dos olhos…

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Uns olhos que diziam mais que quaisquer palavras.
Estavam agora calados. Deixara de os ouvir.
Tantas promessas lhes ouvira e tantas vezes neles embarcara. Viagens para não mais esquecer.
É na sua ausência que os recorda melhor. Como uma qualquer luz no corredor dum passado ainda presente.
Agora fecha os seus para não deixar fugir quanto lembra.

Rosa Maria Ribeiro

As esperas

As esperas

as esperas são tapetes estendidos.
há quem os prefira lisos e lhes desenhe nos entretempos os bordados que os sonhos tecem com as linhas invisíveis dos dias.
outros, escolhem-nos onde a vista se canse e o corpo se ausente.
em vez de esperar, viajam.
e quando a espera acaba, os que desenham, bordam a duas mãos um tapete onde o amanhã se passeia.
os outros, serão condutores embriagados pelo medo de ficar.
e partem cheios de futuros vazios.

Rosa Maria Ribeiro
*fotografia: Oleg Oprisco

O café

o café

Confundiam-na as palavras que lhe ouvia. Em tempos esperara dele que também se apaixonasse. Por ela.

Da mesma forma estranha e insidiosa que se instalara nela a paixão que sentia por ele.

Soprou o café que queria beber para engolir melhor o que lhe ficava atravessado na garganta agora seca. Precisava de dar espaço ao espanto que lhe subia do peito. De o soltar.

Bebeu-o devagarinho sem levantar a cabeça. Ainda não o queria olhar. Não sem ainda perceber o que ele queria dizer.

Olhava agora as borras de café no fundo da chávena. Raras, uniformemente espalhadas com uma mancha de maior densidade a um canto. Lembrou-se das leituras que costumavam fazer quando estava entre amigas. Das gargalhadas ao ouvir os prognósticos. Que quereria dizer aquela mancha mais forte, ali ao cantinho?

Ouves-me?

Voltou e olhou para ele. Sim ouvia-o. O problema era não o entender.

Não entender também como um homem assim lhe entrara coração dentro.

Não o disse. Calou as palavras que lhe acudiam á boca. Empurrou-as para bem dentro de si. Para o sítio onde todas as coisas acabam por desaparecer. Quando é preciso.

E pronto. É isto. Acabei sem saber como por me apaixonar por ti. És-me necessária. Sinto-o cada vez mais.

Foi então, enquanto lhe ouvia estas palavras que se despediu do que sentia. Um enorme vazio assaltou-a. Pediu outro café.

Rosa Maria Ribeiro

entrei pelo teu sorriso adentro.

essa casa em mim antiga. onde os cantos, mesmo escurecidos de sombras me sabem pelos cheiros. que de encontros se fazem. no tocar das peles. escamadas entre quanto me queres e eu te desejo. flor encarnada no vaso do teu corpo. a florir pelas frestas dos teus dedos.
pelo tempo de todas as primaveras.

 

Rosa Maria Ribeiro
*imagem: Tatiana Mikhina

 

(nem sempre é dia, nem nunca a noite se eterniza.)

 

não havia lágrimas
no sorriso
que crescia nos lábios
onde deitara os seus.
era meia lua pousada
no rosto
que a memória desenhava
em lonjuras de um adeus.

sempre amava o sol
ainda que em noites frias
outras mãos
acariciasse.
(nem sempre é dia,
nem nunca a noite se eterniza.)
e os sorrisos aquecem
a ternura,
se não estás.

 

Rosa Maria Ribeiro
*imagem: Google

um dia acordarei o sol.

 que te podia eu dizer, depois de todas
as luas,
deitadas num céu perdido
entre as palavras enredadas
em conversas sem sono,
na luz da manhã
estremunhada, quando o teu cheiro
me desperta os dias
que deixei adormecer?

vivo neste interregno, em que me
visito, porta adentro,
pelos meus próprios passos.
e onde minhas mãos,
ocupadas,
tacteiam as luzes
por acender.

um dia acordarei o sol.

rosa maria ribeiro
*imagem: Google

Teu corpo no meu, dança risos inteiros

no trago do espaço que em mim
abraço
engulo-te aroma,
sabor que és
assim.

e tenho-te inteira

no avesso
do espelho, claro,
do que sou
em ti.

teu corpo
no meu, dança risos
inteiros

sem ti ficariam
presos em lábios
alheios

de nós.

(abraço teus lábios.
meu beijo
tem sedes
de ti.)

rosa maria ribeiro
* Imagem: Laura Makabresku

tinha o sonho de ser grande…

tinha o sonho de ser grande

e chegar rápido ao alto das prateleiras onde estavam os segredos guardados.

ter o nariz arrebitado da menina sardenta que cabia na janela mágica de onde não lhe conhecia portas.
e saltava o tempo todo, na inocência de se pendurar num guindaste invisível onde os adultos se prendiam, e esticados, viam para lá dos seus horizontes, de curta distância, do alto dos seus arrebitados narizes.
até aqueles que agarravam nas suas borrachas e apagavam aquelas sardas que os faziam parecer mais felizes.
os grandes gostavam de parecer sérios.
ela só gostava de parecer grande e por isso saltava o tempo todo como se em vez de pés lhe tivessem crescido molas. agora, acha que são asas.
fugiu-lhe depressa esse tempo e há demais para ver.

Rosa Maria Ribeiro
*fotografia: Kylli Sparrek