De todas as estações · Mariana Gouveia

Equinócio de Outono

Embora começasse outra estação, e como os livros diziam que começavam o equinócio do outono, para nós ainda era a estação das águas, porque a chuva persistia nos dias e a água tomava conta de todo lugar.

As gotas pareciam brincar com a natureza e a enchente sempre acontecia nas margens onde o rio beijava as matas.

Sabíamos que a natureza cumpria seu papel de estiochuvaestio…

Às vezes, chovia a noite toda e o barulho das gotas a cair no telhado era um convite para o sonho… Em outros dias, a chuva durava dias inteiros e ficávamos presos dentro de casa…

O cheiro do chá a invadir os aposentos… os irmãos a inventar brincadeiras e o céu a derramar bênçãos dentro da presença da estação.

Outono só nos brindaria em instantes nos meses seguintes e só aí, o vento nos beijariam em sopros com a amenidade do tempo

Mariana Gouveia

azul em qualquer céu. · Das palavras das cartas · Diário das quatro estações · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

e as ipomeias azuis beberam da água que caíam.

Hoje choveu de verdade aqui. Daquelas chuvas que duram o dia inteiro e as ipomeias azuis beberam da água que caíam. Fiquei a desenhar a cor dentro do seu nome enquanto as luzes sobre a cidade ofuscam entre os pingos das janelas embaçadas. O vento cruza o espaço da casa e as flores do mamão forra uma parte do quintal. Troco a solidão pela canção de Gadu. Ensaio mais uma vez as palavras da carta que escrevo. Apago várias vezes algumas frases que reedito, reescrevo e desenho corações na janela. A previsão do tempo assusta, já que o rio que corta a cidade avança próximo das casas ribeirinhas. O tempo lá fora não permite que eu veja a lua e a solidão grita dentro da noite.


Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
Scenarium Livros Artesanais
O livro está a venda aqui

Das rotinas · Mariana Gouveia

dos rituais da memória

O guarda chuvas não continha o equilíbrio do vento, quebrou na esquina de cima, antes mesmo que a chuva passasse.
A água escorria do céu feito afagos.
A solidão é mesmo feita de horas vazias.

Uma mulher me contou uma história do pai – vi a emoção dentro dos olhos dela –
O pai, sempre deixava para ela e os irmãos, um pouco da comida da marmita. Dava uma colher para cada, só porque eles gostavam.
O olho do pai brilhava vendo a comida ser compartilhada entre os filhos.
Dentro dos olhos dela o céu brilhava de azul e chovia.
A voz embargou na lembrança.
Tão perto, ali, a revelar memórias. Tão longe, ali, a viver dentro delas.

Não foi preciso abraçá-la… o gesto continha o abraço.

Mariana Gouveia
dos Rituais da memória

Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Mariana Gouveia

Te dou trovões como adereço

Bambina mia,

logo pela manhã eu vi as nuvens se formarem e a moça do tempo traçou todos os alertas para meu lugar. O sol era uma mistura entre a claridade de um dia que queria amanhecer e tentava atravessar as cortinas de chuva. Fotografei para te mostrar.

Logo depois, vieram os trovões como adereços de nossa conversa. Por pouco perdi o tempo deles, porque eu queria te mostrar o som oco que fazia o chão tremer a cada batida. Fiquei imaginando como as pessoas tem medo deles – a minha mãe tapava todos os espelhos da casa com lençóis brancos – enquanto desde pequena eu abria os braços para acolhê-los.

Então, a Mariana não sabe antecipar trovões?

Eu me apeguei primeiro no instante anterior da nossa conversa e só quando busquei a conexão com o cuore que consegui te mostrar os ecos deles no meu quintal. Foi quando para além dos muros a frase do tuo nonno reverberou aqui: sta arrivando! Fiquei tão íntima dele nesse momento, bambina! “Roubei” de tu o homem pelo qual já tenho carinho só de ler a palavra nonno. Eu o reverencio sempre para além das palavras, só pelos instantes que ele te deu. Isso me emociona.

Quando as nuvens engrossaram na palavra trovejar e o céu escureceu em plena manhã eu só consegui suspirar. Durante esses dias atrás eu perdi coisas de viver. Você sabe bem e juro que quase tomei banho na chuva, mas segui sua ordem de me cuidar e domei esse ato que me torna tão natureza. Gosto dos pingos batendo em meu corpo… dessa vez, foi só as mãos e as flores.

O pássaro de todo dia fazia festa no varal e o verde das folhas do ipê pareceram mais verdes ainda. O vento dançava enquanto eu ouvia os trovões e a canção que você me mostrou um dia – se minha mãe estivesse aqui, isso seria impossível – e esse pensamento traz um riso ao meu rosto.

Enquanto te escrevo e os estrondos ressoam em meu céu eu penso em você que nasceu tempestade e da única tempestade que vimos juntas da varanda do seu lugar. Aquele dia, bambina, eu guardei como adereço para minha alma e guardei também a frase que tu repetiu para mim ao som do vento: …trovões sonoros do lado de dentro! É o que escuto agora.

Amo tu imenso!
Grazie por tanto!

Mariana Gouveia

6 on 6 · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Last Six Months

Confesso que foi difícil escolher apenas seis fotos representado os últimos seis meses. Foram tantos momentos registrados que dariam um livro, mas segue abaixo algumas que me marcaram. Espero que gostem!

Julho
É lua cheia! O calendário avisa que há dias em que é melhor ser apenas plateia. Hora de desvendar afetos. A rota lunar sempre é uma opção de fuga. De vez em quando eu atiro facas em mim mesma.  As tremuras das mãos são quase um ocaso para o bordado que não faz mais. Era lindo o abraço do silêncio. 

Agosto
A vida esconde o pólen da noite quando o vento é só essa música que a cortina acompanha. Lembrei-me das folhas escondidas em cadernos.
A rua de cima tem garoa enquanto as folhas secas protegem a vida miúda.
Conta o calendário que é inverno ainda e meu diário se perde na contagem das estações.
Tem noites em que todas as estações mudam de rumo em equinócios não relatados.

Setembro
Houve uma noite em que o dia brilhou. Das sementes que plantei, nasceram sete. Cavei cada buraco a procura do sol para girar. Nem sempre o dia tem essa precisão noturna.
O dia da dor parece parafuso repetindo ciclos.
Ensaiei a despedida vinte vezes, contadas no cronômetro do celular.
Rabisquei no caderno os rascunhos das cartas… Queria deixar um testamento sobre as relíquias que nunca cataloguei…
– “Deixo para você as palavras escritas nos rascunhos do email” – depois, fui lá e apaguei porque senti a sua dor de viver sem mim.
Será que eu deveria falar das flores?

Outubro
Quando chegou a hora do descanso,
eu já era pouso e fui colo.
Quando chegou a hora do aconchego,
eu já era carinho e fui amor.
Quando já era hora de voar, eu fui céu e minha mão, nuvem

Novembro
Nas manhãs regadas a asas
o céu vestiu-se do azul mais bonito.
Às nuvens brincavam de pinturas – das mais variadas formas – e a borboleta veio ser encanto enquanto eu falava de cerejeiras para alguém.
O quintal guarda sua magia para o dia continuar sendo no sopro de asas dentro de mim.

Dezembro
Entendi a densidade da chuva. As micros flores parecem diamantes expostos.
A cortina dança ao som do vento e a vida tece significado das coisas.
O pássaro de todo dia busca abrigo na minha mão.
As manhãs de sábados improvisam instantes de ternura.
O ninho foi preenchido com vida outra vez.
Faço orações nas gotas da chuva para agradecer.


Mariana Gouveia
Projeto fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam junto comigo desse projeto:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Suzana Martins – Roseli Pedroso

Das palavras das cartas · Mariana Gouveia · O lado de dentro · Scenarium Livros Artesanais

Guardo-te na caixa de segredos como se joia fosse…

e espio-te com lupas microscópicas.

Bambina mia,

houve lua de sangue no meu céu nessa madrugada e eclipsou no meu quintal. E, claro que escrevi essa carta mentalmente madrugada adentro enquanto pensava nesse poema de O lado de dentro, que é o tema desse dia 8 de novembro.

Nossa! E de repente a gente se assusta! Já aconteceu novembro e os dias correm como se tivessem pressa. Esse novembro já teve de tudo aqui, bambina… já choveu, já esfriou, e o calor voltou novamente nessa terra do sol onde moro. E enquanto te escrevo o céu se veste de nuvens em tons dourados, anunciando mais um fim de tarde quente e seca por aqui.

Vasculho o quintal enquanto converso com você. Lembrei-me de como escrevi o poema O encontro entre o sol e escorpião. Havia chovido naquela noite e quando amanheceu a gota guardava a flor como se fosse joia. Era um outubro qualquer e o sol entrava em escorpião. Eu quis justificar o decanato, a astrologia e o eu lírico e ainda assim falar de amor. Foi tudo que senti quando vi a gota, querendo guardar dentro de si, a flor.

Depois que o sol nasceu naquele dia, bambina, a flor sorveu a gota como se quisesse guardar ela em uma caixa de segredos e só ela sabia o sentido pleno disso. O poema nasceu ali, depois… ganhou vida em livros que você costurou…

E hoje, renasce em uma frase que te absorveu. É assim que um poema se espalha. Entre generosidade de pessoas e acolhida de quem lê. E quando alguém lê, em qualquer momento do dia o poema ganha a forma de amor e vivifica o instante em que ele foi criado.

Grazie mille por isso!
Amo tu imenso ❤
Mariana Gouveia
Projeto Blogvember – Scenarium Livros Artesanais
Participam juntos comigo: Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins

Marítima · Mariana Gouveia

Sashimi

era uma vez, o tempo
esse oco de horas medidas em segundos

depois, houve o vento,
ecoando dados em corações que doem
o tic tac do tempo que não veio

e a ideia de que o mar
corria para o rio

esse oceano seco
de terra exposta
de mesa posta

a comida fresca
a alma perdida

eu, o peixe doce
para o seu mar salgado
sirva-se
– me –

Mariana Gouveia
Ph: Tumblr

Das rotinas · Mariana Gouveia

Conheci uma menina que andava descalça,

e possuía sapatos dourados.

Em uma das mãos o rio desaguava.
Levava a correnteza no sentido dos dedos,
e fazia o vento desmaiar nas margens
onde olho nenhum conseguia alcançar.

Na outra, possuía o dom do deserto
– Onde oásis era miragem mesmo –
e a flor que brotava desenhava
espinhos nos cabelos dela.

Cabia dentro do riso do dia
e nas noites de insônia colecionava a saudade
subversiva de amar.
Cantava canções de mar…

Declarava poesia de rio
e repentinamente desavisava o redemoinho de vento.
Criava casulos para se renovar.
Era mão para pouso,
ao mesmo tempo que amava a liberdade de voar…
Sabia da necessidade de sentir,
mas mudava a metamorfose de viver.


Mariana Gouveia
Das coisas breves
Ph: Howard Schatz

Livros · Marítima · Mariana Gouveia · O lado de dentro · Scenarium Livros Artesanais

Beda – Oceânica

Ela, de terra firme
conservadora
Eu, de devaneios
lunática, aérea
Conta-me coisas de oceano.
Eu, recebo coisas do mar e mergulho entre corais, estrelas e ouço as ondas que vieram pelo ar, em conchas que traduzem para mim, a voz do Índico.
Ali, no meu quintal, o mar bradou silêncio. Calou maresia. Sufocou grito.
Lá no céu dela, a vida passeia no azul em asas.
Eu, tão lá e ela tão aqui.
Eu tão dentro dela e um oceano imenso de possibilidades.

Ela, mistura de ansiedade, contraditória.
Eu, infinitos delírios, às vezes.


Mariana Gouveia
Agosto é o mês de mar e de Beda.
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura – 
Suzana Martins – Roseli Pedroso
O lado de dentro
Scenarium Livros artesanais
*imagem: Quoc Dinh

Das rotinas

Escolho-me

Aconteceu em uma noite que seu riso ecoou na memória. Eu era quase nada diante do seu riso ecoando… alguém narrava um gol distante, para além dos muros e de tudo que eu sentia. Pensei em te dar um anel… às vezes, as alianças são apenas simbólicas.

Mas era noite e outra estação dentro do tempo. Um riso largo na esquina, uma pergunta que não sei responder e a sublimidade das coisas em uma gota. Ou mais… seria porque chorei ou a joia se refletiu na imagem que pensei em te ver.

Olho para o tempo, o muro, o vento, o regador escolhendo afagos nas pétalas e eu escolho-me para apenas chover em você.

Mariana Gouveia