Das rotinas

Escolho-me

Aconteceu em uma noite que seu riso ecoou na memória. Eu era quase nada diante do seu riso ecoando… alguém narrava um gol distante, para além dos muros e de tudo que eu sentia. Pensei em te dar um anel… às vezes, as alianças são apenas simbólicas.

Mas era noite e outra estação dentro do tempo. Um riso largo na esquina, uma pergunta que não sei responder e a sublimidade das coisas em uma gota. Ou mais… seria porque chorei ou a joia se refletiu na imagem que pensei em te ver.

Olho para o tempo, o muro, o vento, o regador escolhendo afagos nas pétalas e eu escolho-me para apenas chover em você.

Mariana Gouveia

Marítima

doida de pedra

Guardou a mão para o vento da tarde. A carícia rondava a alma, a pele.
O elemento água me pertencia com jeito de mar. Naufragou nas esquinas todas. Doida de pedra mergulhou em um rio rasante. Engoliu a mudança das marés. Cavou com a própria mão a areia e sentiu-a dentro da pele, couro rasgando sendo tocado. Maresia a saber na boca e o eco das ondas a bater no muro. O rio é esse abismo de mar e o peixe a voar para além das muralhas… as conchas contando histórias dos búzios que vieram pelo correio e trouxe o cheiro de mar e nunca mais deixou de ser marítima. A anatomia na pele de vida marinha. Quase ser úmida de tanto amar. Soubesse nadar, voaria.

Mariana Gouveia

Mariana Gouveia

Suposição

Quando mergulhei e não sabia
Eu já era louca de mar
Marítima – e mesmo sendo fonte de rio –
salguei com meus lábios o corpo que desenhava na mente

Tracei o rosto dela em delicados toques enquanto
olhava o retrato

Quando mergulhei e não sabia nadar
eu já era parte do oceano dela e já não podia fazer mais nada a não ser
amá-la

Mariana Gouveia
Ph: Erikmadigan Heck

InspirAção

Sabes…

Sabes...

Estremeces-me brutalmente-

és o único diamante que riscou a minha pele

 

Frederico Mira George

Mariana Gouveia

O pólen sendo leveza…

Podei as plantas do jardim e molhei as flores enquanto canto a minha ancestralidade de água.
A seiva absorve a singeleza do rio, e a sudoeste o vento aponta para o rumo do sol.
A lua, em sua fase minguante caminha lentamente, enquanto delírios acontece dentro da cor.
O pólen sendo leveza na calma dos gestos.

Mariana Gouveia
Ser de flor

Mariana Gouveia

Etapas

185. Etapas

De manhã eu te procuro
te misturo na rotina
que aproxima meu futuro
com a hora de te amar…

Na mansidão da tarde
a sede arde
é do beijo que estremece
o desejo cresce
É hora de te amar…

E na sofreguidão da noite
a fome é tanta
e pensar não adianta
quero mesmo te tocar

e na imensidão da madrugada
eu sonhando acordada
nas etapas de te amar…

Mariana Gouveia

Mariana Gouveia

Intensamente

Intensamente

Desenha em mim, suavemente,

as cores do teu desejo.
Entre minhas mãos ardem
o toque suave de tua pele…

Em mim a dualidade do sentir…
A suavidade do tato
e a ventania de texturas que teu sopro me causa.
Intensamente.

É impossível que eu saiba traduzir em palavras a magia que me envolve.
Preciso traduzir pra que você entenda.
Preciso rasgar a pele e a carne,

expor a minha alma, que vaga

em busca da tua.

Mariana Gouveia

Diário das quatro estações · Mariana Gouveia

E o mundo é micro…

Querida Graça,


A caixa de costura ganhou linhas novas. Jogo água nas plantas e busco o botão novo da flor. Todo objeto aqui tem jeito de gente. A tesoura, uma bailarina a ensaiar passos no lençol novo. Alguém confundiu semente com flor e a solidão das coisas apareceu no quintal enquanto garoava. Tudo era a estação errada a invadir o tempo. As paredes inventam nomes rabiscados contando histórias. O micromundo nasce onde ainda há pouco era chuva. Reconheço a figura nova no jardim. Tinha jeito de novidade junto do meu riso e penso que em algum lugar as lágrimas devem molhar as flores. Reconheço o sabor a sal na boca. Toco a brancura da pétala. As flores merecem o afago. Em vez de mudanças, as lembranças cabem dentro das coisas. O Universo é feito de coisas miúdas. O tempo muda e a moça do tempo fala dos próximos dias e eu fico a esperar que mais uma vez ela erre outra vez mais uma vez.

Desvios para atravessar quintais
Diário das quatro estações
Mariana Gouveia
Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Obdulio Ortega – Roseli Pedroso

Diário das quatro estações · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

dos dias de chuva…

Listei os livros que li. E acabei perdida dentro das histórias de que me lembrava. Escolhi nova tatuagem e a frase do dia para a rotina das horas. O vento é esse menino travesso que traz a chuva pelas mãos. A árvore maior sem folhas, o galho sendo motivo de asas. As palavras escritas em um idioma noturno. A história da flor contada de mil maneiras diferentes. Era uma vez… o tempo que acabou. Rio abaixo, todo vento é torto. As flores traduzem a expressão da semente. O coração é essa ocupação constante dos sem ninguém. A lista. As regras. A colheita… perderam-se. As fragilidades secretas traduzem a cor que o jardim inventa.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar os quintais
Scenarium Livros Artesanais

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