Eu era peixe.

Khaterina Plotnikova

A vida era você, em todos os artigos perfeitos
em pretérito e sede de mar.Talvez por isso,
o cheiro do mar me traga seu corpo
sabe a sal, o dialeto marinho em meu corpo
Agridoce,
a doçura da alma

Dou – te o desgosto da falta
Essa ausência que você tatuou debaixo da água
onde eu era apenas letra muda e absoluta
Sinfonia abafada nas ondas de a – mar.
Você era isca

eu, era peixe.

Mariana Gouveia
*imagem: Khaterina Plotnikova

Tenho tido visões marinhas no tapete da sala…

Dizem que enlouqueci nos últimos dias. Deve ser abstinência de sua voz ou essa mistura de estações dentro do dia. Vejo o tempo todo asas que voam a esmo nas ondas que crio na mente.

Sinto essa obsessão incessante sobre você e suas lendas acontecendo no meu quintal. Viajo contigo pelas ruas do bairro. O horizonte se veste de cinza dentro do jardim. Por sorte, os correios hoje não funcionam. Escrevo cartas que não enviarei.

A solidão tem esse dia de domingo tatuado na pele. Tem toque onde a sensação de sua pele em minhas digitais arrepia a alma.

Deu vontade de morrer de amor. A gente deveria morrer aos domingos – quando as sombras das amoreiras ficam mais leve – de frente para o quintal em seu instinto de asa. Essa fome de maresia rasga a pele e esse muro que não rompe os diques do rio que deságua na minha rua e conto no calendário os dias que te perdi.

Mariana Gouveia
Ph: Nicoletta Ceccoli

Meu Scenarium – Sete Luas

Sete Luas foi aquele apaixonar diário desde o convite vindo por email e a palavra Cais rondou meus dias por um bom tempo.
Quando bati os olhos na capa – ainda sendo dúvidas da editora -Lunna – horas antes do lançamento – rendi -me! 
O amarelo foi como se o dourado da lua cheia invadisse as janelas do edifício e ali, todas as fases e sensações dos escritos me invadisse. Foi quase um uivo de lua.

Aconteceu uma pausa entre o encanto e a posse. O carteiro de todo dia não cabia em risos e repetiu a frase quase que costumeira quando o pacote ganhava meu abraço: – acho que a sua lua chegou!

Sufoquei – me com as luas incompletas e fiquei a beira do cais esperando que a poesia me guiasse. Era possível repetir a palavra encanto nas fases da lua.

Sete Luas  é esse frescor  e guardo como relicário e nas noites sem lua vou lá na estante e cheiro a maresia dentro dos poemas.
Enquanto saboreio as palavras uma lua em vírgula brinca no céu e me lembra que se eu apontar o dedo para as estrelas, nasce uma verruga bem na ponta do nariz – porque aqui, a lua é a parte principal…

No meu Scenarium desse desafio de fevereiro, Sete Luas e  No cais outra vez me leva pelos ancoradouros de minha infância como se sempre estivesse ali, faminta de amor e possuída de saudades. E ainda nem sabia o que era amor.

o cais a seus pés
e o mar em seu estado bruto
– de onda

Quase fases de luas cheias o tempo todo.

Sabe aquelas fases em que você sempre viveu e que é quase além das fases a lua que você conhece? A lua oscilando na bacia cheia de água no quintal e o mar quase molhando meus pés num cenário de cais que criei na memória.
Sete Luas é esse cheiro de maresia em mim. É essa espera de alguém que não vem – ou vem. O grito preso na garganta e quando solta consegue voar pelos plexos lunares.
Foi no meu cais, por detrás da cortina que me contive na voz e nas palavras. Aluei!

As luas em suas intensidades me deixa avuada de lua… e avuada era a palavra que me definia para minha mãe:
– Esse jeito de lua que você tem, menina… Parece avuada! Essa letra feita de satélite nas pontas do dedo…
Por falar em lua…

e essa Lua de Papel que sempre me domina?
Posso ser eu, assim?

Mariana Gouveia
Sete Luas – Scenarium Livros Artesanais
Desafios de fevereiro

Sete Luas

Fui desafiada pela minha editora Scenarium Livros Artesanais a fazer alguns posts sugeridos por ela, no mês de fevereiro e claro que no primeiro post escolhi Sete Luas.

Sete Luas é um livro coletivo com sete mulheres a escrever sob o signo da lua… nova, crescente, cheia, minguante. Meu tema foi No cais outra vez.

Para mim, o prazer foi imensurável. Cada dia, coube dentro de mim, um céu, uma lua, o mar e suas nuances todas. No cais outra vez me levou para ares marítimos e dias lunares.

Mariana Gouveia
Desafios de fevereiro
Scenarium Livros Artesanais

Começa a chover aqui:

 

ontem eu construí uma tempestade em mim e haviam águas vivas vermelhas em minhas lembranças as quais produziam relâmpagos que rescendiam todas as minhas sinapses. A minha furiosa vontade de fugir de mim reaparecia. A minha cínica e furiosa vontade de me abandonar me olhando turvar sorrindo, cantando “aint this life so sweet?”. E fomos dormir enchente.

Felipe Regazio
Ph: Katja

Das maresias

A cidade cumpria seu rito de anos … O sol castigava a todos, como sempre…
Naquele dia, o mar cantava em meu ouvido.

Maresia pura em minha boca.
Peguei minhas mãos – tuas – toquei de leve meu corpo… era pele gozo, vontade.
Naquele dia – como nunca havia sido de ninguém – fui sua,

Mariana Gouveia
Cadeados Abertos – Diário das Quatro estações
Scenarium plural Editora
*magem: Mira Nedyalkova

Na minha sala tem um canto de mar…

Hoje, acordei com ele invadindo a sala toda… já não era só o lado poente, dele.
Tomou conta do jardim. As pétalas salgadas cheirando a pele, sorriram.
E o mar cantou suas ondas bravias no interno de mim… e de maresia cobriu meu nome.
De improviso o oceano me cobriu inteira.
Às vezes, com as mãos em conchas o mar me banha…
Em alguns momentos – ele recua.
Mansamente recua e me deixa cheia de saudades, mas plena de viver.

Mariana Gouveia
Diário das Quatro Estações
Cadeados Abertos – Scenarium Plural Editora

Carta aos cuidados do mar

Querida minha,

O dia acontece sem demora. A chuva antecipa a vagareza nos gestos.
O guarda-chuva quebra e o vento leva o pedaço rumo ao muro gigante da rua de cima.
E eu me lembro de você sempre que alguém assovia uma canção conhecida – que liga a tua  à minha e faz com que o som pareça ecoar dentro de nossa história.
O acaso, é essa fotografia que vejo dependurada na parede e tem suas iniciais gravadas no peito, enquanto a trovoada ecoa lá fora… As gotas, trovões e um pedaço do céu a alaranjar no Oeste – são gritos de sua alma na minha.
Ainda sinto o tatear de suas mãos a tocar-me com o desejo nos gestos. Vejo vestígios de um sapato na enxurrada e teu sotaque a relembrar uma curva do mar em que os calçados continham liberdade de alguém.

Bebo a chuva na palma da mão. A madrugada tem o dom de perdurar dentro das manhãs sonolentas. O sabor agridoce na boca dos teus sabores em mim. A leveza da pele úmida de vontades e ainda o encontro que não veio – e eu apenas o imagino.

Na volta, a chuva já se foi e o dia tem aspecto de inverno. Apenas a palavra da estação vibra em mim e penso nos instantes mágicos madrugadores que a gente viveu.

Na memória, sua pele trouxe a leve ironia das manchinhas nas costas. Nem era de Deus essa pele com pintas, onde desenhei nas pontas dos dedos o mapa imaginário do teu lugar.  Sinto que estou em você, e pensando nisso me aninho em teu colo como miolo de flor.

Me coloquei dentro das histórias de um outro país que você já visitou. Não era seu perfume que exalava… Era a rua de alguma cidade estranha e suas lâmpadas a iluminar as sombras nas calçadas; sou levada dentro da história e respiro a canção… 

Lembrei-me da dedicatória de um poema seu. O vulto das suas letras em carvão quase desenhando corações nas rotinas do dia. Fui me desmanchando nas suas poesias como líquido que escorre afoito feito rio que deságua no mar…

Era pouco, tão pouco ali o mar – tão imenso em seu alcance com o céu – a beijar o sol com suas rotinas de aves e gaivotas. Era pouco e era tanto e quanto aquele rio pedinte de toque, de encontro. E no pulsar das margens que o ladeiam, o suspiro, e era tanto – um mar de saudade – um rio de água doce de vontade nos gestos dos dias.

O avesso do mundo é essa lonjura nos mapas que vi nos livros de histórias onde te invento uma história com final feliz para nós duas.

Beijo

Mariana Gouveia
Carta publicada na Revista Plural Erótica – Scenarium Plural Editora
Agosto 2019
*imagem: Jonas Hafner