Meio fada

Na Primavera, quando os bosques ficam verdes,
tentarei dizer-te o que te quero dizer.
No Verão, quando os dias são compridos,
talvez tu compreendas a canção.
Pois isto deve sempre ser um segredo guardado
de todos os outros, entre ti e mim”.

Lewis Carroll
Alice no País das Maravilhas.

Ela possuía um dom especial de me descobrir. Quase como guardiã seguia meus passos – para medo e desespero do meu irmão mais velho. Percebia que a parte que ela mais gostava era quando eu lia os livros pra ela.
No meu mais encanto puro da idade eu não percebia como alguém que não sabia ler podia conhecer tanto e tudo da vida.

Ela sabia das estrelas, de coisas do tempo – “Vai chover amanhã” – e no outro dia amanhecia chovendo. Sabia quando alguém iria nascer. Quando alguém iria partir. Entendia dos animais e das ervas. Dos frutos e das águas. Onde o rio era mais fundo. Onde podia caminhar.

E a parte que mais me encantava era o saber sobre os cogumelos cogumelos. Onde havia os mais venenosos. Os mais gostosos. Como colher, como embalar. Eu achava que ela tinha poder sobre tudo. E minha mãe dizia que eu tinha poder sobre ela. Que só eu podia fazê-la sorrir, e desmanchar a cara fechada que meus irmãos e os meninos da região temiam e quando minha mãe dizia isso eu me sentia toda boba, porque no colo dela eu descobria a essência da poesia.

Para mim, ela era meio fada, disso eu tinha certeza. O que a tornava mais humana para mim eram os olhos azuis da cor do céu e de vez em quando uma nuvem de tristeza passava por eles. O que fazia com que eu pensasse que ela era fada é que ela sabia de cada segredo meu sem contar. Cada sonho que eu teria sem nem imaginar.

E assim como ela sabia das estrelas cada vez que vejo uma estrela no céu, ou um cogumelo na terra eu imagino o conto de fadas que ela me fez viver.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês dos contos de fada e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia Leonardi Obdúlio Ortega Lunna Guedes Roseli PedrosoAdriana AneliDarlene Regina