Tenho uma almofada feita de “memories…”

Perdida, encontrou a poesia
que morava no caminho
imaginário de suas fábulas

Suzana Martins

Querido Agosto,

É inútil dizer que minhas fábulas em seu mês se tornam mais reais… Confesso que grande parte do meu imaginário ganhou vidas em suas noites, lá na minha infância, quando eu ainda corria descalça na estradinha de terra…

Era em seu mês que minha mãe temia os cachorros loucos e suas babas amarelas… um dia, cheguei a ver um, de olhar perdido, na relva, entre o alagado dos pés de buritis. Depois disso, fiquei dias sem sair para além da cerca, onde o Malhado – nosso cão perdigueiro – nos protegia dos cães “doidos” que vez ou outra atravessa a porteira.

O carteiro que aparecia a cada quinze dias, também contava histórias com seu nome… Se por algum mistério de quem contava as histórias, agosto era sempre o mês dos cachorros loucos, o que dizer dos humanos – seres tão desprovidos de amor iguais aos deles…

Cheguei a ouvir um causo, do velho morador do casarão abandonado que ficava depois da ponte que o cachorro dele endoidara, mas que não o mordeu de jeito nenhum… sumiu estradinha afora, com olho perdido na loucura de cão… Achei na época – embora não conferisse os dias no calendário – que seria o mesmo cão que vi entre o alagado e os pés dos buritis. Quis dizer que mesmo quando enlouquece, o amor do cão é fiel e não morde o próprio dono.

Alguém contava que nas noites de lua cheia também surgia uma mulher louca, sabe-se lá porque, para buscar um filho perdido… nunca acreditei nessa história… sabia que era mais coisa de meu pai, para que eu não corresse atrás dos vagalumes que brilhavam perto do jardim quando escurecesse… o peixe que virava homem e vinha roubar a moça para casar e tantos outros causos que minha memória guarda.

Sabe, embora imaginasse que tudo isso fosse lenda e histórias para nosso imaginário fluir na arte que minha mãe conduzia em nós, quando cresci guardei essas histórias em uma almofada para quando o mundo ficasse difícil de viver e de vez em quando, é nela que busco minha fonte de encanto só para suportar esses instantes que surgem na vida da gente, tal qual os cachorros loucos durante seus dias.

Para isso, eu tenho uma almofada feita de “memories” que em noites de insônias se transforma em um livro cheio de fábulas que vivi e me fizeram acreditar que a poesia é cada instante costurado na alma, tal qual bordado de avó.

Teremos um mês inteiro para recordar esses instantes. Vamos vivê-lo?

Mariana Gouveia
Agosto é o mês dos cachorros loucos e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia Leonardi Obdúlio OrtegaLunna GuedesRoseli PedrosoAdriana AneliDarlene Regina

Dos desejos tatuados

Tenho em mim vontades nuas de ti.
Tenho em minha derme o teu querer tatuado em minhas entrelinhas.
Tenho pelo meu corpo todo as tuas impressões, nuas e sem pudor, deixadas pelas tuas digitais.
Tenho em meus lábios os teus beijos arranhados.
Tenho em mim desejos inteiros de ti.

Suzana Martins
*imagem: Vivienne B.