Nasceu vida no quintal. 

O retrato é o relicário na parede vazia. Na mesma rua as histórias se encontram. Era o abraço da sorte no trevo da rua de cima. A essência das roupas no varal… chovia quando o dia se encerrava nas rotinas. Os pássaros de papel voavam além das janelas. Às vezes, é preciso aceitar o fim. Tudo é temporário no receituário. A moça de branco mudou a cor das roupas.

Nem faz mais o silêncio costumeiro de sempre. Esqueço o nome dela todo dia. Esqueço meu nome toda hora. O vento é esse menino que carrega a fragrância do cheiro da chuva nos arredores. A tarde azul recolhe asas no varal. A profundidade da dor se misturando aos desenhos opacos feitos nos muros.
Lembrei-me dela e de que adora quebrar regras e eu de as cumpri-las… tudo é o oposto no instante das horas. Falava da solidão dos dias curtos, de frio intenso e eu de dias imensos, sufocantes e solares. Às vezes, o amor não consegue atravessar o oceano. Nem a nado, nem voando.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
Diário das Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais

Em todo lado a palavra pássaro faz asas e cor.

Julgo ver nele a cura para a dor…
Do outro lado da árvore, a lua tem a cor de mel… eu acreditava nas coisas do destino e lembrei-me de fotografias que nunca tirei. O som da letra do canto da ave é como um poema esculpido na árvore e toma-se a forma das flores. As relvas frescas a molhar os pés e os sorrisos estendidos em mil árvores que meu pai chamava de floresta… o céu a desenhar presença de nuvens e eu procuro as lembranças que escrevi ali. Havia a mão de criança a segurar a saia e um vulto marcou o voo e o pouso… enquanto as lembranças da mãe eram desenhadas nas falas das irmãs, trazendo recordações que parecem tão recentes diante das histórias narradas. Lê-se a presença diante das memórias, lê-se silêncio, sim, tantas vezes… Era o silêncio dos gritos dos dias vividos e as recordações a ecoar dentro das palavras.  O quintal molhado de poema vem daqui… o olhar impregnado de memórias… deixo que elas venham sem metáforas… crio na mente o poema e com ele invento histórias para relembrar em dias sem sono. O poema será quando as crianças e os pássaros se rebelarem, e ainda assim, tudo continuar presente mesmo distante. E no pomar as árvores espreitam a corrida para abraçar o pai e esperar que a asa seja leve…  Guardar tudo isso na fala da solidão para aprender o olhar de presença mesmo quando a palavra poema aproxima do que meus olhos me veem enquanto só sei escrever o seu sentido.

Mariana Gouveia

Das coisas breves

Tatuou a vida nas costas, assim que nasceu a primeira vez – a mãe “plantou” o cordão umbilical embaixo dos pés de bananeiras. Era a magia de permanecer na essência de quem acredita em coisas surreais, de geração em geração… Assim que entendeu que o seu lugar era o mundo teceu as asas de borboletas e descobriu que podia voar…

Mariana Gouveia
Das coisas breves

A inquieta tarde…

e o pouso imaginário era de um homem, só o canto. Cabia na certeza das coisas o afeto rabiscado na parede crua. O muro tinha a tinta apagada e as folhas do pé de algodão caíam no quintal.

A senhora na janela do outro lado da rua resmunga a solidão e o roubo das frutas. Nunca sabe se planta para si mesma ou para as aves, que as roubam antes mesmo de provar. Escrevi mais cartas para os envelopes coloridos e joguei fora lembranças mornas de amor.

No baú não coube mais as notícias diárias e nem as receitas das noites de insônia. A ternura pousa na minha frente e tem asas de delicadeza no azul. Sabia do encantamento da ave e quis repetir que não havia dado nome a ela. Nome é essa coisa pelo qual te chamam e você se reconhece dentro dele… mas o que dizer de um pássaro que é estrangeiro no céu que voa?

Mariana Gouveia

Voar sem asas

voar sem HasasEu gosto mesmo de voar. Às vezes passo horas deitada no chão e fico voando no horizonte. Gosto de voar sem asas. Na extensão completa da palavra e do nome. Quase nem pouso quando fico assim. E quando pouso, voo pousada. Asas aladas em riste, como preparando um novo voo.
Nesses voos eu me liberto do que me aprisiona e me prendo no que me solta. Contraditório, alguém diria.
Mas quem disse que eu gosto de ser convencional. Nada me prende nem me solta…porque eu sou dona de minhas asas.

Mariana Gouveia

# diário

# diário

Da minha janela vem um vento…
Um vento que me alegra…me alegra porque traz o canto dos pássaros com ele e sacode a cortina cor de amora.
Chego a pensar que o vento é um menino brincalhão que tropeça nos meus cabelos curtos e fica sem ter onde segurar e por isso sai levantando a saia do meu vestido lilás.
Aliás, quase todos os dias ele vem assim…Adora o ritual tênue da manhã que se agiganta onde o sol espreguiça e ele dependura nos galhos das árvores da vizinhança e canta sua melodia suave de começar do dia.
Ali, amparada pela parede rente a janela, colhendo canto de passarinho que junto com o vento vem todo dia eu abro os braços pra caber você no meu abraço.

Mariana Gouveia

O que faz brilhar seus olhos?

Diante da pergunta de minha editora busquei na memória o que faz meus olhos brilharem… Não encontrei só uma coisa, um fato. Encontrei várias coisas e momentos.

Quem me conhece ou me acompanha por aqui sabe o quanto o meu quintal me abraça e de como me sinto nele, entre os voos do meu beija-flor e a confiança para o pouso e uma brincadeira com Yoshi.

Como muita gente sabe, ele nasceu aqui, no meu quintal, dentro do xaxim de orquídea, e foi abandonado pela mãe ainda pequenininho. Desde então, há quase 12 anos, eu cuido dele, nos momentos em que ele me permite ser mãe e colo.

Meu olho brilha quando vejo ele dormindo no varal… meu coração conhece a ternura que ele exala e atende a um simples chamado, quando grito seu nome.

Acompanhar seu sono me acalenta a alma e ouvir seus chamados pela manhã, bem antes de abrir a porta me mantém dentro da poesia que faz com que meus dias sejam melhores.

Eu poderia dizer aqui que meus olhos brilham pela delicadeza das flores que nascem aqui, pelo brilho da lua que caminha no meu céu… que o ipê quando amanhece florido embala minha alma, que Yoshi com seu jeito carinhoso me envolve todinha e que Lolla e sua doçura se torna humana com seu olhar pidão. Poderia falar do sol que ilumina com seus raios o meu quintal, deixando seus rastros por aqui…

Também poderia colocar aqui mil fotos dele, de várias formas… mas aí, seriam seus olhos que iriam brilhar, isso, se já não brilha aí!

Mariana Gouveia
Participam dessa Blogagem Coletiva
Obdúlio OrtegaLunna GuedesRoseli Pedroso
Scanerium Livros Artesanais

Todo céu é mapa

Todo céu é mapa
Quando cansar de voar
prometa-me que serei teu pouso
E que o Silencio que tuas Asas fará,
Eco do meu coração
emoção de te tocar!

Todo vento é  preciso porque quando
se cansa de voar… é preciso planar
espero que o teu coração se aninhe
aos teus olhos para que nessa hora,
você se lembre dos céus azuis
que cruzou. Dos abismos em que
se atirou… e do vento que bateu
em seu rosto… e das muitas vezes em que
se lembrou de mim!

Todo céu é mapa e seu dono…
o beija-flor… domina meu quintal.
E te espera… assim como eu!
Quando cansar de voar
serei teu aconchego…

Mariana Gouveia
O Lado de Dentro
Scenarium Livros Artesanais

Das cartas que escrevi

Mudei a porta de lugar várias vezes.
Uma, para o vento entrasse; outra, para ele saísse.
Descortinei as vidraças embaçadas.
Vi azul e mudei a cor do quintal.
O sol alaranjou o gris que morava ali.

Querida minha,

Escrevo-te para dizer que o pássaro que beija a flor perdeu penas em uma briga com outro. Sei que vai rir quando ler e ver a imagem. Temperamental, o menino. Apesar de perder as penas ele ganhou a luta e agora reina absoluto em seu bebedouro. Acho que há bebês de cães por perto. Passam a madrugada chorando.  Está chovendo quase todo dia. As flores ficam mais vivas e o calor mais ameno. Mas também faz com que as ervas daninhas se alastrem mais rapidamente do que o normal. Tenho que limpar mais vezes o quintal. Adoro o cheiro do mato sendo arrancado. É como se a clorofila se infiltrasse em mim. As joaninhas aumentaram nesse verão. Não sei se a estação colabora para isso, mas o fato é que elas estão em maior número no pé de algodão. O hibiscus mutalibis encheu de flores e até o mamoeiro deu frutos, o que faz a alegria dos pássaros.
Por falar em pássaros, o bem-te-vi teve filhotes na mangueira do vizinho do fundo. Já ensaiou os primeiros voos hoje.  A vida vai seguindo igual, independente da estação, da previsão do tempo. Os dias parecem voar tal qual o pássaro que beija a flor e que perdeu as penas e o meu amor continua igual.

Mariana Gouveia
Participam desse projeto
Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Obdulio Ortega Roseli Pedroso