Carta à solidão

Em muitas noites a insônia habita o meu corpo e os olhos acompanham o desenrolar da madrugada que num estalar de dedos se dissolve e vira dia, manhã de sol e eu cambaleando pelos cômodos, arrastando o passo pelos cantos.

Quando isso acontece, tenho a impressão de que a solidão é uma presença, uma entidade. Figura gigantesca. Mas, se antes, você habitava as noites mornas, nos últimos dias, tenho sua companhia nas tardes, com as réstias de sol atravessando as cortinas e o vento bailando num tímido vai e vem. Sinto seu toque na pele e suspiros vazios. Percebo-te entre as paredes da sala e dentro das gavetas que vasculho em busca de memórias perdidas – cartas que não foram enviadas e algumas que nem escritas foram.

Eu nunca tive medo de viver só. Sempre soube aproveitar da minha companhia e entre sorver uma xícara de café e escrever, na realidade, nunca estive só. Os pássaros, s flores e as sombras do meu quintal preenchem lacunas-espaços – ocupam-me. Tu és esse vento que passeia pela casa, sopra as roupas no varal e provoca tumulto. É a mão que toca a minha e me lembra do meu lado de dentro.

Houve muitas tardes que o silêncio da casa era quase um alívio e escrever-te é como afirmar sua presença pelos cantos, como o chapéu que uso vez ou outra, por causa do sol ou o som do relógio a ressoar por aqui.

Será que estou inventando uma personagem? Não seria a primeira vez que invento um substantivo ideal para ser o meu par, como a cortina é companhia ideal para dançar com o sol.

Mariana Gouveia
Texto publicado na Revista Roteiros Imaginários
Scenarium Livros Artesanais

Resenha | Colcha de Retalhos

Das coisas mais lindas que escreveram sobre o que escrevo:

Por caetano Lagrasta acabo de ler “Colcha de Retalhos”, da Mariana Gouveia e, digo logo, antes que esqueça:/sempre gostei do que ela escreveu, mas neste dia luminoso de um novembro incerto, Maryann entrou em rota de Marte e fez de Ana um “acidente natural a que submetida a carne”/a descrever poemas de pequeno livro, sua […]

Resenha | Colcha de Retalhos

Caminho… e atrás de mim caminham lugares…

Bambina mia,

Já te aviso de antemão que essa carta é extra-sensorial… Em alguns momentos você pode fechar os olhos e sentir o vento… o caminho por onde te levo tem vento e tem o cheiro de sua cozinha, da xícara de café, do pão no forno sendo assado… e tem tato, porque posso sentir você ao mais leve toque na tela do computador… o abraço quentinho, a risada moleca e o som da bolinha de tênis ecoando pela casa enquanto Jane dog tenta roubá-la…

Acabei de descrever a saudade – você sabe disso – e vendo sua foto sorrindo, é como se você estivesse em minha frente, abrindo caminhos calçadas afora para eu não tropeçar, indicando esquinas enquanto caminho…
Caminho… e atrás de mim caminham lugares… e posso detalhar cada centímetro das ruas que caminhei contigo.
O vento gelado de um fim de agosto, garoa fina, mala arrastada…
Ônibus lotado e seus olhos marejados enquanto te contava minha história e senti ali, a cumplicidade de quem entende o outro sob o olhar atento do amor. Tantas coisas que já vivemos juntas.

Poderia enumerar datas e assim, marcar o tempo que existo em sua vida… mas, acho, que eu me enganaria porque acredito que o Universo só nos reaproximou de novo, de algum tempo em que não lembro, só que desde o primeiro abraço houve o reconhecimento de que eu já estive dentro dele em outro tempo.

Essa missiva está adiantada algumas horas, porque seu dia é amanhã e seria para amanhã minhas palavras. A gente anda se emocionando juntas em conversas em aplicativo de mensagens, e posso dizer em segurança que sua mão segura a minha sempre… em filas de espera, enquanto faço almoço, jantar, café da manhã… quando trovoa, quando tem sol e então, nesse meu caminho, sei de sua presença ali, mesmo não estando e a cada caso novo, história, memória e até fofocas, você está ali, atenta ao meu chamado. Sou grata por você na minha vida… se eu sou um afago do universo para você… ah, bambina mia… Você é a porta segura que sei que ao bater, ela se abrirá para mim. Com todos os aromas que uma casa possui, inclusive da pizza que acaba de me oferecer e seu abraço tão reconfortante.

Sou mesmo uma abençoada!

Auguri!

Mariana Gouveia
Projeto 52
Lunna GuedesAnna Clara de Vitto

# extratos

#extratos III

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Às vezes ouvia músicas que trazia momentos. Meio relicário, sei lá… O rádio tocava a canção e ela queria dançar.

Também usava palavras que não eram suas para dizer que a amava. Palavras da própria canção que ouvia e que ela queria dançar.
Era um desejo secreto.

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E o silêncio tomou conta de tudo. Ao percorrer os aposentos nesse dia buscou ela em cada canto.

O espelho mostrava a estranha em que ela mesma havia se transformado.

Não havia mais música tocando.

Só o vidro vazio do seu perfume continuava a exalar a essência que ela tanto buscava nos lençóis, no travesseiro.

 

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E havia ainda o sabor da sua pele, a textura, aquela maneira de apenas fechar os olhos e tocá-la…quase sentia o gosto.

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Chovia. Chovia sempre. E as palavras dela sobre a chuva ecoavam por ali…

e a maneira como ela lia Maria Teresa Horta ficou registrado: Ah, essa Maria Teresa!

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Também sentia a sua falta:  a suavidade plena de pensar nela ali.

bebia o café junto com ela. Era assim que o dia começava a ser lindo.

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Um dia, o rádio tocará a mesma canção e ela estará ali ao alcance dos beijos e das mãos.

Mariana Gouveia

# extratos II

# extratos II

Hoje não me lembro bem do que disse – ou lembro de tudo, sei lá… –

comecei a esperar pelas visitas

a marcar a cidade no número de quem entrou

comecei a desvendar nomes dela…

a criar mitos, lendas.

Precisava dela pra começar o dia.

Reitero…PRECISO

assim de precisar mesmo.

E dos azulejinhos que chegavam e arrancavam sorrisos

aprendi a provocar

a mudar desejos de palavras;

a chover…

“não vou esquecer nunca da sensação de chuva… está a chover aqui…”

aprendi a sentir borboletas a voar na barriga;

a gostar do azul, do laranja, do escarlate, do preto e branco…

a descobrir palavras novas e aprendi a medir a saudade pela imensa solidão que os dias fazem em mim.

E que em mim existem dois mundos…

Mariana Gouveia

# extratos

# extratos

a primeira vez que a senti foi um desassossego no coração.

Corri lá fora para espreitar a lua…

seria feitiço aquelas imagens sutis em mim?

 

tornou -se vicio esperar por ela…

 

Não sabia se era estado de sentir ou se era pra sempre.

Só fui descobrir depois;

o que sei é que já sabia da esperança dos olhos dela mesmo sem vê-los.

E a cor me encantava. E o silêncio me intrigava.

E eu já a amava desde sempre.

 

Mariana Gouveia

A Tempestade que eu sou

Chegar à margem e ter medo da quietude da água.
Antonio Gamoneda 

Muitas vezes já perguntei a mim mesma que tipo de tempestade seria. A palavra tempestade me absorve inteira. Fico embevecida quando vejo ela se iniciando no horizonte e seus sons chegam primeiro avisando que está chegando. Mas, qual seria […]

A Tempestade que eu sou — Adriana Aneli

De que eu me lembro?

Lembro-me do vento a agitar os tsurus nas árvores e era uma manhã clara de um sábado qualquer de novembro. Logo depois chegou o envelope lilás de Paris e a carta falava da volta e havia ideogramas com nossos nomes coloridos… Parece mentira, mas lembro-me dos cheiros desse dia… e durante muitos dias depois me lembraria do cheiro do pão fresquinho da padaria da esquina, do orvalho se desprendendo dos capins na beira da calçada e do hortelã recém colhido por alguém na redondeza… Uma moça havia passado por mim e deixado um rastro do perfume anais anais rua afora – atemporal na memória, pensei nas últimas gotas que você havia deixado em cima da cômoda do quarto quando você se foi – enquanto eu fechava o portão, com o envelope nas mãos.

Depois disso, lembro-me que todas as tardes, eu ficava na janela, ouvindo os barulhos da rua de cima para ver se surgia algum sinal de você havia voltado. Perdi a conta dos dias em que preparei o chá e as broinhas que você gostava, só porque eu vivia em estado de espera…

Com o passar dos dias, eu já não usava mais a blusa de laise e tirei os tsurus da árvore no quintal… Logo seria o tempo das chuvas e pendurei eles na janela da cozinha. Alguém limpou a calçada e não havia mais o capim onde o orvalho rescendia nas manhãs de espera e a moça com o perfume anais anais deve ter mudado da vizinhança ou mudou a rua de passar… e foi aí que você chegou…

Era uma manhã quente verão… os trovões ecoavam no céu e eu nem notei o aviso dele… na pressa, antes da chuva, corri para recolher as roupas no varal… e foi aí que senti sua presença, logo além do muro, parada, antes de bater no portão… não senti mais a solidão de antes. Você ocupava cada milímetro da minha rua e quando adentrou casa afora pareceu que você nunca havia partido. É disso que eu me lembro.

Mariana Gouveia
Scenarium Livros Artesanais
Blogagem Coletiva
Participam desse projeto:
Roseli PedrosoLunna GuedesObdúlio Ortega

O livro escrito…

As palavras dela ainda ecoam aqui… e mesmo lendo e relendo algumas coisas parece que em algum momento ela vai chegar de um outro país, da universidade, do mercado ou da caminhada no fim da tarde.

Abro o site que fala sobre horóscopo e vou direto ao signo dela… mas, tudo fica mais brando quando em uma noite estrelada fica possível ver Marte sem luneta. Eu imagino quem ela cativou no além do que se pode ver.

O livro escrito conta minha história de amor… um amor que vivi em mil possibilidades e a sensação é de que tudo foi vivido na intensidade da vida dela. Tão mágico e rápido. Tão fugaz e leve ao mesmo tempo. Tão profundo e suave… costurado como se fosse mesmo uma colcha moldada, combinando momentos e cores. Ana de Marte era mesmo leve e ao mesmo tempo vibrante. E você vai conhecê-la nas páginas de Colcha de Retalhos.

Ana de Marte é a protagonista de uma história que se esbarrou na minha e consegui traduzi em um livro. Se eu te contar da leveza e da delicadeza que você sentirá, talvez, sob teus olhos, você duvidará… às vezes, até eu mesma duvido… Duvido porque o amor descrito em cada página seja único no sentido exato de ser e com certeza, de tudo que ficou, no posfácio do livro é a docilidade de uma carta de amor ou uma colcha de retalhos que vai aconchegar seu coração.

Trago as coisas que ela gostava. A avelã, que sirvo com chá de hortelã. O cheiro que invade o
espaço e a folha da cerejeira, já que flor mesmo, aqui, não deu.
Uso em alguns casos a terapia do desapego e descarto.
São os retalhos que não servem mais. Respiro aliviada.

O livro já está a venda aqui e o lançamento será no próximo sábado, dia 27/11/2021, às 19hs – horário de Brasília – em uma live no Instagram da Scenarium.

Mariana Gouveia
Colcha de Retalhos
Scenarium Livros Artesanais
Fotografia: Lunna Guedes

Ao ler o meu livro você vai encontrar:

Fotografia: Lunna Guedes

Primeiro, o cheiro… que talvez seus sentidos te levem a pensar em flores de cerejeiras – ou sakuras, como dizia Kaori – e claro que é apenas uma sugestão minha, para que você pense nas cerejeiras, na certeza de que você encontrará sonoridade, gratidão e amor nas páginas de Colcha de Retalhos.

Colcha de Retalhos se trata de uma história de amor. Na edição de Lunna Guedes – maravilhosa! – o amor se transformou na costura, em forma de quadros e os capítulos uma colcha, onde a emoção predomina.

As ilustrações de Carly Ca traz ainda mais sensibilidade para um livro já tão sensível e delicado. Os números, em homenagem a Seiko e Kaori trazem acima da página a tradução em japonês.

Então, para você que adquirir Colcha de Retalhos, digo que você vai se emocionar, se deliciar e andar de mãos dadas comigo nessa história linda de amor.

Mariana Gouveia
Colcha de Retalhos
Scenarium Livros Artesanais

O lançamento acontecerá em uma live, no Instagram da Scenarium, no dia 27/11/2021, às 19hs – horário de Brasília.
Se desejar adquirir o livro, o caminho é aqui