Vermelho por dentro.

Quinta-feira… o sol a pino e uma fuga por ruas inventadas para automóveis e não para pessoas.
O silêncio dos contornos a faz feliz.
Ela dispara seus passos e leva consigo qualquer coisa de felicidade.”

Pela quarta vez – e como se fosse a primeira – li Vermelho por dentro, de Lunna Guedes, publicado pela Scenarium Livros Artesanais. A primeira vez que o li, ele trazia o cheiro de livro novo, com a delicadeza das ilustrações de Adriana Aneli. Sorvi o livro em dois dias, na época, como se bebesse uma taça de vinho. A história me encantou. Mãe e filha e seus sentimentos misturados em mágoa, ausência, distância e ainda assim, o amor e seus paralelos mesmo com tantas contradições nessas relações.

Na segunda vez, fiz uma leitura via chamada de vídeo com uma amiga. De tanto eu comentar sobre a história, nas manhãs de terças e quintas-feiras eu lia para ela. Foi como ofertar um presente. Explicar os personagens, comentar sobre algumas frases. Levamos um mês para ler as 323 páginas. O livro já não tinha cheiro de livro novo, mesmo porque já havia sido emprestado para algumas pessoas… mas tinha cheiro dos lugares que o livro descrevia… era como se eu estivesse andando pelas ruas de Paris ou São Paulo.

Na terceira vez, li o livro em um projeto que faço parte, onde cuidamos de mulheres em situações de risco, ou sofreram agressões de seus companheiros e senti que a leitura foi um bálsamo para elas. O livro tinha o cheiro de esperança. Nas manhãs de sábados, passávamos duas horas entre aulas de artesanatos e leituras. Era uma desculpa para que pelo menos, em algum momento, elas se desprendessem das suas próprias histórias e embarcassem numa viagem… Confesso que em muitos momentos me emocionei e de como algumas partes do livro cabiam na vida de cada uma delas.

No mês de abril, ao abrir a estante o livro me chamou. Foi um convite. Ele se ofereceu e eu mergulhei de novo na história de Eva e Deborah. Confesso que sou apaixonada pela Anne. Talvez pela paixão pela fotografia tenha nos unido. Novamente me vi envolvida na história e foi como se tivesse lendo pela primeira vez. Não vou dar spoiler por que quero que você descubra e se encante pelo Vermelho por Dentro.

Respirou fundo… a cabeça estava cheia, a alma em suspenso e todas as coisas de sua vida embaralhadas. Sentiu o coração palpitar, o ar lhe faltou.
Medo da vida, dos afetos… de acreditar de novo e falhar. Deu um passo para trás, baixou os olhos para ver dentro.
Sentiu o toque na pele… o beijo nos lábios…

Vermelho por dentro me vermelhou em encantamentos. É uma história que te prende do início ao fim e por fim só nos faz suspirar. Se eu fosse você, eu clicava aqui e pedia um para chamar de seu.

Mariana Gouveia

Questionário de Proust, por Mariana Gouveia

Convite aceito…

Scenarium

A primeira vez que a busquei no aeroporto foi em um agosto-outro. O ano já me escapa porque eu não sou boa com marcações. Mas, eu me lembro da chegada e do abraço… De nós duas na cozinha; eu com a mão na massa e o olhar surpreso de Mariana Gouveia com o tamanho do pão — feito em pleno inverno paulistano. A frase dita em voz alta por ela ainda ressoa em mim.
Conversamos sobre tudo e nada…
Ela do outro lado da mesa e eu ali, a costurar os livros, finalizando-os na véspera do lançamento.
Mariana foi uma das primeiras pessoas a aceitar o meu convite para essa aventura plural mas, antes da Scenarium já havia uma mistura de sentimentos. Nossas vidas se entrelaçam, se misturam e se confundem em tempo-espaço, como se fizéssemos parte de um mesmo cenário. Sempre que faço um convite… prontamente ela responde e…

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Meu Deus, mas como você me dói de vez em quando…

meu Deus, mas como você me dói de vez em quando...

De vez em quando eu vou ficar esperando você numa tarde cinzenta de inverno, bem no meio duma praça, então os meus braços não vão ser suficientes para abraçar você e a minha voz vai querer dizer tanta, mas tanta coisa que eu vou ficar calada um tempo enorme. Só olhando você, sem dizer nada só olhando e pensando: “meu Deus, mas como você me dói de vez em quando…”

Caio Fernando Abreu

Ações-emoções-falas-gestos se oferecem em reprises, como um filme. 

Bambina mia,

Aceitei um convite seu de agora a pouco para aumentar o som e foi o que fiz… Pink agora ecoa no meu quintal enquanto te escrevo e lembro-me que a primeira vez que ouvi Try foi aí no seu lugar. Você estava a beira da mesa tecendo fitas de cetim unindo minhas palavras de Cadeados Abertos. Em pé, na porta, guardei aquela imagem e salvei na memória o refrão para quando voltasse ao meu quintal. Desde então, a canção faz parte da minha playlist que tem seu nome. Essa playlist é a trilha sonora de minhas tardes-noites de todos os dias onde acrescentei algumas canções coreanas que tocaram meu coração nos últimos meses.

Mas, eu queria te falar da manhã que surgiu aqui, sem o frio intenso que já arrastava há alguns dias… Busquei no canto norte – ah, o Norte – do muro os primeiros raios do sol que falamos tanto e revisitei nosso diálogo de ontem – as últimas palavras antes do sono me consumir – e do quanto elas me acalentaram depois de um dia triste e tenso. Me aninhei no seu abraço e vaguei pelo espaço do meu lugar.

Depois dos afagos nos cães e de coar o café, a primeira coisa que faço pela manhã é caminhar no quintal, com a xícara nas mãos… verifico os casulos, as joaninhas no pé de algodão – que pasme! nasceu de novo e já está grande, depois do último que foi arrancado em uma tempestade – e vou aguar as plantas. Mas, hoje, meus olhos pousaram no Encontro – esse pássaro que ganhou ninho por aqui, com sua asa de filete laranja – e fiquei horas a ouvir o trinado dele que você já ouviu em alguns dos meus áudios, no varal. Somos sim essas observadoras de pássaros e tudo isso se transforma em momentos nossos.

Já te contei que chorei com sua missiva e de como comecei a manhã igual você descreve nela… Mas juro que só vi sua missiva depois das palavras iniciadas em meu caderno de florzinhas rosas no começo da tarde e fiquei a imaginar como o universo nos liga mesmo que através da escrita em momentos – quase – iguais onde me aconchego dentro do abraço que sempre me oferece. Já te disse que é o melhor lugar do mundo para mim?

Aqui, encostadas no pé de ipê estão as cadeiras – não tenho poltronas – de fios onde suspiro em alguns momentos do dia. É onde disputo os voos dos pássaros que voam por cá e muitas vezes com Yoshi que quer a cadeira preferida e seu inseparável travesseiro. É aqui que te acolho em tantos momentos e onde meu riso te alcança nas conversas bobas e variadas.

É onde também te grito quando os trovões ecoam por aqui. Maio já se precipita dentro dos dias e eles só aconteceram por aqui uma vez… Por enquanto, o som que ecoa aqui é Try – que está no modo repeat enquanto as imagens invadem minhas mente como se fosse reprise, como um filme. 

Bacio,

Mariana Gouveia

doida de pedra

Guardou a mão para o vento da tarde. A carícia rondava a alma, a pele.
O elemento água me pertencia com jeito de mar. Naufragou nas esquinas todas. Doida de pedra mergulhou em um rio rasante. Engoliu a mudança das marés. Cavou com a própria mão a areia e sentiu-a dentro da pele, couro rasgando sendo tocado. Maresia a saber na boca e o eco das ondas a bater no muro. O rio é esse abismo de mar e o peixe a voar para além das muralhas… as conchas contando histórias dos búzios que vieram pelo correio e trouxe o cheiro de mar e nunca mais deixou de ser marítima. A anatomia na pele de vida marinha. Quase ser úmida de tanto amar. Soubesse nadar, voaria.

Mariana Gouveia

Simples Troca

Sem acusações, e um estando livre do outro por tempo indeterminado.

Se permitindo então ser a presença procurada e o desejo definitivamente encarnado em matéria corpórea e dissolúvel.

É a lei da trégua em segundos de loucura.

É a própria lucidez diante do inevitável e secretamente inesperado.

O amor.

Em cólera expressiva.

O amor.

Charlie

A volta dos manicômios

Texto necessário para esses tempos sombrios:

“A quem interessa repetir esse horror e trancar pessoas por uma vida inteira em condições sub-humanas? Conhecendo a realidade brasileiro, me faz acreditar que há muitos interesses envolvidos…

Será que alguém se atreveria a listá-los?”

Catarina voltou a escrever

Faz alguns anos que me causa incômodo o tema… em 2019, o atual governo havia liberado a compra de aparelhos de eletrochoque para o SUS e a internação de crianças e adolescentes em hospitais psiquiátricos, acendendo o receio de que seria inevitável a volta dos manicômios, estruturas que ficaram conhecidas como depósitos de pessoas.

Mas a última notícia caiu feito uma bomba, o Governo anulou — com sua conhecida caneta Bic — todos os avanços conquistados no tratamento da Saúde Mental nos últimos anos, liberando investimentos no velho modelo psiquiátrico que ainda não foi de todo superado. Quem é da área sabe que o esquema segue em funcionamento em muitos cantos do país, clandestinamente ou disfarçados de clínicas antiestresse.

A notícia me fez voltar os olhos para a literatura, que aborda o tema de tempos em tempos. A Scenarium lançou o livro-história escrito por Mariana Gouveia — corredores, codinome: loucura

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Cartas para maio

“A nossa vida é como um vestido que não cresceu conosco”

Scenarium

Sophia de Mello

biografia

Lunna Guedes

coisas esquecidas

Mariana Gouveia

Aceita um café?

Obdulio Nuñes Ortega

SRª. Sophia, aceita um café e poesia?



Sophia de Mello Breyner Andresen

O encontro com a poesia aconteceu muito cedo, quando aprendia versos de cor, ouvindo-os na voz de outras pessoas. Ainda não sabia ler. Seu avô recitava Camões e Antero de Quental. As empregadas da casa, lhe ensinaram a “Nau Catrineta” — uma oração que era rezada em voz alta, em noites de temporal.

Os primeiros poemas foram escritos por volta dos 12 anos. Seu primeiro livro ‘poesia’ foi publicado em edição paga pelo pai. Uma revelação no panorama literário português, pois anunciavam-se já algumas das características da sua arte poética, elaborada a partir de uma linguagem simples e transparente.

Ao longo da sua vida, Sophia olhou o Mundo com atenção muito apurada. Tinha senso de justiça agudo. Uma permanente preocupação com a…

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Até que um pássaro me saia da garganta

“Horas, horas, sem fim,
pesadas, fundas,
esperarei por ti
até que todas as coisas sejam mudas.

(…)

Até que uma pedra irrompa
e floresça.
Até que um pássaro me saia da garganta
e no silêncio desapareça.”

Eugénio de Andrade

Eu esperei muito antes de escrever, mas descobri que só colocando as palavras para fora essa solidão dolorida caiba em algum canto. Já te disse que desde ontem eu estou me sentindo estranha e que mesmo que busque dentro de mim o motivo ele foge como se fosse ágil demais para essa letargia que sinto.

Foram poucas vezes que senti essa imensa vontade de chorar. Você sabe que as emoções, pra mim, sempre vem em camadas e que na maioria das vezes consigo atravessá-las sem maiores danos… mas ainda não vou chorar hoje… O dia afinal, será amanhã… Amanhã vou chorar até que um pássaro me saia da garganta, tal qual o poema do Eugénio… hoje, serei apenas essa vontade desavisada de que posso esperar mais um dia… o dia em que estarei só e ninguém poderá perguntar o motivo.

Por hoje apenas espero a lua caminhar no céu enquanto o cheiro de ervas exalam no quintal e brisa suave invade a noite… Por enquanto, hoje apenas repito seu nome como quem canta uma canção.

Mariana Gouveia
fotografia: Pinterest