Das rotinas · Mariana Gouveia

*a fabricar tempestades particulares 

Ph: Ziqian Liu

Choveu em uma tarde banhada de sol enquanto eu lia meu diário. Rabisquei algumas palavras mudando o sentido das coisas. Depois reguei as flores que não receberam as gotas da chuva.

Depois de dois convites para sair – que recusei apenas com resmungos – fui andar descalça no quintal enquanto Ed Sheeran tocava no repeat. Às vezes, minha solidão precisa da companhia de canções. Desfiz o naperon de crochê – errei na cor da linha – e recomecei do zero. Já reparou que, às vezes, o zero, é um começo?

Marte em sua melhor presença segue a lua em seu quarto crescente ou seria ao contrário? Fico pensando se é ela que ronda as estrelas em busca de companhia. Aprendi o nome de uma planta que nasceu no quintal sem que eu tivesse as sementes. As sombras invadem as janelas abertas enquanto minha mão fabrica chuvas nos vasos que ficam dentro da varanda.

Guardo as fotografias em preto e branco dentro do diário em uma data preferida. No coração, trovoa. Enquanto penso em coisas que eu gostaria que acontecesse começa a tempestade no interno de mim. Alerta vermelho de explosões vulcânicas na alma.

Mariana Gouveia
*frase do poema de Egito Gonçalves

Das palavras das cartas · Efeito borboleta · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

Aos cuidados do meio-dia…

Ph: Ziqian Liu

Helena,

Eu deveria te escrever com meu vestido de poás laranja e assim, atravessar esse oceano e te contar coisas do meu quintal. O sol do meio-dia se impõe e hoje, parece mais quente que os dias normais. O vestido dá lugar para o conjunto de short e camiseta e nem vou te falar sobre poás.

Ou talvez vá… a borboleta laranja que voa aqui, parece ter poás nas asas – claro que isso é imaginação minha – e veio essa semana toda. Lembrei-me de um poema de Graça Carpes: “Tenho o tempo das borboletas. Uma semana, é uma vida” e eu fico pensando se é a mesma que veio todos esses dias ou se a semana dela já passou.

Não sei se te contei sobre o vento morno daqui e se na densidade das horas a vida é igual para você. O calendário parece acelerado. Foi ainda a pouco que retirei a folhinha de ontem e o hoje já é quase amanhã. Será que passaremos a ter o tempo das borboletas? Amanhã já é dezembro, Helena! E daqui a pouco, já estarei escrevendo para o novo ano.

O dia ganha contornos laranjas no meu quintal e leio sobre pássaros em poemas que não escrevi enquanto meu pássaro de todo dia vagueia por aqui. Ele se coça e uma peninha se solta. Isso me dá uma ternura imensa. Lembro de você e do seu sorriso quando te conto histórias sobre ele.

Sabe, Helena, os meninos da rua de cima já correm atrás de pipas. Os cães latem enquanto um dos meninos tenta roubar a pipa do outro. Já fiz muitas pipas para eles em outros tempos. Até hoje, há um esqueleto de uma que fiz presa no fio de alta tensão.

As sombras já contornam o pé de ipê e já invade minha janela. Alguns raios do sol atravessam as telhas e formam uma luz difusa na minha cozinha. A vida tem essas coisas mínimas no dia da gente. Um voo de borboleta, um pouso de pássaro, uma nuvem em forma de coração, uma folha que cai e às vezes, nem reparamos nos instantes de ternura. Você tem reparado nas ternuras daí, Helena?

Um beijo meu,

Mariana Gouveia
Projeto Blogvember – Scenarium Livros Artesanais
Participam juntos comigo: Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins

Das palavras das cartas · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

As memórias ficam suspensas dentro de mim

Como se fosse roupa
guardada no armário,
os cabides segurando as alças,
s memórias ficam suspensas
dentro de mim
Mariana Gouveia – As estações

Paty querida,

quando penso em você as minhas memórias se voltam para minha mãe costureira. É como se você colocasse o fio na agulha e puxasse as lembranças e elas me levam à Outras costuras.

A linha, a agulha, o tecido, os pontos… tudo foi me ligando a você e quando veio a pergunta sobre o que significa bordar e costurar, as respostas de quase todas as meninas foram as lembranças de mães e avós. Eu vivi doçura ali, Paty e mergulhei nos tecidos guardados. Nesse dia, eu fui costurar, lembro-me bem.

Eu já te contei que minha costurava e bordava? Mas, antes disso tudo, minha mãe parecia uma alquimista, daquelas que são personagens de livros. Nas sextas-feiras de lua cheia minha mãe nos levava para a floresta adentro, e ali, colhia as folhas de determinadas árvores. O angico, a aroeira, o mogno, o cedro e outras espécies “cediam” suas folhas/galhos/cascas e alguns frutos para nós.

O ‘ceder” era quase um pedido de oração e desculpas. Havia um ritual a seguir e assim, a floresta era a doadora dos restos de seus galhos/folhas/cascas e voltávamos com os cestos cheios para casa. No dia seguinte, o caldeirão era colocado no fogo e cada espécie tinha um tipo de procedimento para tingir os fios.

Depois de colher o algodão, Paty, a minha mãe tecia em uma roca o fio. O varal ficava lindo de ver as nuances de cores se formando depois do tingimento. Só depois de dias secando é que o fio virava tapeçaria/roupas/linhas. A organza ganhava a tonalidade creme depois de envolvida na água das cascas de cebolas e assim por diante. E meu vestido de bolinhas era feito na velha máquina Singer, assim como as roupas dos meus irmãos.

Por várias noites, minha mãe se debruçava sobre a máquina para costurar. Dali, saía as nossas roupas, os lençóis de linho bordados para enxovais das minhas irmãs e das meninas da redondeza. E as colchas de retalhos feitas com as sobras de tecido nos aqueciam em noites frias.

Foi ali, ao pé da máquina, enquanto minha mãe costurava que aprendi a bordar. Seguindo os riscos que ela mesmo criava e só depois, através dos livros do Instituto Universal Brasileiro, que chegavam pelos correios que desenvolvi a arte da costura e dos bordados.

Eu quis dividir com você sobre isso, porque assim, costuro minhas memórias às tuas e juntas resgatamos momentos queridos. Paty, eu te gradeço por me permitir esse instante. Faz tempo que eu queria te contar essas coisas e de como Outras costuras toca meu coração. Os pontos alinhavados no aconchego que sinto quando penso em você. É assim que a gente borda a amizade.

Abraço carinhoso
Mariana Gouveia
Projeto Blogvember – Scenarium Livros Artesanais
Participam juntos comigo: Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins

Das palavras das cartas · De todas as estações · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

Um caderno que colecionava

relatos de personagens antigos
Suzana Martins – As estações

Su,

a sua poesia me fez reverberar aqui e juntei minha memória com a tua. Fiz uma pausa dentro do aconchego de suas palavras e me permiti ‘folgar’ em uma tarde quente e abafada. Peguei as caixas, os baús com as cartas e os cadernos antigos, sentei-me no chão na varanda e espalhei fotografias e lembranças. Aspirei saudades e nostalgia.

Sabe, Su, eu ainda tenho os cadernos onde eu escrevia minhas coisas. É quase uma espécie de diário – vários – onde eu escrevia histórias, poemas que eu gostava de algum autor favorito e coisas sobre os personagens que me rodeavam. Eram tantos! Cada um com sua peculiaridade e encanto.

Algumas fotografias amareladas pelo tempo, os irmãos mais novos retratados nelas e o cheiro de um tempo que fica grudado na gente como se fosse o perfume das memórias. Tudo parece se encaixar dentro de seu poema e o afeto aquece meu coração.

O céu a desenhar outono
memórias de final de tarde
espectro detalhes
âmbar
a saltar
as letras furtadas
de um caderno
que colecionava retratos
de personagens antigos

Eu apenas suspiro, Su e te reverencio na docilidade de me integrar com suas palavras como se com isso, eu pudesse sorver o tempo passado. Sabe o mais engraçado, Su? É que de repente um vento sopra, o poema ganha vida e um dos personagens antigos te liga do nada e fala sobre a saudade. As frases vão ganhando contornos de reencontro. O cheiro de pipoca vindo de algum vizinho…. Lembra-se das pipocas? – e as lembranças se misturam, unas. Tem até a canção antiga cantada no refrão.

Nesse momento, Su, eu apenas lacrimejo os olhos e agradeço o universo tão único no jeito de me ligar as pessoas. Seja de um tempo antigo, ou seja, de agora. Assim como você. Peu Pte Pa Pmo ❤

Grata por isso!
Te abraço!

Mariana Gouveia
Projeto Blogvember – Scenarium Livros Artesanais
Participam juntos comigo: Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins

Das palavras das cartas · dos diários · infinitamente · Mariana Gouveia

Grandes ruas de silêncio levam aos arrabaldes da pausa

Isís,

Haverá um dia em que você dirá que a solidão tem a cor dos ipês da rua de cima? Eu sei que sim… E sei também que nesse dia marcará em seu diário que o silêncio é quase esse poema de Emily:

Grandes ruas de silêncio
levam aos arrabaldes da pausa –
aqui não há novas – dissídios,
nem universos – nem leis.

No relógio era manhã, p’la noite
Distantes sinos dobravam –
Aqui não têm base as épocas
para o tempo ser passado

Lembro-me de que me disse uma vez que seu diário é marcado por reticências… essas, representam por vezes coisas que você quis dizer e que guardou antes de pronunciar ou escrever.

Sabe, Ísis, a rua de cima fica em silêncio completo lá pelas duas da manhã. Nem o gato da vizinha da casa ao lado mia, nem o cão da casa da frente ladra, nem o bebê que nasceu há dois dias da casa amarela chora. Eu já estive na rua de cima as duas da manhã. Lembro-me de que fiquei sentada em sua calçada alta e deparei-me com sua janela iluminada. Foi em uma das noites em que perdi o sono e meu muro me deixou sem ar.

Lembra que eu te disse que as flores dos ipês quando caem fazem silêncio, como se segurassem a dor de se despetalarem? Você riu, Ísis… e seu olho brilhou como se tivesse descoberto suas reticências em forma de poesia.

Eu aprendi a falar com você pelo olhar. Te vejo sempre desde os cinco anos e aqueles bloquinhos que a gente anotava conversas e memórias deu lugar aos sinais pelo olhar. Minhas mãos demoraram para entender a libra e o silêncio nos aproximou.

Você diz que eu te levei a poesia e eu digo que a poesia me trouxe você e que aquela menina que se encolhia quando alguém se aproximava, hoje é portadora de risos que abre portas.

Hoje, Ísis, quando penso que você vive em um mundo de silêncio também sei que os sussurros de amor que recebe é mais do que gritos em seu coração.

beijo meu,
Mariana Gouveia
Projeto Blogvember – Scenarium Livros Artesanais
Participam juntos comigo: Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins

azul em qualquer céu. · Do lado de fora

Eduardo e Mônica

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(… ou você & eu)

ele dava aulas de sexo tântrico nas noites de lua cheia e ela bordava poesia em bolinhas de sabão.
não estava escrito nas estrelas e nem se tratava de um desdobramento místico de vidas passadas. ainda assim se encontraram numa encruzilhada da cidade sem esquinas… ele comia um filé a parmegiana mal passado acompanhado de alguma bebida inofensiva qualquer; e ela usava um chapéu de coco e rodava a via láctea inteira para formular uma frase simples – ela sempre teve um certo fascínio pelas figuras de linguagem!
rebeldes e inconsequentes, não cruzaram as informações do mapa astral com o resultado da numerologia dos nomes de seus antepassados. ignoraram os signos do zodíaco; sequer passaram a vista na página onde o colunista traçava a orientação de conduta. nas cartas do tarot e na vidência das ciganas não buscaram seu destino. declinaram de mandingas e não tomaram conhecimento algum de uma possível incompatibilidade de seus tipos sanguíneos.
apenas se deixaram levar pela inspiração de quereres que rendeu o encontro. e tendo ou não razão as coisas feitas pelo coração, plantaram no fundo do quintal de casa uma árvore de sonho, que espalhou mudas pelos cantos tantos do terreno inteiro… e além…

Keila Tavares (com uma bela galeria aqui)

Das palavras das cartas · Do lado de fora

Das cartas que recebi.

Mari,

Quando me mudei para essa casa, meu guarda-chuva tocava as árvores da rua. Nesses quase vinte anos, chegaram na altura adulta e mal vejo as copas.

Tenho muitas histórias com as árvores da minha rua, uma vez, cuidamos de uma goiabeira quebrada. Colamos com seiva e fizemos ataduras, mas ela se recusava a sarar. Pensamos num plano de roubá-la numa noite escura, mas um amigo advogado nos advertiu do perigo que há em salvar, poderiam chamar a polícia ao ver as gravações da rua e assistimos ao seu fim silencioso.

E ninguém percebeu que a menina esguia que já estava na inflorescência, havia morrido.

No verão de 15, um raio partiu minha figueira. Parecia uma nau com seu rangido quando atraca.

Sofri com o vazio que ficou.

Dessas que vê na fotografia, são sobreviventes: muitas caíram ao longo desses anos, parecem não gostar das estações das chuvas.

Outro dia percebi que fizeram um coração com iniciais em uma paineira. Isso me doeu tanto quanto fosse tatuada em mim um amor que nem dura a infância de uma árvore.

Mari, já te contei que vou virar árvore quando me encantar?

Carta e fotografia de: Luciane Ricieri

Lua de Papel · Lunna Guedes

Lua de Papel

leslie ann o'dell 1

” às vezes, é simplesmente perfeita e,
me deixa sem ar, me cortando ao meio,
me fazendo em pedaços quando ‘escreve’ com a própria voz, sem papel,
como se desenhasse na atmosfera as palavras que pulsam em seu íntimo…”

Lunna Guedes in Lua de Papel
*imagem: Leslie Ann O’dell

Das rotinas · Divã · Mariana Gouveia

Revirou a terra e inventou sementes.

Cavoucou na parede o estuque. Descobriu o azul morto três tinturas depois – ou seria o verde desmaiado do ano anterior? – e se perdeu dentro da cor, nas lembranças.

Salvou a formiga do afogamento em um balde e a viu segura duas folhas do gervão depois da cerca.

O vento mudou-se daqui – pensou – pois já não sente mais a presença dele. Depois do vazio das árvores não ouve mais a canção das folhas. Tudo é esse desgaste de tempo.

Replantou o jardim de novo. Revirou a terra e inventou sementes.

Daqui alguns meses a estação terá mudado, mas reviverá a primavera no amanhecer.

Mariana Gouveia
Das infinitudes

Do lado de fora · Livros · Scenarium Livros Artesanais

a invenção do vivível

I

Do lado de fora, a vida
em estado de holograma:
Mergulho impossível

II

Ainda assim,
crer no nado
fabular a margem

III

Do lado de fora, a foto
em tamanho irreal
dentro: a invenção do vivível

Anna Clara de Vitto
Estradas para os domingos
Scenarium Livros Artesanais