O pólen sendo leveza…

Podei as plantas do jardim e molhei as flores enquanto canto a minha ancestralidade de água.
A seiva absorve a singeleza do rio, e a sudoeste o vento aponta para o rumo do sol.
A lua, em sua fase minguante caminha lentamente, enquanto delírios acontece dentro da cor.
O pólen sendo leveza na calma dos gestos.

Mariana Gouveia
Ser de flor

Etapas

185. Etapas

De manhã eu te procuro
te misturo na rotina
que aproxima meu futuro
com a hora de te amar…

Na mansidão da tarde
a sede arde
é do beijo que estremece
o desejo cresce
É hora de te amar…

E na sofreguidão da noite
a fome é tanta
e pensar não adianta
quero mesmo te tocar

e na imensidão da madrugada
eu sonhando acordada
nas etapas de te amar…

Mariana Gouveia

Intensamente

Intensamente

Desenha em mim, suavemente,

as cores do teu desejo.
Entre minhas mãos ardem
o toque suave de tua pele…

Em mim a dualidade do sentir…
A suavidade do tato
e a ventania de texturas que teu sopro me causa.
Intensamente.

É impossível que eu saiba traduzir em palavras a magia que me envolve.
Preciso traduzir pra que você entenda.
Preciso rasgar a pele e a carne,

expor a minha alma, que vaga

em busca da tua.

Mariana Gouveia

E o mundo é micro…

Querida Graça,


A caixa de costura ganhou linhas novas. Jogo água nas plantas e busco o botão novo da flor. Todo objeto aqui tem jeito de gente. A tesoura, uma bailarina a ensaiar passos no lençol novo. Alguém confundiu semente com flor e a solidão das coisas apareceu no quintal enquanto garoava. Tudo era a estação errada a invadir o tempo. As paredes inventam nomes rabiscados contando histórias. O micromundo nasce onde ainda há pouco era chuva. Reconheço a figura nova no jardim. Tinha jeito de novidade junto do meu riso e penso que em algum lugar as lágrimas devem molhar as flores. Reconheço o sabor a sal na boca. Toco a brancura da pétala. As flores merecem o afago. Em vez de mudanças, as lembranças cabem dentro das coisas. O Universo é feito de coisas miúdas. O tempo muda e a moça do tempo fala dos próximos dias e eu fico a esperar que mais uma vez ela erre outra vez mais uma vez.

Desvios para atravessar quintais
Diário das quatro estações
Mariana Gouveia
Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Obdulio Ortega – Roseli Pedroso

dos dias de chuva…

Listei os livros que li. E acabei perdida dentro das histórias de que me lembrava. Escolhi nova tatuagem e a frase do dia para a rotina das horas. O vento é esse menino travesso que traz a chuva pelas mãos. A árvore maior sem folhas, o galho sendo motivo de asas. As palavras escritas em um idioma noturno. A história da flor contada de mil maneiras diferentes. Era uma vez… o tempo que acabou. Rio abaixo, todo vento é torto. As flores traduzem a expressão da semente. O coração é essa ocupação constante dos sem ninguém. A lista. As regras. A colheita… perderam-se. As fragilidades secretas traduzem a cor que o jardim inventa.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar os quintais
Scenarium Livros Artesanais

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É só chamar (11)99241-5985

Das fragilidades secretas

— quando choveu revirou cada canto da casa. As gotas na chuva lembraram as goteiras
da infância. O cansaço abre a porta, faz o chá… verte líquidos. Na mesa da sala, os discos…
Os vinis antigos esparramados entre os poemas antigos, as cartas de tarô. Tudo antecede
a sorte e a vontade da escolha.
O caminho é logo ali, quando escurece, no canto do muro. O café frio na xícara e as cartas
que nunca enviei.
O aroma de bolo vem da casa vizinha — o vento atravessa as cortinas lilases — e traz de
novo as lembranças da infância.
O riso das histórias contadas. As frases dos livros lidos e o pai dizendo que tudo é poema
em uma noite em que as gotas molham as flores e os azuis que enganam os olhos de amor.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
Scenarium Plural Editora
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e os anéis da tua pele

e os anéis da tua pele

…contei o principio do teu nome
soletrei a tua língua de areia
e os anéis da tua pele

Os teus cabelos abrem o tempo
e lembram rotas da seda e dromedários
tendas, cortinas e o frio do deserto

Há barcos que repousaram no teu oásis ondulante
com mastros e velas soberbas à tua passagem
peixes que te reconhecem do outro lado do mar
como na enseada do teu ventre

Recuperas das viagens e das cidades prometidas
do teu corpo inscrito no cansaço, nas pedras de sal
dos teus olhos…

Tiago Patrício