Diário das quatro estações · do verbo voar · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

Da anatomia dos voos

Ph: Smooth

Fiz um tutorial sobre perdas seguindo à risca cada etapa. Mas na hora h, quando o vento lateral veio com notícias de ida sem volta, esqueci as regras. Abri os braços e pensei ser janela aberta para o mar; apaguei o rito do nascer. As asas perderam o sentido de voos e tudo ficou cinza. E se eu não for poesia amanhã? E se a metamorfose não fizer jus ao instante? E se a morte rasgar a pele e camuflar a vida com outas formas desconhecidas? Vou ter que esperar amanhecer para saber outro dia. Existem muitas maneiras de ir embora, apenas uma de ficar.

No fim do dia serei apenas uma sombra na parede.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
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Livros · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

O gato com verbo no olhar

Não tinha uma única pessoa da redondeza que não tivesse ouvido falar do bichano, que tinha nomes vários e moradias muitas.
O gato era diferenciado e se eu gostasse de felinos, o teria levado para minha casa. Todo preto, com manchas brancas pelo corpo e patas, como se tivesse sido pintado com poás
Exuberante no andar. O seu miado era um canto agradável que ressoava pelo ar, provocando os cães, ao passear por cima dos muros, espiando a vida alheia com a indiferença típica de um bichano boa vida.
Eu fui uma das únicas a reparar que o felino tinha verbos no olhar. Tentei decifrar quais, mas comigo ele não falava, apenas com seus humanos de estimação, que me contrataram para bordá-lo.
D. Dalvinha, a síndica, foi a primeira. Quis uma almofada com a imagem do bichinho que ela chamava de Sebastian – e como ninguém podia saber que naquele apartamento havia um gato, ela murmurava o nome dele pelos cantos da casa, atraindo a atenção do gatuno que era astuto ao passar pela janela.

Sebastian não miava e não se enroscava nas pernas da mulher que o tratava feito um rei, mimando-o com guloseimas especiais. Ele se sentava no canto do sofá e o único movimento que fazia era o do rabo. O olhar era de um sedutor a se declarar… e ela se derretia por ele. Pediu que eu o retratasse em todos os detalhes, de cores e linhas.

Quando entreguei o trabalho, exigiu o gráfico. Grunhiu como uma felina. Não queria que eu voltasse a bordar o seu Gato, que ela acreditava ser apenas dela. Mal sabia que ao passar pela janela, ele seguia para o apartamento da frente, onde era conhecido por Tonico.
O vizinho de porta era um senhor elegante e solitário. Diziam pelos corredores do prédio que colecionava gatos – essa era apenas uma das lendas daquele velho edifício – um dos mais antigos do bairro.
O gato caminhava com cuidado ao passar em meio aos porta-retratos de Joaquim, que me convidou para bordar o bichano. Ele o queria retratado com uma mistura de cores… Tonico não se demorava por ali. A casa era limpa demais. Não havia almofadas para um cochilo e nem bolinhas de lã para enroscar as unhas afiadas. O homem tinha o estranho hábito de se sentar perto de seus porta-retratos, de frente para a janela, para espiar as próprias lembranças, que era tudo que lhe restava . Entediado, Tonico miava e partia para outro apartamento… onde encontrava água, comida e brinquedos com fios e cordas, além de areia sempre limpa. Gostava de lá…

Lambia as patas após as refeições e amaciava o travesseiro de Bia, que passava as tardes fora. Nos conhecemos no elevador. A minha bolsa caiu e ela reconheceu Mimi – o seu Gato, que esperava por ela atrás da porta e a recebia como um cão. Esfregava a cabeça em sua perna, esticando-se por inteiro, à espera de um abraço acolhedor. Dava para ouvir o ronronar do bichano que parecia ter a forma dos braços dela. Ao ver o gráfico em minha bolsa disse:
– Quero esse! Mas entre as patas, coloque uma linha natural. Gosto das unhas dele e da maneira como elas saltam para fora.
Foi o que me deu mais trabalho. Ela me fez mudar de cores várias e várias vezes e eu quase desisti da peça. Mas entreguei o trabalho e reparei que ela pronunciava o nome dele como quem toma um sorvete de flocos. Eu demorei para perceber que Sebastian, Mimi e Tonico eram o mesmo gato. E comecei a imaginar quantos mais seriam.
Ele era hábil em passear passear por muros, entrar e sair de apartamentos. Às vezes, percebia que ele me acompanhava ao longo da rua e quando eu dobrava a esquina, sentava-se e por lá ficava.
Nunca me seguiu até em casa, mas se o tivesse feito, teria que escolher um nome para ele . Talvez o chamasse de Maneco, em homenagem ao poeta.

Mariana Gouveia
O ano do Gato – Scenarium 8 – 2022
Scenarium Livros Artesanais

Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Delírios

Ph: Liat Aharoni


eu nunca antes tive delírios
– mas dizem que tudo sempre aponta para um possível começo.
Seria esse o meu?…

 

 

Lunna Guedes – Lua de Papel
*imagem: Liat Aharoni

 
Livros · Mariana Gouveia · O lado de dentro · Scenarium Livros Artesanais

Um livro mudou sua vida?

No início de 2015 fui convidada pela Scenarium para a publicação de um livro de poesias. Até então, meus textos/poemas e prosas eram escritos apenas em cadernos, e aqui no blog.

O convite de Lunna Guedes mudou minha vida – a partir daquele momento eu era uma escritora. Me atrevia a me ver dentro da palavra escritora. E vi meu sonho realizado.

O lado de dentro costurado em fitas de cetim, trazia minhas poesias e minha alma. Quando recebi o primeiro exemplar chorei. É o último livro na foto. Tem a capa borrada pelas minhas lágrimas de alegria por poder expressar minha poesia em um livro com cheiro de amor.

Depois da primeira edição, o livro ganhou mais duas capas nos anos seguintes. Além dele tenho mais 5 livros publicados, mas O lado de dentro foi a mudança dessa história.

Para saber mais sobre meus livros e a forma de ter um para chamar de seu clica aqui.

Mariana Gouveia
O lado de dentro,
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De todas as estações · Diário das quatro estações · dos diários · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

Tenho uma solidão para esse nome das coisas.

Tenho uma solidão para esse nome das coisas.

Virei perfume dentro das suas palavras. Vi uma moça da aldeia com borboletas no corpo. Era feito de sol essa saudade. O jardim endoidou de vez quando percebi o vazio por detrás da janela. O calor assolou o cerrado e a meteorologia colocam vermelho puro no mapa daqui. O lugar de mim esvazia o peito e estende a mão, não sou mais além de sombra onde a asa não me abriga.

Escrevo cartas antecipando primaveras… a impressão do dia seguinte é quase logo ali, no outro mês, já repetido exaustivamente no sistema. O desejo tão líquido quanto a sede – falta água – e a fome de tocar sua mão, tão marítima dentro desse oceano seco de rio.

A ventania consome essa vontade de pouso, onde meu quintal respira maresia nos cantos do muro.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar os quintais

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6 on 6 · Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – resquícios

Guardo numa gaveta de velhos objectos as tuas palavras, 
até que o bolor do futuro as apague
 – para que só eu saiba o que nunca me disseste.
Nuno Júdice

Leonor,

o ano já rompeu seus dias por aqui e só hoje lembrei de que não te escrevo há algum tempo. A moça que me escuta uma vez por mês diria que isso é bom e mandou que eu retirasse seus resquícios por aqui. Mas como se faz isso, Leonor? Pode me dizer como? Ainda tenho a moldura com sua foto antiga. Confesso que já coloquei ela na lata do lixo duas vezes e corri para recuperar antes que os garis levassem.

As louças que você trouxe e deixou aqui, com a promessa de que buscaria. Até a faca, Leonor? Lembra da faca que você comprou para cortar peixe? E as borboletas que enfeitavam a mesa e os pratos… não posso simplesmente jogar fora, como se não tivessem qualquer valor. E se um dia você aparecer e querer de volta?

De seu também ficou o vidro de perfume vazio – que ainda tem seu cheiro mesmo depois de tanto tempo – e o saquinho com ervas que eu mesma bordei. Era para você ter levado. Não sei se você deixou de propósito, com o intuito de deixar lembranças suas pelo meu lugar.

E as conchas, Leonor? Era para trazer o mar até o meu quintal… ficaram em cima da estante, com suas cores vibrantes e a estrela vermelha – tão nossa – se sobressai. Vai me dizer que não são resquícios seus? E nem falei das cartas emboladas no baú e dos envelopes abertos, com sua caligrafia.

Sabe, Leonor, de todas as lembranças as das manhãs são as mais recorrentes. O bule decorado com las farfallas ficou intacto na mesa. nunca mais coloquei o chá nele… e o quer café, flor? – eu ainda pergunto toda manhã, nas conversas com os cães.

Mas aqui, só ficou a xícara vazia dentro da memória. O pires exposto, sendo pouso para a colherzinha assim como suas mãos foram pouso para as minhas. São tantas coisas, Leonor, que não consigo enumerar assim, de súbito, numa carta – a primeira do ano. Será que ainda te escreverei mais vezes? Vou deixar que o tempo cuide disso e que suas lembranças comecem a ser aqui, para mim, apenas resquícios.

Beijo meu,
Mariana Gouveia
Projeto fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna Guedes Suzana MartinsRoseli PedrosoObdúlio Nunes Ortega

6 on 6 · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Last Six Months

Confesso que foi difícil escolher apenas seis fotos representado os últimos seis meses. Foram tantos momentos registrados que dariam um livro, mas segue abaixo algumas que me marcaram. Espero que gostem!

Julho
É lua cheia! O calendário avisa que há dias em que é melhor ser apenas plateia. Hora de desvendar afetos. A rota lunar sempre é uma opção de fuga. De vez em quando eu atiro facas em mim mesma.  As tremuras das mãos são quase um ocaso para o bordado que não faz mais. Era lindo o abraço do silêncio. 

Agosto
A vida esconde o pólen da noite quando o vento é só essa música que a cortina acompanha. Lembrei-me das folhas escondidas em cadernos.
A rua de cima tem garoa enquanto as folhas secas protegem a vida miúda.
Conta o calendário que é inverno ainda e meu diário se perde na contagem das estações.
Tem noites em que todas as estações mudam de rumo em equinócios não relatados.

Setembro
Houve uma noite em que o dia brilhou. Das sementes que plantei, nasceram sete. Cavei cada buraco a procura do sol para girar. Nem sempre o dia tem essa precisão noturna.
O dia da dor parece parafuso repetindo ciclos.
Ensaiei a despedida vinte vezes, contadas no cronômetro do celular.
Rabisquei no caderno os rascunhos das cartas… Queria deixar um testamento sobre as relíquias que nunca cataloguei…
– “Deixo para você as palavras escritas nos rascunhos do email” – depois, fui lá e apaguei porque senti a sua dor de viver sem mim.
Será que eu deveria falar das flores?

Outubro
Quando chegou a hora do descanso,
eu já era pouso e fui colo.
Quando chegou a hora do aconchego,
eu já era carinho e fui amor.
Quando já era hora de voar, eu fui céu e minha mão, nuvem

Novembro
Nas manhãs regadas a asas
o céu vestiu-se do azul mais bonito.
Às nuvens brincavam de pinturas – das mais variadas formas – e a borboleta veio ser encanto enquanto eu falava de cerejeiras para alguém.
O quintal guarda sua magia para o dia continuar sendo no sopro de asas dentro de mim.

Dezembro
Entendi a densidade da chuva. As micros flores parecem diamantes expostos.
A cortina dança ao som do vento e a vida tece significado das coisas.
O pássaro de todo dia busca abrigo na minha mão.
As manhãs de sábados improvisam instantes de ternura.
O ninho foi preenchido com vida outra vez.
Faço orações nas gotas da chuva para agradecer.


Mariana Gouveia
Projeto fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam junto comigo desse projeto:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Suzana Martins – Roseli Pedroso

Diário das quatro estações · dos diários · Livros · Missivas de Abril · Scenarium Livros Artesanais

Era uma vez, assim

Tem a flor estampada no vestido, o mês e seus dias de chuva atrapalham a visão da Lua. A rua de cima tem uma canção no repeat. Escrevo cartas pela metade. Folhas inteiras de frases inacabadas. A sensação de falta de ar no limite. O vento arrisca pela cortina e a solidão é esse emaranhado de ciclos repetitivos. A rua de cima tem dias de vazios nas árvores — cabia a brancura em qualquer canto — e as nuvens em espiral causando a plenitude do céu. Era uma vez, assim, a vontade de ser. Tem dia em que as histórias ficam sem o final.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
Scenarium Livros Artesanais

Das palavras das cartas · Efeito borboleta · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

Aos cuidados do meio-dia…

Ph: Ziqian Liu

Helena,

Eu deveria te escrever com meu vestido de poás laranja e assim, atravessar esse oceano e te contar coisas do meu quintal. O sol do meio-dia se impõe e hoje, parece mais quente que os dias normais. O vestido dá lugar para o conjunto de short e camiseta e nem vou te falar sobre poás.

Ou talvez vá… a borboleta laranja que voa aqui, parece ter poás nas asas – claro que isso é imaginação minha – e veio essa semana toda. Lembrei-me de um poema de Graça Carpes: “Tenho o tempo das borboletas. Uma semana, é uma vida” e eu fico pensando se é a mesma que veio todos esses dias ou se a semana dela já passou.

Não sei se te contei sobre o vento morno daqui e se na densidade das horas a vida é igual para você. O calendário parece acelerado. Foi ainda a pouco que retirei a folhinha de ontem e o hoje já é quase amanhã. Será que passaremos a ter o tempo das borboletas? Amanhã já é dezembro, Helena! E daqui a pouco, já estarei escrevendo para o novo ano.

O dia ganha contornos laranjas no meu quintal e leio sobre pássaros em poemas que não escrevi enquanto meu pássaro de todo dia vagueia por aqui. Ele se coça e uma peninha se solta. Isso me dá uma ternura imensa. Lembro de você e do seu sorriso quando te conto histórias sobre ele.

Sabe, Helena, os meninos da rua de cima já correm atrás de pipas. Os cães latem enquanto um dos meninos tenta roubar a pipa do outro. Já fiz muitas pipas para eles em outros tempos. Até hoje, há um esqueleto de uma que fiz presa no fio de alta tensão.

As sombras já contornam o pé de ipê e já invade minha janela. Alguns raios do sol atravessam as telhas e formam uma luz difusa na minha cozinha. A vida tem essas coisas mínimas no dia da gente. Um voo de borboleta, um pouso de pássaro, uma nuvem em forma de coração, uma folha que cai e às vezes, nem reparamos nos instantes de ternura. Você tem reparado nas ternuras daí, Helena?

Um beijo meu,

Mariana Gouveia
Projeto Blogvember – Scenarium Livros Artesanais
Participam juntos comigo: Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins

Das palavras das cartas · infinitamente · Lunna Guedes · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

Queria ver se chegava por extenso, ao contrário

força e pulsação e graça,
isto é: a luz, de dentro,
despedaçando tudo,
e concentrada:
estrela.
Herberto Hélder

Lunna, bambina mia, amore… 

Não importa qual nome te chamo ou em qual letra me declaro. Cursiva? News time? De lápis? Caneta?Eu te pinto com palavras. Em cores minhas-tuas-nossas. Muitas vezes, começa no azul do meu céu, com minhas manhãs calorentas… Em outras, no ocre das folhas que encontra em seu caminho, no verde da árvore – já minha, de estimação – que você me entrega na visão de sua janela.

Eu te escrevo amor, bambina e te escrevo por extenso, gigante dentro de mim. Te escrevo lunar – Lunna tu – em canções onde repito e repito seu nome.
Te escrevo força. Da pessoa que se mostra no abraço.  Na tempestade que se anuncia no meu céu, nos trovões que transpassa a alma e o cuore.

Te escrevo pulsação. Do cuore. E no pulsar das palavras te descubro missiva. Dessa de envelope único, de entrega imensa quando ama. De palavras que atravessam tempos e se esparramam em cadernos.

E assim, te leio. Única! Absoluta. 
Tão menina, às vezes, tão mulher em tantas. 

Nas minhas manhãs, a sua risada é sinfonia que ouço ao som do vento no meu quintal. Mas às vezes, é apenas o aconchego de uma quietude quando te sei aí, dentro dos seus silêncios.  Esse dia eu nem preciso marcar na folhinha. Ele é tão seu e por isso, minhas palavras te abraçam nesse ritual nosso.
Você é o poema que me alcança, você é a ligação de pessoas tão lindas para mim e io te voglio bene!

Auguri!
Bacio,
Mariana Gouveia
Projeto Blogvember – Scenarium Livros Artesanais
Participam juntos comigo: Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso Suzana Martins