Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

Das coisas mais lindas que fiz parte!

Estrada para domingo é mais um projeto da @scenariumlivros como parte de Scenarium 8.
Daquelas lindezas que encantam minha alma, desde a capa, os autores, os textos e as ilustrações!!! Surpreendente e encantador!

Conto outra vez…
Como é tão bonita a rua de cima
enfeitada de flores….

Espiei mil vezes pelo vão do muro…
Alguém me disse – que é assim que a saudade se chama:
Devaneios…
E eu repito a palavra mil vezes em voz alta para ver se faz sentido…

Mariana Gouveia
Estrada para domingo
Scenarium Livros Artesanais

Mariana Gouveia · Projeto52 · Sandra Silva

A morte pulsa nas veias da existência e ata minha vida ao pulsar dos segundos.

Querida Sandra,

” (…) estar ao abrigo do fim do amor,
é a isso que eu chamo felicidade.”

Marguerite Duras

Hoje, eu quero falar com você… nem sei se sobre mim, se sobre dor, perdas e morte… mas, quero falar com você, com minhas palavras que te abraçam para além das imagens.

Devo dizer que senti uma certa inveja de sua dor… você perdeu uma referência feminina muito grande – nem sei bem se o termo é perder , porque a referência que ela te deixou está aí, latente e viva em você. Tão forte e tão sensível.

Eu sempre fui rodeada de mulheres fortes, valorosas… mulheres que de alguma forma foram faróis no meu caminhar, mas não tenho referências de minha avó materna. Para mim, ela era aquele desejo mais profundo, de busca de colo e aconchego… mas, não vivi isso. Cheguei mais perto disso com minha Bá – dona Fulô – a parteira que me trouxe ao mundo. Só que a avó – mãe de minha mãe – que conheci através das palavras dela surgiu diferente diante de meus olhos, já nos meus dezessete anos.

Ela era perfumada… coque bem feito com seus cabelos compridos e indiferente ao meu olhar de neta. Quando minha mãe se foi, dias depois, o que era indiferença se transformou em ignorância. Ela nos ignorava. Talvez, essa seja a pergunta que mais me acompanhou durante tantos anos – hoje, não mais: porquê? A casa dela ficava a três quadras da nossa, na mesma rua… E entendo que por termos morado longe dela boa parte dos anos, a intimidade não foi construída e juro que tentei… depois de um ano e pouco, desisti. Não pedi mais a mão para meu luto, nem colo, nem abraço. Passei a ignorar e foi assim que me libertei da vontade de viver ela.

Ela também já se foi há alguns anos e lembro-me que o sentimento que senti ao despedir-me dela foi a indiferença. Nunca tive um abraço, mesmo pedindo e nossa despedida foi uma leve oração. Eu não sinto falta de afeto das mulheres infinitas da minha vida… mas, juro, que por muito tempo, eu quis o afeto dela para ter a lembrança dele quando ela partisse. Não chorei, nem senti a previsão de falta… Por isso, a inveja desse seu sentimento de dor…

Não vou dizer para você superar… porque sei que a falta é muito além da presença física. O que vou te dizer é para que você teça suas lembranças dentro de todo afeto que você recebeu dela e ainda recebe da filha dela – sua mãe – em ritos de coragem para poder viver. A morte é essa faca que corta da gente pessoas que são nossas bases. A morte pulsa nas veias da existência e isso é inevitável e o que fica é a leveza do afeto, do abraço, das imagens que a gente vê todos os dias.

Quero encher seus olhos de imagens lindas todas as manhãs para que seu sorriso vibre pelas ruas da França, pelos campos de Portugal e pela vida afora junto com as lembranças de sua avó sob a benção atenta de sua mãe.

Quero que minha poesia te alcance na tonalidade dos dias e das manhãs em fusos diferentes e quando o buraco em seu coração doer de saudades que todas as lembranças do afeto dela sejam como o pousar da borboleta na flor, como se fosse o abraço dela.

Abraço carinhoso,
Mariana Gouveia
Projeto 52 – Scenarium Livros Artesanais
Participam desse projeto:
Obdúlio Ortega Lunna Guedes

Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

Carta à solidão

Em muitas noites a insônia habita o meu corpo e os olhos acompanham o desenrolar da madrugada que num estalar de dedos se dissolve e vira dia, manhã de sol e eu cambaleando pelos cômodos, arrastando o passo pelos cantos.

Quando isso acontece, tenho a impressão de que a solidão é uma presença, uma entidade. Figura gigantesca. Mas, se antes, você habitava as noites mornas, nos últimos dias, tenho sua companhia nas tardes, com as réstias de sol atravessando as cortinas e o vento bailando num tímido vai e vem. Sinto seu toque na pele e suspiros vazios. Percebo-te entre as paredes da sala e dentro das gavetas que vasculho em busca de memórias perdidas – cartas que não foram enviadas e algumas que nem escritas foram.

Eu nunca tive medo de viver só. Sempre soube aproveitar da minha companhia e entre sorver uma xícara de café e escrever, na realidade, nunca estive só. Os pássaros, s flores e as sombras do meu quintal preenchem lacunas-espaços – ocupam-me. Tu és esse vento que passeia pela casa, sopra as roupas no varal e provoca tumulto. É a mão que toca a minha e me lembra do meu lado de dentro.

Houve muitas tardes que o silêncio da casa era quase um alívio e escrever-te é como afirmar sua presença pelos cantos, como o chapéu que uso vez ou outra, por causa do sol ou o som do relógio a ressoar por aqui.

Será que estou inventando uma personagem? Não seria a primeira vez que invento um substantivo ideal para ser o meu par, como a cortina é companhia ideal para dançar com o sol.

Mariana Gouveia
Texto publicado na Revista Roteiros Imaginários
Scenarium Livros Artesanais

Colcha de Retalhos · Lunna Guedes · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

Ao ler o meu livro você vai encontrar:

Fotografia: Lunna Guedes

Primeiro, o cheiro… que talvez seus sentidos te levem a pensar em flores de cerejeiras – ou sakuras, como dizia Kaori – e claro que é apenas uma sugestão minha, para que você pense nas cerejeiras, na certeza de que você encontrará sonoridade, gratidão e amor nas páginas de Colcha de Retalhos.

Colcha de Retalhos se trata de uma história de amor. Na edição de Lunna Guedes – maravilhosa! – o amor se transformou na costura, em forma de quadros e os capítulos uma colcha, onde a emoção predomina.

As ilustrações de Carly Ca traz ainda mais sensibilidade para um livro já tão sensível e delicado. Os números, em homenagem a Seiko e Kaori trazem acima da página a tradução em japonês.

Então, para você que adquirir Colcha de Retalhos, digo que você vai se emocionar, se deliciar e andar de mãos dadas comigo nessa história linda de amor.

Mariana Gouveia
Colcha de Retalhos
Scenarium Livros Artesanais

O lançamento acontecerá em uma live, no Instagram da Scenarium, no dia 27/11/2021, às 19hs – horário de Brasília.
Se desejar adquirir o livro, o caminho é aqui

Colcha de Retalhos · Lunna Guedes · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

Colcha de Retalhos – trechos do meu livro.

Ela se foi num dia igual a todos os outros. Mas,
dentro de mim, se parecia com os dias de sua
partida rumo a um mundo outro, de descobertas.
Apenas uma viagem…
O sol se escondia quando a vida parou
ali.

Nos últimos dias, havia chovido tanto e, de repente,
estrelas surgiram no céu… e eu não me lembro de
ter visto tantas… era um mar de estrelas existindo
na janela daquele quarto.
Era… Vênus arquitetando meios de chegar à Lua.

Mariana Gouveia
Colcha de Retalhos
Scenarium Livros Artesanais

O lançamento acontecerá em uma live, no Instagram da Scenarium, no dia 27/11/2021, às 19hs – horário de Brasília.
Se desejar adquirir o livro, o caminho é aqui

Colcha de Retalhos · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

Colcha de Retalhos – A história

A vida não escolhe os premiados em amar.
Simplesmente ama-se e ponto. Sem questionar os
porquês, ne? Porque isso é único e intransferível
.

Querida Anielle,

Essa carta chegará em sua mãos daqui alguns dias e ela te levará meu último livro Colcha de Retalhos… Escrevi essa história em 2015 e confesso que relendo tudo de novo, parece que tudo aconteceu ontem. As dores da saudada retornam, as lembranças são quase tocáveis e sei que sentirá o tanto de amor que Ana recebeu, porque a história é ela.

Eu tinha 16 anos quando conheci sua irmã e a vontade dela de viver me puxou pela mão e me virou de ponta cabeça fazendo meu riso ecoar na rua em que eu morava e em todo canto que estivemos Tudo era tão bonito nos olhos dela e sob o silêncio, que muitas vezes tive de quebrar.

Retratar as dores, as lutas e os caminhos que ela percorreu mundo afora, de uma forma singela como ela era foi a parte mais fácil. Falar da volta, da tranquilidade que ela buscou e da partida tão repentina para nós foi como rasgar de novo a ferida… Mas, olha, a delicadeza com que Lunna Guedes tratou e costurou cada quadro, dando vida, cor e voz para essa história foi como um bálsamo de cura.

Quis te escrever para que saiba que Ana permanece intacta no meu coração com a mesma magia e alegria de sempre e cada vez que vejo Marte no céu, em forma de estrela, sinto que ela se apresenta com o riso nos olhos de avelã que a gente nunca vai esquecer.

Os quadros foram costurados, e mesmo a história sendo um caso de dor, no fim, a colcha de retalhos se tornou aconchegante… e eu diria que ela te aquecerá a alma e também de todos aqueles que lerem e você por fim conhecerá a história de amor que moveu a vida de sua irmã dentro dos dias da maneira mais linda que se pode amar alguém e ser amada.

Abraço carinhoso,

Maryann

O lançamento acontecerá em uma live, no Instagram da Scenarium, no dia 27/11/2021, às 19hs – horário de Brasília.
Se desejar adquirir o livro, o caminho é aqui

Mariana Gouveia
Colcha de Retalhos
Scenarium Livros Artesanais

Colcha de Retalhos · Lunna Guedes · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

Colcha de Retalhos

Um dia, eu me libertei:
Agora, sou livro
Elke Lubitz

Quando minha editora fez a proposta para um projeto novo, com o tema direcionado para Retalhos, me vi costurando uma história em pedaços, como se fosse uma colcha, como se minha memória fosse alinhavada aos detalhes e o livro ganhou o nome de Colcha de Retalhos.

Os quadros foram surgindo em minhas lembranças e fui construindo a parte confessional. Colcha de Retalhos traz a delicadeza de um período delicado onde os personagens se misturam em meio a amizade, ternura, cumplicidade e amor.

Com edição primorosa e capa sublime de Lunna Guedes, ilustrações de Carly Ca o livro ganhou vida e cores de sonho. É uma história de amor e é também uma homenagem para uma mulher excepcional que viveu dentro de um tempo de amor.

Até onde podemos separar a realidade da ficção? Até aonde o nosso eu lírico pode nos levar? Convido você para nos próximos sete dias caminhar comigo de mãos dadas por pedaços pequenos dessa história que escrevi com um suspiro preso no peito e muito amor no coração.

O lançamento acontecerá em uma live, no Instagram da Scenarium, no dia 27/11/2021, às 19hs – horário de Brasília.
Se desejar adquirir o livro, o caminho é aqui

Mariana Gouveia
Colcha de Retalhos
Scenarium Livros Artesanais
Fotografia: Lunna Guedes

Colcha de Retalhos · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

Colcha de Retalhos… O amor mora em Marte.

Apresento a vocês meu mais novo livro. É o sexto… Pode-se considerar mais um filho? Sim!! Dá pra considerar que é um trabalho? Colcha de Retalhos é uma história contada quadro a quadro… é o amor retratado em linhas… bordado, costurado, dentro da cultura japonesa, porque foi isso que moldou minha história.
Além de que em Colcha de Retalhos eu me desnudo, nua e crua, dentro do sentimento de amizade, amor, ternura e encanto.

Colcha de Retalhos é um ideograma traçado na pele e tatuado na palavra amor.

Criava a galáxia em origamis e melhorava a cada
dia. Aspirava vontade de viver.

Muitas vezes, diante de uma perda, a gente se refugia no luto… em Colcha de Retalhos, eu flutuei fora do luto porque já não era mais tempo de chorar…

A vida não escolhe os premiados em amar.
Simplesmente ama-se e ponto. Sem questionar os
porquês, ne? Porque isso é único e intransferível
.

Era como se a palavra amor 愛 estivesse tatuada
em nós, por dentro.

Com ilustrações lindas e amor… nada mais além do amor e saudades, ofereço à vocês quadrados de uma colcha feita com sentimentos únicos e verdadeiros. Com toda delicadeza do livro artesanal, com costura japonesa e a sabedoria de Lunna Guedes, na edição. O lançamento será dia 27/11/2021, às 19hs, de forma on line.

Você pode adquirir aqui ou na página da Scenarium Livros Artesanais

Mariana Gouveia
Colcha de Retalhos
Scenarium Livros Artesanais

Delírios Comunistas · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

Correspondência

“Nesta ausência que me excita, tenho-te, à minha vontade, numa vontade infinita…
Distância, sejas bendita! Bendita sejas, saudade!”
Gilka Machado

Caro vento,

Talvez abrir os braços e te acolher dentro de mim, incorporando roupas e cabelos, seja pouco… o que eu quero é redemoinho. Aquele lá da infância onde você surgia miúdo e ia ganhando os beirais dos currais e de repente estava lá, espalhando os lençóis nos varais e as pipas dos meus irmãos.

Você me lembra a liberdade… essa frase solta que calada não tem a força e que represada – igual minha mãe dizia — vai roubando instantes nos quintais vida afora. Você se tornando redemoinho fica igual menino furioso e o infinito se torna tão curto para além das cercas.

Tenho em mim os ideais de sua força… é como a força do mar, que ganha do rio as gotas e se transforma em gigante. Já imaginou se cada um de nós tivesse na mente a sabedoria de sua força?

O que me lembro de sua fúria, vem pelo olhar de minha mãe — eu, menina olho de poesia, e os arames farpados em nossa frente — e a cadeira preferida dela em seu centro e as folhas das palmeiras que circuncidavam nosso quintal viraram picadinhos enquanto seu furor rompia o monjolo, as telhas e além da cerca, a árvore de minha infância.

O medo, é esse bicho troncho, que nem avisa quando é de verdade e quando devemos realmente temer. Voltar é impossível na existência — minha mãe repetia — o olho deve ir além. Amanhã é outro dia, ela repetia, tal qual a palavra do filme, que ela nunca viu, mas ouvia via na rádio: E o vento levou era mantra aqui.

Esse rompante que ultrapassa as barreiras e invade os varais me fascina — é verdade — e ao mesmo tempo me retrai e se eu disser que hoje consigo lidar com seus avanços, minto.

Você é essa lembrança imperiosa que a mente não consegue apagar e ao mesmo tempo é essa ânsia de vida que acolhe o peito e transforma tudo que toco em redemoinhos.

Sou tão pouca diante dos retratos preparados e sou tão frágil feito pena aos seus olhos. A vida tem a dimensão exata do que você é capaz. Uma onda que escapa do mar e causa rebuliço no campo e arranca as roupas dos varais, mas que não pode comigo quando me permito voar.

Mariana Gouveia
Carta publicada no livro Delírios Comunistas
Scenarium Livros Artesanais
Você pode adquirir o livro aqui

Mariana Gouveia

Monocórdica

Monocórdica

Prefiro a nota principal
estilo invariável, único.

como se estivesse lendo – braile
como se a nota musical fosse dela
e ainda pede que eu cante
Pra ela…

ai, quem me dera que o encanto dure
que a música fosse relicário – fosse

que a sinfonia fosse mais doce…
que a melodia, a voz.
E a cadência de menina…
em nós…

Tão monocórdica
no seu sentido literal
coleciona músicas no varal…

Mariana Gouveia