Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

Enrolo em laços e fitas

a linha do tempo presente
Nirlei Maria Oliveira

(palavr(Ar)

Nirlei querida,

Parece que você desenhou minhas manhãs em seu poema. Eu devia dizer olá, como vai? e começar a escrever, mas me vi banhada pela sua poesia. Ganhei intimidade e o poema pediu a carta e o livro pediu ar…. Como se aspira Palavr(ar) sem perder o ar?

Eu também escrevi várias cartas de amor que não enviei. Algumas, embolei e desamassei por desacato ao amor. outras, desenhei passarinhos em envelopes e coloquei tudo certinho, com código de endereçamento postal, endereço, versos, e com as letras – não tão bonitas também – enviei. Posso confessr que em algumas nunca tive respostas?

E sobre laços e fitas, ainda tenho um pedaço – já esgarçado – da fita de veludo laranja que minha mãe amarrava em meus cabelos. Ou enrolava nas tranças.

As minhas manhãs também são regadas às asas. Tenho adornos de bem-te-vis no meu quintal. A disputa pelo melhor lugar do comedouro, a asa a plainar na árvore seca da casa da vizinha, o canto a marcar canções em dias de sol.

A única diferença é que o sol aqui, não tem vergonha. Ele por si só reina poderoso tão logo que nasce e silêncio também aqui não tem vez. Camacicas disputam espaços com meu Chiquinho – o beija-flor que chama de meu – e os bem-te-vis – que disputam com os cães o prato de comida. Há chilreios nos nomes mais variados de pássaros e há um bem-que-vi-eu-que-te-vi numa disputa comigo para chamar atenção.

E há o crochê e nem é para a rotina imposta não. É para cumpri prazos das encomendas antes que o Natal venha. Me enrolo em linhas e agulhas também. Mas também me envolvo nas suas palavras e respiro nessa manhã tão comum a nós duas e tão distantes.

Que seu dia seja salvo nos cantos, na arte e no amor. Todas as manhãs e em cada pedaço do seu dia.

abraço carinhoso
Mariana Gouveia
Projeto Blogvember – Scenarium Livros Artesanais
Participam juntos comigo: Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins

Das palavras das cartas · do verbo voar · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

Em delírio me transporto ao limbo

Maria querida,

Hoje escureceu mais cedo por aqui… também choveu o dia inteiro e a rua ficou deserta. No meu quintal, as sombras se projetaram como se os galhos ganhassem vida, as roupas ainda úmidas no varal e o pássaro – que parecia perdido em seu canto – no canto do muro.

Lembra de como a gente falava dessas noites estranhas em que o medo é muito maior que a coragem? Acho que hoje ela aconteceu por aqui. Li o poema da minha tão minha Katia Castañeda e vi ali nossa conversa, Maria:

E se durante a noite ela vem
e me toma
Me cega e eu
Em delírio me transporto
ao limbo
Dos inquietantes sintomas
Com final e sem luz
Nesse túnel
Psico ansiolítico
da noite longa

Teria de ter sido eu a te dizer que a rua de cima ficou vazia o dia inteiro e que essa escuridão é tão sua como minha. Eu vi em seus olhos, Maria, essas coisas de mar aberto que você traz no peito em noites assim. Essas coisas internas suas que você carrega e solta por onde anda, como se despejasse vontades para além de onde veio. Como se uma noite escura durasse uma eternidade.

Sabe, Maria… já te falei das minhas noites frias e brancas em cartas? Já te contei sobre os monstros que em algumas noites se transportam para o meu quintal quando não tem lua? Foi por isso, que comprei lanterninhas e espalhei pelo jardim, para que o escuro não predominasse por aqui em noites assim e que junto com as lanterninhas, os vagalumes também brilhassem.

Lembro-me de que você riu e achou graça da palavra vagalumes e pronunciou bem baixinho a palavra pirilampos e ficamos horas a rir disso. Nessa noite – recordo-me – que não houve delírios nem medo. Apenas o sussurro de uma palavra ganhando cor em nós.

Por isso, antes que escureça mais ainda resolvi te escrever e te lembrar do som das asas dos pirilampos a voarem por entre as lanterninhas que coloquei por aqui, só para que você saiba que a luz acaba com as sombras. Mesmo as que insistem em habitar dentro de nós.

Abraço carinhoso,
Mariana Gouveia
Projeto Blogvember – Scenarium Livros Artesanais
Participam juntos comigo: Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins

De todas as estações · Diário das quatro estações · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

quando restou apenas uma flor no ipê…

a ave de todo dia voou, já era tempo de espera para a cura.
A rua de cima invadiu o quintal com os gritos das crianças
empinando suas pipas e a vida, ali, parecia normal.
O tapete amarelo no chão já tinha se tornado húmus
e o vento arrastava as folhas secas, fora da estação.
O rádio antecipava as notícias de amanhã e a certeza
de que tudo é breve veio com a flor no chão.
Dessa vez, o pássaro apenas se conformou e ficou à espera de outro botão abrir…

Mariana Gouveia
Desvios para Atravessar os Quintais
Scenarium Livros Artesanais

do verbo voar · Mariana Gouveia

Escrevi mil cartas no meio da tarde…

Repeti nelas o episódio do dia. 
O pássaro de todo dia a vasculhar momentos no quintal.
O vento traz a brisa mansa.

Desenho rotinas dentro da memória.
Fotógrafo a ave que te falei para que fique registrado. 
Algumas das cartas rasguei, sem colocar no envelope.

O sol colore o céu com suas nuances de laranja.
Chamei seu nome mil vezes ao anoitecer.
Cabia saudade dentro da palavra falta.

Mariana Gouveia

azul em qualquer céu. · do verbo voar · Mariana Gouveia

A tarde amena chega dentro da canção de procurar desenho em nuvens.

O gato no telhado arrisca entre os pulos dos cães. Ostentou a palavra solidão na amplitude da tarde.
O pássaro vagueia entre o roubo da fruta ou a água do beija-flor. Reencontro o poema perdido na gaveta das linhas. O céu anuncia uma tempestade junto com o vento e seus trovões que me lembra alguém. Descubro o desencanto na pergunta perdida. O quintal é esse portal aberto para o nada.

Mariana Gouveia

Divã · Do lado de fora

Navegar…

no espaço de um segundo. Ser pássaro, ainda que peixe.
Mergulhar nas nuvens.
Voar no mar.

Joakim Antonio
imagem: Anka Zhuravleva

De todas as estações · do verbo voar · infinitamente · Marítima · Mariana Gouveia

dos seus pássaros que voaram…

ficou aquele na mão, preso – a gaiola dependurada no peito – sem jeito de asa ou ninho. Contei nos dedos os séculos sem você e o relógio na parede, vazio de horas e em silêncio lembrou-me da vitrola quebrada sem os vinis. A dispensa abarrotada de lembranças e o céu rendado de tela não me permitiu te oferecer asas. Não posso ver daqui, pela janela fechada a alegria nos teus olhos pelo voo dos teus pássaros.

… que marítimos não atravessam para meu rio.

… que brigam com os meus

… que migratórios não atravessam o oceano.

… que os meus voam rasantes com medo do voo perto desse abismo.

… que é essa solidão…

que moram na árvore morta onde não podem fazer ninhos nem migrar para te oferecerem asas.
… que descobrem que a estação muda de acordo com o destino do quintal que não alcança a maresia que alimenta o jardim.

Mariana Gouveia

Das rotinas · do verbo voar · Efeito borboleta · infinitamente · Mariana Gouveia

eu era um quase… uma parte

Foi no dia que te bordei
que a arte fez-se em mim

os pontos – quase toque – cerzidos com a linha de cetim

sua pele – tão alva – ponto cheio

tecendo flores em cada respiro
voos de borboletas
– feito asas –
a linha se desgrudou da agulha e uniu-se a mim

um nó feito
– na véspera do voo –
eu era pouso em ti.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês da arte e de Beda.
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega  – Mãe Literatura – 
Suzana Martins – Roseli Pedroso
arte: José de La Barra 

Das palavras das cartas · De todas as estações

Em que asa, em que sol?

“Queria ter o sol só pra mim, tê-lo de forma a dele poder de vez em quando ceder parte apenas a um dos meus amigos mais íntimos” 

Luís Miguel Nava

Edi,

Posso eu te desejar mais do que o sol? Posso eu te desejar mais além do que asas? Devo te confessar que entre tantas conversas com sua mãe, em muitos momentos, nós duas te desejamos sol – nem sei se ela falou sobre isso com você – nos dias em que a notícia ou um telefonema dizia a ela sobre o frio do seu lugar. E em muitos momentos, eu te desejei asas… para que você fosse além das dificuldades que se apresentavam.

Sabe, dias desses, fiquei a lembrar-me da vez que te vi e te conheci… seu olho foi mais rápido do que a porta e alcançou sua mãe na cama. Eu, que já te conhecia de antes, de palavras, de fotos, fiquei ali, inerte, olhando seu olhar de amor para minha menina. Naquele dia, eu quis te tocar e dizer o quanto eu te admirava pelos olhos de sua mãe.

Lembro-me de quando nossos olhos se encontraram, eu já era reverência e logo quando você saiu, o brilho no olho dela foi de importância… Foi ali, que entre uma ligação de Marcelo e sua presença que senti a sensação de pertencimento em sua família. A minha – marido e filho – estavam no estacionamento aguardando o resultado da cirurgia, porque quando ela era frágil – e foi tantas vezes – ela era “nossa”. A gente a fazia forte para guiar você e seus irmãos.

Eu estive muitas vezes presente nas meias-noites em que ela esperava para te abraçar nesse 25 de julho – ihhh, e quanto ela demorava para abraçar vocês em datas especiais – e eu morando quase 15 Km de distância e brigando com o fuso – e sendo amparo ali. Ou parte do desejo dela. Ela era tanto amor quando desligava o telefone que eu movia céus e mundo para estar presente nas datas de 29 de maio, 16 de julho e 25 de julho.

Posso te confessar que você é um presente. Sua amizade é um amparo que me fortalece. Não saberia descrever a importância de sua mãe em minha vida e eu que ganhei ela através de Marcelo – ainda vou escrever sobre isso – tive a presença dela através de você.

Você é o extraordinário da poesia e tão menino dentro desse homem que abraço e te ofereço o sol para os dias frios e asas para alcançar o infinito, porque de alguma maneira ele te pertence… eu e ela já te demos ele de presente em anos anteriores. É seu! Basta pegar!
Abraço carinhoso,

Mariana Gouveia
Ph: Cristina Coral

Das palavras das cartas · do verbo voar

Das cartas que recebi.

Mari,


Dessa vez não te contei para não te preocupar e também porque o pajé voou para o céu dos passarinhos… Quem iria rezar meu retrato para me pôr o buchinho no lugar e igualar minhas pernas? Meu pai adoeceu e eu também, tanto que ando precisando de terapia e achei a Clara Marina para cuidar de mim, ela vive na serra no Rio e eu no Vale em São Paulo. Clara me perguntou como era meu medo e eu disse que meu medo andava no sentido horário: meu medo era o tempo, porque eu não queria que chegasse quarta-feira para eu colocar a reciclagem no portão e nem a sexta-feira para eu voltar pra casa e nem o domingo… Nem o domingo! Tinha medo que o tempo passasse e chegasse o dia da cirurgia do meu pai que é bem velhinho e quanto mais velhinho, mais eu vou gostando dele e da minha mãe. Tenho medo de ficar sem eles, por isso não te contei. Faltei pra ficar com ele, foi uma alegria tão genuína… Voltei de cabeça baixa sem olhar janela em fora o céu lindo que fazia, então, para não desperdiçar céu, passei acordada vendo todas as variações que faz a rotação. Ontem, pareceu que tinha gastado tudo que restava de vida, por isso de cabeça baixa.
Mari, meu pai tem alta amanhã e domingo vou amanhecer no portão deles. Isso se chama sorte. Tenho sorte de poder falar tudo sem ordem nem sentido e você me entender.
Bom é ter amigo que conversa com beija-flor.


Te amo, Mari.

Luciane Recieri