Das palavras das cartas · infinitamente · Mariana Gouveia

Ao ocaso de uma noite que amarelou a dor.

O ponto de partida foi transformar tudo num quadrado redondo e dali escapar,
pelo tecto.
Talvez um dia, o estado das coisas revele outras formas, sem fronteiras ou equívocos, cumprida na distinta fragilidade de viver.

acp

Francisca,

Eu nunca imaginei que você me pediria uma carta. Uma carta diferente das tantas outras sob encomenda que fiz para você. Nem como presenciaria a fragilidade da vida em seus olhos. Mas, antes de escrever qualquer outra palavra eu sou puro agradecer.

Não te escrevi ontem porque foi uma noite de vento entrando pelas frestas da janela e dentro de mim as memórias tem sido constantes. É quase como se um filme passasse na cabeça. Então, fiquei repetindo: amanhã eu escrevo-te e seu olho pedindo urgência… E só hoje resolvi te falar da palavras cheias de inteirezas – frase tua – e de como a gente quer que os dias durem como se fossem domingos. Desses que não passam nunca e a gente fica pedindo só mais uns minutos para que as palavras ganhem a ordem de viver para dentro.

Com você, eu pude viver tantas coisas que parecem cena de filmes… Frases que trocávamos e que eu escrevia em cartas para sua mãe. E acho que foi assim que te conheci. Quando mudei para sua rua, alguém havia dito que eu escrevia cartas… e ouvi seu sotaque a me chamar no meu portão: mulher, quero que tu escrevas uma carta para mainha. A carta era sempre escrita no último dia de cada mês. Mainha – a tua – morava no Crateus e era em um lugar chamado Saudade que ela recebia suas palavras escritas com minhas letras. E hoje, o último dia de agosto, cá estou eu a te escrever… misturando erros que só a gente sabe o que significa.

Posso dizer que me apaixonei primeiro pelo seu sotaque… depois, pela agilidade do abraço. Seus braços eram como se fossem garras que nos prendiam e protegiam. Já estive muitas vezes segura dentro deles.

Depois, nossos filhos se tornaram amigos, cresceram juntos e foram tantas cartas tuas para alguém que tu amava e eu me sentia a Fernanda Montenegro, no filme Central do Brasil… Depois vieram as miçangas, o crochê… as tardes regadas com suas risadas em meu quintal.

Tu lembra das tempestades que assistimos juntas, na varanda da tua casa? Do bolo de mandioca no lanche da tarde? Dos desenhos que pintamos no muro do seu quintal? E de repente, tu muda de bairro e as coisas diárias se tornam semanais, depois, mensais… Mas as cartas para tua mainha ainda eram escritas, onde você retratava sua rotina e as dos seus filhos… e de como a palavra saudade era repetida diversas vezes… A minha letra escrevia seu amor de filha e os rasgos na memória de quem lembrava do sertão onde viveu… até o dia em que sua mainha se foi…

Depois disso, apenas as memórias na bagagem como quem carrega sua dor e as dores de outras pessoas. E quando você volta, é como se nunca tivesse partido. Habituamos instantaneamente com as mesmas rotinas de antes, os mesmos risos e os olhares cúmplices. A casa 37 da rua de cima era meu refúgio. O lugar onde eu podia chorar livremente ou rir até doer a barriga.

Hoje, seu endereço nem cabe na minha alma. As cortinas que bordei balançando em sua janela ainda borrada da última pintura, que prometemos consertar e nunca tivemos tempo para isso, as flores do quiabo na pequena horta lembrando que ainda falta fazer a receita preferida e o amarelo desbotando quando chega o fim do dia, fazendo nascer um pequeno fruto… Cada vez que me despeço de ti é essa carta continuada que prometo ler amanhã… o som da música que tu gosta vem comigo rua afora… o chão sendo testemunha de nossa história contada nas pedrinhas que piso.

Ainda faltam algumas coisas para fazermos juntas enquanto seu filho não chega. Ainda não te contei o final do livro que escrevi e nem de como vai terminar a história do que estou escrevendo. As coisas nunca mais serão as mesmas depois que você se for, e amanhã, prometo te levar meu melhor sorriso e te dizer alguma frase antiga que surtia efeito… como é que era? Aquela que se multiplicava quase sempre no mesmo diálogo e te arrancava gargalhadas e tu dizia: eita, mulher… só tu mesmo!
Amanhã, leio essa carta para ler em seus olhos a sorte que tenho de estar assim com você, nesse fio de esperança de que a sua partida seja feita de levezas e inteirezas.

Te amo muito,

Mariana Gouveia
Agosto é o mês de Beda e se encerra hoje.
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega  – Mãe Literatura – 
Suzana Martins – Roseli Pedroso

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7 comentários em “Ao ocaso de uma noite que amarelou a dor.

  1. As vezes. as cartas ficam pelo caminho, nem sempre os meus olhos acompanham as linhas. Parei no sotaque e fui para outra realidade. Demorei a voltar e, de repente, estava lendo a última frase. Precisei voltar ao começo e pensar na pessoa que pediu uma carta e parei de novo… respirei fundo e pensei no tempo entre uma vida e outra, o que surgiu, cresceu, escapou, faltou e na chuva que cai lá fora enquanto o bolo assa. Enfim, é pau, é pedra, é o fim do caminho…

    Curtido por 1 pessoa

    1. Você sabe o desfecho da carta e ainda bem que escrevi e ainda bem que vivi tudo isso. Eu lido bem com a ‘perda’ no dia seguinte… E ainda bem…
      Eu sou puro agradecer. Por ter tido ela em minha vida e por ter você.

      “É um passo, é uma ponte,
      é um sapo, é uma rã
      É um resto de mato
      na luz da manhã”…
      ❤️

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