Carta à Gilka.

Talvez eu fale mais de mim nessa carta do que propriamente de você. Nessa semana, minha previsão de tempo saiu dos trilhos – não o tempo mesmo, de clima, que continua insuportável por aqui – mas o tempo de relógio, que foge daquilo que a gente traça.

Passou por mim, dias inteiros de lenda viva, de mitos e de comemorações de vida. Sobrevivi a algo que nem sabia e me perdi na rotina dos dias. Pinto um retrato que não se revela – como seu poema que mais gosto – e de fato, vivi uma semana em uma realidade que não é minha.

A aldeia indígena pegou fogo, e vi a alma da floresta fugir como pássaros em migração para escapar do calor. Vi pessoas perderem tudo que tinham construídos e ainda assim, vi a esperança nos olhos delas e foi isso que me restou depois de tudo.

Os povos das aldeias seguiram suas rotinas de todos os dias nos dias seguintes ao fogo e era tudo tão normal, que me coloquei ao lado deles. “o cinza é temporário – disse o cacique ancião – e logo tudo voltará ao natural” e isso me trouxe de volta para casa e desde então, olho o céu com expectativa de cores.

No meu quintal, o ipê floriu todinho e ficou no chão um tapete amarelo onde os pezinhos do cão fazia desenhos que não entendi, mas com o qual vibrei só pela cor de dourado no piso da varanda.

Devo estar sendo enfadonha, mas nessa semana a vivacidade das coisas, em um pequeno gesto que seja, me motiva a acreditar que apesar de tudo, ainda acredito na poesia.

As folhas secas no quintal, a fuligem da fumaça da queimada chega até minha rua e eu te escrevo nessa manhã de sábado calorenta e abafada.

Perdi a hora desse tempo, enquanto relembro os últimos dias e ainda assim, o olho do povo que me rodeia diariamente ainda carrega a esperança de chuva.

E como forma de carinho, finalizo com um poema seu feito no ano em que nasci e ainda assim, tão real de mim:

Não creias nos meus retratos,
nenhum deles me revela,
ai, não me julgues assim!

Minha cara verdadeira
fugiu às penas do corpo,
ficou isenta da vida.

Toda minha faceirice
e minha vaidade toda
estão na sonora face;
naquela que não foi vista
e que paira, levitando,
em meio a um mundo de cegos.


Os meus retratos são vários
e neles não terás nunca
o meu rosto de poesia.
Não olhes os meus retratos,
nem me suponhas em mim.

Beijo,

Mariana Gouveia
Projeto Cartas – Scenarium Livros Artesanais