— O branco que me atormenta

Nos últimos dias o branco tem me atormentado. O branco sobre o papel me fascina e são caminhos que percorro dentro da escrita. O branco que me atormenta é o branco na sociedade. O branco da minha cor e de uma grande parte da sociedade que só por ser branca já é privilegiada.

Nos últimos dias, li e ouvi muito sobre racismo, antirracismo, protestos, hashtags que se tornaram virais e cá estou eu falando sobre racismo, ou melhor, sobre o branco que me incomoda. O ponto que mais me impressionou diante de todos os conceitos e preconceitos levantados foi ouvir de pessoas que eu admirava que branco também sofre racismo. E se você pensa assim é porque não sabe o que é viver na pele de um negro. Nem eu.

Se eu te disser que sou entendida no assunto eu diria que sim e não. Meus netos são negros, a mãe deles é negra, e todos os dias têm de reforçar nas crianças a maneira de se comportar, de marcar presença, de não aceitar o racismo e o preconceito que são expostos a eles todos os dias. Gladys, minha neta, disse em uma conversa familiar que para que a família fosse perfeita, o ideal seria que Lauro, meu filho fosse preto também. Gladys tem sete anos e já sente na pele como é ser negra no Brasil.

Semana passada meu neto Romeu, teve uma aula sobre racismo, com uma professora branca. Ela abriu a discussão para os alunos falarem a respeito, darem sua opinião. A professora perguntou o que os alunos pensavam sobre as pessoas que são racistas e um aluno disse que: “ Devia ser um assunto que se resolva na conversa e não na violência e se não adiantar, deve-se respeitar a opinião dessa pessoa (racista). Porque devemos respeitar a “opinião” de quem pensa diferente da gente.” Romeu ficou indignado porque a professora concordou com esse aluno, a turma em sua maioria concordou também.

Não saberia dizer sobre o que é ser negro em nossa sociedade, e mesmo que fique indignada com tudo que leio e compartilhe da mesma dor de meus netos, ainda assim, meu conhecimento seria apenas parcial, porque para compreender realmente seria preciso sentir na pele e na alma. Não saberia falar sobre a exclusão, sobre ser barrada em qualquer lugar, sobre ser vigiada pela polícia ao virar a esquina. Sobre ser preta todos os dias nesse país de racistas. Tudo que posso é torcer para que cada vez menos eles sintam e sofram tanto o racismo no dia a dia. Eles tem o maior exemplo dentro de casa, que é a mãe presente, consciente e forte.

Ninguém admite que é racista. Todos comentam que “até tem amigos que são negros, que não tem preconceitos etc.” Ninguém nasce racista, a criança se forma ouvindo e tendo os pais como exemplo. Mas tem uma opção que todo mundo pode ser e não ter medo nenhum de admitir: antirracista. Se você não sabe o que fazer, basta mudar suas atitudes. *Ouça um negro, ouça! Não discuta com um negro se uma atitude foi racista ou não, escute! Não adianta bradar que o sistema é racista ou que o branco é mal entendido nessa questão e que o problema do Brasil é social, não racial. Mas você sabe que o silêncio do amigo dói tanto quanto a piada racista. Quero que meus netos andem na rua sem medo, quero meus netos fortes para terem a consciência de seus lugares na sociedade e nós precisamos de pretos fortes e de brancos desconstruídos e conscientes dos seus privilégios ou seremos apenas brancos reafirmando o antirracismo sendo racistas.

Mariana Gouveia
*imagem: Pinterest
*Agradecendo o apoio de Samantha Vargas, minha nora.