Entre a estação e a primavera

Leio histórias que lembram você. O homem da esquina entoa um mantra dentro da solidão – pede sementes da flor que nem nasceu – faz perguntas sobre o amor que canto na letra da canção. Inventei sua presença, ali, no canto do jardim. É lá que beijo pétala a pétala da flor.

Essa impossibilidade do toque não me afeta – fecho os olhos e a alma busca – porque eu toco-a. Vejo de perto seus caminhos – seu céu sob o rio – e outras mãos que podem te tocar. Era quase nada essa distância – é preciso um certo encantamento para viver a vida – para superar esses corredores cheios da noite.
Perguntas rondam minha vontade de falar. Quase esqueço o último pedido do não. Onde esse medo de nada que vasculha minha noite? Onde essa flor que se abre dentro das ausências e mora nos poemas que me leem?
Onde o pólen se transforma na onda que se arrasta em meu quintal?
Dentro das perguntas em volta da flor apenas seu nome e minha declaração de amor.

Mariana Gouveia
Ph: Nishe
Entre a estação e a primavera