6 on 6 · Das palavras das cartas · infinitamente · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Meus rituais

Migrou-se como os pássaros do lugar onde mora. Foi para a Lua.

Ana,

Talvez o meu ritual mais comum, feito aleatoriamente seja pensar em você, te descrever momentos do dia, como se fosse uma carta mesmo e olhar o céu e ver a lua. Juro que dependendo da fase fico buscando Marte em forma de estrela em cada canto do céu. Às vezes, encontro… em outras, a lua fica solitária, apenas sendo observada por mim.

Depois, meu olho procura pelos pássaros – você sabe como sou apaixonada por eles – e vez ou outra sou abençoada com novos voos e pousos por aqui. Lembra-se de quando me dizia que eu poderia voar se quisesse, bastava juntar as aves para me carregarem? Quase sou levada por eles, só de observá-los.

Você não conheceu o Chiquinho, Ana, mas ele é a parte do meu ritual diário nas manhãs que se desenham em meu quintal. Logo cedinho, antes mesmo que eu abra a porta, ele me chama com seus chilreios e se aconchega em minhas mãos, causando ciúmes entre os cães. Chiquinho é parte de rituais diários aqui. Seja no varal, em meio aos prendedores, ou mesmo no aconchego de minhas mãos.

Outro rito por aqui, Ana, são minhas flores… com a xícara em mãos e sorvendo o café converso com elas. Dou a água necessária, retiro as folhas mortas, as ervas daninhas e vibro com os botões novos que se abrem…

Sabe, Ana, antes meus rituais eram outros… antes, eu corria para a rua de cima e te acordava cantando… era a forma mais bonita de ver seu sorriso. Hoje, meus rituais mudaram e claro que as borboletas fazem parte deles. Antes de começar os afazeres, vistorio os nascimentos de algumas, a formação de casulo de outra e só daí, recomeço meu dia.

Eu poderia, Ana, ter várias maneiras de começar meu dia em rituais distintos… poderia falar do misticismo que faço, dos mantras e até mesmo sobre as canções que canto. Mas, te escrever, mesmo que mentalmente, é o primeiro e último rito de todos os dias. É a maneira com que lido com sua ausência e saudade.

Te amo infinitamente,
Mariana Gouveia
Projeto Blogvember – Scenarium Livros Artesanais
Participam juntos comigo: Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso Suzana Martins

6 on 6 · Das palavras das cartas · infinitamente · Mariana Gouveia

6 on 6 – MISS you

Em voz alta, ensaiei o teu nome:
a palavra partiu-se
Nem eco ínfimo neste quarto
quase oco de mobília

Quase um tempo de vida a dormir
a teu lado e o desapego é isto:
um eco ausente, uma ausência de nome
a repetir-se

saber que nunca mais: reduzida
a um canto desta cama larga,
o calor sufocante

Em vez: o meu pé esquerdo
cruzado em lado esquerdo
nesta cama

O teu nome num chão
nem de saudades

Ana Luísa Amaral

Leonor,

Muitas vezes eu quis mudar o calendário, ultrapassar as rotinas e te esquecer. Mas, todos os dias, nos rumores que a casa vazia faz – logo pela manhã – vem seu nome ecoando lembranças e saudades. Mentalmente, refaço os rituais e passos dos dias em que esteve aqui e dos dias em que se foi, deixando apenas a casa cheia de saudades.

Já te contei que mudei minha rota para não passar perto de onde seu olho se encantou pelas flores do ipê? E que mesmo não atravessando a alameda onde antes era um lixão, eu canto a canção que fala dessa saudade.

Devo confessar que já rasguei algumas cartas sem enviar e que rabisco seu nome em tudo que é lugar. E quando vejo as nuvens se enfeitando como se fossem bolas de algodão, eu recordo as manhãs que o céu do meu lugar te presenteou.

Para a gente, o olho buscava sempre a imagem que marcaria o momento – tão nosso – e se eu soubesse que você se afastaria de vez, não iria permitir tantas lembranças para memorizar agora. A gente sempre via coração em todo lugar e hoje, só vejo metade dele nas folhas, nas flores, no céu.

Como se até a natureza soubesse que sou essa metade insana dentro da saudade que sinto.

Acho que já me acostumei com sua ausência, Leonor… o que não me acostumei foi com essa saudade quando ouço as canções que falam de nós, dos poemas escritos como declarações de amor e com o vazio que ficou em mim.

Mariana Gouveia
Projeto fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam junto comigo desse projeto:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Suzana Martins Roseli Pedroso

6 on 6 · Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Espaços em branco…

No espaço branco entre o sentir e o não sentir.
O pensar e o não pensar.
O espaço branco entre o som e o silêncio. No espaço branco entre palavras desenraizadas e histórias abandonadas. O espaço alado da própria pele. O espaço entre os espaços em branco, todos os espaços que se desbravam por ele. Onde tudo existe como sussurro de um longínquo e imaginário passado de personagens, num fantástico e ilusório enredo.

Fátima

Leonor,

Assim que o avião subiu ao céu e deixou apenas um espaço branco em meio as nuvens eu já senti sua falta. O ir embora parecia tão distante… Os dias voaram e assim como você chegou em meio as brancas nuvens, da mesma maneira partiu. E não foram só as nuvens que se embranqueceram no azul do céu…

as cortinas já não traziam sua silhueta ao balançar nas minhas manhãs e eu ficava horas ali, a espreitar o vento que não exibia seu sorriso entre a penumbra da madrugada e a brancura suave das manhãs…

Sabe, Leonor, deixei em branco seu lugar à mesa com a xícara sem café e o livro que você esqueceu. Tive vários diálogos com as páginas em um idioma que não entendo e juro que fiz as mesmas perguntas desde então: quer café, flor? Mas não havia resposta e minha voz se esvazia em eco em uma cozinha e mesa tristes.

Também deixei em branco – sem dedicatória – o livro que era para ser seu, com poemas escritos para você. Esse vício antigo de escrever amores que eu sofro na sua ausência. Como pode ter esquecido tudo que prometeu? Como pôde simplesmente sumir no mundo como se aquela nuvem que engoliu o avião tivesse também te transportado para outro além?

Quando alguém me pergunta sobre você tento parecer que é natural o seu silêncio… Lembro apenas que você deixou em branco também a parede quando trocou sua fotografia pelos quadros de artesanatos que fiz e que os dias de falta são marcados pelas folhas da jiboia que você plantou. Cresceram tanto nesses mais de 4015 dias que você partiu e nunca mais voltou.

Leonor, deixei as folhas em branco no caderno sem escrever uma só palavra para você. Já rasguei tantas que escrevi, outras tantas eu apenas embolei e deixei no baú, com a data e seu nome na introdução da carta. Logo eu, que gostava tanto das folhas do caderno em branco para principiar histórias não consigo nem escrever nelas hoje a palavra saudade.

Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
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Lunna Guedes – Obdúlio Nunes OrtegaSuzana Martins

6 on 6 · Livros · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Natureza na urbe.

Quando ando pelas ruas da minha cidade, ou até mesmo dentro dos muros do meu quintal, percebo a diferença que já é tão notória por aqui. Cada vez mais percebo a natureza “invadindo” os espaços da cidade, já que nós roubamos o espaço dela.

O que aos meus olhos parecia tão rural, hoje atravessa as avenidas, invade os canteiros e se tornou tão presente nas ruas que é como se estivessem sempre ali.

Os ipês, de variadas cores, que antes eu só via no cerrado, hoje compete com edifícios e a urbanidade toda. E embora grande parte deles tenham sido retirados em nome de uma “revitalização” em nome da Copa de 2014 – Sim, AINDA temos obras paradas em nome da Copa que aconteceu aqui – alguns ainda encantam com suas floradas.

O jacarandá do cerrado enfeita a paisagem de uma grande avenida e além dele, várias outras espécies do cerrado e do Pantanal transforma a cidade. É a natureza buscando abrigo na cidade como forma de proteção? Ou é apenas o reflexo da mão do homem trazendo a natureza para mais perto dele? Não é a função desse post discutir o meio ambiente e suas relações com a ação do homem. Posso até fazer isso como um grito de alerta, já que hoje seria votada, pela Assembleia Estadual de Mato Grosso – foi adiada para a semana que vem – o Projeto de Lei 561, que abre brechas para obras de infraestrutura que podem impactar o bioma, sua biodiversidade e as comunidades que nele habitam. A tramitação acelerada do Projeto de Lei não respeitou as regras do regimento, havendo pouca transparência no processo, por exemplo, reuniões a portas fechadas e apenas, com o setor produtivo. Se aprovado, o impacto será devastador para o Pantanal.

Mas, confesso que já me assusto ao andar nas imediações de um parque público, dentro de um bairro de condomínios de luxo. Os animais que antes eu só observava na natureza, como capivaras, pássaros silvestres, jacarés e outros animais estão cada vez mais perto de nós… de nossas casas e longe da natureza, além de estarem correndo risco de vida. Ou de morte. Nunca me dei bem com essa frase.

Na semana passada me deparei com um barulho no poste de energia elétrica, bem em frente minha casa com esse pica-pau que tentava furar sem sucesso o ferro que segura a caixa do relógio. Lembrei-me do pica pau do desenho e o que foi mais estranho, é que para ele, parecia normal a humana aqui, com sua câmera a incomodá-lo, procurando uma pose melhor.

E hoje, descobri que tenho novos vizinhos, no mesmo poste em que o pica-pau estava dias atrás. Um casal de joão de barro construiu sua casinha, não lá no galho da paineira, como diz a canção antiga que meu pai ama e sim, logo ali, ao alcance dos olhos. Prefiro acreditar que vieram para perto de mim, ou que sou eu quem atraio essas coisas da natureza. Me assusta o domínio do homem sobre ela. Me assusta a utilização e a transformação dessa natureza. Enquanto o homem vive uma busca incessante de domínio sobre todos os espaços, a natureza luta diariamente para continuar tendo aquilo que lhe sobrou. Mesmo que seja dentro da urbanidade que lhe cabe.

Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
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Lunna GuedesObdúlio Nunes OrtegaRoseli PedrosoSuzana Martins

6 on 6 · Mariana Gouveia

6 on 6 – 3×4

Exato
De fato,
o corpo briga,
a vontade chega.
Retrato,
de 3×4
na semana inteira.


Quando revirei o baú de retratos as carteirinhas com os retratos 3×4 feitos para os documentos trouxe para o momento as memórias antigas. Junto delas, os monóculos que trazem lembranças de um tempo que não voltam mais.

Desde a morte de meu avô paterno minha mãe vivia sempre de luto. As fotos – tão poucas – que restam dela, não difere tanto uma da outra. Mesmo quando precisava de fotos para algum documento, lá estava ela e seu vestido preto. Ela só veio tirar o luto um mês antes de sua morte. Foi quando vestiu o vestido florido que ela mesmo fez.

Algumas fotos arrancam risos por aqui e muitas vezes me pergunto quais os sonhos que povoava a cabeça daquela menina-mulher? A foto acima era para o crachá da emissora de rádio e naquele tempo eu só queria usar o microfone para falar de poesia e canções.

Com o passar do tempo os cabelos foram modificando e os sonhos também. Mas a arte sempre presente de alguma maneira e as borboletas também.

O baú, além de fotos antigas, guarda também momentos. O filho tão menino ainda, na foto que o colocava como cidadão do mundo no primeiro documento.

Para tão logo depois – como o tempo passa rápido dentro dos dias – ser senhor de si e sair à procura de seu lugar.

As fotos desbotadas mostram os dias dentro de nossas vidas. Os monóculos guardam memórias. O casamento de meus pais. Eu, a segunda na foto, em cima de uma cadeira. A mãe e o olho de luto nesse dia em que a vida se perdeu. O baú hoje, trouxe apenas saudades.

Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6 – Scenarium Livros Artesanais
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Obdúlio Nunes OrtegaRoseli PedrosoLunna Guedes

6 on 6 · Mariana Gouveia

6 on 6 – Crepúsculo

Não contei as horas do dia
porque imaginei que os poemas nasciam no ocaso
no poente
onde o crepúsculo me trazia
sua voz mil vezes ou mais
entre o gradiente das cores
e a canção que eu ouvia.
Mariana Gouveia

Aumente o som

O crepúsculo acontecia sempre dentro de mim antes do sol adormecer lá fora. Eu ficava horas a esperar por ele e em muitos momentos eu dancei com as nuances de cores no céu. Você pode estranhar o fato de sempre eu falar de dança, mas sou movida a música e de alguma maneira, meu corpo sempre responde a canção.

Quando ele acontece é a hora que a minha cidade fica mais bonita, feito moça se aprontando para a festa. As nuvens parecem o veludo da fita que prende o cabelo e as silhuetas me levam para lugares guardados na memória.

Do meu quintal, alcanço apenas um pequeno rasgo do céu entre a árvore seca no quintal do vizinho e torre de alta tensão da rua de cima, bem diferente de quando o sol nasce pela manhã atravessando o telhado da vizinha da esquerda.

Mas quando consigo ir até o campo, logo depois da curva, onde antes havia um bosque eu me derreto com as coisas e reverencio o universo. Respiro as cores que me atinge e é ali que busco forças para continuar seguindo.

Me sinto tão pequena, às vezes, diante da beleza e das formas que as nuvens criam em um céu tão meu… No meu lugar.

Depois disso, a cidade se prepara a a noite, mas durante algumas horas, o crepúsculo ainda dura aqui, dentro do meu coração.

Mariana Gouveia
Projeto fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Isabelle BrumRoseli Pedroso

6 on 6 · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Arte de rua

Meu caro M,

Bem, era um destes dias ou lugares talvez…

Roubei essa frase acima de você só para te contar que daqui a dois dias Cuiabá completará 303 anos e eu me vi caminhando pelas ruas e decidi, aproveitando o projeto fotográfico 6 on 6, te mostrar um pouco do que vi-vejo pelas ruas do meu lugar. Já faz um tempo que não falo com você e confesso que sinto falta… Aliás, sinto falta de saber mais de você e de contar coisas minhas também e de perguntar se é mesmo verdade que é avoador… Essas coisas bobas que amigos conversam-perguntam e riem juntos.

Eu apanhei um artista no instante em que ele criava sua arte. Parece a poesia quando sai da alma do poeta e ganha vida nas letras, nos cadernos, nos livros. A arte de rua ainda é considerada uma afronta a sociedade e eu poderia escrever muito sobre isso, mas eu perderia o foco de te levar comigo, quase de mãos dadas apontando aqui e ali a Cuiabá dos muros e paredes…

O artista que fez a pintura é o mesmo que tatuou as borboletas nas minhas costas… também passaria horas falando de como ele enfrenta o mundo das ruas com a arte e de como seu grito de luta às vezes é calado com repreensão… mas isso, é uma outra história. Eu só quero mesmo te passar a arte e sua essência de voz ecoando pelas ruas.

Sabe, Cuiabá possui seu nicho de artistas e com isso, os viadutos ganharam vida através das pinturas que retrata a cultura e o cotidiano de um povo de beira de rio, de viola de cocho, de Pantanal… Fica mais fácil atravessar as ruas e ver algumas paredes velhas contando arte e histórias… mas, nesse mundo tão corrido tem gente que passa e nem vê.

Sempre quando eu passo em frente a essa casa – um casarão histórico, abandonado pelas autoridades, prestes a cair, feito de adobo – parece falar comigo. Não nego o riso ao responder: o que você quer? Parece que a alma do casarão ainda está ali, à espreita de que alguém o acuda. É triste, mas é poético, eu diria.

Também tem casa que parece toda feliz… embora, eu conheça essa casa e as nuances da tristeza dela… Mas, sinto, que ela todos os dias luta para que as pessoas que cruze suas esquinas leve com elas um riso de cores na memória.

Sei que seis fotos não pode traduzir uma cidade nem a arte que habita em suas ruas… Mas, sei que caminhar com você foi só um pouco da metade do caminho… ainda iremos caminhar por florestas, por estradas e até mesmo por cartas, como essa que leva até você meu carinho e agradecer.
Você sabe porquê.

Mariana Gouveia
Scenarium Livros Artesanais
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Ale Helga – Mãe Literatura – Darlene ReginaRoseli Pedroso

só porque a arte e as cartas se misturam

6 on 6 · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – As minas e as manas

*Triste, louca ou má
Será qualificada ela
Quem recusar
Seguir receita tal
A receita cultural
Do marido, da família
Cuida, cuida da rotina

Eu era ainda uma menina quando tive que escrever sobre o que pensava sobre ser mulher. Naquela época, o tema não era tão evidente como hoje – ou até era, para as mulheres que me rodeavam e eu, em minha criancice não percebesse. Até então, as mulheres da minha vida eram minha mãe e três irmãs, dona Fulô e a professora Judite – uma pessoa além do tempo que dava aulas em uma escola rural.

*Só mesmo rejeita
Bem conhecida receita
Quem, não sem dores
Aceita que tudo deve mudar

Que um homem não te define
Sua casa não te define
Sua carne não te define
Você é seu próprio lar

O texto que escrevi deve ainda estar em alguns dos muitos cadernos guardados em baús ou caixas e que um dia vou tentar encontrar… mas, lembro-me que para além das heroínas dos livros que li eu falava muito sobre a parteira que me trouxe ao mundo, depois de um parto difícil. Uma mulher que não sabia nem ler e escrever, que havia vivido um pós guerra e tinha o ofício de trazer crianças ao mundo e fazia disso uma coisa divina. Entendia de tudo sobre o mundo e me convencia de eu poderia ser o que quisesse. Ali, entre a infância e adolescência descobri as barreiras e as correntes que poderiam impedir quem ousasse mudar o “tradicional”.

*Ela desatinou
Desatou nós
Vai viver só

Bem antes mesmo da tão falada frase: lugar de mulher é onde ela quiser, eu já vivia esse sentimento nas mulheres que me rodeavam. Nasci em uma fazenda rodeada de mulheres que lutavam todos os dias para além das enxadas e foices, que brigavam por seu lugar de fala nas decisões da comunidade ou mesmo dentro de suas famílias feitas de homens machistas e autoritários.

Eu não me vejo na palavra
Fêmea: Alvo de caça
Conformada vítima

Daquele tempo até hoje percebo que a luta ainda continua a mesma e que aquele aprendizado me fez ser o que sou hoje. O que aquela menina de 10/11 anos diria para a mulher de agora, nos meus 56, quase 57 anos? Já escrevi várias cartas onde busquei essas respostas e continuo escrevendo elas até hoje. Minha bá me ensinou sobre as palavras e de como escritas ganham voos para além de nós mesmas. E que escrevendo posso representar aquelas que me rodeiam-habitam.

*Prefiro queimar o mapa
Traçar de novo a estrada
Ver cores nas cinzas
E a vida reinventar

Não sou adepta das datas, embora perceba o significado delas e reconheço que a coragem da minha primeira professora em uma escolinha rural, no interior de Goiás ganhou raízes em mim, nas minhas irmãs e nas mulheres que entraram em minha vida em todos esses anos. Ainda estamos gritando para que nos ouçam, ainda brigamos por espaços com lugares de fala e ainda, ainda, ainda…
A mulher que me tornei reverencia a menina que sonhava em contar histórias para o mundo.

*E um homem não me define
Minha casa não me define
Minha carne não me define
Eu sou meu próprio lar

A menina daquele tempo sente orgulho das histórias que contei? A minha voz consegue abraçar outras mulheres muito além da data? Ainda busco essas respostas, mas sei que tudo que vivi teve influência de mulheres valentes e conhecedoras de seus poderes. Sou rodeadas de mulheres especiais e vibro com cada conquista delas. Elas são as minas e as manas por quem luto, por quem torço e vibro.

Talvez, eu represente muitas delas em meu espaço… talvez sejam elas que me representam em seus lugares. O que eu, a mulher de quase 57 anos dirá para a de 60/70? Acho que posso dizer uma frase antecipando o que virá: não desista, fique firme e não se cale. Você consegue apesar de tudo! O resto, vou dizer lá, no tempo certo. Vem junto comigo?

Feliz Dia da Mulher Todos os dias!

Mariana Gouveia
participam desse projeto: Lunna GuedesRoseli Pedroso Obdúlio OrtegaIsabelle Brum
Projeto 6 on 6 – Scenarium Livros Artesanais
* Trechos da música Triste, louca ou má, de Franscisco El Hombre.

6 on 6 · Mariana Gouveia

6 on 6 – Mas é Carnaval!

Confesso que nunca gostei do carnaval e nos dias em que ocorre a tal folia de Momo eu sigo a rota dos rios, cachoeiras, montanhas. Como moro em Cuiabá, sou rodeada pela Chapada dos Guimarães e o Pantanal. Meu estado é conhecido pelos rios e cachoeiras. Então, é para esses lugares que o meu samba me leva.

Allah-lá-ô, ô ô ô ô ô ô
Mas que calor ô ô ô ô ô ô

Como rota de fuga sigo o caminho das cachoeiras, no Parque Nacional de Chapada dos Guimarães, precisamente Cachoeira da Martinha e meu samba preferido vem do barulho das águas…

Você pensa que cachaça é água?
Cachaça não é água não
Cachaça vem do alambique
E água vem do ribeirão

O contato com a natureza e minha proximidade com os bichos, seja os que voa ou os que rastejam me faz voltar leve para casa. Nesses dias, até esqueço da folia e de como a cidade fica envolvida com seus blocos de nomes exóticos… e mesmo a cidade de Chapada dos Guimarães – um centro conhecido por seus blocos de rua – em seus arredores parece que nem é Carnaval.

Ó abre alas
Que eu quero passar
Ó abre alas
Que eu quero passar

Mudo a rota e sigo a rota da Transpantaneira e a natureza sempre me recebe com maestria… e o fim da avenida é meu Pantanal…

Ê, ê, ê, ê…
Coitado do jacaré, como é que é ?

As aves com suas exuberâncias dentro do seu habitat e na leveza das asas eu viro poesia. O canto lembra que o samba enredo daqui funciona bem os ouvidos e ao coração.

Eu quero é botar meu bloco na rua

E como tudo que é bom dura pouco, a fantasia se veste de cores e a vida segue o ritmo natural… e é assim que meu Carnaval acontece com alegorias nota 10… Junto com a natureza e com a leveza na alma.

Ai, ai, ai ai, ai ai ai
Está chegando a hora
O dia já vem raiando, meu bem
Eu tenho que ir embora

Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam desse projeto:
Obdúlio Nunes OrtegaLunna Guedes Roseli PedrosoIsabelle BrumDarlene Regina

6 on 6 · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Em 2021 eu…

…vi o jardim florescer e brotar de uma forma única dentro dos dias. Como atravessar 365 dias tão distintos e descrevê-los em apenas 6 fotos? Como falar das dores – que nos fazem mais fortes – e das alegrias em momentos que se disparam através do click da câmera – seja ela do celular ou DSL – e não ficar faltando coisas para dizer? Vou tentar transformar em imagens os sentimentos que divido sempre aqui, com vocês.

… vivi os voos e pousos de Chiquinho – meu beija-flor – que se tornou mais possessivo ainda do seu quintal… como foi um ano de ficar em casa, pude desfrutar mais da companhia dele que continua com seu chilreio por aqui.

… pude cuidar e aproveitar também das companhias de Lolla e Yoshi, que viraram grude onde quer que eu fosse… foram alentos para os dias difíceis e alegria nos dias bons.

… fui arte, artesanato, fui choro e sorrisos… fui fé e fui vacinada levando comigo a emoção dos que não puderam ser…

… fui escrita, fui Casa Cheia, Casa de Marimbondo, Mulher Proibida, Delírios Comunistas, Roteiros imaginários e tantos outros… Fui poema, palavra e poesia… Fui Colheita… Fui Scenarium…

… e fui emoção construída em Colcha de Retalhos… Onde me encantei com a saudade e continuo sendo esperança no amor em todas as suas formas e nuances…

E nesse novo ano que já se forma dentro dos dias, com seis folhinhas arrancadas do calendário desejo que você seja fonte de inspiração para seguir adiante. Sei que não teremos dias fáceis pela frente… Mas, sei que conseguiremos transformar 2022 em um ano melhor… Que em 2022 sejamos mais feliz!

Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
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Participam desse projeto:
Roseli PedrosoDarlene Regina Obdúlio Nunes Ortega Lunna Guedes