E o amarelo ri das coisas que conto.

Eu conheci a rota dos inventários e os riscos nos mapas mudando os caminhos. Fiquei a tua espera e o vento arrastou as folhas no quintal. Queria te contar que as flores amarelas floriram. Foi um insulto para o jardim inteiro. Todo o quintal olhava só para ela, enquanto as lagartas procriavam na lanterna chinesa.
Estão grávidas as folhas do gervão… E o amarelo ri das coisas que conto.
São muitos dias de sol e noites de lua. Era para ser em agosto esse cheiro de setembro amarelando as coisas… Mas isso tudo é só um sinal de vida da roseira que havia morrido.

Mariana Gouveia
Ser de flor

O dia que Saturno brincou de jardineiro

O caminho do sol segue a bússola da lua… Era ali, no quadrante leste do meu quintal que Saturno brincou de jardineiro. Um gênio partiu e sua arte fica gritante, viva, dentro da gente.
O calor incendeia os pensamentos no gesto e 44 graus vira poesia no vento morno. Marte e Saturno em sua quadratura recebe do caos uma forma que vaga. O regador cumpre a função. Revolver a terra, elaborar a alma para a perda… O rito é essa primavera desavisada de flor.

Mariana Gouveia
Ser de flor

Do dia em que ela eclipsou

Os cheiros do céu cuidam da semente na terra. A racionalidade do sol e a emoção da lua influi na paciência da espera. Era ali, a estação da alma. Dentro dela o cheiro dos cravos chineses e a borboleta encantando o mar enquanto o rio se desenha além dos muros. Dentro dela, eclipse. 

Mariana Gouveia
Ser de flor
Texto publicado no livro Sete Luas
Scenarium Plural Editora

Dos dias em que amou.

Morria de medo de amar. Amou.
Cantava a sorte de um amor tranquilo na vitrola vintage que ganhou do pai e os discos de vinis trazia o fado – sempre via dentro do olhar que ela nunca viu – que em noite de lua embalava o sonho de eclipsar a vontade do beijo dela. Não era a dança sob a lua no quintal, nem a maresia que invadia o quintal dela… Não era nada disso que alimentava as noites de luar prateado. Não era o mar e sua rota torta, inquilino dentro do peito que fazia ela viver…  era a vida feita e refeita dentro do amor que o nome dela trazia poeira estelar quando cantado. Era essa espera no cais. Outra vez.

Mariana Gouveia
Ser de Flor
Texto publicado no livro Sete Luas
Scenarium Livros Artesanais

O perfume esquecido das rosas

Nas gavetas reviradas, procuro o perfume esquecido das rosas que minha mãe plantava. Era hoje, há anos atrás – as flores e seus insetos feito pingente – a fragrância exalava pela rua de calçadas altas. Ela contava histórias de jardins, quintais e de que a felicidade pode ser colhida diariamente, em pequenos momentos – ninguém é feliz o tempo todo – e lembro-me da borboleta que passou e ela falou de viagem.
Guardei aquele momento, onde a realidade era completa. Nunca mais se repetiria as frases ditas naquela rua de calçadas altas…
No outro dia ela se foi e ficou apenas o perfume esquecido das rosas que ela plantava.

Mariana Gouveia
Ser de flor

minha memória não era lembrança de nada…

Somente no impulso de ultrapassar os dias para vencer o espaço da minha vida dentro da primavera, eu achava o céu vazio, mas a memória era minha – eu sabia – e por mais que eu buscasse o fulgor da estação, voltava em mim esses avisos surdos que abalam as raízes do meu ser… a sensação de plenitude ou nada…
Ouvia as promessas de antes quando certas horas me visitam e quando uma música me fazia recordar momentos… Chopin, Noturno nº 20.
Falei aos moços de Proust, no tempo que apenas leituras moravam nas minhas lembranças.

Do halo que se ergue nas flores que nascem no quintal. Do doce feito da fruta colhida fresca, e um sabor que se conheceu na infância.

Dos maracujás reencontrados mais tarde com memória de outrora… Ali, no cerrado que já não existe mais…

Mas, a minha memória não era bem essa. Minha memória não tinha apenas fato vividos… não exigia sua recuperação para que o halo se abrisse…

minha memória não era lembrança de nada…
uma música que se ouve pela primeira vez,
um raio de sol que atravessa a vidraça,
uma vesga da luar de cada noite que podia se abrir lá longe, na dimensão absoluta, de um céu cheio de estrelas.

O eco dessa memória ia para além da vida e soava pelos espaços desertos, desde antes de eu nascer e se espalhava para além das flores que nasceram dentro da estação.

Mariana Gouveia
Ser de flor

Dos diários que não escrevi

A vista me lembrava o terraço da casa de minha avó. Os bordados sempre engomados dependurados e os hibiscos derramavam suas flores em seus diversos tons. A estação muda as cores da manhã e lembro – me de que a vida cabia minúscula nos lenços bordados com monogramas e as lembranças daquelas manhãs regadas de doçura e das roupas espalhadas no chão, e sem esforço, ainda sentir o sabor doce do melhor beijo.
A casa tinha rotinas logo pela madrugada. O café era servido na casa grande e os pássaros invadiam os jardins em seus galhos e os beijos eram furtivos – ou roubados – sob as janelas pesadas entreabertas depois do terceiro toque.
O relógio do pai sempre desobedecia a temporada das flores. O cafezal seguia o ritmo primeiro do afago na terra que a mãe em sua sabedoria fazia…

Mariana Gouveia
Ser de flor
Dos diários que não escrevi

Eu conheci o fogo e já não havia esperas…

As aves, perdidas, morreram no ninho. Os animais, perdidos, sem jeito de fuga, sem rumo.
A sede devastou a vida conjugando o verbo diário do rio, que secou…
E como encontrando uma maneira de acalmar meu coração fiz mudas de esperança e estou guardando as sementes, algumas memórias, um pouco do vento, o som que trago no peito, grifado como tatuagem, gravado como se fosse agora para seguir em frente, depois que tudo isso passar.

Mariana Gouveia
Ser de flor

Preciso te contar…

como é dolorido o processo da morte. O fogo acontecendo em todo lugar.
Das flores, que vi no Pantanal já não resta mais nada.
A solidão da primavera de luto diante da semente que não germinou.
E nos jardins, a alma clama chuva.
E a vida que ainda busca esperança para quando tudo isso passar.

Mariana Gouveia
Ser de flor

Divã

Entrei. Sentei-me na poltrona onde podia ver a janela. Pediu que eu falasse sobre o que eu sentia. Calor – o sol está castigando esses dias – há um sol para cada um nesta cidade… Acaba com meu jardim. Ela se sentou no divã vermelho. Clássico. 
e desabou a falar de flores. Quis descobrir o que eu sabia das lanternas chinesas e comecei a falar de luz. Falei das histórias que li e do poema em mandarim do livro verde e de como a semente veio parar em minha mão. Ela achou tudo poesia pura e me pediu para voltar amanhã.

Mariana Gouveia
Ser de flor
Desvios para atravessar os quintais
Diário das Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais