Diário das quatro estações · dos diários · Livros · Missivas de Abril · Scenarium Livros Artesanais

Era uma vez, assim

Tem a flor estampada no vestido, o mês e seus dias de chuva atrapalham a visão da Lua. A rua de cima tem uma canção no repeat. Escrevo cartas pela metade. Folhas inteiras de frases inacabadas. A sensação de falta de ar no limite. O vento arrisca pela cortina e a solidão é esse emaranhado de ciclos repetitivos. A rua de cima tem dias de vazios nas árvores — cabia a brancura em qualquer canto — e as nuvens em espiral causando a plenitude do céu. Era uma vez, assim, a vontade de ser. Tem dia em que as histórias ficam sem o final.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
Scenarium Livros Artesanais

Das palavras das cartas · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

Aprendi com as palavras

o que não consegui com as asas:
voar!
Suzana Martins – In Versus

Ph: Tumblr

Sandra, minha querida,

desde quando a borboleta nasceu no seu lugar que eu queria te falar sobre voos – esses, pelos quais você me leva por seu lugar.

Você sempre me leva os teus voos, sejam de asas ou de palavras. E me faz voar com as canções. Por sabe que as melodias também me fazem voar para além dos momentos. Sabe, Sandra,

Você me leva pelas ruas de Paris, pelas vielas do seu lugar e faz com minhas palavras sejam asas por onde anda. E nas minhas manhãs, você me faz voar por jardins, dentro do aconchego das imagens que me envia. Me faz voar com sua arte e com a magia que transmite através dela.

Dentro dos voos que traz vejo o lírico na singeleza das coisas. É como se você me levasse como expectadora dos seus voos, nas manhãs dos seus dias e isso, Sandra, transcende o comum. A sua janela se abre para mim e seu jardim se une ao meu… o seu céu se liga ao meu nesse voo de ternura única e às vezes, é só uma palavra, um bom dia, uma imagem.

Mas, sabe, Sandra? Quem oferece tanto carinho assim, sabe voar, mesmo que em terra firme e quem estende a mão com flores, sabe voar mesmo que não tenha asas.

Grata por me permitir voar com você para além das asas!

Beijo meu
Mariana Gouveia
Projeto Blogvember – Scenarium Livros Artesanais
Participam juntos comigo: Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins
Ph: Sandra Silva – arquivo pessoal

Das palavras das cartas · infinitamente · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

Entalhadas nas nervuras do corpo

ser — semente — flor
 Nirlei Maria Oliveira, As estações

Flor,

lembra-se que eu te chamava assim e seu riso disfarçava o brilho no olho? Às vezes, acontece da gente se perder no meio do caminho. Uma vez, você disse que os atalhos é a melhor parte de uma viagem. E que de alguma forma, foi um atalho que nos ligou. Mas e o fim do caminho, flor?

Sabe, flor, nós fizemos das sementes, flores… essas coisas que o jardineiro cuida do jardim para ver os voos das borboletas. Você nem acreditava que elas pousavam em minhas mãos. Precisou atravessar um oceano inteiro para descobrir, que por acaso, o meu jardim é um borboletário e um portal para magias – isso foi você quem disse – e fatos extraordinários.

Lembra quando uma ave pernalta, típica do Pantanal veio pousar no telhado da vizinha e ficamos horas a fotografar as poses? Foi no dia da tempestade – quase particular para você – e o céu ficou quase cinza e você se encantou pela singularidade que as coisas aconteceram.

Foi naquele dia que o jardim virou poema e lemos Maria Teresa Horta em idiomas que sabiam sabor a mar. E eu acreditava que você era a maresia. Fiquei repetindo mantras como se fossem poesias e o vento da tempestade a te envolver como se você fosse a própria tempestade e o pássaro lá… no telhado e eu temendo os sinais de nunca mais.

Flor, quer café? O que você quer, flor? E o jardim se confundia com a palavra e a rosa se confundia com a pétala e a pele. Esse foi o dia em que caí da escada… eu poderia marcar cada um dos quinze dias como se fossem cem e chega finalmente o dia em que podemos denominar o fim… e alguém canta uma canção antiga como trilha sonora e as sementes começam a brotar.

E a avião ganha contornos de céu e para quem vai e quem fica o vão das coisas ficam como ponto final e o 3452703 e mais alguma coisa fica mudo. As cartas ficam registradas como recebidas e as respostas vagas – o meu amor era mais bonito que o seu… a especialista disse – e às vezes, por compaixão repetia a frase da canção de Caetano – de perto ninguém é normal – e foi quando comecei a contar até mil… até que você dissesse alguma coisa.

Depois, chegou as sementes em envelopes pardos sem endereço e plantei. As rosas e os cravos vingaram todos, mas a papoula só deu uma flor e morreu… foi quando a insônia veio morar aqui, inquilina da noite. Mas, sabe, flor, o que a noite me reserva em noites de insônia? As rosas com suas nervuras tatuam sombras em minhas pernas e eu flutuo. E todos os dias amanheço no jardim chamando seu nome.

Mariana Gouveia
Projeto Blogvember – Scenarium Livros Artesanais
Participam juntos comigo: Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso Suzana Martins

Mariana Gouveia

Nascimento

nascimento
se não era para nascer de semente
então, ela resolveu nascer de cor.

Mariana Gouveia.

Das rotinas · infinitamente · Mariana Gouveia

Antes do temporal,

na rua de cima – era ainda a manhã e o sol de todo dia – os ipês festejaram o vento e espalharam suas rosas e as paletas de cores a desenhar o céu.

As crianças brincavam na rua com seus gritos e falas apressadas. Um gato subiu no telhado e a ave de todo dia dormiu no varal que dançava com as roupas e seus prendedores…

Li Clarice em um instante do dia, uma frase qualquer, dessas que todo mundo repete por ser o dia do poeta – como se poeta precisasse de dia para ser – e tomei chá gelado.

Da varanda eu via as nuvens e sua pressa em correr o céu e as flores que ainda eram da árvore desprendeu – se todas e fizeram um tapete no chão.

E de repente, como se os ninhos fossem sobreviver à tempestade das coisas, veio a fúria do dia dentro do vento…

Alguém contou o que se passou sobre as águas… havia o menino tentando afogar os brinquedos na poça que se formou no quintal.

As mulheres recolhendo a roupa do varal e os muros sendo derrubados onde a parede morreu.

Como se a terra fosse feita de papel e as fronteiras com o medo fossem feitas de nada nenhum esculpimos as palavras em orações e alguém desejou a sorte do dia.

E onde o vento bateu fiquei sem saber o nome das árvores…

Foi quando o abraço conheceu o sentido do afeto.

Mariana Gouveia
das infinitudes

azul em qualquer céu. · Do lado de fora

Eduardo e Mônica

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(… ou você & eu)

ele dava aulas de sexo tântrico nas noites de lua cheia e ela bordava poesia em bolinhas de sabão.
não estava escrito nas estrelas e nem se tratava de um desdobramento místico de vidas passadas. ainda assim se encontraram numa encruzilhada da cidade sem esquinas… ele comia um filé a parmegiana mal passado acompanhado de alguma bebida inofensiva qualquer; e ela usava um chapéu de coco e rodava a via láctea inteira para formular uma frase simples – ela sempre teve um certo fascínio pelas figuras de linguagem!
rebeldes e inconsequentes, não cruzaram as informações do mapa astral com o resultado da numerologia dos nomes de seus antepassados. ignoraram os signos do zodíaco; sequer passaram a vista na página onde o colunista traçava a orientação de conduta. nas cartas do tarot e na vidência das ciganas não buscaram seu destino. declinaram de mandingas e não tomaram conhecimento algum de uma possível incompatibilidade de seus tipos sanguíneos.
apenas se deixaram levar pela inspiração de quereres que rendeu o encontro. e tendo ou não razão as coisas feitas pelo coração, plantaram no fundo do quintal de casa uma árvore de sonho, que espalhou mudas pelos cantos tantos do terreno inteiro… e além…

Keila Tavares (com uma bela galeria aqui)

Das rotinas · Divã · Mariana Gouveia

Revirou a terra e inventou sementes.

Cavoucou na parede o estuque. Descobriu o azul morto três tinturas depois – ou seria o verde desmaiado do ano anterior? – e se perdeu dentro da cor, nas lembranças.

Salvou a formiga do afogamento em um balde e a viu segura duas folhas do gervão depois da cerca.

O vento mudou-se daqui – pensou – pois já não sente mais a presença dele. Depois do vazio das árvores não ouve mais a canção das folhas. Tudo é esse desgaste de tempo.

Replantou o jardim de novo. Revirou a terra e inventou sementes.

Daqui alguns meses a estação terá mudado, mas reviverá a primavera no amanhecer.

Mariana Gouveia
Das infinitudes

Das palavras das cartas · Mariana Gouveia

tem certeza de que a rosa era mesmo rosa?

Rose,

Quando você me deu essa rosa, era de um rosa mais rosa. Eu comemorava um aniversário e você, mais uma vez, com todo amor que lhe cabe, quis povoar meu jardim.

Com o tempo, o rosa foi purificando e a rosa se tornou multicor… Quase branca.
Hoje, o aniversário é seu e eu poderia dizer sobre tudo que vivemos… Nem vou dizer o tempo que vivemos, porque, por mais que eu escreva sobre… você é em mim, de tanto tempo que só digo que existo sempre em você.

Assim como a rosa mudou o tom, enfrentou diversidades, a gente também mudou. Depois de quase dois anos sem te ver, mas nesse mesmo tempo sendo presença uma na outra, pude te abraçar e sabe, parece que nunca nos separamos… O riso, a cumplicidade, o amor ultrapassam esse tal de calendário.

O meu desejo é o mesmo de quando te dei o primeiro abraço e parecia que eu já te conhecia de muito antes.
Que você seja feliz e eu vou estar aqui sempre, nos dias bons e ruins… Sendo guia ou apoiadora.
Te amo infinito

PS: tem certeza de que a rosa era mesmo rosa? Porque o que impera em meu amor e coração é tu, Rose.

Feliz aniversário!
Mariana Gouveia

Divã · Mariana Gouveia

Nós somos o tempo.

É para ti que transbordo todos os dias
E desenho corações nas flores
E dedico-te o raio mais vibrante do sol.

É para ti que me dispo
Tiro o véu, desfolho as vontades.
Que em camadas encobre meu desejo de ti.
E quando vai, e deixa em mim teu gosto agridoce,

Em mim o sabor de teu amor
Eu suspiro, pela alegria viciante de te ter.
Eu te amo e em todas as músicas de amor
As palavras falam de você.

Quando acorda com vontade de mim, faminta de amor,
e teu olhar inquieto me busca e a gente fala do tempo de querer…
Do tempo que te quero e então,
o tempo não é nada, porque nós somos o tempo.

Mariana Gouveia
Ph: Christophe Gilbert

Das rotinas · Divã

Abstrato desejo de amar

Cortava a garganta
e não sangrava
o nome dela escorria boca afora
a pele dela desmanchando nos dedos
saía flor de sua alma andante


Nas paredes o nome escrito mil e quatrocentas vezes
o azulejo cortado em forma de coração
e no ar o perfume impregnado


os cinco sentidos explorando seu desejo de toque
a língua a umedecer o canto da boca
Na moldura, a imagem viva do que era
Abstrato desejo de amar

Mariana Gouveia