Carta aos professores.

Hoje relembrando tudo que sou vejo muito dos meus professores em mim. A minha primeira professora se chamava Edna e tinha os olhos azuis da cor do céu e quando ela sorria parecia que tinha estrelas dentro.
Passei o primário todo a estudar com ela e romper a barreira do Ensino Fundamental para mim foi tão difícil quanto adaptar-me sem ela à frente da lousa.

Depois descobri Adair, a minha mestra de português e de olhar manso. Não havia céu dentro dos olhos dela nem estrelas. Mas ela tinha o colo mais doce do mundo. Foi com ela que talvez tenha aprendido poesias. Digo talvez, por que desde sempre eu já escrevia poemas, palavras, “versos” como meu pai dizia e pedia para eu declamar.
A minha professora já atuava na área há mais de 40 anos e nos anos seguintes posteriores eu a perdi para aposentadoria. Com ela eu aprendi piano, aprendi colher rosas sem me importar com os espinhos. Descobri Neruda, Drummond e a arte de Tarsila do Amaral.
Ela não conheceu greve. Nem precisou lutar por melhores condições. E nem tinha. O meu ensino fundamental foi quase que feito todo na Escola Alcebíades Calhao. Havia outros professores, mas Adair conseguia no recreio uma feira/de troca de livros.
Por causa da morte de minha mãe tive de parar de estudar e fui trabalhar, e minha professora já aposentada me dava lições de cidadania e de companheirismo. Aos sábados me dava meia hora aula e depois íamos visitar os ex alunos dela que estavam com problemas. Um, que quebrara o pé. O outro, que estava com febre. Virou rotina nossas visitas e quando ninguém tinha problemas maiores, nos reuníamos na Praça Santos Dumont para ler livros.
Anos mais tarde, voltei a estudar. E mais uma vez fui abençoada por anjos em minha vida com títulos de professores. Amigos protetores eu ganhei. Maria José que me me mostrava o encanto da Biologia, a arte pelas mãos de Iolanda, a filosofia desenhada em poesia pela beleza de Luzia, a educação física que sublinhava a alma pela doce Flavia Luzia. Monique, e com os relevos e o envolver da Geografia. os números que eu detestava e que foram me mostrados de maneira mais amena por Joanil e Luzia. Jesus toma conta na vontade plena de ensinar de Nilza. Zózima não me deu aulas, mas ensinou-me o olhar macio das borboletas e o aconchego de presença quando precisei.
E foram tantos mais e tantas que eu passaria a vida inteira dizendo nomes e a envolvência em minha vida que meus professores tiveram.
Fui educada da maneira mais simples que há. Por vezes, nessas escolas que estudei não tinha cadeiras suficientes, ou mesmo o giz para o professor escrever. Em cada um deles havia o desejo de ensinar e em cada um deles eu sentia surgir a revolta pela falta de condições.
A educação é o bem maior que um governo pode dar ao seu povo.
Infelizmente, vivemos tempos sombrios, mas, em cada escola há guerreiros dispostos a tudo pela vontade de ensinar.

Parabéns à todos os professores.

As lembranças ecoam aqui.

Folheio as fotografias como se elas pudessem me fazer voltar no tempo – quase vejo as cenas de novo – e todo ano é essa memória que busco.

Meu pai, ao redor da fogueira, nos falando sobre as simpatias da véspera do dia do santo. O cheiro dos doces, do milho, do fogo e os irmãos menores, na correria como sempre. Será que algum dia eu também corri assim?

Isso era tão comum no 23 de junho. Viver esse dia era tão mais legal do que o próprio dia de São João. Os enfeites, feito durante a tarde, dentro da mesma algazarra fazia com que minha mãe repetisse o mesmo mantra de todo ano: o melhor da festa é esperar por ela.

E assim, acontecia a alegria na dança ao redor da fogueira, nos comes e bebes e na lua que sempre foi testemunha do amor que havia ali.

Viva São João!

Mariana Gouveia

6 on 6 – Recortes Urbanos

Quando meus olhos estão sujos de civilização,
cresce por dentro deles um desejo de árvores e aves”.
Manoel de Barros

Confesso que não sou muito urbana, embora more em área urbana tento transformar meu lugar em um espaço de natureza. Meu quintal me permite viver a natureza no sentido amplo da palavra. Recebo, de vez em quando, nos meus espaços urbanos a ave típica do Pantanal. Virou assídua entre o meu telhado e os dos vizinhos. Rouba a comidas dos passarinhos e é majestosa no meu lugar.


Minha cidade, além de ser conhecida – hoje bem menos – como cidade verde, também é conhecida como a cidade do sol. A média diária de calor, com raríssimas exceções beiram os 38º, com picos de 40/42º… então, o sol me presenteia sempre com imagens lindas e contrastes entre os prédios e casas.

Seja no amanhecer – já que o dia, em sua maioria dos dias, já amanhece quente – no meio da tarde…

E no anoitecer…

Em cada direção que a gente olha, o sol é o protagonista e suas invasões entre os prédios e casas…

Há outros espaços da minha cidade que adoro e me inspiram… as igrejas e seus mistérios de fé, os casarios antigos dos becos contando a história e seu tempo. Essa é minha cidade e meus recortes urbanos.

Mariana Gouveia
Projeto fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais

Participam também desse projeto
Obdúlio Ortega Darlene ReginaLunna Guedes

E a loucura será feita de abraços…

Te decorei
para te rezar
todas as noites do meu dia.


Alessandra Siedschlag

Amada Maria,

Saberão os dias em que os corredores serão feitos de risos e que a loucura será apenas dos apertos de abraços.

Haverá os dias em que os espelhos serão apenas partes de relacionamentos e não cacos quebrados jogados no lixo, à medida que a sorte rouba as digitais dos humanos e eu folheio as fotografias na memória como quem rouba dados.

Tudo é esse grito na garganta, preso.

Mesmo que o calendário seja essa rotina de todo dia e você nem saiba seu nome. A loucura é essa improvisação no modo de ser. E é também essa coisa de ave abrir a asa e voar… não conheço outro modo que não seja essa grade.

Não conheço outro canto que não seja o dos anus pretos. Nunca tive nada desarrumado, porque nunca tive nada meu. A colher que me cabia tinha o cabo torto e alguém se apoderou dela e fiquei a ver a cor do cabo a ser servido duas cadeiras além da minha.

A colina, é essa ponta de verde musgo que meus olhos alcançam e de onde chegou a notícia de que alguém morrera na mata da rua do meio.

Mariana Gouveia
Participam dessa blogagem coletiva:
Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Obdulio Ortega – Roseli Pedroso

“Nesta direção”, disse o Gato…

Nesta direção, disse o Gato
girando a pata direita, “mora um Chapeleiro. E nesta direção”, apontando com a pata esquerda, “mora uma Lebre de Março. Visite quem você quiser quiser, são ambos loucos.”

“Mais eu não ando com loucos”, observou Alice.

“Oh, você não tem como evitar”, disse o Gato, “somos todos loucos por aqui. Eu sou louco. Você é louca”.

“Como é que você sabe que eu sou louca?”, disse Alice.

“Você deve ser”, disse o Gato, “Senão não teria vindo para cá.”

(Alice no País das Maravilhas)
Lewis Carroll

Floresc(S)er de amor

No lugar onde minha pele termina
começa seu nome em detalhes que te descreve.
O silêncio me orienta e em meio aos rumores do vento
só ouço o seu suspirar.
A minha voz te nomeia de flor

e a delicadeza do jardim, preenche em mim a fragrância do teu suspirar.
Dentro de mim chove sensações de sementes
daquelas que o vento espalha para nascer flor

Floresc(S)er de amor.
Em minha solidão
preencho você de mim.

Mariana Gouveia
Ph: Anna O.

Enquanto eu inquilina

enquanto eu inquilina

Enquanto eu desatino,
você, menina;
eu, pé no chão,
você rumo.
Enquanto eu pluma,
você, asa;
enquanto eu inquilina
você podia
ser moradia,
ser casa.

Enquanto eu descalça,
na rua
você insinua
indecisão
enquanto eu paixão,
você razão.
Enquanto eu cama,
você…chão.

e assim eu me entrego,
não nego
mexe comigo,
com minha emoção
enquanto eu demonstro ternura
você, aventura
loucura.
Paixão.

Mariana Gouveia

Dos cinco sentidos

 

 

tudo tão perfeito quando as coisas sabem a ti.

o paladar saboreia gosto de maçãs maduras

e mão tateia na suavidade das frutas

pego, olho, respiro e sinto a proximidade da alma

arfo no desejo louco de te ter.

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Mariana Gouveia
*imagem: Tumblr