Das rotinas

Beda -Meu guardião.

Desde que me entendo por gente, sempre ele estava lá, seguindo meus passos, como protetor. Por vezes, só de longe, quieto. Com o capim no canto da boca.

Ele é mais velho que eu dois anos e um mês. Me seguia, e em algumas vezes aquilo me irritava. Depois passei a não ligar. E mais tarde a adorar. Livrou-me de várias encrencas. Era sempre apoiado pela ordem de minha mãe e eu que não ousava reclamar, senão não podia ir além da cerca. E acostumei com minha sombra, que eu repetia sempre para irritá-lo:

– Vamos, sombra.

Resignado, paciente e silencioso, ia atrás de mim pelos caminhos da floresta, na beira do rio, no pé de amoras…onde quer que eu fosse ele era meu guardião.

O único lugar que me sentia resguardada dele era na casa da meio fada meio bruxa meio flor, mas se eu olhasse do buraquinho da janela podia vê-lo ali, além da porteira, atento ao menor movimento meu. Parecia nunca zangar-se com nada que eu fizesse. Por vezes, simulei queda só para vê-lo correr até mim e me ajudar.

Meu lugar preferido era o alto do descampado, no fim do dia. De onde eu podia avistar toda fazenda e o riozinho que serpenteava a floresta. O céu, mudando de cor me encantava.

Um dia, ele se aproximou, sentou do meu lado e disse:

– Não consigo entender o que te faz vir aqui todo dia.

– Não consigo entender porque você tem de andar atrás de mim onde vou. Você já reparou que nenhum dia é igual ao outro, nem a cor do céu, nem o vento?

– Hum…nunca notei não. Pra mim é tudo igual.

– Então, presta atenção hoje e amanhã perceberá que não será igual hoje. Nem o que você pensa.

O silêncio me fez olhar pra ele. Parecia que media cada canto com o olhar. Como se memorizando cada capim, cada brisa. Os olhos parecia notar algo. Mas não falou.

Eu, insistente, disse:

-Tudo isso aqui, é poesia. O capim, o dourado do sol, o aconchego da noite.

– Onde você aprendeu isso? – resmungou.

– Poesia não se aprende. Se enxerga. Você olha e percebe.

Levantei-me e não notei que atrás de mim havia um novo menino. Meu irmão, a partir daquele dia, conheceu uma nova forma de olhar a vida. Mas, eu só fui descobrir isso tempos depois.

PS: Meu irmão, Manoel Messias, junto com minha irmã caçula encaram dia sim, dia não uma máquina de hemodiálise. Estão no aguardo de exames para um possível transplante de rins. Nunca vi alguém com tanta coragem no coração. Já contei sobre ele aqui. Hoje, é o aniversário dele e brindo esse dia com agradecimento.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês dele e de Beda
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura – Suzana Martins – Roseli Pedroso