Monocórdica

Monocórdica

Prefiro a nota principal
estilo invariável, único.

como se estivesse lendo – braile
como se a nota musical fosse dela
e ainda pede que eu cante
Pra ela…

ai, quem me dera que o encanto dure
que a música fosse relicário – fosse

que a sinfonia fosse mais doce…
que a melodia, a voz.
E a cadência de menina…
em nós…

Tão monocórdica
no seu sentido literal
coleciona músicas no varal…

Mariana Gouveia

Aniversário

Quando a rotina alivia é que vem à lembrança de que ainda é primavera.
Dia de sentir cheiro de flor em cada célula.
O vento sopra morno no quintal e as abelhas voam em direção das flores.
Todas brotaram dentro de mim quando ouvi a nossa canção.
É seu aniversário em outro hemisfério. É outra estação em seu lugar e dentro de mim seu perfume, que dá o aroma aos meus dias.

Hoje, faz um ano qualquer
que a pele dela tocou a minha.
Primeiro em um gesto simples de abraço…
Depois, a brancura a misturar- se na minha cor.
Mas o dia… O dia foi marcado quando a alma dela me tocou.
Era a carícia do encontro e o calendário produz o encantamento do dia em que me apaixonei pela asa.

Mariana Gouveia
Vem aí uma nova edição de Cadeados Abertos
Projeto: Diário das Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais

Em outra vida

Cortou o cabelo, deixou de pintar as unhas com o verniz escarlate e assumiu as brancuras dos fios. Fingia não ver o espelho a desenhar as rugas dentro do riso. Gostava de dar nomes às nuvens.

Era outra, aquela menina de antes e embora ainda escrevesse em cadernos
e diários nas noites quentes já não era a mesma. Gozou quando conseguiu descobrir o nome da estrela de estimação. Mas, isso foi em outra vida.

Mariana Gouveia
Das coisas breves

essas coisas do destino vêm ao acaso…

Conheceu outros lugares, de vida e de alma e disseram-lhe que aquele lugar novo não possuía os ritos, nem o cordão umbilical plantado como se fosse sementes…, mas, sentiu a vida nova pelas ruas e muito além dos corredores, uma porta se abria e estava viva.

Não sabia quanto tempo duraria isso, ou se renasceria de novo, nunca se sabe

essas coisas do destino vêm ao acaso

Mas, enquanto molhava os pés de hortênsias no vaso, as rosas do deserto florindo no seu canto, a horta toda verdejante, lá se sabe por que, ela vibrou de novo pela segunda vez que nasceu.

Mariana Gouveia
Das coisas breves

E o amarelo ri das coisas que conto.

Eu conheci a rota dos inventários e os riscos nos mapas mudando os caminhos. Fiquei a tua espera e o vento arrastou as folhas no quintal. Queria te contar que as flores amarelas floriram. Foi um insulto para o jardim inteiro. Todo o quintal olhava só para ela, enquanto as lagartas procriavam na lanterna chinesa.
Estão grávidas as folhas do gervão… E o amarelo ri das coisas que conto.
São muitos dias de sol e noites de lua. Era para ser em agosto esse cheiro de setembro amarelando as coisas… Mas isso tudo é só um sinal de vida da roseira que havia morrido.

Mariana Gouveia
Ser de flor

O dia que Saturno brincou de jardineiro

O caminho do sol segue a bússola da lua… Era ali, no quadrante leste do meu quintal que Saturno brincou de jardineiro. Um gênio partiu e sua arte fica gritante, viva, dentro da gente.
O calor incendeia os pensamentos no gesto e 44 graus vira poesia no vento morno. Marte e Saturno em sua quadratura recebe do caos uma forma que vaga. O regador cumpre a função. Revolver a terra, elaborar a alma para a perda… O rito é essa primavera desavisada de flor.

Mariana Gouveia
Ser de flor

Do dia em que ela eclipsou

Os cheiros do céu cuidam da semente na terra. A racionalidade do sol e a emoção da lua influi na paciência da espera. Era ali, a estação da alma. Dentro dela o cheiro dos cravos chineses e a borboleta encantando o mar enquanto o rio se desenha além dos muros. Dentro dela, eclipse. 

Mariana Gouveia
Ser de flor
Texto publicado no livro Sete Luas
Scenarium Plural Editora

Dos dias em que amou.

Morria de medo de amar. Amou.
Cantava a sorte de um amor tranquilo na vitrola vintage que ganhou do pai e os discos de vinis trazia o fado – sempre via dentro do olhar que ela nunca viu – que em noite de lua embalava o sonho de eclipsar a vontade do beijo dela. Não era a dança sob a lua no quintal, nem a maresia que invadia o quintal dela… Não era nada disso que alimentava as noites de luar prateado. Não era o mar e sua rota torta, inquilino dentro do peito que fazia ela viver…  era a vida feita e refeita dentro do amor que o nome dela trazia poeira estelar quando cantado. Era essa espera no cais. Outra vez.

Mariana Gouveia
Ser de Flor
Texto publicado no livro Sete Luas
Scenarium Livros Artesanais

O perfume esquecido das rosas

Nas gavetas reviradas, procuro o perfume esquecido das rosas que minha mãe plantava. Era hoje, há anos atrás – as flores e seus insetos feito pingente – a fragrância exalava pela rua de calçadas altas. Ela contava histórias de jardins, quintais e de que a felicidade pode ser colhida diariamente, em pequenos momentos – ninguém é feliz o tempo todo – e lembro-me da borboleta que passou e ela falou de viagem.
Guardei aquele momento, onde a realidade era completa. Nunca mais se repetiria as frases ditas naquela rua de calçadas altas…
No outro dia ela se foi e ficou apenas o perfume esquecido das rosas que ela plantava.

Mariana Gouveia
Ser de flor