Em Mi Maior

Em Mi Maior

A palavra que falo é a mesma que canto
e eu não sei mais sei-te mais que eu canto,
teu nome melodiosa música em mim.

Eu em Mi Maior, sonata,
suave amplitude sinfonia, amor

que ecoa literais acordes
nas pontas do dedos suaves gestos.
Corpo,
instrumento do desejo meu
Estranha escala doce,
Beber a melodia em ti…

a.m.o.r suavemente soletrado
teu nome entre as letras digo
e amo, e amo e canto e amo
e dou a ti nas sintonias loucas
sou mais que eu aos pés de ti, sem roupas
tão lírica e serena, tão tua

Mariana Gouveia

As esperas

As esperas

as esperas são tapetes estendidos.
há quem os prefira lisos e lhes desenhe nos entretempos os bordados que os sonhos tecem com as linhas invisíveis dos dias.
outros, escolhem-nos onde a vista se canse e o corpo se ausente.
em vez de esperar, viajam.
e quando a espera acaba, os que desenham, bordam a duas mãos um tapete onde o amanhã se passeia.
os outros, serão condutores embriagados pelo medo de ficar.
e partem cheios de futuros vazios.

Rosa Maria Ribeiro
*fotografia: Oleg Oprisco

Mariana Gouveia

Meus livros, pela Scenarium Livros Artesanais.

Scenarium

Nasci numa fazenda no interior de Goiás, das mãos de uma parteira que se chamava Florinda, mas que todo mundo a conheciam por dona Fulô, no primeiro dia de julho de 1.965. Era inverno, mas parecia primavera… Ali, cresci e vivi um conto de fadas entre sete irmãos. Mudei para Mato Grosso por conta de uma doença de minha mãe, num dia qualquer de agosto. Precisamente dia 25. Era outono, mas não havia diferença entre os dias quentes de verão e vim descobrir bem depois que era assim o ano todo e em qualquer estação… Desde pequena as palavras me invadiram e escrevia em tudo que podia. Papel de pão, papel de embrulho de qualquer coisa, guardanapos, chão. Cadernos eram luxos que só vez ou outra ganhava, e reservava eles para depositar sonhos, história e o dia a dia vivido. Tornei-me radialista por vocação e isso me dava a liberdade…

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É importante que continuemos a sonhar…

Querido Edi,

Durante muito tempo assisti seu aniversário como expectadora. Já conhecia os rituais que sua mãe seguia. Era sempre como se estivesse se preparando para uma festa – embora fosse mesmo uma festa o dia em que você nasceu.

Ela ficava contando as horas para quando o relógio movesse os ponteiros e trocasse o dia. Eu acompanhava isso e todos os desejos de bênçãos eram feitos e por isso, o dia de hoje – aí, já é 25 de julho – ficou em minha memória, assim como os dos outros seus irmãos.

Sei que está sendo difícil, mas quero, com essa carta, que seja menos dolorosa a lembrança. Em nossas conversas sempre tento dizer e reforçar o que ela mais queria: que você fosse feliz. Então, honre a vida que ela te deu fazendo de tudo para ser feliz. Ela acreditava muito em sonhos, então, é muito importante que continuemos a sonhar.

Eu o admiro muito e tenho na memória os dias em que ela passou aí com você. Essa foto foi enviada por ela… E com ela, simbolizo a beleza do lugar em que você vive com sua família.

Te desejo forças, te desejo paz e muitas alegrias. Criei um poema para você… Para que caiba em seus dias o homem extraordinário que você é:

Que os homens normais sejam extraordinários
e o extraordinário, poeta…

Que os homens normais sejam extraordinários
que o fardo pesado, leve

Que o vento te toque manso
o instante da dor,
breve

Que o comum, intenso
brilho
a rotina diferente, cada dia
que os atos de pai, irmão, marido, filho
de homem, de amor, amado
alegria

se transforme no riso entre gente
e os atos banais
raridade
e que tudo comum seja inerente
e teu coração
pleno de felicidade

Feliz aniversário!

Abraço carinhoso,
Mariana Gouveia

É o paraíso, a moça!

Anna & Elena BALBUSSO

Se lança no infinito e nem me conta nada
Vira hippie na banca da esquina.
Sorri em dias despencados
quer morar dentro de um livro de Bukowski
e ainda reza.
Chove quando acorda, acorda sol maior no lado B da vida.
É o paraíso, a moça!
ri das minhas bobagens,
é corruptivel em seu ideal ecológico. Mas, só quando o professor pede.
Perdeu tudo quando a casa virou flor. Nem tinha seguro.
Mas, no caminho até ela eu descubro o Paraíso. É.

Mariana Gouveia
*imagem: Anna & Elena Balsusso

Amor…

 

se me chamas de amor
se me deixas te amar
eu caminho contigo nas nuvens
roubo manhãs encantadas,
roubo noite estreladas
faço florir as estradas
para nossos caminhos enfeitar.
Amor…
se me chamas de amor…
caminharemos juntinhos nas nuvens…

La Nina
*imagem: Tami Bone

Hoje, o tempo…

1987 – a vontade de ser mãe fala mais alto no meu corpo feminino… Eu, semeadora que sou – quero gerar. Um amor que não posso medir começa a crescer em meu peito e a barriga traz a vida…

1988 – nasce um menino do signo de leão. Com a força habitada em seu decanato – embora, anos depois, ele ainda busque essa força. É o protagonista – mas precisa se reconhecer nisso – e dono de sua história… embora, eu saiba escrevê-la. Nasceu de mim.

Os anos são imensuráveis nos dias que ele cresce e os pés lhe dão a liberdade de ser o que quiser e ele quis… voou, pra longe do abrigo e foi ser.


2018 – entre idas e vindas, ele pegou mochilas, malas e foi… rumo ao destino que ele mesmo traçou… e  eu que fui ninho, fiquei vazia do “perto”. O menino voou, buscou lugares, amores e sonhos e eu, a limpar cabides vazios, quadros antigos nas paredes… os carrinhos da coleção ficaram ali, na estante, junto dos livros que não couberam na mala. Algumas camisas de time, a bola de futebol americano – que mofou – desgastada pelo tempo. 

2021 – Diante de minhas memórias hoje ele é tempo. Contado nos anos e nos dias em que passou a ser meu… meu filho e só quem é mãe entende esse amor.
Eu o ensinei a ter coragem… a lutar pelos sonhos e a respeitar as pessoas. O ensinei que se o caminho estiver errado, não faz mal nenhum voltar ao ponto de início. Era meu menino…
E o menino que realizou meu sonho virou homem e hoje, com a força habitada em seu instinto corre atrás dos seus.

Feliz aniversário!
Te amo imensamente!

Mariana Gouveia

A manhã surgiu rodeada de nuvens.

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Contei os dias de espera.
Eram muitos e não couberam nos dedos.
Um pássaro surgiu amedrontado do nada. Um gato espiava o feito da janela vizinha.
No telhado, as mangas caíram com o vento que cantou seu nome a noite inteirinha.
Havia cheiro de maresia nas cortinas, nas palavras que a canção entoava. Havia você ali em tudo que é vontade.
Li poemas antigos que eram seus. Que são seus.
Lembrei do gosto do café em sua boca. Da palavra estranha dita em outro idioma.
Você bebia sol nas manhãs que eu te dava. Como se fosse pílulas para curar a solidão.
Hoje, olho o frasco vazio e cheio de saudade.
Nada cabe em mim na imensidão das coisas. Tudo é essa presença vazia da palavra.
Tudo que te mando volta como se fosse recusa.
E cada dia morre em mim a esperança.

Mariana Gouveia
*imagem: Tumblr