3 D

Os dias passaram como nos filmes
E a imensidão do mundo ganhou caos em seus olhos…
Mas, um dia, não se sabe por que razão, quis viver a fama de louca
E de fato, rasgou as roupas que lhe impuseram… nunca pensou que era tão bonito morrer

E ali, nasceu pela segunda vez.

Mariana Gouveia
Das coisas breves

– Ocupar o silêncio da casa

Bambina mia,

Eu nunca consegui ocupar o silêncio de uma casa… pelo menos, não me lembro. Desde pequena, com seis irmãos, a algazarra era imensa e mesmo eu sendo a mais quieta entre eles, o silêncio não existia e fui deixando o barulho gritar em mim.

Dos barulhos que eu mais gostava era o dos trovões e mesmo com todos os espelhos tapados com lençóis e o medo de minha mãe dos raios que sempre acompanhava a fala do céu quando acontecia uma tempestade, para mim, o trovão era a voz do céu… rompia o silêncio ou abafava os gritos dos irmãos em correria pela casa e eu ficava em pé, na porta ou janela, maravilhada com o eco a estrondar enquanto meus irmãos se escondiam. Buscavam abrigo no colo ou ao lado da mãe.

Com o passar do tempo e a distância entre os meus irmãos, eu rompo o silêncio que em alguns momentos me ronda com música, o canto dos pássaros e o vento.

Hoje, meu dia foi quase igual ao seu e enquanto sua missiva ganhava minha emoção, trovejava aqui… e como se fosse sintonia, o toc toc da mensagem ecoou com seu nome sendo gritado no quintal.

Esteve quente o dia inteiro e antes que o aroma que nós duas amamos – o petricor – exalasse por aqui, trazendo a docilidade de suas letras, trovejou… e ao gritar seu nome lembrei-me que descobri sobre o nome petricor dias desses – que é nada mais que o cheiro do pingo da chuva na terra seca. Fluído etéreo. Sangue dos deuses – é quase poesia… já, imaginou, bambina, a poesia no nome das coisas? O aroma que a chuva provoca ao tocar o solo… é como se perfumar para encontrar alguém e juro que me lembrei de sua rinite e sorri quando descobri que esse cheiro é quase como o cheiro do seu abraço…

E veio o vento, trovões e chuva e meu quintal vibrou com o petricor a aromatizar o jardim enquanto chorei… Essa semana, foi de partidas e de nascimento. Alguém se foi, porque era o tempo de ir e um menino nasceu sob meus olhos. E sob seus olhos, um ninho se fez colo… Fico me perguntando onde as coincidências nos alcançam sempre?

Enquanto os relâmpagos cortam o céu eu encontro a resposta: é no silêncio que se ocupa de nós. O da sua casa e o da minha… nesse piar que ocupam sua varanda e o meu quintal. O silêncio que grita em nós.

Amo tu imenso!

Bacio,
Mariana Gouveia
Ph: Imagem: Pinterest
#projeto52
Scenarium Livros Artesanais

João.

Quando o jardim chegou ao ápice virou colo, a flor.
O cheiro exalando fragrância de terra molhada.
Um menino, que enfeita meus dias nasceu há cinco anos atrás. O verbo do dia cheio de desejo de riso e o pólen, saciando fome do inseto que voa.
Tem dia que a festa é dentro do coração.

Mariana Gouveia

A poesia é algo que acontece na alma quando uma palavra faz o corpo tremer.

Eu devia ter uns sete anos quando me apaixonei pelas cores grená, verde e branco. Na verdade, eu nem sabia quais eram os tons que o narrador do rádio traduzia nas palavras. Mas, o que eu sabia era que amava o som da torcida que ecoava o hino e fazia acontecer em mim a emoção.

O velho motor rádio do meu pai dava lugar e voz para Valdir Amaral e Jorge Cury nas narrações do tricolor da Laranjeiras e foi ali, pelas ondas do rádio que o Fluminense ganhou meu coração. Eu queria muito saber o tom que tinha as cores que o narrador contava. Mas, minha cartilha só ensinava as cores básicas e conhecidas na tabela de cores.

Eu sabia o nome de Wado, Telê e outros, e até as cores verde e branco, porém, o grená atiçava minha curiosidade até o dia em que em uma revista Placar, que chegou entre os livros que ganhei deu cor e mais amor ainda ao meu time. E eu que já amava aquela camisa tricolor, e só a conhecia pela descrição dos locutores de rádio, mesmo sem saber a cor passei a entoar o hino com mais emoção.

Comemorei muitos títulos, chorei várias derrotas, vibrei com tantos jogadores e mesmo tão longe, mesmo sabendo que ninguém do time sabia sobre mim, eu sentia que minha torcida se juntava à todas aquelas vozes que o rádio trazia até onde eu estava. Domingo era dia de jogo e o rádio, a ponte que me ligava ao Fluminense.

Se a poesia é algo que acontece na alma quando uma palavra faz o corpo tremer e a poesia acontece em mim de várias maneiras, mas quando o time entra em campo e o hino ecoa meu corpo ganha o poder de torcedora.

Nunca tive uma camisa do meu time. Sempre que havia um plano de comprar surgia algum imprevisto ou alguma urgência e a camisa ficava em segundo plano, embora meu amor pelo clube, não. Esse é ecoado em verso, como se fosse uma oração.

Hoje, resolvi escrever esse texto, porque semana que vem o meu time vai jogar aqui, na minha cidade. Tão perto e a emoção já toma conta de mim. Sou apaixonada pelo Fluminense desde quando nem entendia de futebol. Por que acho que torcer para o clube é algo que vai além de quem ou para quem você deseja torcer. Você já nasce sendo.

Sou tricolor de coração
Sou do clube tantas vezes campeão
Fascina pela sua disciplina
O fluminense me domina
Eu tenho amor ao tricolor!

Salve o querido pavilhão
Das três cores que traduzem tradição
A paz, a esperança e o vigor
Unido e forte pelo esporte
Eu sou é tricolor!

Vence o fluminense
Com o verde da esperança
Pois quem espera sempre alcança
Clube que orgulha o Brasil
Retumbante de glórias e vitórias mil!

Sou tricolor de coração
Sou do clube tantas vezes campeão
Fascina pela sua disciplina
O fluminense me domina
Eu tenho amor ao tricolor!

Salve o querido pavilhão

Das três cores que traduzem tradição
A paz, a esperança e o vigor
Unido e forte pelo esporte
Eu sou é tricolor!

Vence o fluminense
Com sangue do encarnado
Com amor e com vigor
Faz a torcida querida
Vibrar com a emoção do tricampeão!

Vence o fluminense
Usando a fidalguia
Branco é paz e harmonia
Brilha com o sol da manhã
Qual luz de um refletor
Salve o tricolor!

Mariana Gouveia
Fotografia: Pinterest

Um amor desses de livro

Eu morava perto de um bosque e todos os dias eu a ajudava pela manhã a colher cogumelos nas redondezas. Meus irmãos e os meninos da vizinhança tinham um medo terrível dela. Eu, não! Para mim, ela era aquela fada das histórias que eu lia e que falava tanto de bruxa, duendes e príncipes.
Ela me olhava com aquele olhar de poesia quando eu me aproximava… Cantarolava uma musiquinha que tinha meu nome no meio e me ensinava a distinguir os cogumelos bons dos ruins.
Um dia, eu falei das poesias, que eu queria aprender. Ela sentou-se na relva, mandou que eu fizesse o mesmo e pediu que eu descrevesse o que via. Além da visão normal, da vida do meu lugar eu via nuvens, pássaros, e o cheiro do capim me transportava pra uma visão diferente do que eu via normalmente.
– Pronto! – disse-me ela – Acabou de criar uma poesia.
– Mas eu quero uma poesia que fale de amor. – eu falei – de um amor tão intenso que um dia vou sentir. E que estando junto vou querer ficar para sempre e estando longe, vai parecer que estou junto. E o meu coração vai estar sempre em sintonia com ele, e minhas mãos vão querer tocá-lo, e o sol vai brilhar para nós dois. Um amor desses de livro.
Ela riu e eu vi um brilho tão intenso no seu olhar; murmurou algo inaudível aos meus ouvidos de menina…
Levantou-se e saiu como se quisesse voar…
– Eu volto… mas esse amor aí de que fala, essa poesia, já existe aí dentro. Só precisa do tempo para vivê-la.
Hoje eu percebo isso… eu já o amava desde a infância. Só era preciso te encontrar para dizer. E eu o encontrei a 35 anos atrás e até hoje, esse amor me faz ser quem sou, dentro dos instantes de poesia e cuidados.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês de sonhar e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia Leonardi Obdúlio Ortega Lunna GuedesRoseli PedrosoAdriana Aneli – Darlene Regina

Uma porta que se abre em outro lugar.

Nasci e cresci em uma fazenda no interior de Goiás, das mãos de uma parteira que se chamava Flor e que se tornou minha meio fada, meio bruxa, meio flor, que era a maneira que eu a via.

Nessa fazenda havia uma mata próxima do rio, caudaloso, piscoso e de águas límpidas. A mata, quase bosque, era uma porta que se abre para outro lugar. Sob os cuidados e olhos dessa mulher eu cresci no meio de sete irmãos e dezenas de meninos e meninas das redondezas.

No interior da mata havia a fazenda de cogumelos. O ambiente era propício. Umidade, madeiras, árvores plantadas propositadamente e muito amor dela para com aquele espaço.

Ali, eu conheci a poesia, a magia e o encanto dos cogumelos. A cura, a beleza, a morte. Descobri a essência de uma pessoa que, na época, vivia de sonho e das palavras que eu lia pra ela.

E assim como a atração pelas borboletas começou ali, enveredando pelos campos correndo atrás delas o amor pelos cogumelos também. Claro, que minha mente de menina adorava os petiscos, os cremes, os molhos feitos com eles, mas o fato de um fungo transformar a vida de uma mulher que tinha o dom de trazer as crianças ao mundo me encantava.

O tempo passou e naquele lugar, eu vivi a mais bela parte de minha história. Onde as maioria dos meninos tinham medo dela pelo fato de a considerarem bruxa, eu pude absorver e receber o amor em dobro de mãe. A minha mãe mesmo, carinhosa e a fada meio bruxa, meio flor que me fazia viver em um conto de fadas.

Ela se foi… mas continua aqui. Mil dias não bastariam para eu dizer que hoje, cada palavra, cada poema de mim tem tanto dela. Mil dias não bastariam para agradecer as coisas boas que me aconteceram e ainda acontecem. As pessoas que chegam como presentes na minha vida. Alguns vieram só de passagem e se foram. Outras, mesmo indo permanecerão sempre no meu coração, na minha memória e na minha poesia.

Para alguns, eu tiro o chapéu. Outros, eu reverencio… chamo de mestres. Uns, são amigos queridos, onde choro no ombro, lamento, brinco, brigo… Outros me trazem a ternura de manhã… São sempre companhias. Alguns me trazem a paz, sejam através de palavras, imagens. Já outros, poesia, alvoroço… e assim vou.

Agradecida imensamente por tudo que construí aqui. Uma floresta de imagens e palavras onde é bem vindo quem trouxer no coração o doce aconchego do gostar.

Mariana Gouveia

Agosto é o mês das fantasias e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia LeonardiObdúlio Ortega Lunna Guedes Roseli Pedroso – Adriana Aneli – Darlene Regina

Da cor do meu chapéu

Quando atravessei a porteira ele tirou o capim da boca.
O ar zangado era típico dele. Ranzinza foi logo dizendo:
– Quando eu disser três horas, são três horas! Não tenho de ficar aqui berrando para você vir.
– Uai, eu ia te esperar aqui, fora, sozinha?
– Não precisa me esperar. Quando perceber que cheguei, venha rápido.
– Eu estava terminando de ler as cartas.
– Que cartas?
– As cartas que ela tem nos quadros, na parede. Eu leio pra ela. Olha o que eu trouxe pra você! Pastéis com recheio de cogumelos. Ah, hoje eu vi um cogumelo lilás!
– Lilás? Lilás como?
– Lilás, lilás, quase roxo. Da cor do meu chapéu…Mas é venenoso. Mata em poucos minutos. É só para remédio.
– Eu fico com medo de comer essas coisas de cogumelos que você gosta. Acho que ela te enfeitiçou.
– Epa! Você é mais bocó que eu pensava. Ela não é feiticeira. Ela só meio bruxa, meio fada, meio flor.
– Não existe meio bruxa, nem meio fada, aliás nem existe fada, é lenda. Eu li num livro.
– Se você acha que fada é lenda, então bruxa também é.
– Bruxa mexe com bruxarias, essas coisas. Enfeitiça as pessoas para fazer mal.
– Não sei de onde tirou isso. Ela é apenas meio bruxa, meio fada, meio flor. Não faz mal a ninguém. Pelo contrário. Só ajuda as pessoas e essas, falam mal dela pelas costas. Ela é meio bruxa porque sabe os segredos das plantas. As que curam, as que matam. Meio fada porque tem a magia de trazer crianças no mundo como eu, você, nossos irmãos e os meninos todos da região. Só uma fada tem esse poder. De saber a hora que nasce e meio flor porque ela tem o cheiro de todas as flores juntas. Quando ela passa é como se o vento parasse para ela. Ela só a magia de ser do bem e de amar as pessoas.
– Sei não…só sei que eu não te trago mais se ficar demorando tanto para vir.
– E eu não te trago os pastéis. E ainda digo para ela que você tem medo dela e aí ela vai te chamar para conversar.

Um vento bateu e uma folha balançou fazendo um barulho. Meu irmão correu em disparada e me deixou só.
Tinha medo de qualquer barulho no mato.
Só deixou de ter medo quando virou poeta…

Mariana Gouveia

Agosto é o mês dos diálogos e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia LeonardiObdúlio OrtegaLunna GuedesRoseli Pedroso – Adriana Aneli – Darlene Regina

Rituais

Eu nasci no dia da colheita dos negris – os cogumelos negros que pareciam bordados em fios de ouro – e eles, para mim, tinham um jeito especial.

Eu adorava ver meu irmão com o capim no canto da boca, mordendo e com medo de eu pegar o cogumelo venenoso e comer. Ele cheirava a chocolate, mas acho que era por causa do pé de cacau onde ele brotava e a cor dele me fascinava.

Nas minhas histórias, os cogumelos eram coloridos, mas lá no cantinho havia o cogumelo negris – que foi um nome dado por ela, por causa de sua cor escura.

Ela dizia para todo mundo que era venenoso… Mas era delicioso e pareciam as trufas de chocolate que uma tia fazia.

Ela, no meu aniversário ou no dia da confraternização me dava ele fatiado… E me dizia sempre para ter cuidado ao comer. Até Buda morreu comendo cogumelos, ela dizia. E que só alguns da realeza sabiam provar…

Cada colheita de cogumelos era um ritual que seguíamos e minha esperança eram os negris ou os venenosos. Tinham as cores mais bonitas e me acrescentava a fantasia como brinde.

Quando encontrávamos os cogumelos alucinógenos, aqueles que contem “psilocibina”, ela tinha todo cuidado em protegê-los até o encarregado da entrega passar. Não podíamos tocar, e meu irmão nem arriscava a olhar.

Um dia, sentada com ele olhando o horizonte me disse que era ela quem colocava o veneno neles em noite de lua cheia.

A olhar o céu, e ao meu lado,  percebi que, estava sempre ali, cheio de poesia só que ainda eu não tinha visto e não sabia o quanto a imaginação dele podia voar.

Foi quando ele descobriu que podia sonhar.

Mariana Gouveia

Agosto é o mês de descobertas e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia Leonardi Obdúlio Ortega Lunna GuedesRoseli PedrosoAdriana Aneli Darlene Regina

Partidas.

A primeira vez que ela me falou sobre partidas foi durante uma colheita de cogumelos. Eu já nem tinha mais aquele jeito de menina e ela já nem parecia mais a fada meio bruxa meio flor e sim jeito de vó.

Enquanto eu mordia o lado mole do capim e limpava o suor do rosto que teimava em cair, ela começou a falar de um lugar. Era um lugar lindo, que todos iam conhecer e era para onde a gente ia depois que partisse.

Senti uma dor na alma com a palavra “partisse” e imaginei uma viagem. Perguntei se ela ia viajar e ela suavemente disse que logo teria de ir.

– Quando você volta? – perguntei – imaginando ficar sem ela por mais de um dia. Eu nunca havia ficado um dia sem estar com ela… todos os dias era presença certa na minha vida.
– Talvez eu não volte… – ela me respondeu em suavidade, como se não quisesse falar e eu a entendia muito bem.

Depois de um longo silêncio, ela quebrou dizendo:

– Para tudo, há uma hora certa. Assim, como há a época de colher os cogumelos, de plantar os girassóis, de regar a horta, de nascer. Há o tempo da partida.

Lembrei-me que meu pai já havia partido uma vez. Havia acompanhado uma comitiva de gado até uma outra fazenda que a gente tinha e dessa vez ficara mais tempo do que previra por causa de uma enchente.

E já conhecendo meus pensamentos ela retrucou:

– Essa viagem é diferente. Diferente de todas as viagens. A gente não volta, pelo menos não assim, visível. A gente volta como poesia, só.

Aquilo me deixou triste e eu saí correndo. Fiquei dias sem ir lá vê-la.

Um dia, enquanto eu sentada olhava o pôr do sol, ela se aproximou, com um cogumelo na mão, desses bem grande e me deu.

Falou do meu sumiço e que esse sumiço foi por bobagem, porque quando chega a hora a gente vai de qualquer jeito, assim como o cogumelo é arrancado de seu grupo sem poder escolher.

Falei baixinho, quase sem voz:
– Você pode escolher não ir.

– Não. A escolha não depende de mim – ela disse.

– De quem então? De meu pai? Eu posso pedir para ele não te mandar. Não vai nascer nenhuma criança agora.

– Não do seu pai, mas de um Pai Maior. Esse, determina quando a gente nasce, a hora que a gente morre e tudo que a gente pode fazer é aproveitar cada momento. Eu sou abençoada e se tiver de partir agora, tenho certeza de que fiz a coisa certa enquanto estive aqui. Eu vivi a intensidade das coisas. Agora, para relaxar, que tal uma corrida maluca até o rio? A última a chegar é mulher do padre…

Eu sorri, meio sem graça e topei… mas percebi a lágrima que ela limpou.

Aproveitei cada momento como nunca daquele dia em diante.

Dias depois ela se fora. Como um passarinho, em um dia estranho de agosto.

Como um cogumelo arrancado do grupo.

Ultimamente tenho pensado nela. Nas palavras que ela dizia e eu anotava sob a luz de lamparina em um caderno que ainda tenho.

Faz muitos anos que ela se foi. Mas, todos os dias eu a sinto. Eu a vejo e a vivifico em tudo que faço. Com a intensidade de viver o que me foi dado como presente. O hoje.

A saudade virou poesia em mim nas lições que pratico diariamente.
E tenho certeza de que de onde ela estiver, ainda faço parte dos cuidados dela.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês de saudades e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia LeonardiObdúlio Ortega Lunna GuedesRoseli PedrosoAdriana AneliDarlene Regina



Meio flor

Ela nasceu Florinda. Em data que nunca consegui saber, por que ela dizia que o dia era hoje. O aniversário, agora. Logo virou Flor, que no linguajar do povo do interior se pronunciava Fulô. E assim era dona Fulô.

Tinha o dom de trazer as crianças ao mundo. Parteira desde mocinha. Ofício que herdara da mãe, que havia herdado da mãe dela e assim por diante. Nunca teve filhos dela própria, mas tinha uma legião de filhos que ela colocara no mundo.

Era linda, e eu digo o termo ERA apenas para ilustrá-la em vida, porque ainda a acho a pessoa mais linda dos mundos. Os olhos possuíam o azul mais azul que havia num céu sem nuvens, se bem que uma nuvem sempre havia em teu olhar e minha mãe dizia que somente eu conseguia vencer a barreira que ela criara em volta dela, com mistérios, magias e histórias.

Os cabelos, compridos, sempre envolvidos em coque no alto da cabeça, raramente desarrumados. Essa parte de meio flor fui eu quem criou um dia, ao conversar com meu irmão e falar sobre o jardim lindo que ela havia criado.

Ele disse:

– Ela é meio bruxa.

O qual eu respondi rápido:

– Ela é meio flor e meio fada. Porque só quem entende de coisas mágicas pode saber tanto.

Desse dia em diante, o medo dele foi amenizado. Não o perdeu de vez. Só no dia em que aprendeu poesia. Mas isso, é  outra história.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês dos duendes e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia LeonardiObdúlio OrtegaLunna Guedes Roseli Pedroso – Adriana Aneli –Darlene Regina