b.e.d.a – Os meus heróis usam máscaras.

Caríssimos,

Enquanto o vento balança no varal e seca as máscaras que eu lavei, escrevo para vocês, que para mim, não têm rostos, apenas olhos atrás de máscaras de diferentes cores e formatos. Nesses olhos eu vejo o quanto de dedicação e amor vocês derramam, dentro do que é possível, para quem está sofrendo a doença ou até para os familiares.

Nesses tantos de dias de pandemia – que eu já perdi a conta e que para mim parecem séculos – eu pouco saí de casa e quase não precisei usar máscaras. Mas, vocês não… é diário e por horas seguidas e nos relatos que leio, nas histórias contadas em jornais vejo nomes por detrás de cada uma e muitas vezes, vi lágrimas também, além de medo e dor.

Eu nasci em um lugar onde as máscaras eram usadas em uma cerimônia que se repetia desde os bisavós, no mês de Junho e que meu pai sempre tratou de seguir, por isso, desde menina, eu e meu irmãos aprendemos a preparar a massa feita com a goma da mandioca e embolar os jornais, revistas e fazer a minha própria máscara. Moldava o contorno do rosto e dava a ela a figura que eu queria ser. Claro que eu sempre escolhia um bicho, e como meu pai dizia que cada um representava a sua natureza eu me via sendo ave, borboletas. O povo da frente trazia na face o interior de sua natureza e monstro cruéis apareciam. Era a cultura de um povoado, que aos poucos foi se desfazendo com a morte de algumas pessoas, que traziam a história na alma ou a mudança de cidade – que foi nosso caso – e as máscaras viraram histórias contadas aos filhos, nas noites de São João.

Mas vocês não! Embora, as máscaras fizessem parte da profissão, vocês foram obrigados a usar como equipamento de segurança enquanto salvam vidas ou veem algumas se perderem. Li relatos lindos em madrugadas de insônia sobre coragem, sobre marcas que ficavam estampadas nos rostos como se fosse uma prensa, sobre a vida tão frágil diante de um vírus que abalou o mundo. Parecia que eu estava diante desses filmes de ficção científica onde os mocinhos usavam roupas brancas, luvas e as máscaras não eram a base de efeitos especiais. Eram de pano ou de material que na verdade não protegia e por isso, muitos desses heróis também não puderam ser salvos.

Aprendi, que quando a batalha fica difícil o mais importante é quem estava do seu lado durante a luta, talvez mais do que a própria luta e tenho certeza de que em cada vida que se foi, um de vocês esteve ali, do lado e posso garantir que fez a maior diferença e eu poderia até dar nomes a alguns de vocês tão perto de mim… mas perderia o sentido dessa carta dizer que o João fez mais diferença do que a Marli, por que não teve um dia sequer desde que esse maldito vírus se instalou que um plantão não teve um rosto mascarado contendo uma lágrima pela perda, pela sensação de impotência, pelo cansaço, fadiga ou dor.

Em um sistema de saúde como o nosso, diante de todas as dificuldades que já sabíamos que tínhamos, o trabalho de vocês foi e é de maior importância. Poderia ter sido muito pior, se é que existe algo pior do que está aí. Mas sim! Poderia ter sido muito mais, porém, por trás de cada máscara de técnico, enfermeiro, médico, assistente social, fisioterapeuta e todos os outros profissionais de saúde tem alguém que se importa com o outro, com a vida que ali está e isso é de uma importância imensa nesse momento.

Em cada afago na mão, cada emoção repassada através do olhar, cada vontade de abraço que não pode ser dado há um herói que se emociona por não estar em segurança com a família, que se fragiliza porque não pode dar mais atenção para quem está sofrendo.

Hoje, digo que, de uma maneira geral, os meus heróis usam máscaras.

Obrigada pela dedicação e cuidado!

Mariana Gouveia

Carta publicada na Revista Plural Mask – Scenarium Livros Artesanais
Ph: Imagem retirada da internet.
b.e.da – Participam desse projeto:
Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Obdulio Ortega – Roseli Pedroso

b.e.d.a – Era assim no tempo das flores…

O que me dói tem um nome que não obedece a mapas: a memória é um tempo desavindo.

Rui Nunes

Cris,

Abri a estante dos livros e vasculhei em busca dos poemas que lemos juntas ainda lá na outra casa. Lembrei-me do baú com a cartas de Leonor que encontramos e foi dali que surgiu a ideia de escrevermos um diário juntas. A sua risada ecoando na janela quebrada, imitando a moça do diário foi uma das cenas mais lindas que vivi na vida:

O amor devia ser tecido como uma renda e enquanto os dias não passam e a vida passa em branco, eu sou só espera…”

Sabe, Cris, eu me casei, você se casou e os dias foram nos roubando as horas. Cada vez que marcávamos um encontro acontecia algo e a gente ficou cultivando a saudade como se fosse um vaso de flores. As flores que plantei aqui já floriram e a brisa traz o cheiro delas para dentro de casa. Era assim no tempo das flores naquela rua de terra onde a gente buscava o telhado de casa para falar de estrelas e do diário que a gente nunca mais escreveu. O pé de ipê floriu de novo, os girassóis que plantei estão tão bonitos e a flor do campo se vestiu de vermelho e só por isso, lembrei-me de você.

Hoje, eu senti saudades e resolvi te abraçar através dessa carta até que tudo isso passe e a gente possa de novo se encontrar.

Abraço carinhoso,

Mariana Gouveia
Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Obdulio Ortega – Roseli Pedroso

b.e.d.a – o que conto de mim.

Minha querida,

O que eu conto de mim tem a parte daquela rua, onde o rio se dobra e o chuá chuá sopra ao ouvido enquanto durmo. O que eu escrevo tem esse riso de irmão sentado na porta contando meus defeitos e olho molhado de amor. Metade de mim no cabelo branco, com a ruga na testa, suor da sua pele magra, que o tempo contou nos dias. O que carrego é essa história e a terra a cavoucar meu pé… é a lembrança de quem está aqui e não está. Outro irmão que mora longe e a voz ecoa reclamando ausência. O que eu conto de mim é esse riso solto, a colina a desvendar as sombras. Com os codinomes de uma fada louca que desenhou histórias nos meus dias. O que conto de mim tem o cheiro do pai.

O leite servido na caneca esmaltada e a poesia que eu pesco, o ombro ali, e na boca que pronuncia o silêncio toda vez que a gente fala de amor.

É tudo uma reza cantada. O avesso da pele — o som do pássaro — e a ave exótica a cantar no quintal.

Desvios para atravessar quintais
Diário das quatro estações
Mariana Gouveia
Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Obdulio Ortega – Roseli Pedroso

b.e.d.a – e o mundo é micro…

Querida Graça,


A caixa de costura ganhou linhas novas. Jogo água nas plantas e busco o botão novo da flor. Todo objeto aqui tem jeito de gente. A tesoura, uma bailarina a ensaiar passos no lençol novo. Alguém confundiu semente com flor e a solidão das coisas apareceu no quintal enquanto garoava. Tudo era a estação errada a invadir o tempo. As paredes inventam nomes rabiscados contando histórias. O micromundo nasce onde ainda há pouco era chuva. Reconheço a figura nova no jardim. Tinha jeito de novidade junto do meu riso e penso que em algum lugar as lágrimas devem molhar as flores. Reconheço o sabor a sal na boca. Toco a brancura da pétala. As flores merecem o afago. Em vez de mudanças, as lembranças cabem dentro das coisas. O Universo é feito de coisas miúdas. O tempo muda e a moça do tempo fala dos próximos dias e eu fico a esperar que mais uma vez ela erre outra vez mais uma vez.

Desvios para atravessar quintais
Diário das quatro estações
Mariana Gouveia
Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Obdulio Ortega – Roseli Pedroso

b.e.d.a – Minha Odara…

Deixa eu dançar, pro meu corpo ficar odara
Minha cara, minha cuca ficar odara
Deixa eu cantar, que é pro mundo ficar odara
Pra ficar tudo joia rara
Qualquer coisa que se sonhara
Canto e danço que dara

Caetano Veloso

Meu girassol,

Sabe, Cláudia… plantei um girassol para você. Dois meses antes de seu aniversário e seria o presente para te entregar. Só que, o girassol brotou, foi despontando as folhas e surgiu a flor mais linda – majestosa mesmo – e no ápice do brotar da flor, o mundo se transformou nesse caos.

Com o passar dos dias, a flor foi murchando – o que é natural em cada flor – e o caos continuou igual. Os meses foram passando e parece mentira que tudo continua igual ao ano passado. Nem me lembro do que era normal, antes de me trancar entre os muros, você se lembra?

Hoje, venho te dar a flor e dançar Odara com você… foi a música que cantamos em algum aniversário seu e depois, em nosso último abraço. Desse, eu me lembro e era aconchego puro teu olho me guiando portão afora, depois de uma tarde inteira no Reino das Águas Claras… Lembra-se?

Como eu sinto falta daqueles dias em que os meninos eram crianças e hoje, vendo fotos vejo o quanto eles cresceram e de como se tornaram pessoas fortes e cientes de humanidade.

Depois disso, tantas coisas já aconteceram… em cada amanhecer, o cheiro de café na cozinha me leva até aos nossos cafés… Isso, sem falar nos filmes que a gente assistia juntas.

Sei que não é seu aniversário, nem nada… mas um girassol nasceu por aqui e resolvi te abraçar na simbologia da flor. É a maneira mais sublime de estar perto mesmo longe.

Quando tudo isso passar teremos tantas coisas para fazer e sementes para plantar. Se cuida, fica bem e ouça nossa música, que foi ouvindo ela que te escrevi.

Te amo!
Dança comigo?

Beijo,

Mariana Gouveia
Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Obdulio Ortega – Roseli Pedroso

Baudelaire, que tal um café?

Um café com Baudelaire. Vem?

Scenarium

Cartas para abril

Por Mariana Gouveia


“Sou esfinge sutil no azul a dominar,
Da brancura do cisne e com a neve fria;
Detesto o movimento que estremece a harmonia;
Nunca soube o que é rir, nem sei o que é chorar.”

Charles Baudelaire



Ah, moço! Escrevo-te nessa madrugada insana para dividir com você essa bendita cumplicidade do amor. Que tal um café para criarmos uma intimidade melhor? Se bem, que você pediria um vinho.

O outono aqui chegou… com a chuva a molhar os dias. O musgo na parede dos cães e a palavra escrita nos muros é o nome dela. O céu azul é quase um rasgo entre as nuvens e os trovões.

Ela chegava sempre alegre e isso me leva para um dos poemas teus… e a madrugada ostentava leveza em minha alma. O cheiro do café invadia as casas e o quintal, e enquanto a rotina tinha…

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b.e.d.a – Parabéns, Cuiabá!

Minha Cuiabá,

Seu nome ronda minha vida desde antes de vir morar aqui. Desde pequena, quando minha mãe falava de você, a imaginação me fazia passear por seus lugares. Me fascinava quando ela falava de suas árvores e de você ser conhecida como cidade verde.

Ainda lembro-me da primeira vez que andei pelas suas ruas. Eu era menina ainda e a sua avenida principal ladeada de palmeiras me encantou. Foi amor à primeira vista, e eu nem sabia que viria morar aqui.

Quando cheguei para morar foi encantador e desde então me apaixono sempre por você. Seu céu, o mais lindo que há! O sol, com toda fama de abrasador me traz amanheceres deslumbrantes e entardeceres magníficos.

A lua, tem a delicadeza de caminhar sobre seu céu de uma maneira que não se vê em nenhum outro lugar. E o seu povo, o mais acolhedor.

Hoje, você completa 302 anos. Tantas histórias, tantas transformações e ainda assim sempre minha cidade. Sempre meu lugar. Em todas as ruas, em todos os becos você tem a história detalhadas nas igrejas, nos casarios, na sua gente. As suas ruas me conhecem e seu rio me acolhe nos momentos de dor. Sou grata pela acolhida e por já fazer parte de você e de sua história!

Parabéns, Cuiabá!

Mariana Gouveia
Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Obdulio Ortega – Roseli Pedroso

b.e.d.a – O boletim do dia…

relata o mistério. Havia dor em qualquer grito. O unicórnio na parede lembra o desenho da minha infância. Cartazes pediam silêncio onde ninguém se mexia. Rascunhos rasgados de cartas que nem foram escritas. O cheiro do verniz limita a distância. A moça de branco procura a veia e agita o frasco onde as purpurinas flutuam na alma.
A menina ri diante do mapa. Conhece o portal da imaginação. O relicário pendurado no peito. Sentia as asas do pássaro como se fosse dela. Via coração em tudo que é flor… Fechava os olhos e cantava coragem. A vida, esse doar incessante de dor.

Desvios para atravessar quintais
Diário das quatro estações
Mariana Gouveia
Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Obdulio Ortega – Roseli Pedroso

b.e.d.a – 6 on 6 – Aconchego

Querida Erli

Quando recebi o tema do dia 6 e era a palavra aconchego lembrei-me de você, e resolvi escrever essa carta. A palavra me leva à você quando penso no Juvenal, da Feia e de D. Terezinha… As nossas conversas via comentários, às vezes, acontecem pela manhã e no seu espaço me sinto aconchegada.

Sinto como se sua mão estivesse ali, pronta para o apoio, para o carinho e pronta na leveza dos dias. Como eu precisava de 6 fotos para retratar Aconchego, resolvi estender a mão através das palavras para te agradecer.

Te agradecer por me encorajar, por ser esse ser de luz que abraça as pessoas e os animais. Por ser tão presença de amor com sua sobrinha e por me oferecer exemplo de humanidade todos os dias. Por ser você, de riso solto e amor no coração.

Sabe, minha flor, adoro a maneira que você me mostra esse Goiás que nasci e me deixa respirar o cerrado através de suas fotos… Com você, caminho pelo seu bairro, por suas coisas e sua cidade. A festa do congo me faz lembrar da minha infância e assim, você aprimora meus dias dentro do carinho.

E assim, quero que esse aconchego te traga para meu quintal e que meu afago te alcance nos pousos das borboletas, com Yoshi a espreitar meu dia…

Que as joaninhas e Chiquinho te encante e assim meu abraço chega até você. Que essas palavras cheguem também em um abraço para D. Terezinha com muito carinho envolvido… E por fim, roubo de seu lugar uma foto do Juvenal Tryppa, que acho que foi quem nos ligou de alguma maneira.

Que ele adoce seus dias em puro amor.

Um abraço carinhoso,

Mariana Gouveia
Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Obdulio Ortega – Roseli Pedroso

b.e.d.a – Já te falei…

Querida Teresa,

das coisas que acontecem aqui, no meu quintal? As perguntas começaram a me rodear enquanto as nuvens faziam figuras estranhas no céu. Me silenciei por tantas perdas e quase sufoquei. Achei melhor te escrever. Faz tempo que a gente não se escreve mais. Foram muitos fatos que aconteceram que me vi perdida, sem rumo para as cartas. Retomei apenas por aqui, para suprir essa ausência. Nunca mais fui em busca dos postais que você tanto gosta. Passo os dias cuidando das plantas e fazendo artesanato. Dizem que a arte salva da loucura.

Confesso que gosto de ficar entre os meus muros afofando a terra no vaso das hortências que ainda não floriu, mas já é possível ver botões se formando. Minhas suculentas me fazem mudá-las de lugar cada vez que a chuva vem. A maioria não gosta da chuva. O pé de orai pro nobis já floriu imensas vezes e até plantei tomates e cebolinhas. O tomateiro está lindo e logo deve dar frutos e a cebolinha já usei várias vezes para o molho e saladas.

Espero que esteja bem e que alguma coisa nessa vida te traga esperança para esses dias difíceis. Prometi a mim mesma que não falaria das perdas e sim de como o cheiro de terra molhada me abraça quando a chuva chega. Por falar em chuvas, o céu me avisa em trovões que logo choverá. Vou ali recolher as roupas do varal.

Um abraço carinhoso
Mariana Gouveia
Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Obdulio Ortega – Roseli Pedroso