6 on 6 – Em 2021 eu…

…vi o jardim florescer e brotar de uma forma única dentro dos dias. Como atravessar 365 dias tão distintos e descrevê-los em apenas 6 fotos? Como falar das dores – que nos fazem mais fortes – e das alegrias em momentos que se disparam através do click da câmera – seja ela do celular ou DSL – e não ficar faltando coisas para dizer? Vou tentar transformar em imagens os sentimentos que divido sempre aqui, com vocês.

… vivi os voos e pousos de Chiquinho – meu beija-flor – que se tornou mais possessivo ainda do seu quintal… como foi um ano de ficar em casa, pude desfrutar mais da companhia dele que continua com seu chilreio por aqui.

… pude cuidar e aproveitar também das companhias de Lolla e Yoshi, que viraram grude onde quer que eu fosse… foram alentos para os dias difíceis e alegria nos dias bons.

… fui arte, artesanato, fui choro e sorrisos… fui fé e fui vacinada levando comigo a emoção dos que não puderam ser…

… fui escrita, fui Casa Cheia, Casa de Marimbondo, Mulher Proibida, Delírios Comunistas, Roteiros imaginários e tantos outros… Fui poema, palavra e poesia… Fui Colheita… Fui Scenarium…

… e fui emoção construída em Colcha de Retalhos… Onde me encantei com a saudade e continuo sendo esperança no amor em todas as suas formas e nuances…

E nesse novo ano que já se forma dentro dos dias, com seis folhinhas arrancadas do calendário desejo que você seja fonte de inspiração para seguir adiante. Sei que não teremos dias fáceis pela frente… Mas, sei que conseguiremos transformar 2022 em um ano melhor… Que em 2022 sejamos mais feliz!

Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam desse projeto:
Roseli PedrosoDarlene Regina Obdúlio Nunes Ortega Lunna Guedes

É, Maria…

“Maria é sua tia…” você respondia…

Minha Maria Eudes

,
Ainda consigo rir de algumas frases suas… é como se eu tivesse ouvido a pouco e embora esse ano sem você tenha sido vazio eu te percebi nas coisas que fiz. Devo confessar que em certos dias busco seu número no meu celular à espera de que me diga: coragem, faça, pinte de vermelho, corta, raspe a cabeça, use saia curta… essas coisas que você dizia e me encorajava e só daí me lembro que já não está mais aqui.
A minha casa está cheia de lembranças suas… desde tecidos de artesanatos que ficaram parados dos projetos que fazíamos juntas até as revistas dos bordados.

O último vidro de perfume que ganhei de você ainda tem as últimas gotas que não usei, o brinco de pérola, a blusa de bolinhas, livros que a gente dividiu juntas as páginas…

Devo dizer que nunca mais atravessei a ponte para sua cidade, porque eu só ia aí para te ver e meus sábados ficaram insignificantes sem você… é o dia da semana vazio, onde meu compromisso por tantos anos era ir almoçar/viver o dia com você…

E assim, os dias se transformaram em semanas, meses e já é um ano… como a gente conta isso? Como se traduz tanta vivência em uma partida insana?

Mas, talvez, eu tenha sido abençoada mais uma vez… lembra-se que eu dizia sobre Marcelo e o poder da voz em uma mensagem que me resgatou de uma depressão terrível? Agora, tenho a amizade dos seus meninos todos. Às vezes, nos consolamos nas mensagens, nos abraçamos no seu amor ou simplesmente estão ali, ao meu alcance quando sua saudade me abraça.

Sei que sua danadeza deve estar fazendo arte aí e claro que você daria um jeito de enfeitar as nuvens com laços igual fazia aqui com as caixinhas vazias de margarina.

A gente ainda vai se abraçar de novo…

Com saudades,
Mariana Gouveia

Arco-Íris

Luci,

Eu também vi um arco-íris hoje… ainda era manhã chegando e ele engoliu a casa da vizinha num gesto de abraço. Sorri quando vi a cena e quis registrar. Depois, caiu uma garoa miúda e a chuva se foi. Ficou nas trepadeiras as gotas como se fosse um colar de contas.

Eu vi o dia passar leve dentro do segundo dia do ano. Brinquei com o estuque do muro e lembrei-me do seu pai na época em que ele não queria comer. Depois, procurei por nuvens que talvez te servissem de estimação e no fim do dia eu queria te contar uma história bonita…

Vi as aves retornando aos seus umbrais, os cães se estranhando por causa de uma bolinha e a magia do casulo se fechando…

Tinha ainda tanta coisa que eu queria te falar, mas o que ficou em mim nesse domingo é o arco-íris abraçando a casa da vizinha.

Mariana Gouveia

2022…

Eu quero um colo, um berço, um braço quente em torno do meu pescoço,
uma voz que cante baixo e que pareça querer fazer-me chorar.
Eu quero um calor no inverno, um extravio morno da minha consciência.
E depois, sem som, um sonho calmo, 

um espaço enorme como a lua rodando entre as estrelas

Caio Fernando Abreu

Olá, Ano!

Não sabia se te chamava de meu caro, de querido – ainda não somos íntimos o suficiente para ser tão informal. Confesso que, daqui do meu quintal nada mudou ainda. Com exceção do calendário que troquei – o qual ganhei do pet shop, com uma foto engraçada de um cão – que ficou vazio depois de arrancar a última folhinha ontem… apenas com o cão a saltar, estático em papel… foi ali, que ao longo do ano que terminou que anotei o dia da troca do gás, a data da consulta e o dia em que os casulos se fizeram asas…

Curiosamente, hoje, havia borboletas por todo canto… fiquei a respirar a brisa que oscilava todas as folhas do pé de ipê enquanto a água fervia para o café. Molhei as plantas, arranquei algumas folhas velhas… dei afago aos cães e virei colo da rolinha por aqui.

Devo dizer que você já chega chegando por aqui… a ave que vagueia no quintal todos os dias veio parar na minha mão em busca de aconchego. A princípio, pensei que estivesse machucada, mas, dentro dos meus carinhos e toques em busca de alguma asa quebrada ela sobrevoou e se alojou novamente em minha mão… dormiu, enquanto eu respirava amor olhando pra ela e tentando fotografar o momento…

Sabe aquele momento em que a esperança ganha força dentro da gente? Pois é… tive esse momento hoje, enquanto todos dormiam e apenas eu, a xícara de café, o quintal, os cães, a ave e você iniciando sua jornada de 365 dias presenciaram esse momento mágico.

Você ainda é um menino, Ano… e daqui a alguns dias estaremos mais próximos, quem sabe ainda não te escreverei mais cartas ao longo dos dias… por enquanto, te envolvo na minha mão com a mesma confiança que a ave teve em mim.
Vou ali te viver!

Feliz Ano Novo!
Mariana Gouveia

A morte pulsa nas veias da existência e ata minha vida ao pulsar dos segundos.

Querida Sandra,

” (…) estar ao abrigo do fim do amor,
é a isso que eu chamo felicidade.”

Marguerite Duras

Hoje, eu quero falar com você… nem sei se sobre mim, se sobre dor, perdas e morte… mas, quero falar com você, com minhas palavras que te abraçam para além das imagens.

Devo dizer que senti uma certa inveja de sua dor… você perdeu uma referência feminina muito grande – nem sei bem se o termo é perder , porque a referência que ela te deixou está aí, latente e viva em você. Tão forte e tão sensível.

Eu sempre fui rodeada de mulheres fortes, valorosas… mulheres que de alguma forma foram faróis no meu caminhar, mas não tenho referências de minha avó materna. Para mim, ela era aquele desejo mais profundo, de busca de colo e aconchego… mas, não vivi isso. Cheguei mais perto disso com minha Bá – dona Fulô – a parteira que me trouxe ao mundo. Só que a avó – mãe de minha mãe – que conheci através das palavras dela surgiu diferente diante de meus olhos, já nos meus dezessete anos.

Ela era perfumada… coque bem feito com seus cabelos compridos e indiferente ao meu olhar de neta. Quando minha mãe se foi, dias depois, o que era indiferença se transformou em ignorância. Ela nos ignorava. Talvez, essa seja a pergunta que mais me acompanhou durante tantos anos – hoje, não mais: porquê? A casa dela ficava a três quadras da nossa, na mesma rua… E entendo que por termos morado longe dela boa parte dos anos, a intimidade não foi construída e juro que tentei… depois de um ano e pouco, desisti. Não pedi mais a mão para meu luto, nem colo, nem abraço. Passei a ignorar e foi assim que me libertei da vontade de viver ela.

Ela também já se foi há alguns anos e lembro-me que o sentimento que senti ao despedir-me dela foi a indiferença. Nunca tive um abraço, mesmo pedindo e nossa despedida foi uma leve oração. Eu não sinto falta de afeto das mulheres infinitas da minha vida… mas, juro, que por muito tempo, eu quis o afeto dela para ter a lembrança dele quando ela partisse. Não chorei, nem senti a previsão de falta… Por isso, a inveja desse seu sentimento de dor…

Não vou dizer para você superar… porque sei que a falta é muito além da presença física. O que vou te dizer é para que você teça suas lembranças dentro de todo afeto que você recebeu dela e ainda recebe da filha dela – sua mãe – em ritos de coragem para poder viver. A morte é essa faca que corta da gente pessoas que são nossas bases. A morte pulsa nas veias da existência e isso é inevitável e o que fica é a leveza do afeto, do abraço, das imagens que a gente vê todos os dias.

Quero encher seus olhos de imagens lindas todas as manhãs para que seu sorriso vibre pelas ruas da França, pelos campos de Portugal e pela vida afora junto com as lembranças de sua avó sob a benção atenta de sua mãe.

Quero que minha poesia te alcance na tonalidade dos dias e das manhãs em fusos diferentes e quando o buraco em seu coração doer de saudades que todas as lembranças do afeto dela sejam como o pousar da borboleta na flor, como se fosse o abraço dela.

Abraço carinhoso,
Mariana Gouveia
Projeto 52 – Scenarium Livros Artesanais
Participam desse projeto:
Obdúlio Ortega – Lunna Guedes –

6 on 6 – ho ho ho

Caro Dezembro,

Devo confessar que você acontece em mim bem antes que seus dias cheguem no meu calendário. Minha programação começa lá em setembro, quando a primavera atinge seu ápice no meu quintal e as flores exibem suas floradas por aqui…

É quando começo a produzir as encomendas para quem gosta de enfeitar seus dias com cores vibrantes, papais noéis em suas roupas vermelhas, anjinhos e imagine só, até bonecos de neves. A maioria das encomendas já seguiram viagem, ou foram entregues para além da rua de cima. Dia desses, quando fui ao mercado, vi uma das guirlandas feita por mim enfeitando a porta da casa amarela.

Acho que, como eu me visto de você em setembro, quando seus dias chegam eu já me desembrulhei do ho ho ho, das canções que se repetem desde a minha infância e até da música de fim de ano na TV… Devo confessar que houve um tempo em que o Natal era a minha data preferida… eu conseguia bordar todas as encomendas e ainda assim, vibrar com a mensagem do bom velhinho…

Mas, isso, foi lá na infância, quando todo mundo da família estava junto e a data era apenas a desculpa para se comemorar o que já fazíamos quase todos os dias. Em uma família grande, quase todo mês era aniversário de alguém e só por isso, tudo era uma festa. E minha mãe repetia sempre que devíamos ter atenção para a mensagem verdadeira do Natal… isso foi há tempo que parece outro século e cada um, em seus lugares, com suas famílias construídas para além dos anos, comemora de outro jeito, outra forma.

Hoje, a festa já vale por eles e enquanto finalizo as encomendas, a vida se veste de Natal em alguns momentos, mas fora de seus dias… Yoshi, por exemplo, quando escuta eu falar o ho ho ho… já se apronta para a brincadeira onde eu corro e ele me alcança…

E Lolla fica simplesmente nos espreitando como se já estivesse cansada demais e com calor para fazer isso… Não é por ser você, o último dos meses que me sinto assim… na verdade, a rotina com o canto dos pássaros e mais ainda nesses tempos onde quase não há nada para comemorar, depois de tantas perdas, te aviso que já estou na Páscoa… Coelhinhos ganham contornos com linhas brancas e douradas, cenouras e suas folhas verdes já aparecem por aqui… Que tal um chocolate?

Feliz Natal, Feliz Ano Novo e Feliz Páscoa!

Mariana Gouveia

Esse texto faz parte da blogagem coletiva 6 on 6 – Scenarium Livros Artesanais
Participam junto comigo desse projeto:
Lunna Guedes – Roseli Pedroso – Obdúlio Nuñes Ortega

Carta à solidão

Em muitas noites a insônia habita o meu corpo e os olhos acompanham o desenrolar da madrugada que num estalar de dedos se dissolve e vira dia, manhã de sol e eu cambaleando pelos cômodos, arrastando o passo pelos cantos.

Quando isso acontece, tenho a impressão de que a solidão é uma presença, uma entidade. Figura gigantesca. Mas, se antes, você habitava as noites mornas, nos últimos dias, tenho sua companhia nas tardes, com as réstias de sol atravessando as cortinas e o vento bailando num tímido vai e vem. Sinto seu toque na pele e suspiros vazios. Percebo-te entre as paredes da sala e dentro das gavetas que vasculho em busca de memórias perdidas – cartas que não foram enviadas e algumas que nem escritas foram.

Eu nunca tive medo de viver só. Sempre soube aproveitar da minha companhia e entre sorver uma xícara de café e escrever, na realidade, nunca estive só. Os pássaros, s flores e as sombras do meu quintal preenchem lacunas-espaços – ocupam-me. Tu és esse vento que passeia pela casa, sopra as roupas no varal e provoca tumulto. É a mão que toca a minha e me lembra do meu lado de dentro.

Houve muitas tardes que o silêncio da casa era quase um alívio e escrever-te é como afirmar sua presença pelos cantos, como o chapéu que uso vez ou outra, por causa do sol ou o som do relógio a ressoar por aqui.

Será que estou inventando uma personagem? Não seria a primeira vez que invento um substantivo ideal para ser o meu par, como a cortina é companhia ideal para dançar com o sol.

Mariana Gouveia
Texto publicado na Revista Roteiros Imaginários
Scenarium Livros Artesanais

Caminho… e atrás de mim caminham lugares…

Bambina mia,

Já te aviso de antemão que essa carta é extra-sensorial… Em alguns momentos você pode fechar os olhos e sentir o vento… o caminho por onde te levo tem vento e tem o cheiro de sua cozinha, da xícara de café, do pão no forno sendo assado… e tem tato, porque posso sentir você ao mais leve toque na tela do computador… o abraço quentinho, a risada moleca e o som da bolinha de tênis ecoando pela casa enquanto Jane dog tenta roubá-la…

Acabei de descrever a saudade – você sabe disso – e vendo sua foto sorrindo, é como se você estivesse em minha frente, abrindo caminhos calçadas afora para eu não tropeçar, indicando esquinas enquanto caminho…
Caminho… e atrás de mim caminham lugares… e posso detalhar cada centímetro das ruas que caminhei contigo.
O vento gelado de um fim de agosto, garoa fina, mala arrastada…
Ônibus lotado e seus olhos marejados enquanto te contava minha história e senti ali, a cumplicidade de quem entende o outro sob o olhar atento do amor. Tantas coisas que já vivemos juntas.

Poderia enumerar datas e assim, marcar o tempo que existo em sua vida… mas, acho, que eu me enganaria porque acredito que o Universo só nos reaproximou de novo, de algum tempo em que não lembro, só que desde o primeiro abraço houve o reconhecimento de que eu já estive dentro dele em outro tempo.

Essa missiva está adiantada algumas horas, porque seu dia é amanhã e seria para amanhã minhas palavras. A gente anda se emocionando juntas em conversas em aplicativo de mensagens, e posso dizer em segurança que sua mão segura a minha sempre… em filas de espera, enquanto faço almoço, jantar, café da manhã… quando trovoa, quando tem sol e então, nesse meu caminho, sei de sua presença ali, mesmo não estando e a cada caso novo, história, memória e até fofocas, você está ali, atenta ao meu chamado. Sou grata por você na minha vida… se eu sou um afago do universo para você… ah, bambina mia… Você é a porta segura que sei que ao bater, ela se abrirá para mim. Com todos os aromas que uma casa possui, inclusive da pizza que acaba de me oferecer e seu abraço tão reconfortante.

Sou mesmo uma abençoada!

Auguri!

Mariana Gouveia
Projeto 52
Lunna GuedesAnna Clara de Vitto

# extratos

#extratos III

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Às vezes ouvia músicas que trazia momentos. Meio relicário, sei lá… O rádio tocava a canção e ela queria dançar.

Também usava palavras que não eram suas para dizer que a amava. Palavras da própria canção que ouvia e que ela queria dançar.
Era um desejo secreto.

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E o silêncio tomou conta de tudo. Ao percorrer os aposentos nesse dia buscou ela em cada canto.

O espelho mostrava a estranha em que ela mesma havia se transformado.

Não havia mais música tocando.

Só o vidro vazio do seu perfume continuava a exalar a essência que ela tanto buscava nos lençóis, no travesseiro.

 

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E havia ainda o sabor da sua pele, a textura, aquela maneira de apenas fechar os olhos e tocá-la…quase sentia o gosto.

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Chovia. Chovia sempre. E as palavras dela sobre a chuva ecoavam por ali…

e a maneira como ela lia Maria Teresa Horta ficou registrado: Ah, essa Maria Teresa!

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Também sentia a sua falta:  a suavidade plena de pensar nela ali.

bebia o café junto com ela. Era assim que o dia começava a ser lindo.

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Um dia, o rádio tocará a mesma canção e ela estará ali ao alcance dos beijos e das mãos.

Mariana Gouveia

# extratos II

# extratos II

Hoje não me lembro bem do que disse – ou lembro de tudo, sei lá… –

comecei a esperar pelas visitas

a marcar a cidade no número de quem entrou

comecei a desvendar nomes dela…

a criar mitos, lendas.

Precisava dela pra começar o dia.

Reitero…PRECISO

assim de precisar mesmo.

E dos azulejinhos que chegavam e arrancavam sorrisos

aprendi a provocar

a mudar desejos de palavras;

a chover…

“não vou esquecer nunca da sensação de chuva… está a chover aqui…”

aprendi a sentir borboletas a voar na barriga;

a gostar do azul, do laranja, do escarlate, do preto e branco…

a descobrir palavras novas e aprendi a medir a saudade pela imensa solidão que os dias fazem em mim.

E que em mim existem dois mundos…

Mariana Gouveia