Marítima · Mariana Gouveia

Sashimi

era uma vez, o tempo
esse oco de horas medidas em segundos

depois, houve o vento,
ecoando dados em corações que doem
o tic tac do tempo que não veio

e a ideia de que o mar
corria para o rio

esse oceano seco
de terra exposta
de mesa posta

a comida fresca
a alma perdida

eu, o peixe doce
para o seu mar salgado
sirva-se
– me –

Mariana Gouveia
Ph: Tumblr

Das rotinas · Mariana Gouveia

Conheci uma menina que andava descalça,

e possuía sapatos dourados.

Em uma das mãos o rio desaguava.
Levava a correnteza no sentido dos dedos,
e fazia o vento desmaiar nas margens
onde olho nenhum conseguia alcançar.

Na outra, possuía o dom do deserto
– Onde oásis era miragem mesmo –
e a flor que brotava desenhava
espinhos nos cabelos dela.

Cabia dentro do riso do dia
e nas noites de insônia colecionava a saudade
subversiva de amar.
Cantava canções de mar…

Declarava poesia de rio
e repentinamente desavisava o redemoinho de vento.
Criava casulos para se renovar.
Era mão para pouso,
ao mesmo tempo que amava a liberdade de voar…
Sabia da necessidade de sentir,
mas mudava a metamorfose de viver.


Mariana Gouveia
Das coisas breves
Ph: Howard Schatz

De todas as estações · do verbo voar · infinitamente · Marítima · Mariana Gouveia

dos seus pássaros que voaram…

ficou aquele na mão, preso – a gaiola dependurada no peito – sem jeito de asa ou ninho. Contei nos dedos os séculos sem você e o relógio na parede, vazio de horas e em silêncio lembrou-me da vitrola quebrada sem os vinis. A dispensa abarrotada de lembranças e o céu rendado de tela não me permitiu te oferecer asas. Não posso ver daqui, pela janela fechada a alegria nos teus olhos pelo voo dos teus pássaros.

… que marítimos não atravessam para meu rio.

… que brigam com os meus

… que migratórios não atravessam o oceano.

… que os meus voam rasantes com medo do voo perto desse abismo.

… que é essa solidão…

que moram na árvore morta onde não podem fazer ninhos nem migrar para te oferecerem asas.
… que descobrem que a estação muda de acordo com o destino do quintal que não alcança a maresia que alimenta o jardim.

Mariana Gouveia

Livros · Marítima · Mariana Gouveia · O lado de dentro · Scenarium Livros Artesanais

Beda – Oceânica

Ela, de terra firme
conservadora
Eu, de devaneios
lunática, aérea
Conta-me coisas de oceano.
Eu, recebo coisas do mar e mergulho entre corais, estrelas e ouço as ondas que vieram pelo ar, em conchas que traduzem para mim, a voz do Índico.
Ali, no meu quintal, o mar bradou silêncio. Calou maresia. Sufocou grito.
Lá no céu dela, a vida passeia no azul em asas.
Eu, tão lá e ela tão aqui.
Eu tão dentro dela e um oceano imenso de possibilidades.

Ela, mistura de ansiedade, contraditória.
Eu, infinitos delírios, às vezes.


Mariana Gouveia
Agosto é o mês de mar e de Beda.
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura – 
Suzana Martins – Roseli Pedroso
O lado de dentro
Scenarium Livros artesanais
*imagem: Quoc Dinh

Mariana Gouveia

Eu era peixe.

A vida era você, em todos os artigos perfeitos
em pretérito e sede de mar. Talvez por isso,
o cheiro do mar me traga seu corpo
sabe a sal, o dialeto marinho em meu corpo
Agridoce,
a doçura da alma

 

Dou – te o desgosto da falta
Essa ausência que você tatuou debaixo da água
onde eu era apenas letra muda e absoluta
Sinfonia abafada nas ondas de a – mar.
Você era isca

eu, era peixe.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês marítimo e de Beda
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura –
Suzana Martins – Roseli Pedroso
*imagem: Khaterina Plotnikova

 

Divã · dos diários

Na minha sala tem um canto de mar…


Hoje, acordei com ele invadindo a sala toda… já não era só o lado poente, dele.
Tomou conta do jardim. As pétalas salgadas cheirando a pele, sorriram.
E o mar cantou suas ondas bravias no interno de mim… e de maresia cobriu meu nome.
De improviso o oceano me cobriu inteira.
Às vezes, com as mãos em conchas o mar me banha…
Em alguns momentos – ele recua.
Mansamente recua e me deixa cheia de saudades, mas plena de viver.

Mariana Gouveia
Diário das Quatro Estações
Cadeados Abertos – Scenarium Livros Artesanais
*Imagem: Mira Nedyalkova

Mariana Gouveia

Suposição

Quando mergulhei e não sabia
Eu já era louca de mar
Marítima – e mesmo sendo fonte de rio –
salguei com meus lábios o corpo que desenhava na mente

Tracei o rosto dela em delicados toques enquanto
olhava o retrato

Quando mergulhei e não sabia nadar
eu já era parte do oceano dela e já não podia fazer mais nada a não ser
amá-la

Mariana Gouveia
Ph: Erikmadigan Heck

InspirAção

Não te verei mais…

há o mar a esvaziar
há o céu a vestir
o teu rosto atinge já as árvores
e durante quinze séculos
procurarei o teu riso
sob os objectos saqueados
não te verei mais


há a lua a recolher
há o espaço e os outros espaços
a abrigar nas minhas veias
os teus joelhos deslizam sob o rio
as tuas clavículas brilham
sobre a pele das falésias
não te verei mais

há a morte a enganar
há o planeta a morder
com os mil dentes que me deu a ausência

Alain Bosquet
Ph: Tumblr

Mariana Gouveia

Tenho tido visões marinhas no tapete da sala…

Dizem que enlouqueci nos últimos dias. Deve ser abstinência de sua voz ou essa mistura de estações dentro do dia. Vejo o tempo todo asas que voam a esmo nas ondas que crio na mente.

Sinto essa obsessão incessante sobre você e suas lendas acontecendo no meu quintal. Viajo contigo pelas ruas do bairro. O horizonte se veste de cinza dentro do jardim. Por sorte, os correios hoje não funcionam. Escrevo cartas que não enviarei.

A solidão tem esse dia de domingo tatuado na pele. Tem toque onde a sensação de sua pele em minhas digitais arrepia a alma.

Deu vontade de morrer de amor. A gente deveria morrer aos domingos – quando as sombras das amoreiras ficam mais leve – de frente para o quintal em seu instinto de asa. Essa fome de maresia rasga a pele e esse muro que não rompe os diques do rio que deságua na minha rua e conto no calendário os dias que te perdi.

Mariana Gouveia
Ph: Nicoletta Ceccoli

Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais · Sete Luas

Meu Scenarium – Sete Luas

Sete Luas foi aquele apaixonar diário desde o convite vindo por email e a palavra Cais rondou meus dias por um bom tempo.
Quando bati os olhos na capa – ainda sendo dúvidas da editora -Lunna – horas antes do lançamento – rendi -me! 
O amarelo foi como se o dourado da lua cheia invadisse as janelas do edifício e ali, todas as fases e sensações dos escritos me invadisse. Foi quase um uivo de lua.

Aconteceu uma pausa entre o encanto e a posse. O carteiro de todo dia não cabia em risos e repetiu a frase quase que costumeira quando o pacote ganhava meu abraço: – acho que a sua lua chegou!

Sufoquei – me com as luas incompletas e fiquei a beira do cais esperando que a poesia me guiasse. Era possível repetir a palavra encanto nas fases da lua.

Sete Luas  é esse frescor  e guardo como relicário e nas noites sem lua vou lá na estante e cheiro a maresia dentro dos poemas.
Enquanto saboreio as palavras uma lua em vírgula brinca no céu e me lembra que se eu apontar o dedo para as estrelas, nasce uma verruga bem na ponta do nariz – porque aqui, a lua é a parte principal…

No meu Scenarium desse desafio de fevereiro, Sete Luas e  No cais outra vez me leva pelos ancoradouros de minha infância como se sempre estivesse ali, faminta de amor e possuída de saudades. E ainda nem sabia o que era amor.

o cais a seus pés
e o mar em seu estado bruto
– de onda

Quase fases de luas cheias o tempo todo.

Sabe aquelas fases em que você sempre viveu e que é quase além das fases a lua que você conhece? A lua oscilando na bacia cheia de água no quintal e o mar quase molhando meus pés num cenário de cais que criei na memória.
Sete Luas é esse cheiro de maresia em mim. É essa espera de alguém que não vem – ou vem. O grito preso na garganta e quando solta consegue voar pelos plexos lunares.
Foi no meu cais, por detrás da cortina que me contive na voz e nas palavras. Aluei!

As luas em suas intensidades me deixa avuada de lua… e avuada era a palavra que me definia para minha mãe:
– Esse jeito de lua que você tem, menina… Parece avuada! Essa letra feita de satélite nas pontas do dedo…
Por falar em lua…

e essa Lua de Papel que sempre me domina?
Posso ser eu, assim?

Mariana Gouveia
Sete Luas – Scenarium Livros Artesanais
Desafios de fevereiro