6 on 6 · Mariana Gouveia

6 on 6 – 3×4

Exato
De fato,
o corpo briga,
a vontade chega.
Retrato,
de 3×4
na semana inteira.


Quando revirei o baú de retratos as carteirinhas com os retratos 3×4 feitos para os documentos trouxe para o momento as memórias antigas. Junto delas, os monóculos que trazem lembranças de um tempo que não voltam mais.

Desde a morte de meu avô paterno minha mãe vivia sempre de luto. As fotos – tão poucas – que restam dela, não difere tanto uma da outra. Mesmo quando precisava de fotos para algum documento, lá estava ela e seu vestido preto. Ela só veio tirar o luto um mês antes de sua morte. Foi quando vestiu o vestido florido que ela mesmo fez.

Algumas fotos arrancam risos por aqui e muitas vezes me pergunto quais os sonhos que povoava a cabeça daquela menina-mulher? A foto acima era para o crachá da emissora de rádio e naquele tempo eu só queria usar o microfone para falar de poesia e canções.

Com o passar do tempo os cabelos foram modificando e os sonhos também. Mas a arte sempre presente de alguma maneira e as borboletas também.

O baú, além de fotos antigas, guarda também momentos. O filho tão menino ainda, na foto que o colocava como cidadão do mundo no primeiro documento.

Para tão logo depois – como o tempo passa rápido dentro dos dias – ser senhor de si e sair à procura de seu lugar.

As fotos desbotadas mostram os dias dentro de nossas vidas. Os monóculos guardam memórias. O casamento de meus pais. Eu, a segunda na foto, em cima de uma cadeira. A mãe e o olho de luto nesse dia em que a vida se perdeu. O baú hoje, trouxe apenas saudades.

Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6 – Scenarium Livros Artesanais
Participam desse projeto:
Obdúlio Nunes OrtegaRoseli PedrosoLunna Guedes

6 on 6 · Mariana Gouveia

6 on 6 – Crepúsculo

Não contei as horas do dia
porque imaginei que os poemas nasciam no ocaso
no poente
onde o crepúsculo me trazia
sua voz mil vezes ou mais
entre o gradiente das cores
e a canção que eu ouvia.
Mariana Gouveia

Aumente o som

O crepúsculo acontecia sempre dentro de mim antes do sol adormecer lá fora. Eu ficava horas a esperar por ele e em muitos momentos eu dancei com as nuances de cores no céu. Você pode estranhar o fato de sempre eu falar de dança, mas sou movida a música e de alguma maneira, meu corpo sempre responde a canção.

Quando ele acontece é a hora que a minha cidade fica mais bonita, feito moça se aprontando para a festa. As nuvens parecem o veludo da fita que prende o cabelo e as silhuetas me levam para lugares guardados na memória.

Do meu quintal, alcanço apenas um pequeno rasgo do céu entre a árvore seca no quintal do vizinho e torre de alta tensão da rua de cima, bem diferente de quando o sol nasce pela manhã atravessando o telhado da vizinha da esquerda.

Mas quando consigo ir até o campo, logo depois da curva, onde antes havia um bosque eu me derreto com as coisas e reverencio o universo. Respiro as cores que me atinge e é ali que busco forças para continuar seguindo.

Me sinto tão pequena, às vezes, diante da beleza e das formas que as nuvens criam em um céu tão meu… No meu lugar.

Depois disso, a cidade se prepara a a noite, mas durante algumas horas, o crepúsculo ainda dura aqui, dentro do meu coração.

Mariana Gouveia
Projeto fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Isabelle BrumRoseli Pedroso

6 on 6 · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Arte de rua

Meu caro M,

Bem, era um destes dias ou lugares talvez…

Roubei essa frase acima de você só para te contar que daqui a dois dias Cuiabá completará 303 anos e eu me vi caminhando pelas ruas e decidi, aproveitando o projeto fotográfico 6 on 6, te mostrar um pouco do que vi-vejo pelas ruas do meu lugar. Já faz um tempo que não falo com você e confesso que sinto falta… Aliás, sinto falta de saber mais de você e de contar coisas minhas também e de perguntar se é mesmo verdade que é avoador… Essas coisas bobas que amigos conversam-perguntam e riem juntos.

Eu apanhei um artista no instante em que ele criava sua arte. Parece a poesia quando sai da alma do poeta e ganha vida nas letras, nos cadernos, nos livros. A arte de rua ainda é considerada uma afronta a sociedade e eu poderia escrever muito sobre isso, mas eu perderia o foco de te levar comigo, quase de mãos dadas apontando aqui e ali a Cuiabá dos muros e paredes…

O artista que fez a pintura é o mesmo que tatuou as borboletas nas minhas costas… também passaria horas falando de como ele enfrenta o mundo das ruas com a arte e de como seu grito de luta às vezes é calado com repreensão… mas isso, é uma outra história. Eu só quero mesmo te passar a arte e sua essência de voz ecoando pelas ruas.

Sabe, Cuiabá possui seu nicho de artistas e com isso, os viadutos ganharam vida através das pinturas que retrata a cultura e o cotidiano de um povo de beira de rio, de viola de cocho, de Pantanal… Fica mais fácil atravessar as ruas e ver algumas paredes velhas contando arte e histórias… mas, nesse mundo tão corrido tem gente que passa e nem vê.

Sempre quando eu passo em frente a essa casa – um casarão histórico, abandonado pelas autoridades, prestes a cair, feito de adobo – parece falar comigo. Não nego o riso ao responder: o que você quer? Parece que a alma do casarão ainda está ali, à espreita de que alguém o acuda. É triste, mas é poético, eu diria.

Também tem casa que parece toda feliz… embora, eu conheça essa casa e as nuances da tristeza dela… Mas, sinto, que ela todos os dias luta para que as pessoas que cruze suas esquinas leve com elas um riso de cores na memória.

Sei que seis fotos não pode traduzir uma cidade nem a arte que habita em suas ruas… Mas, sei que caminhar com você foi só um pouco da metade do caminho… ainda iremos caminhar por florestas, por estradas e até mesmo por cartas, como essa que leva até você meu carinho e agradecer.
Você sabe porquê.

Mariana Gouveia
Scenarium Livros Artesanais
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Ale Helga – Mãe Literatura – Darlene ReginaRoseli Pedroso

só porque a arte e as cartas se misturam

6 on 6 · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – As minas e as manas

*Triste, louca ou má
Será qualificada ela
Quem recusar
Seguir receita tal
A receita cultural
Do marido, da família
Cuida, cuida da rotina

Eu era ainda uma menina quando tive que escrever sobre o que pensava sobre ser mulher. Naquela época, o tema não era tão evidente como hoje – ou até era, para as mulheres que me rodeavam e eu, em minha criancice não percebesse. Até então, as mulheres da minha vida eram minha mãe e três irmãs, dona Fulô e a professora Judite – uma pessoa além do tempo que dava aulas em uma escola rural.

*Só mesmo rejeita
Bem conhecida receita
Quem, não sem dores
Aceita que tudo deve mudar

Que um homem não te define
Sua casa não te define
Sua carne não te define
Você é seu próprio lar

O texto que escrevi deve ainda estar em alguns dos muitos cadernos guardados em baús ou caixas e que um dia vou tentar encontrar… mas, lembro-me que para além das heroínas dos livros que li eu falava muito sobre a parteira que me trouxe ao mundo, depois de um parto difícil. Uma mulher que não sabia nem ler e escrever, que havia vivido um pós guerra e tinha o ofício de trazer crianças ao mundo e fazia disso uma coisa divina. Entendia de tudo sobre o mundo e me convencia de eu poderia ser o que quisesse. Ali, entre a infância e adolescência descobri as barreiras e as correntes que poderiam impedir quem ousasse mudar o “tradicional”.

*Ela desatinou
Desatou nós
Vai viver só

Bem antes mesmo da tão falada frase: lugar de mulher é onde ela quiser, eu já vivia esse sentimento nas mulheres que me rodeavam. Nasci em uma fazenda rodeada de mulheres que lutavam todos os dias para além das enxadas e foices, que brigavam por seu lugar de fala nas decisões da comunidade ou mesmo dentro de suas famílias feitas de homens machistas e autoritários.

Eu não me vejo na palavra
Fêmea: Alvo de caça
Conformada vítima

Daquele tempo até hoje percebo que a luta ainda continua a mesma e que aquele aprendizado me fez ser o que sou hoje. O que aquela menina de 10/11 anos diria para a mulher de agora, nos meus 56, quase 57 anos? Já escrevi várias cartas onde busquei essas respostas e continuo escrevendo elas até hoje. Minha bá me ensinou sobre as palavras e de como escritas ganham voos para além de nós mesmas. E que escrevendo posso representar aquelas que me rodeiam-habitam.

*Prefiro queimar o mapa
Traçar de novo a estrada
Ver cores nas cinzas
E a vida reinventar

Não sou adepta das datas, embora perceba o significado delas e reconheço que a coragem da minha primeira professora em uma escolinha rural, no interior de Goiás ganhou raízes em mim, nas minhas irmãs e nas mulheres que entraram em minha vida em todos esses anos. Ainda estamos gritando para que nos ouçam, ainda brigamos por espaços com lugares de fala e ainda, ainda, ainda…
A mulher que me tornei reverencia a menina que sonhava em contar histórias para o mundo.

*E um homem não me define
Minha casa não me define
Minha carne não me define
Eu sou meu próprio lar

A menina daquele tempo sente orgulho das histórias que contei? A minha voz consegue abraçar outras mulheres muito além da data? Ainda busco essas respostas, mas sei que tudo que vivi teve influência de mulheres valentes e conhecedoras de seus poderes. Sou rodeadas de mulheres especiais e vibro com cada conquista delas. Elas são as minas e as manas por quem luto, por quem torço e vibro.

Talvez, eu represente muitas delas em meu espaço… talvez sejam elas que me representam em seus lugares. O que eu, a mulher de quase 57 anos dirá para a de 60/70? Acho que posso dizer uma frase antecipando o que virá: não desista, fique firme e não se cale. Você consegue apesar de tudo! O resto, vou dizer lá, no tempo certo. Vem junto comigo?

Feliz Dia da Mulher Todos os dias!

Mariana Gouveia
participam desse projeto: Lunna GuedesRoseli Pedroso Obdúlio OrtegaIsabelle Brum
Projeto 6 on 6 – Scenarium Livros Artesanais
* Trechos da música Triste, louca ou má, de Franscisco El Hombre.

6 on 6 · Mariana Gouveia

6 on 6 – Mas é Carnaval!

Confesso que nunca gostei do carnaval e nos dias em que ocorre a tal folia de Momo eu sigo a rota dos rios, cachoeiras, montanhas. Como moro em Cuiabá, sou rodeada pela Chapada dos Guimarães e o Pantanal. Meu estado é conhecido pelos rios e cachoeiras. Então, é para esses lugares que o meu samba me leva.

Allah-lá-ô, ô ô ô ô ô ô
Mas que calor ô ô ô ô ô ô

Como rota de fuga sigo o caminho das cachoeiras, no Parque Nacional de Chapada dos Guimarães, precisamente Cachoeira da Martinha e meu samba preferido vem do barulho das águas…

Você pensa que cachaça é água?
Cachaça não é água não
Cachaça vem do alambique
E água vem do ribeirão

O contato com a natureza e minha proximidade com os bichos, seja os que voa ou os que rastejam me faz voltar leve para casa. Nesses dias, até esqueço da folia e de como a cidade fica envolvida com seus blocos de nomes exóticos… e mesmo a cidade de Chapada dos Guimarães – um centro conhecido por seus blocos de rua – em seus arredores parece que nem é Carnaval.

Ó abre alas
Que eu quero passar
Ó abre alas
Que eu quero passar

Mudo a rota e sigo a rota da Transpantaneira e a natureza sempre me recebe com maestria… e o fim da avenida é meu Pantanal…

Ê, ê, ê, ê…
Coitado do jacaré, como é que é ?

As aves com suas exuberâncias dentro do seu habitat e na leveza das asas eu viro poesia. O canto lembra que o samba enredo daqui funciona bem os ouvidos e ao coração.

Eu quero é botar meu bloco na rua

E como tudo que é bom dura pouco, a fantasia se veste de cores e a vida segue o ritmo natural… e é assim que meu Carnaval acontece com alegorias nota 10… Junto com a natureza e com a leveza na alma.

Ai, ai, ai ai, ai ai ai
Está chegando a hora
O dia já vem raiando, meu bem
Eu tenho que ir embora

Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam desse projeto:
Obdúlio Nunes OrtegaLunna Guedes Roseli PedrosoIsabelle BrumDarlene Regina

6 on 6 · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Em 2021 eu…

…vi o jardim florescer e brotar de uma forma única dentro dos dias. Como atravessar 365 dias tão distintos e descrevê-los em apenas 6 fotos? Como falar das dores – que nos fazem mais fortes – e das alegrias em momentos que se disparam através do click da câmera – seja ela do celular ou DSL – e não ficar faltando coisas para dizer? Vou tentar transformar em imagens os sentimentos que divido sempre aqui, com vocês.

… vivi os voos e pousos de Chiquinho – meu beija-flor – que se tornou mais possessivo ainda do seu quintal… como foi um ano de ficar em casa, pude desfrutar mais da companhia dele que continua com seu chilreio por aqui.

… pude cuidar e aproveitar também das companhias de Lolla e Yoshi, que viraram grude onde quer que eu fosse… foram alentos para os dias difíceis e alegria nos dias bons.

… fui arte, artesanato, fui choro e sorrisos… fui fé e fui vacinada levando comigo a emoção dos que não puderam ser…

… fui escrita, fui Casa Cheia, Casa de Marimbondo, Mulher Proibida, Delírios Comunistas, Roteiros imaginários e tantos outros… Fui poema, palavra e poesia… Fui Colheita… Fui Scenarium…

… e fui emoção construída em Colcha de Retalhos… Onde me encantei com a saudade e continuo sendo esperança no amor em todas as suas formas e nuances…

E nesse novo ano que já se forma dentro dos dias, com seis folhinhas arrancadas do calendário desejo que você seja fonte de inspiração para seguir adiante. Sei que não teremos dias fáceis pela frente… Mas, sei que conseguiremos transformar 2022 em um ano melhor… Que em 2022 sejamos mais feliz!

Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam desse projeto:
Roseli PedrosoDarlene Regina Obdúlio Nunes Ortega Lunna Guedes

6 on 6 · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – ho ho ho

Caro Dezembro,

Devo confessar que você acontece em mim bem antes que seus dias cheguem no meu calendário. Minha programação começa lá em setembro, quando a primavera atinge seu ápice no meu quintal e as flores exibem suas floradas por aqui…

É quando começo a produzir as encomendas para quem gosta de enfeitar seus dias com cores vibrantes, papais noéis em suas roupas vermelhas, anjinhos e imagine só, até bonecos de neves. A maioria das encomendas já seguiram viagem, ou foram entregues para além da rua de cima. Dia desses, quando fui ao mercado, vi uma das guirlandas feita por mim enfeitando a porta da casa amarela.

Acho que, como eu me visto de você em setembro, quando seus dias chegam eu já me desembrulhei do ho ho ho, das canções que se repetem desde a minha infância e até da música de fim de ano na TV… Devo confessar que houve um tempo em que o Natal era a minha data preferida… eu conseguia bordar todas as encomendas e ainda assim, vibrar com a mensagem do bom velhinho…

Mas, isso, foi lá na infância, quando todo mundo da família estava junto e a data era apenas a desculpa para se comemorar o que já fazíamos quase todos os dias. Em uma família grande, quase todo mês era aniversário de alguém e só por isso, tudo era uma festa. E minha mãe repetia sempre que devíamos ter atenção para a mensagem verdadeira do Natal… isso foi há tempo que parece outro século e cada um, em seus lugares, com suas famílias construídas para além dos anos, comemora de outro jeito, outra forma.

Hoje, a festa já vale por eles e enquanto finalizo as encomendas, a vida se veste de Natal em alguns momentos, mas fora de seus dias… Yoshi, por exemplo, quando escuta eu falar o ho ho ho… já se apronta para a brincadeira onde eu corro e ele me alcança…

E Lolla fica simplesmente nos espreitando como se já estivesse cansada demais e com calor para fazer isso… Não é por ser você, o último dos meses que me sinto assim… na verdade, a rotina com o canto dos pássaros e mais ainda nesses tempos onde quase não há nada para comemorar, depois de tantas perdas, te aviso que já estou na Páscoa… Coelhinhos ganham contornos com linhas brancas e douradas, cenouras e suas folhas verdes já aparecem por aqui… Que tal um chocolate?

Feliz Natal, Feliz Ano Novo e Feliz Páscoa!

Mariana Gouveia

Esse texto faz parte da blogagem coletiva 6 on 6 – Scenarium Livros Artesanais
Participam junto comigo desse projeto:
Lunna Guedes – Roseli Pedroso – Obdúlio Nuñes Ortega

6 on 6 · Mariana Gouveia

6 on 6 – Rotas

Cachoeira da Martinha

Minhas rotas ganham rumos diferentes e destinos incríveis morando próxima de paraísos naturais como Chapada dos Guimarães e Pantanal. Devo confessar que sou privilegiada por ter a natureza ao alcance das mãos e hoje mostro para vocês a rota para Chapada dos Guimarães com seus rochedos, cachoeiras e o encanto que a natureza me proporciona.

Chapada e seus paredões

Os paredões e as serras que contornam o Parque Nacional de Chapada dos Guimarães são de uma beleza que encanta os olhos. Formações rochosas e suas escarpas nos convidam a contemplar as maravilhas da natureza.

Parque Nacional de Chapada dos Guimarães

A paisagem encanta e mistura o cerrado e montanha. Os paredões e suas cores nos leva às rotas das trilhas e mirantes.

Cachoeira Véu de Noiva

Alguns dizem sobre a misticidade e a beleza da cachoeira Véu de Noiva… eu, só consigo me encantar com a magia e a beleza dos animais que enfeitam a paisagem com suas mais variadas nuances de cores.

Mirante Geodésico da América do Sul

No Mirante Geodésico da América do Sul quase tocamos as nuvens com as mãos…

Cachoeira Véu de Noiva

Ou simplesmente observar a força da natureza…

Cachoeira da Martinha

Ou aproveitar a rota que me faz sentir em união com a natureza e sua beleza.

Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Feitiços

Desde menina fui criada com rituais, com rezas, benzeduras e feitiços… Às vezes, a palavra feitiço tinha outro contexto dentro de nossa realidade. Minha mãe, e sua descendência indígena, com seus rituais para a natureza me fez respeitar a força curativa da terra, água, ar e fogo e minha bá era bruxa, assim designada pelas pessoas, que muitas vezes necessitava dos cuidados dela e meu pai era benzedor – já não benze mais – e tentou me passar o “ofício” de curar as pessoas.

Com seus ramos de lavanda, arruda ou alecrim, ele pronunciava palavras de orações e repetia o sinal da cruz algumas vezes, com os ramos verdes na mão e o feitiço estava feito. Lembro-me de que várias vezes as pessoas voltavam para agradecer a cura.

Até tentei seguir seus passos e passei a conhecer o poder das ervas que curam, que “sugam” a energia ruim, mas confesso que meu progresso foi só um pouco além da arca caída e do quebrante de algumas crianças da vizinhança… e na mudança para a cidade grande, a oração se tornou só minha e as benzeduras apenas restritas ao meu quintal.

Passei a usar os astros e a sentir que o universo complementava o conhecimento da terra e de sua força ancestral e que os feitiços iam muito mais além do que as palavras repetidas enquanto fazia o sinal da cruz. O universo era infinito e juntamente com a força curadora da natureza, me trazia a paz. E junto com as rezas do meu pai e os rituais de minha mãe, eu crescia forte dentro da misticidade que vive em mim.

Aprendi a força da lua e o quanto ela influenciava as coisas ao meu redor. O dia de plantar e colher, as fases e os aspectos sobre as águas, o vento, a terra e o ar. Meu pai dizia que qualquer pedido/feitiço/oração feito dependendo da lua tinha efeito rápido e certeiro.

Porém, nada melhor que o tempo e suas nuances para a duração dos feitiços/reza/ritos e bênçãos. O tempo é o curador de tudo – meu pai dizia – e só ele trará certeza das escolhas feitas quando se pede ao universo… O tempo é precioso e o que fazemos com ele determina nosso futuro – minha mãe dizia.

O fato é que as orações/feitiço/bruxarias/benzeduras/mandingas nos acompanham desde sempre e acreditar ou não só depende de você. Para isso, lembro que toda ação tem sua reação e o universo sempre atua a seu favor e de sua fé. Cuidado com seus pedidos e desejos, com os feitiços e contra – feitiços, porque a velha máxima ainda atrai sua verdadeira intenção e não esqueça de que o feitiço sempre vira contra o feiticeiro.

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais

Lunna GuedesObdúlio Ortega

6 on 6 · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – vistas

O que eu avisto quando o olho alcança o quintal? Para onde meus olhos antecede o encanto até mesmo dentro do meu muro? Ou para além da rua de cima onde aponta minha bússola imaginária? Não vejo a arquitetura de uma cidade que cresce – às vezes, de forma desordenada – com suas invasões e desmatamento nos arredores.
O que vejo, é a densidade de uma natureza que luta para viver… seja no meu quintal, ou nos cantos por onde ando.

O cerrado é logo ali, rente as casas em um lugar onde o sol mora… e o algodãozinho do cerrado brota como se pudesse morar aqui para sempre.

E o cerrado se faz vivo mais do que nunca dentro do meu quintal e na rua de cima… é ele que amarela as tardes por aqui e faz com que os insetos briguem em um constante zuum zuumm…

E nem só de amarelo vive o quintal, e nem de sol… A primavera, ainda com ares de quem acaba de nascer se ostenta para lua enquanto o meu olho enxerga o céu e suas nuances…

É como se as nuvens estivessem vestidas para a festa… e o contorno da casa vizinha fosse o palco.

Mas, há dias em que a lua em suas diferentes fases quer apenas se encostar na folha, espiar os frutos que nasceram por aqui…

ou simplesmente se dar ao luxo de ficar de quina para as flores…
A pandemia me deixou reclusa… e para além de onde enxergo dentro ou fora dos muros tento que minhas vistas sejam de esperança de dias melhores e esse meu desejo chega até você.

Mariana Gouveia
Projeto Scenarium 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam desse projeto: Lunna GuedesRoseli PedrosoObdúlio Ortega