Aniversário

Quando a rotina alivia é que vem à lembrança de que ainda é primavera.
Dia de sentir cheiro de flor em cada célula.
O vento sopra morno no quintal e as abelhas voam em direção das flores.
Todas brotaram dentro de mim quando ouvi a nossa canção.
É seu aniversário em outro hemisfério. É outra estação em seu lugar e dentro de mim seu perfume, que dá o aroma aos meus dias.

Hoje, faz um ano qualquer
que a pele dela tocou a minha.
Primeiro em um gesto simples de abraço…
Depois, a brancura a misturar- se na minha cor.
Mas o dia… O dia foi marcado quando a alma dela me tocou.
Era a carícia do encontro e o calendário produz o encantamento do dia em que me apaixonei pela asa.

Mariana Gouveia
Vem aí uma nova edição de Cadeados Abertos
Projeto: Diário das Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais

Mariana Gouveia

Meus livros, pela Scenarium Livros Artesanais.

Scenarium

Nasci numa fazenda no interior de Goiás, das mãos de uma parteira que se chamava Florinda, mas que todo mundo a conheciam por dona Fulô, no primeiro dia de julho de 1.965. Era inverno, mas parecia primavera… Ali, cresci e vivi um conto de fadas entre sete irmãos. Mudei para Mato Grosso por conta de uma doença de minha mãe, num dia qualquer de agosto. Precisamente dia 25. Era outono, mas não havia diferença entre os dias quentes de verão e vim descobrir bem depois que era assim o ano todo e em qualquer estação… Desde pequena as palavras me invadiram e escrevia em tudo que podia. Papel de pão, papel de embrulho de qualquer coisa, guardanapos, chão. Cadernos eram luxos que só vez ou outra ganhava, e reservava eles para depositar sonhos, história e o dia a dia vivido. Tornei-me radialista por vocação e isso me dava a liberdade…

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Vermelhou…

A vida acontece em pluralidade na cor vermelha. E por falar em vermelho, a cor aconteceu no meu quintal.
Havia o fruto, a flor, a roupa no varal.
As nuvens que antecipam a chegada do sol vibraram na intensidade da cor.
Até a solidão é vermelha. Passeia pelo interior vestida para festa.
A solidão é dentro da gente. Agita a alma como ventania. A mesma que lá fora anuncia a mudança do clima.
Quando o céu amanhece vermelho, vem frio – meu pai sempre avisava – e parece que lá fora, a flor que insiste em abrir seu botão majestoso se delicia com o afago do vento. É o dia espalhando a cor dentro de mim.

Mariana Gouveia
Cadeados Abertos
Diário das Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais

Carta a você que me lê…

Querido leitor,

Talvez, a melhor forma de agradecer a você que me lê nesse dia mundial do livro é te escrevendo uma carta. Escrever para mim é desnudar a alma e fazer com que a minha emoção toque a sua.

Claro que desde menina eu sempre quis que minhas palavras atravessassem os campos da fazenda onde nasci e encontrassem amparo em algum olhar, em alguma mão. Uma das maneiras que criei para escrever foram as cartas. Menina ainda, através do rádio, minhas palavras ganhavam cidades, estados e diferentes lugares dentro de envelopes e muitas dessas cartas me trouxeram como respostas amigos do coração.

Nesse meio tempo me tornei artesã, mãe, esposa, radialista e a escritora esperava uma oportunidade que surgiu quando conheci Lunna Guedes. O destino me ligou a ela através de blogs e do selo artesanal criado por Lunna e Marco Antônio: Scenarium Livros Artesanais… o encanto pelo trabalho artesanato que Lunna tão lindamente faz falou mais forte e em 2015 meu primeiro livro de poesias foi costurado em fitas de cetim com o selo artesanal da Scenarium e O Lado de Dentro ganhou forma no papel… já na terceira edição.

O lado de dentro — a poesia de Mariana Gouveia viaja no tempo e espaço, e nos põe sentados a mesa do café,  para divagarmos sobre lugares imaginários onde o vento leva arrepio a pele onde os sentimentos todos se amontoam e são como pétalas na primavera, e são como folhas no outono, e são também verão e inverno.

No ano seguinte, veio o convite para que participasse do Projeto Diário das Quatro Estações. Um projeto inspirado em diário e escrevi Cadeados Abertos e não paramos mais.

Cadeados Abertos — é uma espécie de caixa de costuras que toda casa antiga tinha, com carretéis de linhas, agulhas, dedais e retalhos de tecidos… caixas com botões coloridos e uma tesourinha para cortar o fio. Cada item impulsiona uma lembrança — vivências singulares que nos toma pela mão e conduz aos caminhos do coração da autora.

Participei de alguns projetos coletivos da editora como Sete Pecados, Coletivo, Feliz Ano Velho, Sete Luas e outros, além das edições da Revista Plural com textos e em sua maioria, cartas.

Meu primeiro romance Corredores, codinome: Loucura foi lançado em 2018 e decidimos que ele não caberia em um livro só…Dividimos em dois livros e Portas Abertas, codinome: Lucidez foi lançado em 2019.

Corredores, codinome: loucura — é um romance que nos coloca diante da pergunta: é possível duvidar da própria lucidez? Maria é trancada num hospício pela própria mãe, que promete voltar para buscá-la depois que estiver curada. Entregue aos cuidados de Mathilda — uma mulher que não enxerga pessoas, apenas números numa folha mapeados pela condição determinada por ela e, assegurada pelo Estado que só quer se livrar de seus “doentes”.
A jovem Maria percorre os corredores de sua nova-casa em meio a abusos e punições severas, tentando preservar qualquer coisa de lucidez.

Portas Abertas: codinome lucidez — Maria deixou o hospício com a ajuda do Doutor Arthur… mas, quando se deixa a escuridão, é necessário se acostumar a luz. Leva tempo e não é nada fácil identificar o que sobreviveu após tanto tempo vivendo entre loucos e, de repente, ter sua lucidez reconhecida…

E novamente, o projeto Diário das Quatro Estações me envolveu e surge Desvios para atravessar quintais. Lançado em 2020, em plena pandemia, e talvez, por isso, um sopro na alma dentro dos dias ruins.

Desvios para atravessar quintais… O Diário das Quatro Estações é sobre os dias aleatórios que avançam dentro do tempo e é feito da palavra que cabe no papel antes que sufoque o peito; é o retrato dos meses que ficam na memória das horas e no mapa feito dentro dos muros e para atravessar os quintais usei os desvios traçados no mapa que o coração costurava e mesmo quando desenhava asas na areia sentia que o pássaro voava e que possuía o céu inteiro .

Meus livros são artesanais. Costurados um a um, em costura japonesa pelas mãos da Lunna. O livro artesanal só é costurado quando você o encomenda. Portanto, cada exemplar é único em seu preparo. As histórias, as poesias, os poemas e até mesmo as cartas quando te alcançam já nos emocionaram bastante. Desde a escolha do papel, da capa e da maneira que fazemos chegar até você, mesmo que você não tenha o livro – ainda – mas lê em alguma das minhas redes sociais ou da editora algum pedaço de texto, poema, ou citações.

Há mais coisas na caixinha vindo aí… projetos feitos para te tocar e te emocionar. Espero que até lá esse laço se fortaleça ainda mais.

Por isso, te agradeço e te envolvo no meu carinho.

Abraço carinhoso

Mariana Gouveia

Participam dessa blogagem coletiva:
Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Obdulio Ortega Roseli Pedroso

Resenha | A contagem das horas

“Comecei a anotar importâncias (…)
comecei a ignorar rotinas”.
Uma resenha sobre meu livro Cadeados Abertos.
Vai lá ver!

Scenarium

Por Adriana Aneli


Não era eu a louca — afirmava — e
lembrava-me de que loucos
nunca sabem que são.
Ria, e ditava as palavras,
igual à professora de português,
para não me perder dentro da cabeça dela”.

Mariana Gouveia

Eu me irmanei neste projeto. Autoras da Scenarium, anotamos, durante o curso de um ano, impressões diárias. Aprendizes na escola de arte, ao fim de quatro estações apresentamos — eu, você e ela — esboços particulares para um mesmo modelo: a vida.

“…Um dia inteiro para viver”— é sua proposta para este diário. Não se pode lutar contra a passagem do tempo, intuo, enquanto, entre inverno e outono, leio manhãs tardes noites dos dias que você viveu.

“…Quem conhece o céu só vem no chão para limpar as asas” — no seu pouso, deposita notas recolhidas com o vagar lúcido de quem compreende a…

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Das maresias

A cidade cumpria seu rito de anos … O sol castigava a todos, como sempre…
Naquele dia, o mar cantava em meu ouvido.

Maresia pura em minha boca.
Peguei minhas mãos – tuas – toquei de leve meu corpo… era pele gozo, vontade.
Naquele dia – como nunca havia sido de ninguém – fui sua,

Mariana Gouveia
Cadeados Abertos – Diário das Quatro estações
Scenarium plural Editora
*magem: Mira Nedyalkova

Ser escritor — o confronto das emoções

Escrever é esse roubar de almas que o escritor se atreve. Vê o personagem, imagina, cria e dá-lhe voz e movimentos… Ou não!

Eu, por exemplo, no Lado de dentro – meu primeiro livro – me senti como se tivesse aberto o caderno de infância, da adolescência e expus as poesias guardadas no coração, sem deixar de ser a mulher que era e sou.

Já, no Cadeados Abertos – Diário das Quatro Estações, foi como tirar aquele cadeadinho do diário, onde os segredos são revelados – Foi libertador – e deixasse ali, ao alcance de quem quisesse folhear. E pode apostar que muita gente quis. Se você quiser adquirir, é aqui que tem a chave.

Corredores foi falta de respirar. A história chegou, caiu em meu colo e mesmo que eu não quisesse falar, Maria gritava. Não me deixava dormir. Queria escancarar a verdade e revelar seus medos, angústias e sua história. Não resisti. Aceitei as regras e Maria ganhou voz através de minhas palavras. Foi doido, doído e emocionante. Em alguns dias, eu chorei, em outros, sorri e respirei liberdade.

Portas Abertas, foi o grito no abismo a espera do eco e o afago de mão no amor de Maria. Ainda respiro a liberdade dela e o alívio das páginas encerradas dentro do que chamo de resiliência. Nada seria mais compensador.

Mas, a emoção de quem escreve está na derme, à flor da pele e grita. Você vê a moça no banco da praça e já dá nome, lugar, morada e amores. O moço da reciclagem ganha trilha sonora e vestimenta em uma madrugada feita de silêncios. O confronto das emoções é diário e compensador.

E você? Quais emoções te confrontam dentro do que escreve?

Mariana Gouveia
Scenarium Plural Editora

Havia um jeito de ave no meu peito.

O voo cego. O pouso em qualquer canto.
A gaiola dentro das entranhas, prendendo a liberdade de respirar.
A falta não respeitando lembranças.
Objetos que são marcas que ela deixou.
O sentido da vida na posição morta.
O mapa sem rotas certas.
Apenas a falta.
Havia um jeito de ave no meu peito.
O voo cego. Sem ninho para pousar.

Mariana Gouveia
Cadeados Abertos – Diário das quatro estações.
Scenarium Plural Editora

b.e.d.a – Dentro

Rebatizei meus silêncios de palavras suas.
Revivi orgias inteiras, plenas, dentro de tua pele.
Era isso que eu chamava de entranhar mesmo quando não estava dentro.

Mariana Gouveia
Cadeados Abertos – Diário das Quatro estações
Scenarium plural Editora
*imagem: Sonia Pasquinelli

*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.