De todas as estações · infinitamente · Mariana Gouveia · Via Solar

*Feliz primavera!

Andamos lado a lado enquanto eu ia em direção ao ponto de ônibus. Percebi como ele cresceu, e senti que ele queria falar e começou a dizer:
– Eu não entendo algumas coisas.
– Para te falar a verdade eu não entendo muita coisa também. – Tentei buscar uma explicação mais plausível para que a conversa fluísse normalmente – eu, por exemplo não entendia por que meu filho adorava ouvir Link Park. Hoje, eu entendo.
– Entende Link Park?
– Entendo a poesia através dos instantes que meu filho ouvia Link Park.
 – Não entendo poesia.
– Não é para entender. É para absorver.

Silêncio…

– Como se absorve poesias?
– Sei lá. Fecha os olhos, respira…inspira. Solta o ar e você acabou de comer poemas.
– Humm. Acho que sei como é.

Silêncio…

 – Esse silêncio é poesia?
– Pode ser. Depende da maneira que você vê.
– Então tudo que vejo pode ser poesia?
– Sim e não.
– Pode ser mais específica?
– Esse momento pra você é o que?
– Puxa, eu pergunto e tu me tascas pergunta pior? Quando converso com você minha alma fica leve. Vou embora mais sábio.

– Poesia. – Digo isso emocionada, mas não o deixo perceber – Isso é poesia. Só depende da maneira que você vê. Quando a menina da sua escola, passa por você e parece que o vento vai atrás dela e seu coração dispara quase ao ponto de sair da boca e você mal consegue disfarçar, isso é poesia.
– Isso é bruxaria. Te contei isso faz dois anos e tu lembra?
– Me lembro de muitas coisas que falamos e isso também é poesia.

– Sabe que dia é hoje?
– Sei e isso para mim também é poesia. O dia em que você nasceu e quando você nasceu nos meus braços e eu te mostrei pra sua mãe… eu disse a ela que você nasceu abençoado.
– Hum…
– É verdade! Você nasceu no dia em que se inicia a primavera… A estação mais linda… e por onde passar levará e espalhará sementes de bondades. E eu, fui a jardineira que ajudou você a nascer.
– Gosto quando você fala dela. As lembranças que mantenho vivas em mim são das coisas que me fala.
– Também trago muitas lembranças dela em mim. E a sinto mais viva nessa época. Você só precisa lembrar dela com carinho e viver teu caminho, cuidar do teu jardim… e isso é poesia.

Silêncio…emoção…

Entrego uma coletânea de Fernando Pessoa em um papel de presente. As palavras vagueiam entre nós com cumplicidade.

– Uma vez, eu ainda era menina. Nós fomos à beira de rio pescar e lá na beira do rio, eu comecei a construir uma casinha de areia porque nessa época eu nem sabia de castelos; construí aquela casinha com tanto primor e meus irmãos me diziam que eu era boba ao construir aquela casinha tão linda, ali de areia, se íamos embora no fim do dia e eu não poderia levar a casa comigo. Na hora, eu quase parei de fazer e ia desmanchar tudo, mas, eu retruquei e disse:

– Não vou poder levar ela comigo, mas vou poder dizer que fiz a casa de areia mais linda que pude e vou levar comigo o sentimento de ter feito e vivido esse momento.

– Seu ônibus tá vindo… mas antes, deixa eu te dizer que enquanto eu fizer anos e mesmo que tu fique velhinha eu vou me lembrar desse momento em que você me ensinou a viver poesia.

– Feliz primavera, menino! Viva tua estação lindamente. O mundo é teu jardim!
 

Entrei no ônibus e ainda pude avistá-lo com o sol colorindo o dia dele. Segui em direção ao dia com a sensação de ter ganhado o mundo…

Mariana Gouveia/Lucas Steffano

* Lucas nasceu em minhas mãos em 2004, em uma manhã de primavera. Sua mãe, Leonora foi uma presença linda em minha vida e se foi em 2012. Desde então, em todo início de primavera, eu e Lucas plantamos sementes em abraços e afeto.

Das rotinas · Divã · Mariana Gouveia

Horóscopo do dia

Me pediram o horóscopo do dia. A pessoa que fazia isso morreu – ou viajou, ou mudou – sei lá!
Há uma contradição dos astros hoje. O astral me povoa. Cria multidão em mim. Estrelas cintilam nos olhos dela.
O vento empurrou Júpiter para perto de Vênus. Marte partiu.
Seu signo combina com o meu. O Decanato mora na esquina da rua detrás. Chamam-no pelo apelido. Nunca atende pelo nome dele.
Hoje será seu dia de sorte. Amanhã também. Isso se não enlouquecer pensando nos sentidos que as várias fases da Lua tem.
O tempo muda hoje. Continue nas rotinas do dia.
Vai conhecer o amor da sua vida – isso, se já não conheceu.
Momento dos mais benéficos para viver ou morrer.
De amor.

Mariana Gouveia 

Divã · Mariana Gouveia · via lunar

contraventor

Fala das horas mortas – embora vivas – todo dia.
Do fascínio que uma menina faceira provoca nele.
repete o nome dela infinitas vezes.
Assiste sua dança no seu quintal.
A chama de deusa e eu, atrevida, dou-lhe o nome de deuso.
Nome que achei para a magia das palavras que ele assopra em um teatro de ousadias.

É contraventor.
Usa anagramas e se perde dela em um céu vermelho quando desaba um temporal.
Não se cala, fala, inventa idiomas, cria cidade.

Como as mãos da cartomante, corta baralho de linhas e letras.
Dá voz ao poder de lua, mesmo ela querendo minguar.
Mas toca o que é proibido,
Porque ousa quebrar os espelhos
E me chama ela pelo nome que acha mais bonito.

Pinta flores em carvão ou giz
usa origami mesmo sem dominar.
Chama os ventos astrais para as marcas da pele
onde o vento não voa e cria mais sentidos numa noite simples.

enquanto eu, em sessão solene vivo a poesia
porque a ousadia não pode parar.

Mariana Gouveia
*imagem: Tumblr 

Diário das quatro estações · dos diários · Livros · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

Fazia o chá para além das xícaras

– era a espera antecipada da estação –
amanheceu hoje com gosto de inverno.

O meu quintal é alheio a tudo – tem vida própria – pássaros cantam.

Refaço horóscopos para o mês seguinte. Os astros estão em ebulição. A natureza grita pelo vento de um furacão.

Veria algo novo no raiar do dia…. A maresia chegou de mansinho pelas palavras dela. O pássaro voa alheio a tudo. O cão late na folha seca que cai.

Remexe nas sementes perdidas. Escoa a água da pia. O chá ferve.

Aprisiona desejos secretos. Ri sozinha dos pensamentos loucos.

Refaz o roteiro do horóscopo. Alterna os dias. Gelo para a luxação do pé. A dor acalma quando a alma dança. Chorou no poema que leu. Havia coração em toda parte.

Morde a fruta e vai esperar o dia de amanhã.

Mariana Gouveia
Desvios para Atravessar os Quintais
Entre uma estação e a primavera
Scenarium Livros Artesanais

Das palavras das cartas · Mariana Gouveia · Missivas de primavera

 Deixa o coração se apaixonar pelas paisagens.

Meu caro Obdúlio,

Já te contei várias vezes sobre meu lugar… acho até que você conhece as rotas e os meus desvios. Mas hoje, te pego pela mão e vou te mostrar logo aqui, a 100 km o meu Pantanal.

Deixa o seu coração se apaixonar pelas paisagens que vou te mostrar. A entrada se dá por Poconé, uma cidadezinha típica do interior – mas com tantas riquezas culturais como o cururu e siriri, a cavalhada e a apresentação dos mascarados. Uma tradição secular por essas bandas.

Sabe, moço, uma das tradições desse povo é a fé. Está por todo canto estampada… seja nas festas de Santo – a de São Sebastião é a mais tradicional – ou nas igrejas centenárias, como a igreja do Menino Jesus, datada de 1922.

Só delas eu falaria por dias… mas essa missiva tem o dever de te mostrar o Pantanal por meio de suas paisagens bonitas, conhecidas no mundo todo. Por isso, vou ser mais poética e te mostrar sob meus olhos a maneira que vejo essa biodiversidade fantástica. Já adianto que vai faltar espaço.

Os ipês nessa época se vestem para a festa e transforma o lugar em um jardim tridimensional. É lindo de ver!

E o pôr do sol, moço… é de encantar ou se apaixonar – você escolhe – e as aves fazem a festa nessa hora… Os tuiuius, gaviões, garças, as freirinhas, os papagaios e as araras são um show à parte. Não vou conseguir colocar todas as fotos…. Vamos deixar isso para quando você vier ver de perto.

E os jacarés, que vi de tão pertinho que podia tocá-los, assim como a cobra – para susto e desespero do meu marido – na beira da estrada.

Vi de pertinho uma comitiva e a boiada – foi como estar na novela, arraaaa – atravessando na margem de um rio quase seco de tanto que o homem devastou por aqui.

Na verdade, moço, somos nós que fazemos mal para a natureza… mas, como eu só queria te mostrar pelos olhos do encanto meu lugar, finalizo com a imagem que me fez falar uau. Sei que vou ficar devendo mais paisagens, mas quem sabe, um dia posso te mostrar pessoalmente.

Abraço carinhoso,

Mariana Gouveia
Missivas de Setembro
Scenarium Livros Artesanais

Estão junto comigo nesse projeto
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins

Das palavras das cartas · Mariana Gouveia

tem certeza de que a rosa era mesmo rosa?

Rose,

Quando você me deu essa rosa, era de um rosa mais rosa. Eu comemorava um aniversário e você, mais uma vez, com todo amor que lhe cabe, quis povoar meu jardim.

Com o tempo, o rosa foi purificando e a rosa se tornou multicor… Quase branca.
Hoje, o aniversário é seu e eu poderia dizer sobre tudo que vivemos… Nem vou dizer o tempo que vivemos, porque, por mais que eu escreva sobre… você é em mim, de tanto tempo que só digo que existo sempre em você.

Assim como a rosa mudou o tom, enfrentou diversidades, a gente também mudou. Depois de quase dois anos sem te ver, mas nesse mesmo tempo sendo presença uma na outra, pude te abraçar e sabe, parece que nunca nos separamos… O riso, a cumplicidade, o amor ultrapassam esse tal de calendário.

O meu desejo é o mesmo de quando te dei o primeiro abraço e parecia que eu já te conhecia de muito antes.
Que você seja feliz e eu vou estar aqui sempre, nos dias bons e ruins… Sendo guia ou apoiadora.
Te amo infinito

PS: tem certeza de que a rosa era mesmo rosa? Porque o que impera em meu amor e coração é tu, Rose.

Feliz aniversário!
Mariana Gouveia

Marítima · Mariana Gouveia

Sashimi

era uma vez, o tempo
esse oco de horas medidas em segundos

depois, houve o vento,
ecoando dados em corações que doem
o tic tac do tempo que não veio

e a ideia de que o mar
corria para o rio

esse oceano seco
de terra exposta
de mesa posta

a comida fresca
a alma perdida

eu, o peixe doce
para o seu mar salgado
sirva-se
– me –

Mariana Gouveia
Ph: Tumblr

infinitamente · Mariana Gouveia

Exorcizada

em sua melhor fase queriam exorcizá-la
colaram nuvens ao seu redor
criaram eclipses,
efeitos solares

em sua melhor noite
inverteram o céu – tão lunar ela era

apontaram-na como bruxa – um caso perdido
que só um ritual complexo poderia curá-la

quando cheia, ela cansou de tudo isso
lambeu os dedos 
e os queimou na fogueira que ardia dentro dela.

Mariana Gouveia
Das coisas breves
Ph: Tumblr

Das rotinas · Mariana Gouveia

Conheci uma menina que andava descalça,

e possuía sapatos dourados.

Em uma das mãos o rio desaguava.
Levava a correnteza no sentido dos dedos,
e fazia o vento desmaiar nas margens
onde olho nenhum conseguia alcançar.

Na outra, possuía o dom do deserto
– Onde oásis era miragem mesmo –
e a flor que brotava desenhava
espinhos nos cabelos dela.

Cabia dentro do riso do dia
e nas noites de insônia colecionava a saudade
subversiva de amar.
Cantava canções de mar…

Declarava poesia de rio
e repentinamente desavisava o redemoinho de vento.
Criava casulos para se renovar.
Era mão para pouso,
ao mesmo tempo que amava a liberdade de voar…
Sabia da necessidade de sentir,
mas mudava a metamorfose de viver.


Mariana Gouveia
Das coisas breves
Ph: Howard Schatz

Das palavras das cartas · Das rotinas · Divã · Mariana Gouveia

Das cartas que nunca enviei.

Escrevi para ela enquanto as roupas quaravam no jirau feito de angico. Fazia parte de um ritual antigo que minha mãe adorava repetir. Os lençóis de linho a branquear ao sol.

O cheiro do sabão de dicuada, ali, a clarear as roupas e o sol e o vento…

Era isso… enquanto eu escrevia o vento trazia na memória o balanço das folhas, da rede, do cabelo que caía na boca e a voz da minha mãe a ecoar lições.

Contei sobre o tempo de ontem e que havia um bando de pássaros a desenhar poemas no céu.

Amanhã chove – a moça do tempo confirmou com mapas e cores densas – a apontar o dedo para a parte que no mapa, é meu estado.

Brotou flores novas no quintal. Rosa, rosinhas, cravos e as trapoeirabas azuis.

Quando os pássaros cantam eu corro para o quintal a espiar o céu. Eles revoam no sentido contrário e lembro de coisas que te falei. Devo dizer que ganhei o sentido de asa. Os cães quase voam de um sofá para o outro. O pássaro de todo dia aparece e eu escolho palavras ao acaso para desenhar minhas emoções.

Apago, escrevo e torno a apagar. Algumas palavras ganham formas diferentes e sentido igual. Risco e coloco o ponto final
Os pássaros voltam novamente e mais uma vez recomeço a escrever.
Coloco a data, a cidade e por fim, termino uma carta que nunca vou enviar.

Mariana Gouveia
©️ Anne Kramer
Das palavras das cartas