Catarina voltou a escrever · Cecília Meirelles · Lunna Guedes · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

Das cartas que recebi…

Caríssima,

… quando sua missiva chegou, eu estava com os livros de Cecília – que tenho comigo – em mãos. São três. Gosto imenso quando ela diz: tenho fases como a lua, fases de andar escondida, fases de vir para a rua – é como se a poeta-mulher falasse comigo enquanto ando pelos cômodos da casa. Somos um par…

Gosto da correspondência da escritora, que durante muito tempo – por pudor ou algo que se assemelhe a isso – me recusei a ler. Sentia-me uma intrusa… uma daquelas damas inglesas – falsamente educadas – a fazer uso do vapor da chaleira, para abrir envelopes e descobrir possíveis segredos.

Hoje, minha cara… ao sentar aqui para escrever-te , tenho consciência de que os meus correspondentes ajudaram a forçar a escritora que sou. Foi através das muitas folhas tingidas com grafite que mantive o exercício da escrita e quão prazeroso era dizer-me em linhas as outras pessoas, meus primeiros – e essenciais – leitores. Era um tempo de espera… os correios nunca foram ágeis. Curioso que nesse tempo em que tudo é tão ágil e é possível dizer-se tão depressa, pouco ou nada se diz.

Eu gostava imenso daqueles dias, em que era surpreendida com envelope na caixinha de correspondência, trazendo notícias de um mundo-outro. Conheci lugares-pessoas-vidas-realidades sentadas no canto do sofá-verde-musgo da sala – era o meu bilhete de embarque.

Lembro-me que em um dos diálogos com uma correspondente – ela me disse, num sem fôlego, ao reescrever -me de canto de mundo-vida… acho a palavra “carta” tão extraordinária. E eu lhe respondi dias depois em meio a um sorriso cheio… prefiro missiva porque tem cor-som-aroma – todos os ingredientes necessários para estimular o meu imaginário. Ela aceitou a palavra e respondeu… se parece com um pombo que leva um envelope a alguém (treinado-adestrado que foi para esse fim).
Falamos da palavra durante dias… até que ela respondeu com sorrisos – não os desenhou, tampouco os escreveu, mas estavam lá nas entrelinhas – eu gosto e prefiro porque é poético e me fez pensar em outras palavras: ‘miss you’ .

Eu entendi o sentido… e era engraçado como dizia muito de nós duas – figuras estrangeiras a viver em mundos alheios. Longe de casa e a dialogar uma com a outra: figuras tão impróprias. Durante anos nos correspondemos – quase que diariamente. Sem envelopes-selos-folhas-de-papel. Apenas palavras na tela – essa comunicação moderna. Não passava um dia sem que ela chegasse com seus desenhos de mar-céu. Me lembro que lhe falei dos aviões que cortavam os céus do novo bairro para onde havia me mudado. Tudo era novidade. os dias transcorriam repletos de descobertas.

certa vez lhe contei – hoje fomos à feira. Os três. Descobri a moça dos ovos, com quem conversar por alguns segundos, enquanto escolhe os melhores ovos pra as minhas não-receitas. Me fez sentir saudades dos dias de sábado… esse lugar detido em alguns ontens que coleciono. E ela me respondeu – há tempos não deixo o meu casulo. Frágil casulo que rompo a cada dois ventos.
O que são esses ventos? Um deles é você… que me levou à feira. Coisa comum na minha outra vida. E agora, sento-me com você à sua mesa, e aprecio os seus movimentos de mulher forjada num desses ontens. Gostei da maneira como usa essa palavra. Irei imitá-la. espero que não se importe…

Ela me falava da filha a medida que crescia. Da saudade que estranhava sentir do seu passado… com o qual se recusava a lidar. e da tentativa de lidar com a idade, os medos e ser alguém para os que amava. Eu gostava de sabê-la minha… de saber que eu havia provocado risos em seus lábios ou que tinha lhe arrancado de um momento de dor. Amava como enxergava as palavras que usava para descrever… poucas pessoas compreendiam as minhas frases e rituais.

Certa vez lhe disse – hoje eu precisei de um guarda-chuva vermelho para sobreviver a multidão dos pretos – e ela, respondeu apressada, numa nota breve apenas para que soubesse que estava ali e sabia do que ia dentro de mim naquele instante – enfrente a multidão dos pretos com a pele-carne-matéria, com tudo que tem. Use a sua ilusão de alguém.

Mas, de repente, não houve mis respostas-diálogos. Apenas o silêncio de um dia azul. Percebi que ela tinha razão… miss you é tão sonoro quanto missiva… porque traduz o que se sente quando o dia seguinte – e todos os dias imediatamente após ele – acontece sem notícias. Demorou, mas eu me acostumei ao silêncio e hoje ao me lembrar desses dias, gosto do penso-sinto… e dos versos de Cecília que me servem de suspiro e é com ela que me despeço e vago-viajo até você nesse dia quente, sem ventos ou nuvens.

au revoir


Perguntei: “Que me vale ter casa, parentes, vida?
Sou a terra que estremece? ou a multidão que avança?
Ó solidão minha, ó limites da criatura!
Meu nome está em mim? no passado ou no futuro?
Ninguém responde. E o fogo avança para meu pequeno enigma”.
Apenas um anjo negro entreabriu seus lábios,
verdadeiramente como um botão de rosa.
“Death”
DEATH?
Por que me falas nesse idioma? perguntei-lhe, sonhando.
Em qualquer língua se entende essa palavra.
Sem qualquer língua.
O sangue sabe-o.


Lunna Guedes
Carta publicada em Catarina voltou a escrever
Scenarium Livros Artesanais
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega –  Ale Helga – Mãe Literatura 

só porque hoje abri os envelopes laranja

Catarina voltou a escrever · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Catarina voltou a escrever…

– Abre aspas –

Preciso de uma maçã para estalar na boca e
ouvir o delicioso som-calmante de seu clec

–  Fecha aspas – 

Lunna Guedes
Catarina… voltou a escrever
Scenarium Livros Artesanais