Das rotinas

Polaroid

Roubei os momentos instantâneos do dia em
que te encontrei e escrevi cartas sobre isso…
A voz rouca a suspirar vontades
A carta lida como se não tivesse sido entregue.
Na janela, a moldura escondida com o teu nome rabiscado.
Mais de mil vezes desenhei um coração e apaguei…
E o teu olhar ainda mora em mim e a estrofe do
poema morre de solidão em dias que nunca terminam…

Mariana Gouveia
Coletivo Mosaicum
Scenarium Livros Artesanais

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Cartas à Gilka

Da última vez em que te escrevi… a aldeia estava em fogo. Havia muito cinza e tentávamos salvar animais e plantações. Muita coisa mudou desde então. A aldeia reagiu e hoje, tudo floresce. Até minha ligação com a aldeia mudou. Ficou restrita ao simples acompanhamento através de amigos. Mas o laço será para sempre.

Scenarium

Gilka Machado

biografia

Mariana Gouveia

Carta à Gilka Machado

Obdulio Nuñes Ortega

A Poeta que amava o amor

Gilka Machado

“Buscar um companheiro e encontrar um senhor”

…escreveu Gilka Machado no poema: Ser Mulher

Gilka Machado era diferente… Mulher. Negra. Pobre. Viúva… e Poeta! Aos 26 anos — em 1919 — causou alvoroço com os seus livros Cristais Partidos e Estados de Alma… que exibiam poemas banhados por uma sensualidade capaz de fazer ferver os sulcos da mais recatada aluna do Sacré-Coeur.
Não contente em pertencer à roda da bela Eugênia Moreyra — uma jornalista que fumava charuto, dizia palavrões e contava piadas escandalosas —, Gilka era amazona, nadava e praticava remo nas águas do Flamengo.

como seria possível conciliar o espírito das senhoras de boa sociedade com o espírito…

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Das palavras das cartas · via lunar

Ignoramos ser no horror, que forjamos nossa mortalha.

Bambina mia,

Quando me fez o convite para a próxima viagem, não pensei duas vezes… sabe aquele instante em que a pessoa te pega pela mão e te puxa levando por histórias, caminhos, ruas e praças? Foi assim que me senti. Adoro quando você me leva pelos seus caminhos, pelas suas ruas, pelas suas praças e feiras.

Adoro quando me mostra as folhas que você encontra por aí. Adoro ainda mais quando sua história se mistura com a minha. E cá estou eu, no quintal enquanto a lua cheia surge imensa logo depois do muro. Você sabe que sou fascinada pela lua e ontem aconteceu a lua de “morango”. Uma super lua que caminhou lentamente no céu. Fiquei horas com a câmera em punho registrando – e ainda estou – o movimento dela. Ora entre nuvens, ora em um céu forrado de estrelas. Ouvi Bethania e vi a lua se banhando em um balde aqui.

Me vi embalada pelas lembranças. Já te contei tantos causos do meu pai e de como ele nos envolvia em poesia, talvez até sem saber. Meu pai banhava a lua cheia… – te contei isso hoje – e guardava a água em potes de barro ou moringas. Servia para curar males da alma e do corpo. Descobri que sua nonna também e quando descobri isso meu cuore acelerou. Nossas falas foram se entrelaçando e como sempre, você está sempre na minha frente. Quando eu vivo as horas, você já viveu. Mesmo você sendo minha bambina, é como se estivesse um tempo a frente do meu… o meu espelho reflete em tantas coisas que você já viveu.

Você precisa do elemento urbano para existir… já eu, preciso do lúdico, dessas coisas que as memórias me trazem. Já tenho tantas suas guardadas aqui. Ainda me lembro de alguns edifícios com seus nomes enquanto um ônibus nos levava pelas ruas do seu lugar. Mas também tenho nas memórias coisas de sua vida em que eu nunca estive e senti-me lá. Eu seria capaz de atravessar o oceano agora e ver a lua sobre tua cidade… e mesmo sem poder fazer isso, parece que já fiz… entende isso?

A lua segue seu curso, bambina e consigo ver as estrelas sendo apenas acompanhantes desse movimento lunar. Parece que vi um pássaro noturno voar aqui e lembrei-me de um poema de Matilde Campilho, que gosto:

“Li sobre pássaros e passei a saber que os pássaros medem a distância em unidades de corpo e não em metros: a densidade de cada corpo não importa, o que importa é a distância entre eles. Ainda assim me perguntei muitas noites sobre a qual seria a medida de uma asa”

O poema me lembrou coisas que conversamos… será que a asa é essa sintonia que nos liga? Ou seria a medida dela seria esse convite aceito para continuar a viagem com você? Para responder a sua pergunta digo: vou sempre, bambina mia… com você, vou até a lua.

Bacio,
Mariana Gouveia

Sete Luas · via lunar

Super Lua de Morango

Primeira Super Lua do ano. Cuiabá, 14 de Junho de 2022

Pesca a lua de noite, no céu.
Em noite de lua cheia,
a pescaria flui para além dos olhos.

Tem nos olhos a espera gravada.
A vida toda descrita nas linhas das mãos.

A mulher que lê a sorte disse que vai chover amanhã.
Aconteceu o eclipse solar em algum lugar do mundo.
Tudo era obra do acaso perante as estrelas.
Etérea a vida feita de amor e de lua.

Mariana Gouveia
Sete Luas
Scenarium Livros Artesanais
Das palavras das cartas

Carta para Antônio.

Antônio, meu amor,

Muitas vezes, eu quis chamar você assim e mentalmente já fiz inúmeras vezes. Queria que soubesse que quando descobri que você crescia dentro de mim, a minha vida mudou completamente. Descobri que eu não seria mais sozinha e mais tarde descobri que eu estava enganada. A solidão de ser mãe é muito mais doída do qualquer outra.
Os meses foram passando e você antecipou sua vinda… Tudo foi tão rápido e ao mesmo tempo, tudo tão lento. Eu ouvi seu choro ecoar na sala de operação e logo depois, o silêncio.

Hoje seria seu aniversário e também é registrado em um documento como o dia de sua partida. Você viveu poucas horas fora de mim e deixou meu coração faltando uma parte. Como eu conto esses 38 anos de ausência? Como eu falo desses anos que não te vivi?

Sai do hospital sem você, com meus braços vazios e apenas com a lembrança de seu rosto na memória. Conheci outras mães que viveram a mesma situação que a minha e isso me trouxe consolo em alguns momentos. Eu era mãe de um filho que não veio para casa

Sabe, meu filho, de vez em quando me pego pensando com que você pareceria e o que estaria fazendo. Olho na rua para algumas pessoas e penso que poderia ser você. Que time você torceria, qual música te tocaria no coração e como seria você apaixonado… Essas coisas me fazem sentir você perto e assim sigo meu sentimento de mãe.

Queria que soubesse que você foi muito amado e aguardado e mesmo não tendo podido viver muito, as poucas horas que tive você em meus braços me fez especial, no sentido de ser mãe.

Hoje, eu quis falar com você e dizer que de uma maneira ou de outra fizemos diferença na vida um do outro. Não sei quanto tempo é possível essa espera, mas sei que um dia irei te abraçar e completar essa parte do meu coração que está com você.

Te amo infinitamente,

Mariana Gouveia

Efeito borboleta

Fazia a magia acontecer,

Era humano
Alice

Começou a escrever a história pelas mãos dele,
– as mesmas que arrancam as ervas do jardim –
as que cuidam do jantar,
me levanta quando acontece dia como esse.

Calçou-me os sapatos e riu.
Brincou com as bolinhas da roupa.
Perguntou sobre a estação.
Colheu as amoras.
Quis receita de geleias.

Cantou desajeitado na sorte da palavra.
Sempre era o lugar daqui.

Ligou o rádio.
Me olhou com olhos de serenata.
A intimidade contemplada.

Desafiou-me ao riso.
Falou da geografia das horas.
– O tempo é o sinal de tudo –
tudo passa.

Mostrou-me o jardim.
Era ali a direção da cura.
Fui.

Mariana Gouveia

Mariana Gouveia

Da autonomia dos voos…

Havia um menino que criou asa, virou ave,
e com ele a ternura espalhada.
O reggae no canto e havia um turbilhão a povoar seu sonho.
Clamava pela vida – e nas poesias a encontrava – nas letras das canções, ele vivia.
O menino buscava por riso e essa aventura despeitada de viver.
Cabia nas promessas de paz enquanto travava uma guerra pela liberdade sem medidas. Não se mediu. Sorriu. Voou – o menino – em um dia onde o mês avançava nas horas a vontade plena de esperança.
Se via em qualquer asa, em qualquer pouso… se via vivo em qualquer espaço.
Era assim o menino, que ainda sendo meu, foi do céu.
Foi de ave, foi de pouso e se viu além.

Mariana Gouveia

Mariana Gouveia

O futuro demorou dentro dos dias…

A carta fora escrito no tempo do passado. As flores se preparavam para o fruto da estação. O céu tinha cores dentro dos olhos dela e a gente se despedia dos dias.

Ela falava de outro país e das ruas em que andou em peregrinação. Eu, dos insetos diferentes que surgiram no meu lugar.

Ela passava por um inverno castigante, lareira, vinhos… ruas com neve e fogueiras sem luar. Eu, os chás frios na madrugada quente, o calor a arder a pele e a alma.

Escrevia-me aos pés da torre famosa e eu, do meu quintal simples de todo dia. Um universo de distância nos separavam e nunca estivemos tão juntas como se as mãos pudesse tocar.

Perguntava das árvores que quase tocavam o céu dentro do quintal que ela deixara e eu dos cheiros das flores de lá.

Inventei orquídeas novas para ela que nunca existiram – só para ver o brilho nos olhos cheios de expectativas – e ela me dizia sobre o perfume da laranjeira no meu quintal onde a joaninha se aninhava.

Eu, era a menina laranja para além dos dias e ela a moça lilás que foi colher futuro. O futuro demorou dentro dos dias e quando ela voltou já não havia mais tempo.

Deu-me a moça subversiva e revolucionária dos poemas e apresentou-me o paraíso com nome de filtro de cor.

A vi dentro do sonho que tive e brilhava lindamente dentro da minha poesia.

Mariana Gouveia
das palavras das cartas
Ph: Ekaterina Ignatova 

Laura Makabresku · Suzana Martins

Olhava-te ao longe,

e guardava as minhas platonices dentro dos abraços e de algumas palavras que voavam no papel.

Guardo-te dentro de mim e nos versos de agora que lembram o toque dos teus lábios.

Guardo-te em mim, dentro do mais singelo pulsar, e revelo-me por inteira transbordando vontades do meu sentir.

Guardo-te no melhor de mim.

©Suzana Martins
© Laura Makabresku

6 on 6 · Mariana Gouveia

6 on 6 – 3×4

Exato
De fato,
o corpo briga,
a vontade chega.
Retrato,
de 3×4
na semana inteira.


Quando revirei o baú de retratos as carteirinhas com os retratos 3×4 feitos para os documentos trouxe para o momento as memórias antigas. Junto delas, os monóculos que trazem lembranças de um tempo que não voltam mais.

Desde a morte de meu avô paterno minha mãe vivia sempre de luto. As fotos – tão poucas – que restam dela, não difere tanto uma da outra. Mesmo quando precisava de fotos para algum documento, lá estava ela e seu vestido preto. Ela só veio tirar o luto um mês antes de sua morte. Foi quando vestiu o vestido florido que ela mesmo fez.

Algumas fotos arrancam risos por aqui e muitas vezes me pergunto quais os sonhos que povoava a cabeça daquela menina-mulher? A foto acima era para o crachá da emissora de rádio e naquele tempo eu só queria usar o microfone para falar de poesia e canções.

Com o passar do tempo os cabelos foram modificando e os sonhos também. Mas a arte sempre presente de alguma maneira e as borboletas também.

O baú, além de fotos antigas, guarda também momentos. O filho tão menino ainda, na foto que o colocava como cidadão do mundo no primeiro documento.

Para tão logo depois – como o tempo passa rápido dentro dos dias – ser senhor de si e sair à procura de seu lugar.

As fotos desbotadas mostram os dias dentro de nossas vidas. Os monóculos guardam memórias. O casamento de meus pais. Eu, a segunda na foto, em cima de uma cadeira. A mãe e o olho de luto nesse dia em que a vida se perdeu. O baú hoje, trouxe apenas saudades.

Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6 – Scenarium Livros Artesanais
Participam desse projeto:
Obdúlio Nunes OrtegaRoseli PedrosoLunna Guedes