Nasceu vida no quintal. 

O retrato é o relicário na parede vazia. Na mesma rua as histórias se encontram. Era o abraço da sorte no trevo da rua de cima. A essência das roupas no varal… chovia quando o dia se encerrava nas rotinas. Os pássaros de papel voavam além das janelas. Às vezes, é preciso aceitar o fim. Tudo é temporário no receituário. A moça de branco mudou a cor das roupas.

Nem faz mais o silêncio costumeiro de sempre. Esqueço o nome dela todo dia. Esqueço meu nome toda hora. O vento é esse menino que carrega a fragrância do cheiro da chuva nos arredores. A tarde azul recolhe asas no varal. A profundidade da dor se misturando aos desenhos opacos feitos nos muros.
Lembrei-me dela e de que adora quebrar regras e eu de as cumpri-las… tudo é o oposto no instante das horas. Falava da solidão dos dias curtos, de frio intenso e eu de dias imensos, sufocantes e solares. Às vezes, o amor não consegue atravessar o oceano. Nem a nado, nem voando.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
Diário das Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais

Divã

Entrei. Sentei-me na poltrona onde podia ver a janela. Pediu que eu falasse sobre o que eu sentia. Calor – o sol está castigando esses dias – há um sol para cada um nesta cidade… Acaba com meu jardim. Ela se sentou no divã vermelho. Clássico. 
e desabou a falar de flores. Quis descobrir o que eu sabia das lanternas chinesas e comecei a falar de luz. Falei das histórias que li e do poema em mandarim do livro verde e de como a semente veio parar em minha mão. Ela achou tudo poesia pura e me pediu para voltar amanhã.

Mariana Gouveia
Ser de flor
Desvios para atravessar os quintais
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Os dias no calendário sendo arrancados.

Os verbos indefinidos conjugam o tempo no passado. Era ainda ontem, a vida. Era ontem aquele desejo – lembra? – a vontade de ser mais na vida de alguém. As regras sendo mudadas dentro do diagnóstico. Os corredores lentos e frios. A casa sendo indicadora da rua de cima. De lá, o quintal é esse vão de janelas invisíveis. O vento sendo mensageiro de boas novas. Nasceu a vida, ali, no quintal.
A única regra da manhã é a ternura instalada nos ramos de maracujás silvestres.
Escrevia as rotinas sentindo a fragrância da flor. A rota da fuga sendo espaço onde atravesso a solidão em meio ao jardim. A flor já é oferenda do tempo. Nunca é permitido os pés descalços na relva seca. As respostas surgem secas nas folhas em branco enquanto o vento arranca mais um dia da folhinha na parede.

Mariana Gouveia
Ser de flor
Desvios para atravessar quintais
Diário das Quatro Estações
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Havia um riso estranho no homem da esquina.

…ele perguntou meu nome duas vezes
E quis saber das horas.
Recolhi as folhas que caíram do outono
passado e molhei as flores na estação delas.
Preparei o chá de frutas amargas
para aliviar a tensão.
Alguém na casa do lado… canta uma canção
em alto e bom som. E a dor desafina
em La Maior.
Ouço uma voz entalada no grito
enquanto eu recordo das promessas.
…um corpo branco onde eu brincaria texturas
e registraria minhas digitais.
…uma boca em meus lábios
para descer rio-pele adentro,
Ser flor em mim.

…na febre teria o abraço como conforto
Me amaria nas manhãs mornas
e me traria a chuva.
…uma praia de espuma onde só há rio
– foi o que cantou nos versos de poemas –
… e uma polaroid para fotos noturnas.

Me deu a lua todas as noites
E o sol todos os dias.
Depois os tomou de volta.
Disse num-voz-sereno que traria de novo
…quando a maresia acontecesse por lá.

Para reavivar minhas lembranças mandou-me o mar
…derramado em conchas
E quando não havia mais nada para prometer,
…falou de amor nas palavras escritas de sempre.
Entrelinhas, foi o que disse.

Eu a vi dentro de um brinquedo a dirigir com um riso
…e não era eu atrás da polaroid – que não veio.
O negativo em preto e branco derramou Flor.

Nem era primavera ainda… mas o sol árido lá fora
desaba folhas no meu quintal. E quando eu já nem pensava mais nela
…me deu um ‘quase fado’ e eu morri no nosso jardim.

Mariana Gouveia
Ser de flor
Desvios para Atravessar Quintais
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Mariana Gouveia

Meus livros, pela Scenarium Livros Artesanais.

Scenarium

Nasci numa fazenda no interior de Goiás, das mãos de uma parteira que se chamava Florinda, mas que todo mundo a conheciam por dona Fulô, no primeiro dia de julho de 1.965. Era inverno, mas parecia primavera… Ali, cresci e vivi um conto de fadas entre sete irmãos. Mudei para Mato Grosso por conta de uma doença de minha mãe, num dia qualquer de agosto. Precisamente dia 25. Era outono, mas não havia diferença entre os dias quentes de verão e vim descobrir bem depois que era assim o ano todo e em qualquer estação… Desde pequena as palavras me invadiram e escrevia em tudo que podia. Papel de pão, papel de embrulho de qualquer coisa, guardanapos, chão. Cadernos eram luxos que só vez ou outra ganhava, e reservava eles para depositar sonhos, história e o dia a dia vivido. Tornei-me radialista por vocação e isso me dava a liberdade…

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Dos dias diferentes dos outros dias…

O corredor longo me faz prestar mais atenção à vida, no que sobra dentro da memória dos restos de imagem que vejo da janela. Alguém busca notícia da menina que gosta de verde… chega a desenhar a palavra no ar. Ele tem apenas memórias, uma vez que nunca mais a viu e faz a peregrinação todas as noites revisitando os lugares de onde se lembra que ela passou. Tem a mão dela desenhada em uma camiseta estampada com poemas e agora tão fora de alcance. Então, o amor… Ignoro a história toda… contabilizo as gotas no vazio da espera e dentro disso folheio em um livro a ignorância da história, a nossa própria.

– e penso na menina que adora o verde nas palavras todas — escrita a punho, em cartas que não enviei.

Alguém diz que sou duas, nas facilidades da força. Repete meu nome dentro de uma música que conta meu nome de diversas maneiras… Enquanto o corredor escuro é apenas o portal do encantamento que acontece no meu quintal.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar Quintais
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— Lembrou-se do filho que não viveu.


Ouviu Adele enquanto o pensamento voava. Rezou milagres na memória.

Escreveu o nome dele no ar — era asa e virou voo. Metamorfose em alguma mão. Viu asas na roupa do menino. O céu era horizonte azul. Havia verde em qualquer folha. Colocou cor no olho da moça de riso fácil.

As mãos eram frias e frágeis. Cabia a liberdade nas mãos. Viu as estrelas brilharem na água… O tempo refletiu nas lembranças e já era tanto tempo. Sentiu o toque da vida — que era vida em qualquer lugar — a capacidade de viver no exato momento da dor mesmo quando as asas cansam do voar… e pousam.

Mariana Gouveia
Desvios para Atravessar Quintais
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— a renda foi costurada dentro da noite

Os dias de invernos intensos aprofundados na pele e na alma. Busco o equilíbrio denso dentro da dor. As histórias contadas de um jeito que a saudade bate e fica. O cheiro do capim molhado de orvalho a invadir os quartos com seus aromas e a lua caminha em um céu coalhado de estrelas. Imprevisível a cronologia das coisas — misturamos os fatos, as fotos e a época — tudo era dentro do tempo de estar. As palavras a carregar afagos entre nós… o verbo mudando a direção sempre que uma lembrança nova surgia. Alguém arrisca um canto e o amor conhece a simplicidade das coisas.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar os quintais
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Entre uma estação e a primavera

No lugar onde enviam cartas procura- se moedas. Os selos, nos envelopes, cobram trocos que o dinheiro normal não alcança diante do olho do menino que tira o cofrinho da mão da mãe, com medo de perder sua riqueza.
Os pássaros procuram estações das chuvas dentro da secura do tempo. Tudo é tão vagaroso como se estivéssemos nos livros.
Procuro a flor que não abriu. A janela que me leva até você. Procuro.
Procuro a maresia nos cantos dos muros, nas frases de efeito dentro dos poemas.
A primavera finge que não vai chegar e eu procuro sua fragrância dentro de mim.
Encontro os girassóis do ano passado que fizeram seus olhos brilharem e suas sementes dentro de mil flores, com os insetos vorazes a matar a fome não sei de que. Tudo é procura nessa vida. Tudo é encontro nessa busca Só não você.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
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Carta ao meu pai… Aos cuidados do encanto

Pai,

Cada ano que passa nesse dia, eu visto a melhor roupa, venho ao teu encontro e estendo minha mão dentro de nossa história. Acredito que irei fazer isso a vida inteira… os caminhos me levam para quando eu era criança e você desenhava em palavras os contos que eu lembraria em tantas noites vida afora.

Que luz era aquela que brilhava ao longe? — você detalhava os monstros com diversos nomes e instigava a nossa imaginação com a brincadeira, treinando a nossa coragem até percebemos o vagalume a bailar no ar e fazer decoração na mata além da horta.

Você me entregou o delírio em uma caixinha disfarçada de cogumelo, me fazendo enxergar a leveza das coisas, o encanto mágico que acontecia a cada instante. O elixir que curava ou matava… a ciência de conhecer a melodia da floresta que nos indicava onde era o lugar seguro, como conseguir água ou simplesmente parar em uma clareira e sentir a sintonia única com o universo.

Nas coisas miúdas você me mostrou a grandeza e o cheiro de todas essas coisas preencheu a minha memória com toques e suavidade. O tempo passa e seu dia é muito além desse dia primeiro de junho de todos os anos. As músicas que você me ensinou a cantar e as lembranças a misturar épocas dentro de mim.

Escrevo para você essa carta para que a irmã mais velha trate de ler para você… Mais uma vez, o rádio falará de seu nome em uma carta de amor e saberá que eu te amo todos os dias.

Às vezes, penso que nunca soube escrever sobre você. O que faço é apenas retratar o sentido que você escreveu em minha história e que enumero como memórias:

Memória 1:

Era um ritual da madrugada e o cheiro do café invadia os quartos… o rádio ligado no programa madrugador e o barulho do gado no curral… o leite tirado diretamente na caneca e a sensação de céu na boca…

São as minhas primeiras recordações…

Memória 2:

As noites em minha vida eram de encantamentos… enquanto os dias eram feitos de ensinamentos, as noites eram de retratar a vivência do dia.

O cheiro do arroz maduro na roça invadia cada canto do quintal e ao redor da fogueira a gente cantava as músicas do santo. O cheiro do chá de canela — feito com as folhas retiradas da arvorezinha que soltava a casca em pedaços de pau — que tinha gosto de encantamento. A batata assada na fogueira. A reza ensinada ali mesmo, enquanto você nos falava sobre a fé. O conto de fadas declamado com os ecos e assovios em sua voz de homem adulto.

Memória 3:

Estava nervosa e falava do meu primeiro amor… seus olhos apreensivos entre a resignação e o medo. A minha inquietação dos 14 anos e você lá, desenhando as regras sobre o que podia ou não. E o medo de te desiludir — que continua comigo. Seu jeito de mãe e a perda a doer a alma.

Memória 4:

Havia o amor escolhido… o vestido simples e dentro de nós, a festa desenhada lá atrás, quando nasci. Você falava de borboletas enquanto a juíza me pedia para dizer o Sim… e você o meu lado direito, com o olho de amor e benção, percebendo que a minha paz foi aceita e acolhida.

Memória 5:
As memórias se misturam nessa noite… em minha solidão, na ardência das horas. Eu chamo por você, grito por dentro o teu nome. Sinto a segurança do teu colo e a densidade de sua presença — mesmo tão longe — ainda é o meu porto seguro. Você me deu a liberdade de uma vida toda… as asas no seu amor rotineiro e cuidados onde me prendia às regras. E mesmo sem perceber, cada um de nós as seguia… porque todo mundo precisa de direção, de um guia. E você me deu… Exemplo vivo e real de caráter, força e fé. Porque cada lembrança é como se fosse um casulo a criar mudanças…
Feliz Aniversário, pai!

Mariana Gouveia, in, Desvios para atravessar os quintais
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Scenarium Livros Artesanais