O livro da minha vida…

Atendendo a blogagem coletiva venho falar sobre o livro da minha vida. Claro que eu poderia vir aqui e falar de diversos livros que fizeram parte de minha vida como leitora, mas, como escritora e sendo o livro considerado filho por quem escreve, o livro da minha vida é meu primeiro livro publicado: O lado de dentro.

Em 2015, pela Scenarium Livros Artesanais – na época, Scenarium Plural – dentro de da série Exemplos, nascia O Lado de Dentro sob o olhar e edição de Lunna Guedes. Meu primeiro livro e com a emoção de quem escreve, o livro da minha vida, porque com ele a poesia que rondava a minha vida ganhou asas e voou. Com a capa acima, ele chegou a terceira edição.

Então, em 2017, resolvemos relançar o livro com outra capa e acrescentar uma carta e mais um poema inédito e o sucesso foi o mesmo. Com a nova capa com uma fotografia minha chegamos na terceira edição do livro.

Mas como para minha editora Lunna Guedes, uma só roupa de festa não vale, para celebrarmos o quinto ano de lançamento, em 2020 surgiu a ideia da capa atual dele. Como se fosse um envelope e com o vermelho que amo. Mais do que entregar a você a poesia que O Lado de Dentro descreve, eu entrego meu primeiro livro feito com emoção e carinho.

Desenhou estradas para a viagem dela.
Tomou cuidado ao espalhar paisagens.
Alguém falava da vida, de sopro.
Ela pensou que algumas viagens são mais partidas do que chegadas.
Colocou um riso disfarçada de trevo na primeira sorte.
Foi quando os olhos viram além do físico.
Da alma. Dali, viajante, tinha distanciamento das coisas.
A viagem era para distrair letras. Rever romances onde se perdia dentro dos dela.
Cidades, trocas. Solidão dentro do nada. Montanhas.
Ar rarefeito dentro do peito. Olhares se cruzam, se desviam.
Vozes e palavras perdidas no meio do nada. Parada.
Quando a cidade termina começa um nada.
Nessa hora, o cenário muda.
Dimensões do desenho dentro dela.
Floriu. Pela mão de alguém que desenhou a viagem, floriu.
Ficou ali entre o desenho e a miragem sendo.
Poderia ouvir jazz – ou rock, bebê ! –
e não tocava nada.
Quando percebeu já nem era chegada nem partida.
Era apenas voo nos olhos dela.

Se você quiser adquirir um para chamar de seu, clica aqui… Mais do que te mostrar o meu lado de dentro, você verá o outro lado dentro das poesias.

Mariana Gouveia
Scenarium Livros Artesanais
Blogagem Coletiva

As borboletas nascem pela manhã

As borboletas nascem pela manhã

Ouço o barulho da asa… É quase como ouvir silêncio.
Não abuso dos suspiros que é para não acordar as flores e nem interromper o nascimento.

Dou pausas…Ela precisa de silêncio pra nascer…
Shiiiu… As folhas secas do pé de maracujá silvestre balançam a canção de boas vindas para que ela rompa a crisálida, ou casulo, nunca me lembro o certo.

Leio o meu horóscopo no jornal, a seguir no caderno geral um artigo que explica como um cinto de ligas e uns sapatos vermelhos poderiam mudar a minha vida afetiva e sexual e eu me pergunto se com um cinto de ligas os iogurtes fora do prazo desapareceriam do congelador?

Ouço o vento de outubro bailando.
Marco as horas…
Falo com ela anunciando o sol dourado que vai ajudá-la a voar.
Ela nascerá na manhã mais linda, de sol intenso e de um azul brilhante.

O programa da TV toca uma floratta onde meninas fazem acrobacias da ginástica rítmica.
É Bach. As fitas das mãos delas bailam e agorinha mesmo as asas dela também ganhará o espaço.
As borboletas nascem pela manhã e eu conto os minutos que antecedem…presencio o nascer da borboleta e emocionada brindo a vida.

Mariana Gouveia

Monocórdica

Monocórdica

Prefiro a nota principal
estilo invariável, único.

como se estivesse lendo – braile
como se a nota musical fosse dela
e ainda pede que eu cante
Pra ela…

ai, quem me dera que o encanto dure
que a música fosse relicário – fosse

que a sinfonia fosse mais doce…
que a melodia, a voz.
E a cadência de menina…
em nós…

Tão monocórdica
no seu sentido literal
coleciona músicas no varal…

Mariana Gouveia

Natural

Mestre,

Como você gosta de fazer, hoje, fui eu quem buscou o significado do seu nome e além de você ter nascido no dia da poesia, para meu espanto, seu nome tem exatamente o que você é… O mais engraçado é que nos dias de hoje, geralmente, as mães buscam os significados dos nomes para seus filhos, mas, nos nossos casos, acho que não havia isso e sua mãe escolheu seu nome você vestiu toda simbologia do nome ou foi a simbologia do nome que se vestiu de você.

Não preciso falar sobre a amizade e companheirismo, porque quem te conhece já sabe disso e no seu dia, mais uma vez, venho aqui agradecer pela mão estendida, pelo olhar dedicado e ombro amigo. E o que mais me deixou impressionada é que seu nome significa: Natural e isso me lembrou da natureza, das serras nobrenses, da magia do cerrado e escolhi a foto que tirei na região de Nobres, em uma das idas por lá. Tão natural como você e seu abraço amigo.

Segue abaixo o que achei sobre seu nome:

Qual é a personalidade de Alírio?
Costuma ser criativa e agir com felicidade para lidar com situações difíceis. Alírio na maioria das vezes, é extremamente otimista e desligado de coisas banais.

Qual é a ambição?
Paz e tranquilidade são sempre bem-vindos para quem se chama Alírio. Está sempre procurando a harmonia interior.

Como é a expressão?
Não tem medo de enfrentar a vida e correr atrás dos desejos e anseios. Alírio se concentra para fazer sempre bem feito tudo aquilo que se propõe.

Pontos positivos de se chamar Alírio?
Líder, pioneiro, corajoso e independente, esses são os pontos positivos de quem se chama Alírio

Sobre os pontos negativos, me recuso a colocar porque não concordo com nenhum, afinal de contas, não devemos concordar com tudo que se vê na internet.

Abraço carinhoso,
Mariana Gouveia

Fonte: https://www.significadodonome.com/alirio/

Poemas indizíveis

Poemas indizíveis-1

Revirei meu baú de lembranças…
Encontrei as coisas como que procurando lembranças do que não vivi, cheiros que nunca senti.
Confusões de sentimentos que meu coração desfolha.

No baú da minha existência existe tanta coisa que ainda nem desfrutei e as lembranças vivem.
Entre tantas coisas guardadas, você se atreveu a estar presente em cada uma delas mesmo não estando por lá.

E o teu cheiro eu aspirava mesmo não sentindo.

Quase comemorei a fotografia que não vi de ti.
Quase toquei tuas mãos em lembranças que ainda busco nas tuas palavras escrita.
Busquei você, além dos sentidos. Nas histórias de contos de fadas que leio e no final você sempre está.

Mariana Gouveia

*poemas indizíveis*

Carta aos professores.

Hoje relembrando tudo que sou vejo muito dos meus professores em mim. A minha primeira professora se chamava Edna e tinha os olhos azuis da cor do céu e quando ela sorria parecia que tinha estrelas dentro.
Passei o primário todo a estudar com ela e romper a barreira do Ensino Fundamental para mim foi tão difícil quanto adaptar-me sem ela à frente da lousa.

Depois descobri Adair, a minha mestra de português e de olhar manso. Não havia céu dentro dos olhos dela nem estrelas. Mas ela tinha o colo mais doce do mundo. Foi com ela que talvez tenha aprendido poesias. Digo talvez, por que desde sempre eu já escrevia poemas, palavras, “versos” como meu pai dizia e pedia para eu declamar.
A minha professora já atuava na área há mais de 40 anos e nos anos seguintes posteriores eu a perdi para aposentadoria. Com ela eu aprendi piano, aprendi colher rosas sem me importar com os espinhos. Descobri Neruda, Drummond e a arte de Tarsila do Amaral.
Ela não conheceu greve. Nem precisou lutar por melhores condições. E nem tinha. O meu ensino fundamental foi quase que feito todo na Escola Alcebíades Calhao. Havia outros professores, mas Adair conseguia no recreio uma feira/de troca de livros.
Por causa da morte de minha mãe tive de parar de estudar e fui trabalhar, e minha professora já aposentada me dava lições de cidadania e de companheirismo. Aos sábados me dava meia hora aula e depois íamos visitar os ex alunos dela que estavam com problemas. Um, que quebrara o pé. O outro, que estava com febre. Virou rotina nossas visitas e quando ninguém tinha problemas maiores, nos reuníamos na Praça Santos Dumont para ler livros.
Anos mais tarde, voltei a estudar. E mais uma vez fui abençoada por anjos em minha vida com títulos de professores. Amigos protetores eu ganhei. Maria José que me me mostrava o encanto da Biologia, a arte pelas mãos de Iolanda, a filosofia desenhada em poesia pela beleza de Luzia, a educação física que sublinhava a alma pela doce Flavia Luzia. Monique, e com os relevos e o envolver da Geografia. os números que eu detestava e que foram me mostrados de maneira mais amena por Joanil e Luzia. Jesus toma conta na vontade plena de ensinar de Nilza. Zózima não me deu aulas, mas ensinou-me o olhar macio das borboletas e o aconchego de presença quando precisei.
E foram tantos mais e tantas que eu passaria a vida inteira dizendo nomes e a envolvência em minha vida que meus professores tiveram.
Fui educada da maneira mais simples que há. Por vezes, nessas escolas que estudei não tinha cadeiras suficientes, ou mesmo o giz para o professor escrever. Em cada um deles havia o desejo de ensinar e em cada um deles eu sentia surgir a revolta pela falta de condições.
A educação é o bem maior que um governo pode dar ao seu povo.
Infelizmente, vivemos tempos sombrios, mas, em cada escola há guerreiros dispostos a tudo pela vontade de ensinar.

Parabéns à todos os professores.

Nasceu vida no quintal. 

O retrato é o relicário na parede vazia. Na mesma rua as histórias se encontram. Era o abraço da sorte no trevo da rua de cima. A essência das roupas no varal… chovia quando o dia se encerrava nas rotinas. Os pássaros de papel voavam além das janelas. Às vezes, é preciso aceitar o fim. Tudo é temporário no receituário. A moça de branco mudou a cor das roupas.

Nem faz mais o silêncio costumeiro de sempre. Esqueço o nome dela todo dia. Esqueço meu nome toda hora. O vento é esse menino que carrega a fragrância do cheiro da chuva nos arredores. A tarde azul recolhe asas no varal. A profundidade da dor se misturando aos desenhos opacos feitos nos muros.
Lembrei-me dela e de que adora quebrar regras e eu de as cumpri-las… tudo é o oposto no instante das horas. Falava da solidão dos dias curtos, de frio intenso e eu de dias imensos, sufocantes e solares. Às vezes, o amor não consegue atravessar o oceano. Nem a nado, nem voando.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
Diário das Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais

Aniversário

Quando a rotina alivia é que vem à lembrança de que ainda é primavera.
Dia de sentir cheiro de flor em cada célula.
O vento sopra morno no quintal e as abelhas voam em direção das flores.
Todas brotaram dentro de mim quando ouvi a nossa canção.
É seu aniversário em outro hemisfério. É outra estação em seu lugar e dentro de mim seu perfume, que dá o aroma aos meus dias.

Hoje, faz um ano qualquer
que a pele dela tocou a minha.
Primeiro em um gesto simples de abraço…
Depois, a brancura a misturar- se na minha cor.
Mas o dia… O dia foi marcado quando a alma dela me tocou.
Era a carícia do encontro e o calendário produz o encantamento do dia em que me apaixonei pela asa.

Mariana Gouveia
Vem aí uma nova edição de Cadeados Abertos
Projeto: Diário das Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais

Em todo lado a palavra pássaro faz asas e cor.

Julgo ver nele a cura para a dor…
Do outro lado da árvore, a lua tem a cor de mel… eu acreditava nas coisas do destino e lembrei-me de fotografias que nunca tirei. O som da letra do canto da ave é como um poema esculpido na árvore e toma-se a forma das flores. As relvas frescas a molhar os pés e os sorrisos estendidos em mil árvores que meu pai chamava de floresta… o céu a desenhar presença de nuvens e eu procuro as lembranças que escrevi ali. Havia a mão de criança a segurar a saia e um vulto marcou o voo e o pouso… enquanto as lembranças da mãe eram desenhadas nas falas das irmãs, trazendo recordações que parecem tão recentes diante das histórias narradas. Lê-se a presença diante das memórias, lê-se silêncio, sim, tantas vezes… Era o silêncio dos gritos dos dias vividos e as recordações a ecoar dentro das palavras.  O quintal molhado de poema vem daqui… o olhar impregnado de memórias… deixo que elas venham sem metáforas… crio na mente o poema e com ele invento histórias para relembrar em dias sem sono. O poema será quando as crianças e os pássaros se rebelarem, e ainda assim, tudo continuar presente mesmo distante. E no pomar as árvores espreitam a corrida para abraçar o pai e esperar que a asa seja leve…  Guardar tudo isso na fala da solidão para aprender o olhar de presença mesmo quando a palavra poema aproxima do que meus olhos me veem enquanto só sei escrever o seu sentido.

Mariana Gouveia

O mundo acontece dentro do milagre.

O calor no rosto me leva para outra cidade – aprisionaram o vento dentro da intensidade da palavra – foi uma cerimônia bonita. O rio e os envelopes rasgados. O canto da ave num dia triste. A febre e a ilusão do delírio. Havia qualquer coisa de estranho no objeto bordado. O pássaro desenhado como se lembrava na memória obscura da pele. O toque da pena a dimensionar o voo. Dizia que sem pressa devia partir. Ou esperar. Ou ir e voltar – esquecia da última frase da carta. Mas sentia na ponta dos dedos, apenas essa solidão esférica. De cidade vazia e de rio longo e serpenteado perto das margens de onde avistava os papéis que não enviara a rodar, como se fosse de encontro ao mar. Como se morresse de fome e sede – e não havia nada para matar a fome. A vida seca, úmida de alma. Invento as escalas do mês. O mundo acontece dentro do milagre. O ausente fica lindo assim distante. O voo não dado é o que me leva a querer esse cheiro terrestre infinito… onde o vento apenas se finge de sopro.

Mariana Gouveia