desvios para Atravessar os Quintais
Diário das Quatro Estações
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Ph: Adam Klaus

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Abro a porta para um mundo imaginário.

A vida, é esse portal que se abre para a floresta. O quintal tem os muros derrubados para fluir o vento para além das ruas. A terra, esse aconchego de umidade de mar nas mãos. Era silêncio na sintonia da noite. Os avisos chegavam em ritmos de sonhos. A previsão do tempo exposta nos galhos virados para os lados do sul. As cartas escritas como se fossem palavras tropicais. Os diários relidos um a um mudam os verbos na estação — a garoa cai onde o outono bate ao pôr do sol. A palavra definida dentro da sede — o frio invadia a brisa mansa da primavera — e o sentimento ardendo na febre do corpo… era verão em algum canto do mundo e a floresta absorvia a invenção do ritmo das folhas. O inverno biologicamente antecipa as vontades de abraço e o dialeto do rito é o silêncio.

Mariana Gouveia
Desvios para Atravessar os Quintais
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Diário das quatro estações · Mariana Gouveia

O tapete amarelo no chão…

já tinha se tornado húmus e o vento arrastava as folhas secas, fora da estação.
O rádio antecipava as notícias de amanhã e a certeza de que tudo é breve veio com a flor no chão.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
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Ph: Anja Bührer 

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Nasceu vida no quintal. 

O retrato é o relicário na parede vazia. Na mesma rua as histórias se encontram. Era o abraço da sorte no trevo da rua de cima. A essência das roupas no varal… chovia quando o dia se encerrava nas rotinas. Os pássaros de papel voavam além das janelas. Às vezes, é preciso aceitar o fim. Tudo é temporário no receituário. A moça de branco mudou a cor das roupas.

Nem faz mais o silêncio costumeiro de sempre. Esqueço o nome dela todo dia. Esqueço meu nome toda hora. O vento é esse menino que carrega a fragrância do cheiro da chuva nos arredores. A tarde azul recolhe asas no varal. A profundidade da dor se misturando aos desenhos opacos feitos nos muros.
Lembrei-me dela e de que adora quebrar regras e eu de as cumpri-las… tudo é o oposto no instante das horas. Falava da solidão dos dias curtos, de frio intenso e eu de dias imensos, sufocantes e solares. Às vezes, o amor não consegue atravessar o oceano. Nem a nado, nem voando.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
Diário das Quatro Estações
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InspirAção

Divã

Entrei. Sentei-me na poltrona onde podia ver a janela. Pediu que eu falasse sobre o que eu sentia. Calor – o sol está castigando esses dias – há um sol para cada um nesta cidade… Acaba com meu jardim. Ela se sentou no divã vermelho. Clássico. 
e desabou a falar de flores. Quis descobrir o que eu sabia das lanternas chinesas e comecei a falar de luz. Falei das histórias que li e do poema em mandarim do livro verde e de como a semente veio parar em minha mão. Ela achou tudo poesia pura e me pediu para voltar amanhã.

Mariana Gouveia
Ser de flor
Desvios para atravessar os quintais
Diário das Quatro Estações
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Os dias no calendário sendo arrancados.

Os verbos indefinidos conjugam o tempo no passado. Era ainda ontem, a vida. Era ontem aquele desejo – lembra? – a vontade de ser mais na vida de alguém. As regras sendo mudadas dentro do diagnóstico. Os corredores lentos e frios. A casa sendo indicadora da rua de cima. De lá, o quintal é esse vão de janelas invisíveis. O vento sendo mensageiro de boas novas. Nasceu a vida, ali, no quintal.
A única regra da manhã é a ternura instalada nos ramos de maracujás silvestres.
Escrevia as rotinas sentindo a fragrância da flor. A rota da fuga sendo espaço onde atravesso a solidão em meio ao jardim. A flor já é oferenda do tempo. Nunca é permitido os pés descalços na relva seca. As respostas surgem secas nas folhas em branco enquanto o vento arranca mais um dia da folhinha na parede.

Mariana Gouveia
Ser de flor
Desvios para atravessar quintais
Diário das Quatro Estações
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Havia um riso estranho no homem da esquina.

…ele perguntou meu nome duas vezes
E quis saber das horas.
Recolhi as folhas que caíram do outono
passado e molhei as flores na estação delas.
Preparei o chá de frutas amargas
para aliviar a tensão.
Alguém na casa do lado… canta uma canção
em alto e bom som. E a dor desafina
em La Maior.
Ouço uma voz entalada no grito
enquanto eu recordo das promessas.
…um corpo branco onde eu brincaria texturas
e registraria minhas digitais.
…uma boca em meus lábios
para descer rio-pele adentro,
Ser flor em mim.

…na febre teria o abraço como conforto
Me amaria nas manhãs mornas
e me traria a chuva.
…uma praia de espuma onde só há rio
– foi o que cantou nos versos de poemas –
… e uma polaroid para fotos noturnas.

Me deu a lua todas as noites
E o sol todos os dias.
Depois os tomou de volta.
Disse num-voz-sereno que traria de novo
…quando a maresia acontecesse por lá.

Para reavivar minhas lembranças mandou-me o mar
…derramado em conchas
E quando não havia mais nada para prometer,
…falou de amor nas palavras escritas de sempre.
Entrelinhas, foi o que disse.

Eu a vi dentro de um brinquedo a dirigir com um riso
…e não era eu atrás da polaroid – que não veio.
O negativo em preto e branco derramou Flor.

Nem era primavera ainda… mas o sol árido lá fora
desaba folhas no meu quintal. E quando eu já nem pensava mais nela
…me deu um ‘quase fado’ e eu morri no nosso jardim.

Mariana Gouveia
Ser de flor
Desvios para Atravessar Quintais
Diário das Quatro Estações
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