Praticamos o nosso modo coffee talk…

Era aquela alegria conservada guardada em potes,
como a poesia da mãe
Tudo feito em desconcertos para consertar a alma.
Era como se tudo antecedesse o tempo
Por isso, em alguns dias difíceis
Ela ia lá no pote
Respirava a poesia
E com isso, conservava a alegria de viver.
Mariana Gouveia

Chegou o último dia de agosto… E minha carta hoje é para agradecer a você que esteve comigo nesse agosto diferente.  Tentei aqui te entreter com poesia, com minhas emoções. Conseguimos praticar o nosso coffee talk. Você esteve aqui, e a gente trocou mais do que poemas e histórias. A gente esteve junto. Mesmo em dias complicados ou não, você estava aqui com seu like, seu comentário e até sua quietude.

Em agosto, temos o Beda – blog Every Day – que acontece duas vezes ao ano, em abril e em agosto. É um desafio postar diariamente, mas também é muito gratificante ver o engajamento, tanto dos blogs participantes, quanto dos leitores fiéis do blog.

Nesse agosto, derramei aqui poesias, cartas, desabafos e histórias vividas por mim. Espero que você tenha gostado.

Setembro vem aí… e a gente logo pensa na tão falada canção de Beto Guedes – sol de primavera – que exalta a primavera e as boas novas:


“Quando entrar setembro
E a boa nova andar nos campos
Quero ver brotar o perdão
Onde a gente plantou juntos outra vez”

Mas, a canção que ficou mais gravada em mim, diante de tudo que escrevi para vocês em agosto, é a música da Vanusa, no refrão que ecoa agora:

Fui eu que em primavera
Só não viu as flores
E o Sol
Nas manhãs de Setembro

Eu quero sair
Eu quero falar
Eu quero ensinar
O vizinho a cantar

nas manhãs de setembro”

E é isso que desejo para você nesse mês que começa amanhã… que você cante e viva a vida, apesar de tudo que está aí.

Conto com você que esteve comigo aqui todos os dias e que possamos fazer com que a primavera seja vivificada dentro de nós… e que possamos fazer valer a frase da música de Beto Guedes que citei lá em cima:

Já choramos muito
Muitos se perderam no caminho
Mesmo assim não custa inventar
Uma nova canção
Que venha nos trazer
Sol de primavera
Abre as janelas do meu peito
A lição sabemos de cor
Só nos resta aprender

Aqui vai ser sempre um cantinho onde você terá seu lugar, independente de qual cidade do mundo pertença. Seja em silêncio ou comentando… vai haver sempre uma xícara de café te esperando.

Grata tanto!

Mariana Gouveia
Agosto é o mês de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia Leonardi Obdúlio OrtegaLunna GuedesRoseli Pedroso – Adriana Aneli – Darlene Regina

*Traços

Só a rajada de vento
dá o som lírico
às pás do moinho.
Somente as coisas tocadas
pelo amor das outras
têm voz.


Fiama Hasse Pais Brandão

Dobrei os tsurus como a minha mãe havia me ensinado e lembrei – me dos dedos dela a fazer as dobraduras como se tivesse feito aquilo a vida toda. Tinha habilidade com as mãos, sabia disso desde cedo quando a via nas costuras… a tesoura a cortar os quadrados para a colcha de retalho, o tecido a ganhar contornos de roupas. Mas o que mais me encantava era a maneira que ela criava os desenhos para os bordados.

Ela nunca fizera nenhum curso de desenho e conseguia com suas mãos delicadas – as mesmas que revolvia a terra, no preparo da horta – criar a borboleta pousada na flor no papel vegetal ou em um saco de pão e conseguia transformar o desenho em um bordado. As mãos contornavam o papel com a ponta do lápis e surgiam aves, flores, jardins, castelos e paisagens.

Era uma mulher forte e ao mesmo tempo suave. Os olhos conheciam um a um dos sete filhos com suas diferenças e jeitos. Conseguia arrancar de cada um de nós o seu melhor. Em cada canto da casa seu traço estava explícito. Nas prateleiras dispostas na parede da cozinha de frente para a porta, onde as panelas de alumínio reluziam sobre as tolhas bordadas, feita por ela mesma.

Colhia as flores de lavanda e na água do enxague o cheiro rescendia na casa toda, enquanto os lençóis quaravam ao sol. O rio a margear a tábua de bater a roupa e a pedra, moldada pela correnteza, onde no fim do dia, sentava-se e cantava para espantar o mau agouro. Tinha fé nas coisas simples, seja ela uma pena que ganhava força com o vento ou na ave colorida que roubava os coquinhos na palmeira do quintal.

Os cabelos imensos, ora em tranças, – ou esvoaçante no vento, enquanto secava – ou em um coque perfeito, tal como a canção que falava sobre uma índia: “índia seus cabelos nos ombros caídos negros como a noite que não tem luar “ – que é o que ela era – e traçava os sentidos em nós da alegria de ser… O pai deve ter apaixonado por aqueles cabelos que chegavam abaixo do meio das costas, como uma cascata negra – pensava sempre nisso. Sua presença trazia cores e sons pela casa. A máquina de costura a bordar, as panelas a cozinhar alguma guloseima e a canção antiga na beira do rio, até hoje, traz os traços dela:

“Mandei caia meu sobrado, caiei, caiei, caiei.
Pintei de azul e branco, caiei, caiei, caiei.
Eu pintei de azul e branco, caiei, caiei, caiei.

Mandei pintar na varanda, mandei, mandei, mandei.
Eu pintei de roxo e amarela, caiei, caiei, caiei.
Eu pintei de roxo e amarela, caiei, caiei, caiei.

Mandei pintar na janela, mandei, mandei, mandei.
Eu pintei de verde e cinza, caiei, caiei, caiei.
Eu pintei de verde e cinza, caiei, caiei, caiei.

Mandei pintar meu luar, mandei, mandei, mandei.
Com as cores do arco-íris, caiei, caiei, caiei.
Com as cores do arco-íris, caiei, caiei, caiei.”

Ela era literal – e não há como escrever sobre ela senão literalmente – gostava das dobras… em tecidos ou em papel e de traçar os próprios riscos na bordadura. Conhecia o barulho da máquina e dos ventos. Sabia quando o vento trazia a chuva logo para além da porteira e quando falava da vida, era de poesia que falava. Quando abro os braços e chamo o vento, é nela que penso em sua filosofia de que o vento é o Espírito Santo.

Não dá para saber como as dobraduras de uma arte secular do outro lado do mundo chegou até ela. Imagino que fosse pelos livros – os milhares que ocupavam um baú de mogno moldado pelo pai – com os desenhos feitos por ela eram reverenciados como oração. Acreditava que eles possuíam o poder de não envelhecer e ela não envelheceu.

O movimento de ida foi rápido e desenhado dias antes da partida. O vento era seco e uma mariposa gigante pousou no colo dela. O olho grande, ganhou contornos de conformismo e ela pediu apenas que a arte fosse parte da vida da gente.

“É ela quem dá fôlego quando o ar falta de diversas maneiras. E quando, porventura, faltar apoio nas lutas.”

Não sei de qual luta ela falava. Traçou tantas em tão pouco tempo. Fez diferença em tantas outras vidas como a dela. Ensinou traços a muitas “filhas avulsas “do mundo e virou traço além, em algum lugar em que acredito.

De vez em quando, em um fim de dia, quando o céu expande formas e cores eu me lembro de seus traços e nesse momento faço um tsuru como maneira de seguir a arte que ela tanto amou.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês de Tsurus e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia Leonardi Obdúlio Ortega Lunna GuedesRoseli Pedroso – Adriana Aneli – Darlene Regina
*Texto publicado na Revista Plural Traços
Scenarium Livros Artesanais

*Não sei se irá chover ou não…

Se eu pudesse dar somente um conselho pra Savana de ontem, eu diria:
“Acolha seu passado,
se preocupe menos com o futuro
e renasça quantas vezes for preciso no presente.
Isso é muito poderoso!”
Savana Leão

Querida Savana,

O dia amanheceu mais fresco porque ontem choveu aqui… não aquela chuva que a gente gostaria que caísse, a tal chuva da manga e do caju mas senti o cheiro de terra molhada – um dos cheiros mais deliciosos que senti na vida – foi passageiro, e os pingos deixaram sua presença no quintal.

Sorri quando descobri que era seu dia e logo a caneta ganhou forma no papel e vim aqui te abraçar. Roubei a sua frase e iniciei a carta com ela. Lembrei-me de quando ouvi seu nome pela primeira vez. Havia um matéria em um blog, com um texto belíssimo e ali, me apaixonei por você… a menina que costurava roupas para bonecas e que ama a magia da costura.

Lembrei-me da mulher corajosa, que renasce a cada dia, mesmo com todas as perdas e adversidades. Lembrei-me da mulher que escolhe as cores, que traça moldes e cria mais do que uma peça que veste o corpo… cria roupas que abraçam a alma.

Durante anos, fiquei a te acompanhar de longe. Eu, a menina dos retalhos, patchwork, bordados e crochê, encantada com a menina da costura, tecidos e criatividade. Até o primeiro abraço, até o primeiro vestido, até o primeiro riso – tímido seu – e estava ali, em minha frente a mulher que desbrava as retas, tesouras e linhas. E eu descobri que você era a mesma que criava as saias de tule e possuía de fato, a alma de leão.

Sei que esse ano foi difícil, mas assim, como a frase sua lá em cima, você renasce na dor e se fortalece na família… e a poesia ronda tuas mãos no doce ato de costurar a vida. E que bom que minhas poesias conseguiram te ajudar, em algum momento.

Nesse seu dia, há previsão de chuva… não sei se irá chover ou não… a previsão, às vezes, falha… mas o que não pode falhar é a sua fé em dias melhores… é a sua coragem diante da dor… o que não pode falhar são os traços feitos dentro dos dias para que você seja feliz.

Dias felizes para você, além de aniversários e vida afora.

Beijo,

Mariana Gouveia
Agosto é o mês de Savana e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia Leonardi – Obdúlio Ortega Lunna Guedes Roseli Pedroso – Adriana Aneli – Darlene Regina
*Essa carta também faz parte do Projeto 52 Missivas – Scenarium Plural Livros Artesanais.

Incompleta…

Levantou-se e pensou na vida. Observou o dia claro, as nuvens, poucas no céu. Lembrou-se das escolhas, dos caminhos. Procurou entre seus pensamentos algo que realmente a deixasse feliz, e percebeu que sua infância havia lhe proporcionado vários momentos de felicidade.

Desejou encher sua barriga com uma criança, dar vida com uma outra vida. Vê-la crescer. Imaginou-se falando:
– Desce, filha(o), daí… vai se machucar.

Lembrou que tinha que comprar comida para o cachorro. Sorriu ao imaginar o sorriso de seu futuro filho.

Não existia ainda um futuro, mas era bom saber que poderia imaginar isso quantas vezes quisesse. Lembrou-se das vezes em que, sentada na sala, montava sua casa de boneca… adorava ver desenhos e se imaginar a princesa da escola. Olhou o relógio e apressou-se… estava atrasada. Havia muitas coisas para cumprir, compromissos inadiáveis, telefones que insistiam em tocar. Mas ela estava lá, parada no tempo. Vendo a vida como se estivesse na janela. As pessoas passando e ela como expectadora.

Gostava de andar com os pés descalços, e estava – naquele momento – descalça. Aprendera que não podia… uma proibição. Regras. Quando era criança, não podia, mas agora, depois de grande, precisava andar descalça. Liberdade para suas manias.

Lembrou-se da cólica, das dores, lembrou-se de um amor passado. Olhou para o chão, conteve-se em procurar um chinelo, mas desistiu. Havia muitas coisas para cumprir. A comida do cachorro para comprar. Olhou a porta e viu recados. Leite. Precisava tomar café. Não havia pães, ficou com fome e pegou um pacote de bolacha. Em sua cabeça, pensamentos soltos, regime, fome, dia, regras, nenéns que não existem, comida do cachorro, bola, brinquedo, pés. Sonhou em estar em uma praia. Escolheu a roupa do armário e colocou a música para tocar. No rádio, notícias. Olhou o céu azul e desejou ouvir uma música alegre. Mudou de estação. Notícias, propaganda e, de repente, um som que preencheu a alma. Pensou novamente no futuro. Queria ser mãe. Não era o momento, mas queria. Vestiu-se.

Por ora, esqueceu-se dos momentos ruins. Fez uma menção aos santos para iluminar seu dia e saiu… como quem cumpre suas diretrizes, como quem sonha em conquistar o mundo…

P.S.: Anos depois, o filho – já grande – chega da faculdade e fala da Grécia. Muda a estação do rádio, põe numa música engraçada e gritante.

– Mãe, tem de comprar a ração da Meg…

O sorriso do rapaz era largo ao brincar com a cachorrinha… e, nesse instante, revivi aquele dia em que desejei ter meu bebê, lembrando-me de todos os anos. O primeiro dia na escola, o primeiro tudo dele…

Vendo-o assim, bebendo água na boca da garrafa pela milésima vez, reprimo… e, pela milésima vez, ouço o “relaxa”…

P.S.²: A vida levou o homem para longe… e depois de anos realizou o desejo de subir degraus em busca da fé e mais uma vez, descalça, reviro os textos que falam do meu amor por ele. Por acaso, encontrei esse e achei que precisava de um complemento melhor. Lembrei-me de uma frase do meu pai de quando me casei: ” Depois que se constrói uma família, tudo que você deseja é que seu filho seja forte… para enfrentar os momentos bons e ruins. Voar é só uma parte do caminho, no alto. De resto, o chão é onde o pouso é seguro e a estrada te espera para seguir adiante.”


Meg se foi há alguns anos e hoje, Yoshi e Lolla cumprem a função de cuidar dessa humana aqui, que mesmo depois de tantos anos ainda pensa se ele comeu, se dormiu, se lavou o uniforme, se levou casaco… essas coisas de mãe. Da mãe que eu queria ser e sou.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês de dizer eu te amo e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia LeonardiObdúlio Ortega – Lunna Guedes – Roseli Pedroso – Adriana Aneli – Darlene Regina

A rota em direção ao meu Norte.

Não tinha endereço na plaqueta da rua nem número em casa nenhuma. A casinha quase a tocar as árvores ao longo da rua, que era estrada… A direção se dava pelos cheiros. As flores do jardim reacendiam na alma a rota do abraço e a lembrança da chaleira sobre o fogão de lenha já alertava meus sentidos para o chá.
Não saberia nomear o sentido das coisas. Algumas, o universo me dá sem ter nome… Outras, me caem como presente divino.
As ervas que vim buscar estavam a secar em um balcão improvisado a espalhar aromas que eu conheço bem.
Ela riu como da última vez que a vi. Eu coube bem dentro do abraço. Depois de levar a bronca por ter faltado ao último São Cosme e São Damião. Fez mil perguntas buscando dentro do meu olhar as respostas reticentes que eu dava. Desconfiava das minhas desculpas…Ria do meu embaraço a falar do tempo. Lia meu olhar como uma carta aberta letra por letra.
Ela conhecia bem meus silêncios e dentro deles muitas vezes foi benção e voz.
A casa tinha seu cheiro de amor em cada retrato de santo na parede e o ramo de arruda na mão a benzer meu olhar. Tomei um banho de chuva. As ervas a envolver minha pele como se dela fizesse parte. A busca pelo meu canto de sempre. O respirar para dentro num ritual que eu já havia vivido e sentido.
Muitas vezes, ali, debaixo do pé de maracujá, eu descobri minha rota de fuga. Mas também descobri o meu norte e mais uma vez busco refúgio dentro do olhar dela. Ela repete gestos em orações e silêncios. A mão toca minha testa como se pudesse com a mão tirar o que me afligia. As horas ali, parecem não pertencer ao mundo dela. O tempo para dentro do tempo.
O rádio de todo dia toca uma canção antiga. Ela se recorda pela milésima vez quando me conheceu e daquele momento em diante eu virei filha – com ar de brava reclama da filha desnaturada que some de vez em quando – e de como derrama seu amor por mim. Eu respiro carinho em cada canto dessa casa que também é meu lar.
O chá fumega espalhando a essência de cura pelo ar. Os biscoitos de nata desmancham na boca e naquele momento eu percebo o quanto sou abençoada e de que preciso repetir mais vezes esses instantes.
Estendo o braço para a simplicidade do toque. Mão leve que toca e pronuncia as palavras certas. Ri de minhas histórias…canta a canção que aprendeu pelo rádio. Pego as ervas depois do abraço carinhoso e vou rumo à cidade.
Ainda posso ouvir a voz dela a ganhar eco na projeção das árvores. As orientações ainda a ecoar na mente e no coração.
Ainda a vejo no portãozinho de madeira a acenar tchaus com gestos de beijos. Ela é toda inspiração de fé e coragem. Ela é a dona dos cabelos brancos mais brancos ainda e jeito gostoso de vó.
Volto energizada, benzida e curada. A vida sempre me dando atalhos com direção certa e eu apenas a dizer sim ao Universo.

Amém!
Amem…
Mariana Gouveia
Agosto é o mês de abraços e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia Leonardi – Obdúlio Ortega – Lunna Guedes – Roseli Pedroso – Adriana Aneli – Darlene Regina
*Texto publicado na Revista Plural North and South pela Scenarium Livros Artesanais

Agosto.

Em agosto derramava ouro sobre meu quintal. Era amarelo o dourado que banhava o terreiro ao lado do pé de ipê. Mas, também derramava sonhos rosados do outro lado da cerca. Era como se um artista tivesse deixado ali sua obra de arte estampada para todo mundo ver.

Minha mãe me ensinou a gostar do mês que todo mundo esbravejava. Uns, diziam que era o mês do cachorro louco. – e às vezes era mesmo – vi muitas vezes os cachorros do outro lado da cerca, com a baba amarelada a vagar sem rumo. Eu morria de medo dos meus enlouquecerem. Aliás, eu sempre tive medo até que eu mesma enlouquecesse. Havia sempre alguém a contar uma história sobre uma ou outra pessoa que enlouqueceu em agosto.

No meu quintal, os vultos amarelos balançavam durante a noite e da janela eu assistia ao duelo do ipê rosa e do ipê amarelo para conquistar a lua. Sempre fui volúvel com eles. Ora suspirava por um; ora por outro. Ficava horas embaixo deles a esperar que as flores caíssem e por fim, na minha rotina de dar colo para as flores, eu deitava em um tapete florido e ali, ficava a sonhar.

Apesar da fumaça desenhar de gris as tardes de agosto, as cores dos ipês acentuavam ainda mais a beleza do dia. E nisso, minha mãe tinha razão. Agosto era lindo de viver no meu lugar.
O inverno nem era tão castigante e nossos cachorros por fim, nunca endoideceram. Nem eu. Pelo menos até hoje.

Lembro-me que minha mãe dizia que cada mês tem seus sintomas bons e ruins. – não era a sina dos dias que fazia um mês melhor que o outro. Mas sim, aquilo que despejávamos no desejo secreto que tínhamos dentro de nós.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês dos ipês e de B.E.D.A
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Para o caso de chover na tua rua…

Bambina mia,

Resolvi te responder, através dessa missiva, sobre limpar as gavetas em agosto. Acho que desde sempre, dentre todos os meus irmãos, eu sou a única que ainda segue alguns dos vários rituais de meu pai. E esse é um deles.

Para meu pai, agosto era o fim e o início de um ciclo. Era quando encerrava a colheita e preparava o solo para outro plantio. Ensacar a safra nova, retirar o que sobrou da colheita do ano anterior. Hora de limpar o paiol, trocar as sementes velhas pelas novas, fazer a queimada da área de roça de toco, mudar as coisas de lugar e isso, incluía a casa toda. Limpar as gavetas, os baús… trocar espelhos quebrados, coisas trincadas, roupas rasgadas… ceder espaço para coisas novas e boas entrarem.

A sua ligação com os santos sempre foi muito viva e se mantém até hoje e o último dia para toda essa “limpeza” era dia 24 de agosto, onde na folhinha marcava – e marca – o dia de São Bartolomeu. Nem sei se ele sabia da história e das lendas envoltas em torno do nome do santo, mas nesse dia, em todos os anos, era nossa data limite para tirar tudo que era velho, que não iríamos usar mais e começava um novo ciclo, porque nesse dia, independente do ano, chovia. Era a chuva da limpeza, da renovação e da temperança.

Até hoje, bambina, lembro-me do cheiro da terra molhada – depois de dias secos de outono – a exalar do chão. Parecia que a terra guardara o perfume para receber a chuva. A lavoura era preparada nesse dia, para no dia seguinte, abraçar novas sementes e outros rituais seguiam a ordem cronológica de quem plantava. Durante muito tempo, eu fiquei a imaginar como meu pai sabia dessas coisas, mas, depois, parei de querer saber e passei a entender e a continuar os rituais dele… e esse mês, repeti os mesmos gestos… limpei as gavetas e a alma ao longo dos dias de agosto. Não custa nada seguir o rito.

Hoje, na previsão do tempo, aqui na cidade, o rito é outro e não temos previsão de chuvas. Ao redor, a Chapada e o Pantanal queimam. Os resquícios dessas queimadas caem no meu quintal… o céu, está opaco, cinza, devido a fumaça das queimadas.

Não sei a previsão do tempo aí, na sua cidade, mas para o caso de chover na sua rua, molhe as mãos na água da chuva por mim.

Bacio,

Mariana Gouveia

Agosto é o mês dos rituais e de B.E.D.A
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Minha nossa estranha loucura

Por isso, preste atenção nos sinais –
não deixe que as loucuras do dia-a-dia
o deixem cego para a melhor coisa da vida: O AMOR.
Carlos Drummond de Andrade

A primeira vez que a palavra loucura atravessou minha vida foi ainda quando era criança. E a curiosidade assombrava-me os dias. Ela morava do lado da minha casa. Devia ter quase a mesma idade que eu. Os cabelos longos e os olhos medrosos através das cortinas, eu via sempre que dava pela fresta da janela.
Algumas vezes eu ouvia gritos rua afora. Mas até aí, nada demais. Meus irmãos gritavam várias vezes, todos num uníssono som, seja pela bola de gude perdida, seja pela pipa arrebentada, seja pelo gol perdido. Grito nem era sinônimo de loucura – argumentei várias vezes com minha mãe – Eu a achava normal. E a sentia leve quando nossos olhares se cruzavam no relance entre um bailar de cortina, ou do vento que parecia que ela adorava. Para que respeitássemos algumas regras havia sempre a rigidez das minhas irmãs mais velhas e a qualquer tumulto elas mencionavam chamar a menina louca. O que causava silêncio imediato entre meus irmãos. Eu mentalmente desejava que chamasse. Só não tinha coragem de admitir.
Nosso primeiro encontro de fato, aconteceu numa tarde em que por descuido meu, ou de minha mãe, o quintal me coube livre, sozinha. Silêncio ruminando nas ruas. Ela estava na beira da cerca de arame, que separava nossos quintais. Os braços abertos e o corpo rodopiavam ao som do vento. Um riso intenso no olhar. Parou tudo quando me viu. Eu e minha boneca Maricota, feita de tecido preto, cabelos grenhos e boca vermelha. Os olhos pararam no brinquedo que eu trazia sempre. E sem saber como e porque entreguei Maricota através da cerca. Os olhos ávidos e as mãos que ajustavam os cabelos da minha boneca de pano.
– Foi minha mãe que fez. Você tem boneca também? – arrisquei.
O sacudir negativamente com a cabeça me causou emoção e pena. Eu não podia imaginar alguém sem boneca.
– O que é ser louca? – na minha curiosidade de menina perguntei, já imaginando o resgate de Maricota entre as mãos dela.
– Você tem medo de mim? – e nos olhos dela eu vi a esperança de que eu dissesse não. E naquele momento não tinha mesmo.
– Medo não. Curiosidade. – vozes de mãe e irmãos que chamavam meu nome.
Voz de mãe que chamava por ela e Maricota que pendia a cabeça na entrega que ela fazia através da cerca. E eu deixando que ela levasse minha boneca de anos. E o riso dela agradecendo o gesto. E os lábios que murmuravam um “ amanhã eu te entrego”. E o vulto dela entrando casa afora. Um aceno de tchau que jurei ver entre as cortinas.
A primeira vez ensaiou outras vezes. Algumas, permitidas pelas mães que acharam que uma cerca de arame farpado não causava perigo.
Outras, no subterfúgio da noite onde dançávamos com o vento, cada uma no seu quintal. Rindo como se fossemos loucas, mas sabíamos que não éramos. Também ganhei a fama de louca por brincar com a menina que sonhava com o vento. De repente, as portas já não se fechavam mais, porque vivíamos na doce loucura de descobrir a vida. E isso, já não causava mais medo em ninguém.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês da amizade e de B.E.D.A
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*Tudo vai ser diferente quando eu abrir os olhos…

Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar.
Sophia de Mello Breyner Andresen

Querida A.

Eu já te contei que nunca vi o mar? Mas, que ainda assim, eu sou marítima? Que eu percorro em meu quintal o oceano inteiro buscando coisas que não lembro que vivi, mas que continuam intactas aqui, dentro de mim?

Isso me faz lembrar de quando eu era criança e fechava os olhos passando as mãos – ainda pequenas – no rio que margeava a fazenda do meu pai e dizia para minha mãe que eu estava no mar.

De mar, eu só entendia as ondas que ouvia nas conchas que vieram parar ali, no meio dos livros, em um baú, onde eu guardava meus tesouros.

Por muitas vezes, simulei meu encontro com o mar… e de como eu sentiria a brisa marítima na pele. E a maresia? Como será o cheiro dessa tal maresia tão cantada em canções e poemas? A areia fina sob meus pés e eu cantava ali, de frente para ele todas as canções de Caymmi que fala de mar… Ensaio tal qual um jovem cria versos e poemas de amor…

Durante muito tempo repeti os versos de Sophia que abre essa carta e nem preciso dizer que amo meu cerrado e sou adoradora dele e sei que é impossível que as duas coisas acontecessem simultaneamente… mas, já desenhei ele e o bordei em linho, para uma encomenda de artesanato. Era como se as ondas fluíssem para dentro de mim e isso se tornasse um sonho…

Enquanto isso, fico aqui sonhando… e quando chegar o dia, sei que estarei de olhos fechados, sentindo a brisa, a maresia mesmo tendo ensaiado instantes desde criança tudo vai ser diferente quando eu abrir os olhos diante dele.

Beijo,
Mariana Gouveia
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*Este post também faz parte do Projeto Blogagem Coletiva da Scenarium Livros Artesanais

Um amor desses de livro

Eu morava perto de um bosque e todos os dias eu a ajudava pela manhã a colher cogumelos nas redondezas. Meus irmãos e os meninos da vizinhança tinham um medo terrível dela. Eu, não! Para mim, ela era aquela fada das histórias que eu lia e que falava tanto de bruxa, duendes e príncipes.
Ela me olhava com aquele olhar de poesia quando eu me aproximava… Cantarolava uma musiquinha que tinha meu nome no meio e me ensinava a distinguir os cogumelos bons dos ruins.
Um dia, eu falei das poesias, que eu queria aprender. Ela sentou-se na relva, mandou que eu fizesse o mesmo e pediu que eu descrevesse o que via. Além da visão normal, da vida do meu lugar eu via nuvens, pássaros, e o cheiro do capim me transportava pra uma visão diferente do que eu via normalmente.
– Pronto! – disse-me ela – Acabou de criar uma poesia.
– Mas eu quero uma poesia que fale de amor. – eu falei – de um amor tão intenso que um dia vou sentir. E que estando junto vou querer ficar para sempre e estando longe, vai parecer que estou junto. E o meu coração vai estar sempre em sintonia com ele, e minhas mãos vão querer tocá-lo, e o sol vai brilhar para nós dois. Um amor desses de livro.
Ela riu e eu vi um brilho tão intenso no seu olhar; murmurou algo inaudível aos meus ouvidos de menina…
Levantou-se e saiu como se quisesse voar…
– Eu volto… mas esse amor aí de que fala, essa poesia, já existe aí dentro. Só precisa do tempo para vivê-la.
Hoje eu percebo isso… eu já o amava desde a infância. Só era preciso te encontrar para dizer. E eu o encontrei a 35 anos atrás e até hoje, esse amor me faz ser quem sou, dentro dos instantes de poesia e cuidados.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês de sonhar e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia Leonardi Obdúlio Ortega Lunna GuedesRoseli PedrosoAdriana Aneli – Darlene Regina