Das palavras das cartas · infinitamente · Mariana Gouveia

É o inesperado que muda nossas vidas.

Ph: Ziqian Liu

Sayuri, minha flor

Lembrei-me de que nunca te escrevi uma carta. As coisas que eu quis te dizer foi sempre nas mensagens trocadas, nos comentários em comum e na leveza do carinho que temos uma com a outra.

Mas hoje, eu quis falar com você. Em outros anos, a gente se falava horas por telefone e eu derramava minha admiração por você e mesmo quando não dava – como hoje – a gente se comunicava em pensamentos.

Esse dia é seu, Sayuri e eu queria escrever aqui seu nome lindo – o de verdade – que você precisa esconder para se proteger. Muitas vezes, pronunciei seu nome para o vento e com ele eu repetia sobre sua coragem. Poucas vezes eu vi uma mulher com tamanha coragem, mesmo cheia de medo. E tantas vezes eu quis te proteger. Queria te trazer para perto de mim e cuidar para que todo o sofrimento e lágrimas ficassem para trás.

Quando, por algum motivo, eu passo por alguma dificuldade e quero me abater, me lembro de você. De sua fala mansa e encorajadora. E fico tão grata ao universo por tê-la colocado em minha vida há mais de uma década. E não ouso fraquejar, porque de alguma maneira, te vejo tão valente diante de tantos obstáculos.

Hoje, mais uma vez, te busco dentro de um abraço imaginário e lembro de sua risada gostosa… e de como enfrentou o inesperado e transformou ele em lugar bonito de viver.

Felicidades todos os dias, para que o inesperado – roubei sua frase para dar título a essa carta – de fato, tenha transformado sua vida num lugar melhor., para que ninguém mais no mundo possa te definir em alguma outra coisa que não seja amor.

Te amo,
Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · infinitamente · Mariana Gouveia

só você sabia quantas flores eu usava


foi assim que você pensou que eu ficaria no mundo,
usando flores em meu cabelo negro,
sempre escondidas no emaranhado dos cachos
sempre escondidas no emaranhado do caos
de minha cabeça negra.
só você sabia quantas flores eu usava
porque agora eu já sei
que você dedicava as noites
à contagem.


Matilde Campilho

Eudes,

de novo eu te escrevo no seu dia e suspiro a imaginar nossa história. Será que onde você está se comemora aniversário? Será que o aniversário aí é igual aqui? Será que te dão presentes, flores ou outra coisa que seja importante aí?

Faço essas perguntas todas porque me lembro como você gostava do seu dia e de como resmungou quando escondi o presente até quase o momento em que ia me despedir naquele janeiro de antes. Todos os anos você me pedia a toalha bordada. E todos os anos eu bordava nas cores que você escolhia.

Hoje, conversei com Edi, e choramos juntos em uma distância tão longe e tão perto. Falei que queria contar a ele nossas histórias e sei que um dia isso acontecerá. Engraçado como o Edi se tornou mais próximo de mim do que Junior e Marcelo, depois que você se foi.

A gente fala sobre você, e às vezes, eu conto coisas que vivemos juntas. Hoje, me lembrei do physalis, mas nem falei com ele sobre isso – a frutinha da minha infância – e que você cometeu a loucura de trazer para mim dos Estados Unidos. Um pote cheio, escondido entre as roupas, na mala. É que você achou o physalis de lá diferente do meu e quis me encantar.

Eu fiquei boba com sua coragem e ficamos imaginando o que aconteceria se fosse descoberto o tal pote, no aeroporto. com as frutas ainda maduras e que secaram aqui. Foi a prova de amizade mais linda que ganhei e o pé que nasceu aqui ainda floresce e dá frutos. Cuido dele como se fosse um filho.

E assim, vou te mantendo nas lembranças e no coração. E estando perto de seus filhos te alcanço mais perto dentro do amor.

Feliz Aniversário!
Te amo sempre e infinito ♡

Mariana Gouveia

infinitamente · Mariana Gouveia · Todas as ruas

Qual é o presente mais memorável que você recebeu?

Ganhara a caixinha de música da madrinha que vinha vez ou outra para visitas. Dava a bênção. Olhava encantada para o papel de presente que sempre tinha coraçõezinhos ou borboletas – um dia ouviu a madrinha dizer à mãe que ela gostava mais da embalagem do que do presente – por isso na hora que viu a caixinha de música mostrou alegria, mais do que sentira. Onde se viu uma caixinha de música sem a bailarina?

As borboletas sim, pareciam saltar do papel como se dançassem ao menor toque na corda da caixinha. O som que saia da caixa era como se fosse um empréstimo da natureza e adoçava suas vontades da vida. Podia ver a música nas folhas, nas aves, no rumor do vento… não importa onde estivesse podia ouvir qualquer música. E podia dançar feita bailarina.

Ainda hoje, depois de tanto tempo e com a caixinha muda guardada na mala azul, já sem os cadeados de antes, ainda pode ouvir a música.
A madrinha se foi há tempos. Quando se transformou em menina-moça-mulher a madrinha já não vinha mais. Foi se distanciando com o tempo e o papel foi desbotando com o passar dos dias. E a música da caixa já parecia ter vida própria e nem precisava mais da caixa pra ser.

Como todos perdem o sabor da infância, ela também perdera numa rua qualquer de uma cidadezinha.
Vez ou outra percorre as ruas em sonhos. Grita. Relembra o primo que dizia que a sina dela era ficar louca a olhar para o céu em noites de lua cheia.

Quando a lua surge, às vezes, teme ainda a profecia do primo. Porém, hoje o que mais teme é a saudade que sente.

Mariana Gouveia
A menina da mala azul que tinha sonhos cor de rosa

Das palavras das cartas · infinitamente · Mariana Gouveia

Das receitas de fuxicos que não inventei

Haverá para os dias sem memória outro nome que não seja morte?
Morte das coisas limpas, leves:

manhã rente às colinas, a luz do corpo levada aos lábios,
os primeiros lilases do jardim. 
Haverá outro nome para o lugar onde não há lembrança de ti?

Eugénio Andrade

Eudes,

tenho tantas coisas para te contar, tantas perguntas para fazer, afinal de contas são dois anos que não atravesso mais a ponte em direção a sua casa. Todos os sábados eu já tinha uma rotina pronta, um mapa traçado das minhas horas com você. Devo te dizer que você bagunçou minha agenda e aquela coisa que a gente dizia que depois de um ano que uma morresse, a outra já estaria vivendo sem lembrar uma da outra… é mentira! Eu ainda me pego organizando meus dias deixando os sábados livres para você.

Também me pego discando seu número para te ligar para saber sobre artesanatos, livros para ler e até sobre os seus “meninos”. Você teria o maior orgulho deles! Embora tenha sido difícil para todos, eles estão fortes – a vida continua, bebê! – tu me diria. Eles morrem de saudades todos os dias, mas continuam seguindo em frente.

Às vezes, fico me perguntando se você escuta quando converso com você. A gente dividiu tanta coisa juntas. Os fuxicos, as caixas, as bonecas, as receitas de quiabo… Você me surpreendia sempre com meu prato favorito.

Nesses dois anos, Eudes, eu não atravessei mais a ponte e nem fui aos lugares que íamos juntas. Tem gente que diz que preciso ultrapassar isso, mas não é que eu não queira me lembrar de você… é que em todos os lugares que fomos juntas, sem você, não tem mais graça. A moça da loja de tecidos me ligou para dizer que havia chegado novidades e pediu para eu te avisar. Quando dei por mim, estava dizendo que avisaria.

Prometi ao Edi que escreveria nossa história e de como me fez apaixonar por você… Fiquei lembrando nossos momentos e as músicas que ouvimos nas madrugadas sem sono, ou com dores. Lembrei-me da chuva, das brigas, dos seus resmungos, dos seus abraços e de como sua risada ainda ecoa aqui.

Será se – você vai entender a frase errada – eu gritar bem alto e olhar o céu você conseguirá me ouvir? Você era tão minha ao primeiro toque do celular. Você era tão constante nas minhas ideias inventadas, nos artesanatos, nas doações. Mas as frases do fuxico foi você que inventou.

Teve um dia desses que olhei para o céu e vi todos os fuxicos que você disse que faria. No céu, você usaria cambraia fina e estenderia uma colcha em algumas manhãs para me aquecer de amor e foi isso que senti. Senti um amor tão lindo me aquecer feito de nuvens que você, de alguma maneira, transformou em fuxicos, só para deixar meu coração mais quentinho.

Te amo infinito!
Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · infinitamente · Mariana Gouveia

O filme na máquina analógica

Filho,

quando vi seu story sobre o filme na máquina busquei minha caixa de lembranças, fotos e histórias.
Eu ainda tenho uma máquina dessas, onde você colocava o filme e tirava as fotos – é verdade que metade não prestava – e levava na loja de fotos para revelar. A maioria das lojas eram da @kodak. Seu pai me deu a máquina logo que engravidei de você. Queria guardar seus momentos da infância. Lembro-me que havia rolos em preto e branco e coloridos.


O seu álbum em scrapbook foi feito com fotos que eu mesma tirei nessa máquina.
Encontrei alguns negativos da época. Eu já era apaixonada por fotografias. Registrar momentos seus e acompanhar seu crescimento. E quando algum parente aparecia para visitas o álbum era exposto na mesa.

Depois, a tecnologia avançou e vieram as máquinas digitais. A máquina Star275 ficou na caixa de lembranças, junto com seu álbum que registraram momentos de sua infância e os negativos com filmes que não vingaram.
Hoje, seus olhos alcançam a beleza do lugar onde vive tenho certeza de que muitas dessas belezas ficarão em suas lembranças como se fossem fotografias.

Te amo muito ❤️
Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · infinitamente · Mariana Gouveia

Até que cada última estrela da galáxia morra.

Leonor,

Eu não cumpri a promessa de não te escrever mais. Eu estava limpando o jardim, tirando as ervas daninhas e o vento fez o pé de menta espalhar seu aroma no quintal. Foi quando lembrei de você – de novo – e quis te escrever. Até fiz um chá. Com ritual e tudo. Lembrei -me que plantei esse pé de menta enquanto você fotograva meu riso despetalando a flor.

Mas eu deixei a carta em suspenso. Depois, li, reli e reli de novo. Quando percebi, o dia já tinha ido embora. A lua em seu estado suspenso já era vírgula no céu e Vênus – quase um piercing, de tão perto – no negrume da noite.

Foi aí que pensei, Leonor. Vou te escrever aos domingos. Ou em dias de chuva – aqui, em alguns meses, não chove muito mesmo – ou até que cada última estrela da galáxia morra.

Isso pode durar séculos, Leonor.

Esses mesmos séculos que a gente já vivemos antes, quando as estrelas ainda nem tinham nascido. Porque eu já te amava de muito antes. De todos os tempos e acho que vou te amar sempre… Até o fim dos séculos e séculos, amém. 

Por isso, eu vou continuar com as cartas, Leonor, mesmo que não as leiam.  De alguma forma, o universo te contará.

Porque eu quero falar com você, ainda que esse seu silêncio nunca ultrapasse a barreira do som. Mesmo que você nunca leia nenhuma das cartas. As que enviei, as que embolei, as que nunca escrevi. As transformei em notas mentais, Leonor e as que ainda vou escrever.

Falar com você, é esse monólogo de saudades. Um roteiro às avessas onde eu lembro da chuva onde você dançou.

Da escada onde caí, das madrugadas contando as estrelas no telhado. Do cheiro de café sendo coado. Das mãos estendidas sobre a mesa da cozinha enquanto preparo o café da manhã.

Não é uma disputa de amor mais bonito, mas nenhuma pessoa – mesmo tendo formação profissional em psicologia ou sei lá o que – pode dizer que meu amor é mais feio que o seu. Isso, eu vou deixar escrito em cartas, Leonor, para que fique registrado para todo o sempre.

Mariana Gouveia

Do lado de fora · infinitamente

*Ikigai

Ikigai é um termo japonês criado para dizer a razão de existir.
Os japoneses acreditam que todo mundo nasce com um dom.
Uma coisa que você sabe fazer. Seu potencial.
Você descobre que você sabe fazer aquilo. E que você gosta de fazer.
Isso se transforma em uma paixão.
E se você se dedica muito à sua paixão e você desenvolve uma forma
de ganhar dinheiro. Isso se torna uma profissão.
Mas, você tem que encontrar uma forma de fazer com que o mundo precise do que você faz, ou pelo menos, uma grande parte dele.
Essa é sua missão.
Quando você descobre a sua missão você descobre a sua razão de existir.

Ken Mogi



1992.
Você encontra o Botafogo. Não é clichê. Você não escolheu.

1999.
A todo custo você tenta escrever. Mas, é impossível, talvez devesse fazer outra coisa. Com 11 anos você descobre que fracassou pra isso.

2003.
15 anos. Você sonha com o Rio de Janeiro. Quer sair, desbravar o mundo. Tá no colégio, as coisas na ponta do lápis. Um sonho, de criança né? Como eu vou parar no Rio de Janeiro? Talvez de férias. Talvez indo de ônibus. Nunca vou pisar em um avião

2008.
20 anos. Você num ônibus e sai da casa dos pais. Deixa pra trás a família, o conforto, a paz. Você não sabe o que vai rolar. Todos esperam que você falhe.

2009.
Você faz do poker teu sustento, decide suas horas, aprende a desafiar os outros, você contra os outros. Você contra você.

2009.
Sala fechada. Entrevista. Você descobre que seu próximo salário é de R$ 465,00. Vai trabalhar debaixo do sol, dia todo. Cidade nova, Rio de Janeiro. Seu aluguel é R$ 250,00. E você vai. E chega em casa sem conseguir respirar, o cansaço te leva tudo.

2012 – 2016.
Você não entra no avião uma vez, mas várias. Infinitas vezes. Aprende a voar. Não, esquece, é figura de linguagem, não pula de canto algum não. você realmente sai do chão e conhece lugares, Curitiba, São Paulo, Porto Seguro, Brasília, você só descobre que tem o mundo. Pessoas.

2016.
4 anos em Cuiabá, após um retorno inesperado. demitido. Um erro, mas será que cometi ele?

2018.
De volta ao Rio. 6 anos longe. Mas tua alma não sai daqui. Teu coração se encanta com o ritmo, o caos, a bagunça, o trem lotado. (Mas você não precisa andar de trem lotado todo dia).

2021.
Sozinho. De frente pra igreja, no frio, na doença, na luta, você e você mesmo. As tatuagens surgem, o brinco, você percebe que ainda não confia em você mesmo.

2022.
Não consegue enxergar de onde veio. Da luta. De quanto errou, achando que podia ser perfeccionista, mas só aprendeu quando errou. Você não percebe que o sonho de voar, que usar o baralho pra você, que se mudar, que morar sozinho, eram teus objetivos mais impossíveis. E ainda acha que não pode dar o próximo passo.

30/11/2022.
Você percebe que tá só começando e vai fazer muito mais.

Lauro Gouveia
Rio de Janeiro

Das palavras das cartas · infinitamente · Lunna Guedes · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

Queria ver se chegava por extenso, ao contrário

força e pulsação e graça,
isto é: a luz, de dentro,
despedaçando tudo,
e concentrada:
estrela.
Herberto Hélder

Lunna, bambina mia, amore… 

Não importa qual nome te chamo ou em qual letra me declaro. Cursiva? News time? De lápis? Caneta?Eu te pinto com palavras. Em cores minhas-tuas-nossas. Muitas vezes, começa no azul do meu céu, com minhas manhãs calorentas… Em outras, no ocre das folhas que encontra em seu caminho, no verde da árvore – já minha, de estimação – que você me entrega na visão de sua janela.

Eu te escrevo amor, bambina e te escrevo por extenso, gigante dentro de mim. Te escrevo lunar – Lunna tu – em canções onde repito e repito seu nome.
Te escrevo força. Da pessoa que se mostra no abraço.  Na tempestade que se anuncia no meu céu, nos trovões que transpassa a alma e o cuore.

Te escrevo pulsação. Do cuore. E no pulsar das palavras te descubro missiva. Dessa de envelope único, de entrega imensa quando ama. De palavras que atravessam tempos e se esparramam em cadernos.

E assim, te leio. Única! Absoluta. 
Tão menina, às vezes, tão mulher em tantas. 

Nas minhas manhãs, a sua risada é sinfonia que ouço ao som do vento no meu quintal. Mas às vezes, é apenas o aconchego de uma quietude quando te sei aí, dentro dos seus silêncios.  Esse dia eu nem preciso marcar na folhinha. Ele é tão seu e por isso, minhas palavras te abraçam nesse ritual nosso.
Você é o poema que me alcança, você é a ligação de pessoas tão lindas para mim e io te voglio bene!

Auguri!
Bacio,
Mariana Gouveia
Projeto Blogvember – Scenarium Livros Artesanais
Participam juntos comigo: Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso Suzana Martins

Das palavras das cartas · infinitamente · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

Entalhadas nas nervuras do corpo

ser — semente — flor
 Nirlei Maria Oliveira, As estações

Flor,

lembra-se que eu te chamava assim e seu riso disfarçava o brilho no olho? Às vezes, acontece da gente se perder no meio do caminho. Uma vez, você disse que os atalhos é a melhor parte de uma viagem. E que de alguma forma, foi um atalho que nos ligou. Mas e o fim do caminho, flor?

Sabe, flor, nós fizemos das sementes, flores… essas coisas que o jardineiro cuida do jardim para ver os voos das borboletas. Você nem acreditava que elas pousavam em minhas mãos. Precisou atravessar um oceano inteiro para descobrir, que por acaso, o meu jardim é um borboletário e um portal para magias – isso foi você quem disse – e fatos extraordinários.

Lembra quando uma ave pernalta, típica do Pantanal veio pousar no telhado da vizinha e ficamos horas a fotografar as poses? Foi no dia da tempestade – quase particular para você – e o céu ficou quase cinza e você se encantou pela singularidade que as coisas aconteceram.

Foi naquele dia que o jardim virou poema e lemos Maria Teresa Horta em idiomas que sabiam sabor a mar. E eu acreditava que você era a maresia. Fiquei repetindo mantras como se fossem poesias e o vento da tempestade a te envolver como se você fosse a própria tempestade e o pássaro lá… no telhado e eu temendo os sinais de nunca mais.

Flor, quer café? O que você quer, flor? E o jardim se confundia com a palavra e a rosa se confundia com a pétala e a pele. Esse foi o dia em que caí da escada… eu poderia marcar cada um dos quinze dias como se fossem cem e chega finalmente o dia em que podemos denominar o fim… e alguém canta uma canção antiga como trilha sonora e as sementes começam a brotar.

E a avião ganha contornos de céu e para quem vai e quem fica o vão das coisas ficam como ponto final e o 3452703 e mais alguma coisa fica mudo. As cartas ficam registradas como recebidas e as respostas vagas – o meu amor era mais bonito que o seu… a especialista disse – e às vezes, por compaixão repetia a frase da canção de Caetano – de perto ninguém é normal – e foi quando comecei a contar até mil… até que você dissesse alguma coisa.

Depois, chegou as sementes em envelopes pardos sem endereço e plantei. As rosas e os cravos vingaram todos, mas a papoula só deu uma flor e morreu… foi quando a insônia veio morar aqui, inquilina da noite. Mas, sabe, flor, o que a noite me reserva em noites de insônia? As rosas com suas nervuras tatuam sombras em minhas pernas e eu flutuo. E todos os dias amanheço no jardim chamando seu nome.

Mariana Gouveia
Projeto Blogvember – Scenarium Livros Artesanais
Participam juntos comigo: Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso Suzana Martins

Das palavras das cartas · infinitamente · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

O mundo parou ali

onde dói a alma
e onde o silêncio é apenas aquele eco que invade
os meus ouvidos surdos

Suzana Martins
In Versos

Ana,

quando a gente define que o mundo para e que a gente não escuta mais as coisas bonitas? Quando eu esqueci a esquina que vira para sua rua? Dia desses eu esqueci e fui seguindo rua acima e quando percebi eu já era saudade na sua porta.

Eu descobri que o mundo parou ali… o pé de cerejeira que o moço que comprou a casa deixou por memória de nós duas deu um botão minúsculo em uma madrugada – e ele quase me ligou nesse dia – e a maria-sem-vergonha está coberta de flores. Eu nem sei como fui parar ali, Ana. Era apenas para fazer uma entrega de uma encomenda para além da rua de cima e quando percebi, já estava na porta quase soletrando seu nome, como eu fazia ao te chamar.

Por sua causa me tornei marítima, Ana e invado oceanos atrás de lembranças suas. Por sua causa, me tornei entendedora de astronomia. Capturo Marte em qualquer canto do céu. Leio em notícias que pode ter vida em Marte e eu já te vejo. Leio que Marte pode estar destruindo uma de suas luas e eu já imagino o que a coitada fez para te irritar. E o que você fez com as marés? Alguém disse que as marés estão incontroláveis em algum ponto do sul. E com o céu, Ana? O que você fez com o céu?

Eu vi o céu de madrugada e contei todas as estrelas que se encaminharam – quase como o Caminho de Santiago – para Marte… tão visível no céu e no meu coração. Só que, como eu disse, o mundo parou no poema da Suzana Martins e eu fico seguindo o rumo das marés…. envio sinais de que você ainda vive em mim e clamo saudades em seu idioma favorito.

Mas, quem disse que escuto, Ana? Devo reciclar as conchas? Devo redecorar as memórias e devo dizer que a vida além de Marte é só lúdica dentro de mim? Não me entenda mal… não é tão sofrido esse sentimento… ou até é. Mas, como eu te disse várias vezes, que algumas etapas eu nunca vivi e as que vivi, preservo como se fossem fósseis para serem guardados, para que todo mundo saiba que existiu,

E te confesso que para alguns sons que me levam até você, fiquei surda. Ignoro-os. Mas, na madrugada silente, quando ouço o vento ecoar nas folhas de árvores que você não viu brotar, é seu nome que escuto, quase em braile.

Mariana Gouveia
Projeto Blogvember – Scenarium Livros Artesanais
Participam juntos comigo: Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins
Ph: tumblr