Era amarelo…

Era amarelo. Era todo amarelo o quintal da casa onde cresci. Era amarelo e havia um pé de flores amarelas. Me lembro de mim, desde sempre, correndo sobre o ouro do quintal.

Amarelo-dourado era o sol, a espernear sobre as pedras, quarando lençóis. As minhas quedas bruscas eram também amarelas. E a baba do cachorro doido, do qual eu sempre devia fugir. De vez em quando eu o via, para lá do meu quintal. Parecia sempre o mesmo, mas havia muitos. Cachorros endoidando no redemoinho amarelo.

Ata, fruta-do-conde, manga – amarela em suas nuances de cor, depois do verde – O verde é o fruto da terra e o amarelo é o fruto do sol. Pintávamos de amarelo as descobertas. Nós, os sóis.

O amarelo é uma cor que não passa como as outras cores passam. Enquanto as outras cores desbotam, o amarelo, com o tempo… Amarela. Do amarelo se fez o rio onde desaguam lembranças, o sol dourando as margens, em um campo amarelo. Pinto este amarelo e revivo do quintal com gotas de memória. Pingo essência dourada e desenho na areia os contornos deste jogo de amarelinha. Meu quintal era o céu, todo feito de nuvens amarelas.

Lembro-me disso e de minha mãe que pintava minha vida. Em cada manhã de colo sagrado e olho terno. Ela se tingia de um amarelo intenso. No meu quintal, mesmo os dias sem sol eram dourados O quintal não havia descoberto a noite.

Só descobriu a noite quando minha mãe se foi. Hoje, além de se comemorar o dia das mães minha mãe faria 78 anos e deixou em mim o amarelo da saudade. A sua mãe também pode ser colorida, se você assim a enxergar. Ela pode tingir sua vida da cor que você quiser e você será o papel onde ela desenhará a vida.

E se você é mãe, pode pintar a vida de seu filho. E quando ele crescer, ele terá um colorido diferente e especial. E um dia, quando você se tornar saudade, terá seu filho ou filha lembrando suas cores. E se ela também se foi, tente imaginar a cor que ela te deixou, seja em uma palavra, um ensinamento ou a dedicação.

Através desse texto quero apenas agradecer minha mãe por cada instante que ela colocou poesia em minha vida e me fez enxergar um mundo colorido, hoje um pouco sem cor, sem ela.

Quem tiver sua mãe por perto, dê um abraço, que é ele o que falta para repor tintas na vida dela. Você, de alguma forma, é a cor da vida dela.

Faça com que, em cada instante de sua vida valha a pena ser filha(o).

Mariana Gouveia.

a missiva que ficou nas pétalas de uma flor

eu nunca antes tive delírios
– mas dizem que tudo sempre aponta para um possível começo.
Seria esse o meu?…

Lunna Guedes – Lua de Papel

Bambina mia,

Já anoitece por aqui… enquanto no seu lugar o frio que tanto gosta dá sinais de aviso o meu lugar já sente a falta de umidade. Alguns diriam que já parece julho… Vejo o reflexo do sol na parede sem reboco da casa vizinha. Fica mais alaranjado meu quintal.

Ontem falávamos da flor que você viu e me lembrei da delicadeza que me ofereceu. Já era quase poesia a pequena pétala – imagine transformá-la em missiva, então? – e me recordei que tenho ela no quintal em suas várias cores. quando conheci a flor, descobri primeiro a de cor branca e só depois as outras vieram em forma de mudas.

Aqui, elas servem para as borboletas que são atraídas pelo cheiro de suas mini flores… mas, dizem que elas também servem de calmante, e por isso, ajuda a combater a insônia. Vou me lembrar disso em noites insones. Se chama lantana… mas achei lindo que algumas pessoas chamam ela de planta arco-íris. prefiro apenas que elas sejam o alimento das borboletas e joaninhas que moram por aqui.

Adoro esses mini buquês onde as cores se completam e suavizam. Parece até que a flor se veste para a festa… penso em você caminhando e de repente, o sol te traz o laranja vivo da flor e te faz pensar em missivas. Dei uma atenção especial a elas hoje e pensei nas palavras que te diria. A flor agora terá um significado diferente aqui.

Às vezes, acontece de cair quase todas petalazinhas e fica apenas uma resistente. Nem o vento consegue derrubá-la. Durante o inverno, o pé murcha e parece que vai morrer, mas isso dura pouco tempo. Logo ela surge de novo vigorosa, com flores mais robustas e assim segue em sua vida de flor.

Mas é agora no fim do dia que ela se faz presente com sua fragrância no quintal, como se fizesse perceber… pena que essa missiva não consiga te levar o perfume – suave- da flor… mas, com a delicadeza das florezinhas que te abraço enquanto a minha xícara de chá e uma canção espanta a solidão por aqui.

Te voglio tanto benne
Bacio,

Mariana Gouveia
Texto publicado na Coluna Plural – Scenarium Livros Artesanais
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega –  Ale Helga – Mãe Literatura 

só por desacato à flor

E a noite branca que se esvai com as luzes

Pai,

Devo te contar que eu ainda sigo vivenciando os rituais dos dias grandes. talvez, mais movida para relembrar alguns momentos nossos do que propriamente pela fé. Repito algumas das orações, alguns gestos e parece que um filme passa na minha cabeça.

Desse dia, eu me lembro de quase tudo. Confesso que algumas memórias esbarram-se nas outras e nunca sei se o ano era o mesmo ou se já é apenas fragmentos de uma mesma noite. O que eu mais gostava era que a quaresma chegaria ao seu final e as restrições das coisas que poderia fazer também.

De tudo que me recordo parece que a gente vivia nesse dia uma peça onde as palavras eram proferidas com o máximo de respeito. Os vizinhos todos, na sala, ao redor da mesa grande e o baralho sendo cortado. A espera da meia noite para que a farofa do frango fosse servida. Depois disso, já era apenas a trama para o sábado de aleluia e as brincadeiras de Judas.

Você se lembra de quando minha mãe ficou muito brava quando o nosso banco de madeira perto da janela foi parar lá no meio do curral? Sorrio de imaginar que ela nunca descobriu quem fez isso.

Desse dia, também lembro-me de sua carta escrita em um pedaço de papelão. Era o único papel que você tinha em mãos, em um ano que pareceu nunca ter existido. Ainda me recordo de suas palavras sobre a solidão desses dias  e de como contava o tempo marcando com carvão atrás da porta da cozinha para não esquecer. Me fez entender que o luto nos faz mais fortes depois que o tempo passa e que a gente deve aproveitar cada minuto que puder – porque depois que a gente morre, aquele dia fica sendo sempre sexta feira da paixão para quem ficou – e que todo instante é sagrado para louvar o amor. Seja o da fé, seja o do coração.

Pai, algumas coisas mudam. Outras, são repetidas como se existisse um manual. Lembro-me da frase logo ao amanhecer de que seria um dia quente – toda sexta-feira da Paixão é assim – não há uma nuvem no céu…

Esse ano foi diferente. Seria um prenúncio de romper os ritos, que penso ser a única dos seus filhos que ainda segue? Aqui, amanheceu chovendo, depois teve a garoa – como se fosse inverno – e as nuvens ganharam contornos de cores no decorrer da tarde. Até senti frio…

E agora, pai, a noite branca se esvai com as luzes… a cidade continua na sua rotina de feriado e eu aspiro o perfume das flores do Orai pro Nóbis que já me dá uma previsão de que a varanda amanhecerá colorida. De uma das coisas que não mudou foi a lua, sempre cheia em seu rito no céu. E assim, mais um ano as memórias me levam para dentro do seu colo e suas histórias que não consigo esquecer.

Bença!

Mariana Gouveia
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega –  Ale Helga – Mãe Literatura – Darlene Regina

só porque é sexta-feira da Paixão

Décimo quinto na verdade das coisas.

O dia passou na intensidade das horas.
Não houve tempo para administrar sorrisos.
Conto os dias e repito.
Décimo quinto na verdade das coisas.
Revivo o que foi dito.
Surreal as palavras que dançam
e mesmo que eu apague elas estão ali.
Confiro mil vezes a sua presença.
Não há.
Repito na constante loucura: não é para ser, não é para ser.
A umidade me faz lembrar histórias
e a flor não conhece a rotina do dia em que só fiz pensar em você.

Mariana Gouveia 
Ph: Lukrecja Czerwonajcio

A flor de carne

A flor de carne

Perguntas-me,
se é por ti
que me ergo das cinzas
e eu respondo:
não é sobre o teu corpo
que me desfaço
em suor,
pelos poros da tua pele
que escoo
e nas tuas veias
que me dissolvo?

Perguntas-me,
se é em ti que eu habito
e eu respondo:
não é pela tua boca
que respiro,
pelos teus olhos
que me vejo
e pelas tuas mãos
que me toco?

Perguntas-me,
o que tive de perder,
quando escolhi envelhecer
contigo.
E eu respondo:
o ciúme dos que procuram,
a união
dos espíritos e dos corpos.

Não és senão o ponto
e a ponte,
de partida e de chegada.

João Veríssimo
*imagem: Tumblr

# extratos

# extratos

a primeira vez que a senti foi um desassossego no coração.

Corri lá fora para espreitar a lua…

seria feitiço aquelas imagens sutis em mim?

 

tornou -se vicio esperar por ela…

 

Não sabia se era estado de sentir ou se era pra sempre.

Só fui descobrir depois;

o que sei é que já sabia da esperança dos olhos dela mesmo sem vê-los.

E a cor me encantava. E o silêncio me intrigava.

E eu já a amava desde sempre.

 

Mariana Gouveia

de todas as vésperas.

rosa ribeiro

no principio
convocaram-se todas as manhãs.
plantou-se-lhes nos
olhos
a estrela mais brilhante
para que iluminasse os estremunhados
sonhos
das noites

de todas as vésperas.

e todas se levantaram.

muitos, cansados
acabaram na noite presos.
olhos fechados em chão
quebrado.

ainda assim cresce a estrela nos olhos
das manhãs
convocadas.

rosa maria ribeiro
*fotografia de Rosa Maria Ribeiro

Ar, terra, fogo e água

Para Carolina Cassia.

Ela gosta do mundo das algas
chora quando vê a fome de perto
e no mangue é mulher principal…
é inseto, é bicho, é gente

Busca na origem, a água e os quatro elementos regem dentro dela
É uma só e ao mesmo tempo uma multidão
É pedra na sombra
é sombra no vento
é a força que vem do nome e na voz que grita contra a escravidão.

No ar, estende a mão como se quisesse comer a poesia da vida
ama a arte na rua e em qualquer lugar
é ar, é broto em formação.

Fogosa, domina o mundo
Margem fértil, resistente tal qual o mandacaru
e suave, como sua própria flor

Raiz mestra de quem a cerca
e sem palavras diante da poesia que o manguezal recita

É contra luz, porta, janela
é gravura, captura
solidão…

e na rua é todo mundo junto
é abraço, acolhida
é musgo, cacto, casca e flor
é espinho e perfume

é caule, é elemento
para mim, além de tudo
ela é vida e amor.

Mariana Gouveia
Fotografia: Carolina Cassia

Monocórdica

Monocórdica

Prefiro a nota principal
estilo invariável, único.

como se estivesse lendo – braile
como se a nota musical fosse dela
e ainda pede que eu cante
Pra ela…

ai, quem me dera que o encanto dure
que a música fosse relicário – fosse

que a sinfonia fosse mais doce…
que a melodia, a voz.
E a cadência de menina…
em nós…

Tão monocórdica
no seu sentido literal
coleciona músicas no varal…

Mariana Gouveia