Caderno de Notas · Mariana Gouveia

Desde que o mundo começou a ser mundo.

“Tomaste o caminho do vento e por lá te demoras”
–  Isabel Mendes Ferreira-

Havia pouco tempo que eu morava ali. Mudamos dias depois que minha mãe morreu. Não sei se para meu pai ficar livre das lembranças e do cheiro dela na casa, nas coisas. O fato é que a casa nova tinha mais coisas dela do que a antiga. Ao arrumar os móveis, tudo era dela e tinha o seu jeito. Tudo foi arrumado, até inconscientemente, da maneira como ela gostava e o jardim, no fundo da casa, parecia haver sido plantado por ela.

Casa nova, novos vizinhos e foi ali, duas casas depois da nossa, para onde elas também haviam mudado recentemente. Um dia depois de nós. E pelo mesmo motivo. A perda da mãe. Elas eram Ana e Cristina. Gostei logo de Ana – tipo amor à primeira vista. Mas, foi Cristina quem ocupou espaço em minha vida. Era tipo aventureira, corajosa e nos empurrava para as experiências dela.

A casa delas tinha um sobrado com um quarto, mas que permanecia trancado desde que se mudaram. Na divisão da herança, elas ficaram com a casa, em que o tio havia morado a vida toda. A chave permanecia debaixo do tapete, antes da escada. E Cris, na sua impetuosidade, obrigou-nos a abrir a porta. Além da poeira em todos os móveis, que um dia retratarei com mais detalhes, havia um baú enorme e é claro que abrimos.

Entre roupas, pequenos bibelôs e livros, havia ali um diário, que as meninas interessadas em tesouro nem deram atenção. Logo começaram a dividir os objetos e, em meio a eles, um sapato de verniz roxo, que Ana calçou como se fosse uma princesa e, então, colocaram o diário em minha mão como presente. Foi ali que desejei ser escritora. Foi ali que desejei conhecer o amor que surgia à minha frente com uma história emocionante de Anna Lee e que retrato agora, em pequenas nuances, em um relato diário de amor:

1º de abril de 1958 – o dia amanheceu nublado e frio. Nas ruas quase não havia ninguém. Foi quando ele surgiu não sei de onde. Vinha cabisbaixo como que procurando algo. Eu havia ido à janela abrir a cortina. Nossos olhares se encontraram e meu corpo reagiu ao encontro. Não sei o que senti, mas sei que foi algo que não poderia escrever sobre. O vento cantava a melodia das folhas das árvores e meu coração cantou junto. Desde que o mundo começou a ser mundo eu já te amava e te conhecia antes mesmo de ver-te. Ele seguiu rua abaixo olhando para trás de vez em quando, abraçando o próprio corpo, como para se aquecer. Aquele gesto mexeu comigo. Meus olhos seguiram e no buscar ele aonde a rua sumia, bati a cabeça na janela. Ele riu. Pude ver isso. Foi a maior certeza que tive em toda a vida. Eu já o amava.

2 de abril de 1958 – Ouvi um barulho na janela, como se fosse uma pedra. Não sabia o que era. Mas, já tinha a sensação plena dele correndo em meu sangue. O coração acelerado, e as mãos suavam, apesar do frio. Quando cheguei à janela, lá estava ele… O sorriso que eu imaginara no dia anterior agora tomava seu rosto e os olhos me desenhavam um horizonte em que eu queria morar a vida inteira. Se possível, morrer dentro deles”.

O diário relatou aos meus olhos uma história de amor. Que descrevi e que vai virar livro. Ana e Cristina foram frutos desse amor. Embora só tivessem descoberto mais tarde. E nós descobrimos um tesouro. A vida nos distanciou nas lembranças, nas histórias livres de cada uma. Ana se tornou enfermeira, profissão que a mãe teria, se não fosse tudo que aconteceu pelos dias dela. Cristina cumpriu a sina de aventureira e perseguiu seu sonho de conquistar o vento.

Quando me chegou o tema do Caderno de Notas desta quarta edição, tive a certeza de que teria de falar sobre isso. Porque o assunto era exatamente o tema do diário escrito por uma mão que já amava alguém antes de o mundo ser mundo.

Mariana Gouveia
*Este post é parte integrante do projeto “Caderno de Notas – Quarta Edição”
Scenarium Livros Artesanais

Caderno de Notas · Mariana Gouveia

A menina que um dia eu fui

O sonho de meu pai era que eu aprendesse a tocar piano. E isso se aprende desde menina. Não sei se pela melodia, se pelo título de pianista – que era a palavra mais linda que ele achava – todas as tardes, lá ia eu ter aulas com a professora. Era um ritual mágico e lindo. Muitas vezes via meu pai olhando escondido na janela. Não sei se era apenas para vigiar e descobrir se eu tinha ido mesmo à aula, ou se ele apenas queria me ouvir tocar.

Tenho saudades daquela menina que atravessava a cidade para aprender a tocar, e que murmurava baixinho, vezes sem conta, que queria ser uma boa escritora. Fechavas os olhos e desejava isso, mais do que tudo. Queria contar histórias para as pessoas sonharem. Eu tinha a certeza de que com minhas palavras abraçaria o mundo.

Um dia, a professora deixou de ensinar. Herdei o piano e as partituras. Mas, sonhava com as letras e as palavras.

Com os dias o piano ficou no canto da sala esquecido. Achei que meu pai brigaria, mas não. Foi a primeira vez que ele percebeu que eu amava música, só que não podia tocar. Quando ouço tocar uma música parece que tudo para e só existe ela. Nesse momento eu volto a ser aquela menina que desejava ser uma grande escritora, e que tocava piano para fazer sorrir o pai.

O piano sentia falta das notas e de mim – meu pai dizia – porém, eu estava liberta do sonho dele. Olho o piano e lembro-me da menina que um dia eu fui e que queria apenas escrever histórias. Hoje, cresci e o sonho começa a desenhar caminhos.

Continuo a ouvir a música e o piano apenas me assiste a escrever. Hora de dar um destino a ele. Pego o telefone e ligo para um jornal de classificados e ofereço um piano para venda. Percebo que nesse momento ele vibra como se concordando com o verbo viver.

Dentro de mim as palavras brotam e assemelha-se a um pássaro, a música libertou o piano, mas o mundo me prendeu.

Mariana Gouveia
– este post é parte integrante do projeto Caderno de Notas – Segunda Edição 
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega –  Ale Helga – Mãe Literatura 

só porque ouvi um piano por aqui...

Caderno de Notas · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

Com uma esferográfica cravada no coração.

 A ansiedade chegava antes das cartas. Por causa do lugar, atrasavam uns 15 dias, Era tão difícil compreender as datas, o tempo, restava apenas o lugar de origem da escrita e a pena por trás dela.

As palavras vinham adoçadas. Recheadas de saudades. – “ontem fez frio”. “anteontem choveu”. ” hoje amanheceu nublado”. “sonhei com você” ” queria ser eu a estar em suas mãos”.

Descrevia em cada letra tudo que vivia para que fosse possível participar do exato instante em que as letras caíram da caneta… para ganhar vivacidade na boca que lia.
Quando o carteiro virava a estradinha, que fazia a curva perto do velho ipê, saía em disparada e com o coração nas mãos.

Apreciava cada pequeno detalhe do envelope, aberto com um cuidado ímpar. Quase sem fôlego… aspirava o perfume que só mais tarde descobriu ser de ervas verdes, com um nome estranho-estrangeiro. Uma palavra nova para constar de seu vocabulário mutante.

A carta ganhava vida em sua boca… tão cheia de diálogos. Deitava-se sobre a grama molhada, lia e relia para que as palavras ganhassem vida. A carta era um corpo que se oferecia ao toque, a carícia… e ao encontro com os lábios num beijo carinhoso-único.

No dia em que as palavras deixaram o papel… foi mágico! Por um momento ficaram em silêncio, admirando-se. Sentiram cócegas na ponta dos dedos. Escreviam-se por dentro. Alguém disse a primeira palavra e depois outra e mais outra… muitas palavras depois, a pequena aldeia fazia festa porque o primeiro amor aconteceu.

Deram-se as mãos e caminharam pelos caminhos de terra percebendo a narrativa, que falava do cheiro da terra, da mão que cobria os olhos para afastar a luz do sol e da festa dos pássaros nos voos de árvore em árvore.

O carteiro passou, acenou e avisou que não tinha carta naquele dia. Pensou que enxergaria tristeza. Mas se lembrou de suas pesquisas de moleque. A palavra destinatário vinha do latim Destinatus… o destino de uma carta seria outra pessoa. E a partir daquele dia passou a prestar mais atenção nos envelopes que entregava…

E foi o carteiro o primeiro a reparar que as cartas pararam de vir para casa depois da curva. Só entregava as apostilas do Instituto Universal Brasileiro. Alguém naquela casa aprendia corte e costura, pintura artística….

O primeiro amor se foi – lamentava o carteiro sempre que passava por lá, sem envelopes para entregar.

Mariana Gouveia
Texto publicado no livro Caderno de Notas e Nem Sempre a Lápis
Scenarium Livros Artesanais
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só porque hoje recebi cartas aqui

Caderno de Notas · fada/bruxa/flor · Mariana Gouveia

A noite mais especial

Aquela seria a primeira noite que eu dormiria fora.
Uma ansiedade enorme tomava conta de meu coração. E reparei que os meus irmãos também estavam ansiosos. Eu nunca havia dormido longe deles…
Mas aquela era uma noite especial.
A lua apontava no céu quando os meus irmãos me acompanharam até a porteira, que rangeu ao ser aberta.
Mal sai… e eles já haviam sumido pelo caminho de volta. O cheiro gostoso de sopa exalou no ar e ela me recebeu com um sorriso. Pela primeira vez olhei direito para ela. Os olhos azuis piscaram e percebi que ela tinha o céu dentro deles. Os cabelos estavam soltos… sem o chapéu de capim dourado deixando a mostra os cachos caídos sobre os ombros. Os fios brancos se pareciam com fios de algodão que ela me ensinou a tecer na roca, que ficava no centro da casa.
Ela me sentou na cadeirinha, colocou o prato diante de mim, que despejou no ar um cheiro delicioso. Enquanto comia, ela contava histórias e me ensinava truques.
À noite, aquela casa parecia ainda mais misteriosa e aquilo me encantava. Eu buscava cada detalhe-objeto. A lamparina no teto, a cadeira que tinha uma manta de crochê por cima. Um retrato amarelado na parede onde havia mais de cem crianças amontoadas — as que suas mãos fizeram nascer.
Depois de comer, me levou para a janelinha. Uma escada nos colocava lá no alto. E o que vi, me deslumbrou: uma lua imensa no céu e um jardim de cogumelos gigantes. Como brilhavam…
À luz da lua, eles pareciam maiores do que eram, e tinham uma coloração especial — um tom meio azulado. Ali, a minha fantasia delirou. Eu pensei ter visto um monte de duendes entre eles. Compreendi que estava vendo uma coisa secreta.
Aqueles cogumelos eram experiências que ela fazia. E ao dividir comigo, tocou-me com toda a sua arte. Acho que nem meu pai sabia da existência deles.
A cama fofa, os pirilampos piscando — pareciam estrelas no chão. O cheiro da massa de pão, o silêncio da noite.
Sentia como se estivesse lendo um livro, virando página por página. Eu era uma espécie de Alice no País das Maravilhas. As horas voaram… e eu ali, a sorver cada precioso segundo de encantamento e magia.
Ali, era a casa da dona Fulô — a casa de uma bruxa, segundo os meus irmãos. E para mim — uma menina sonhadora que vivia poesias — era a casa de uma Fada.
Aquela foi uma noite de sonho… nem dormi direito. Queria guardar tudo no baú da memória. E, com medo de que tudo se perca, esparramo palavras aqui, fazendo o que ela não sabia fazer. Ela não conhecia letra-palavra no papel. Dona Fulô era uma contadora de histórias, que fazia poesia com a voz, os olhos, as mãos e os pés. Com ela aprendi a recortar a eternidade, a ouvir o rumor dos pássaros, o restolhar das folhas na mudança da estação, o amadurecer dos frutos em bocas ávidas e a força do vento nas folhas onde histórias se escrevem, como eu prometi que faria naquela noite…

Mariana Gouveia
Agosto é o mês das histórias antigas e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia Leonardi – Obdúlio Ortega – Lunna Guedes – Roseli Pedroso – Adriana Aneli – Darlene Regina
*Esse texto faz parte do Caderno de Notas 2ª Edição, pela Scenarium Livros Artesanais



Caderno de Notas · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

As cidades estão cheias de passado

Estou de volta pro meu aconchego
Trazendo na mala bastante saudade
Querendo um sorriso sincero, um abraço
Pra aliviar meu cansaço
E toda essa minha vontade
(Dominguinhos)

Querido lugar,

Enquanto atravesso a ponte de madeira ouço o barulho do rio a serpentear por entre as árvores. Devo te confessar que o bosque perto do rio é meu lugar preferido nessa cidade onde nasci e cresci. Posso fechar os olhos e mesmo assim, reconhecer cada árvore, cada pé de fruta, cada trieiro que me leva sempre ao mesmo tempo, mesmo tanto anos depois.

Estou de volta, para rasgar as promessas feitas em um tempo de felicidade. Um tempo em que as fotografias em preto e branco tingia as paredes da sala cheia de cor no riso dos irmãos.

Parece que as coisas não passaram por aqui. Até a ave noturna é a mesma – pelo menos o canto – e isso atiça minhas memórias anos atrás quando vim aqui me despedir. Naquele tempo, meu coração possuía o encanto da juventude e jurei nunca esquecer esse lugar e prometi voltar assim que pudesse.

Não sei quantas noites, de olhos fechados, cruzei a ponte nas lembranças e me sentei de frente a esse rio com suas margens cheias de memórias e chorei. A alma não queria ter saído daqui. Foi ali, o primeiro beijo em um amor que nem lembro o nome. Também foi ali o tombo e a perna quebrada para tantos dias e onde a primeira borboleta pousou na mão e me fez criadora de asas. Aqui, as lembranças têm o cheiro de roupa limpa e vem na memória o ritual da minha mãe a quarar os lençóis de linho nas pedras do lado enquanto cantava uma canção regional do lugar.

As ruas mudaram, é verdade – não há mais os paralelepípedos na rua principal – e a matriz ganhou uma fachada moderna. De resto, a minha cidade está cheia de passado… no colégio em que estudei, a pintura ocre é a mesma de que eu me lembrava e o portão range como se chorasse por eu ter ido. O mercadinho da esquina – que era nosso e um tio comprou, ainda tem os potes de doces expostos e o sabor do pé de moleque, baba de moça e maria mole é quase uma oração.

O tempo não passou… sou eu ainda, a menina a decorar poemas no banquinho da praça e as tranças presas com a fita de veludo laranja a ecoar saudades.

O tempo passou, sou eu mais uma vez, de frente com meu passado que me transformou em tudo que sou hoje e que reativa a memória com os sabores, as cores e as lembranças de um tempo que insiste em morar nas fotografias da estante. A relutância em tirar fotografias me faz sair emburrada em quase todas, mas a família toda reunida em frente da casa para registrarmos o amor em dimensão de tempo, um dia.

Mariana Gouveia
Carta publicada no Caderno de Notas
Scenarium Livros Artesanais

Participam dessa blogagem coletiva:
Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Obdulio Ortega  Roseli Pedroso

Caderno de Notas · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

É meia noite no fim dessa página.

Para eliminar o sofrimento, elimina-se a memória.
Uma cirurgia aparentemente simples, única solução.
Só que eu não consigo, tudo é vivo dentro de mim”

Ignácio de Loyola Brandão

Querida minha,

As minhas mensagens, na milésima tentativa vagueiam como se oscilando entre palavrões no quintal, pudesse te alcançar. Como seu nome fica tateando as paredes parecendo fuga? E você, sendo ausência dentro do vestido solto todo de poá?

O amor é esse vento de inverno. Revolve as folhas no quintal e causa encantação aos seus olhos quando o sépia o invade. Já te contei dos diferentes formatos das folhas daqui?

Invento os verbos enquanto o relógio atinge o ápice da noite e rabisco mais uma vez seu nome dentro de um coração mal desenhado.

É meia noite no fim dessa página. Há uma réstia de luz invadindo o espaço da cortina lilás. O dia, daqui a pouco, renasce e fica esse amargor na boca como se o ontem fosse apenas uma parte a mais do que não vivi.

Meia noite é quase um poema e nas paredes tateadas rastreio impressões tuas, de um tempo em que nunca esteve aqui.

Os relógios do tempo moderno piscam em uma luz azulada. Você sabe que de vez em quando chove aqui e as gotas cantam canções da minha infância? E que os ipês florescem fora do tempo em algumas noites fora do tempo?

O inverno não amadurece no tempo aqui, minha querida… Ultimamente, ele tem chegado fora da estação e causa arrepios na pele, esse vento que canta lá fora…as flores – que antes se abriam no cerrado – moram no meu quintal e invade a varanda com suas garras e o perfume suave do que amarela a manhã – que já surge além do horizonte – enquanto percorro a casa inteira e seus aposentos vazios de presença.

Há ali, no canto, a estante recheada de livros e cada um traz a história descrita, vivida e sentida. Há os bibelôs imóveis – as corujas e o galo de Barcelos entre as xícaras com as borboletas pousadas, inertes esperando o amanhecer.

A solidão e sua negritude na escuridão me lembram a frase do meu pai que dizia que “é no ápice da escuridão que o sol nasce” e ele vem em ritmo de solicitude. Na esquina, o moço da reciclagem canta sua canção de amor que nunca acaba. A solidão é essa moça com vertigem e cheia de incerteza.

A curva entre o canto e o pé de amora imprime no muro um coração às avessas e o musgo seco do tempo das chuvas detalha imagens que não sei quais são, mas parece que conheço de algum tempo. A meia noite, é quase o que antecede o dia. O relógio parece até que faz pausa quando no ápice da hora, o instante se faz.

Deparo com a minha figura insone no espelho do corredor e vejo ali, na estranheza da humana que apenas se recolhe em saudades… de tudo que não vivi.

Beijo,

Mariana Gouveia
Carta publicada no Caderno de Notas
Scenarium Livros Artesanais

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Caderno de Notas · Mariana Gouveia

E depois o dia voltou como habitualmente…

                                                                  E depois o dia voltou como habitualmente…
Marguerite Duras


Querida minha,

Escrever-te, é essa falta de fôlego na alma. Até onde o coração, feito de palavras, alcança seu amanhecer? Até onde, esse mesmo vento invade tua quase manhã – enquanto aqui é madrugada – e balança ao mesmo tempo as cortinas das janelas, nesse lado de cá?

Mas aqui, ainda era noite e a solidão das horas fazia com que no quintal nenhuma luz brilhasse. Eu já te disse que em muitas noites que passei em branco foi ouvindo o tic tac do relógio marcando o tempo sem você? E que de olhos fechados o vácuo entre a madrugada e o sol raiar lá fora, passa uma imensidão de tempo dentro dessas mesmas horas?

Devo confessar que morri em muitas dessas noites brancas. De uma página em branco, ninguém se livra. Havia corredores imensos em minhas veias que se fechavam. Pássaros noturnos traziam os sons da noite e ainda era meia noite e meia. Os vagalumes invadem a lateral do muro em noite sem lua e lá, acontece um ritual que admiro no escuro. Nessa hora, viajo nas lembranças da infância e quase esqueço desse fuso horário que separa meu sentimento da vivência.

Mas as lembranças saem e retorno ao vazio branco da noite. As lâmpadas da rua queimaram – ou apagaram – por algum motivo. Só tem uma penumbra tênue e quase embaraça as vistas quando vejo os vultos no quintal.

As sombras das árvores parecem fantasmas com suas garras sobre o momento que não passa. Às vezes, a vida dói! O conta gotas do floral é quase mantra diante da ansiedade oculta durante o dia. Como se o dia nascesse na liberdade desse sentimento! Como se a essência da planta invadisse a passiflora que desenha um botão na madrugada quente. O botão da flor é essa singeleza da cor que traz a beleza de noites imensas mergulhada no silêncio.

Na paisagem interior, as lembranças ecoam nos retratos expostos na estante, enfileiradas sob uma toalhinha de crochê. E me vi percorrendo mapas traçados na mente, com o dedo traçando teu nome nas vidraças, na poeira dos móveis que enfrenta a solidão junto com o licor de pequi.

Lembro que talvez, você nem entenda a palavra e nem o sabor exótico do meu lugar. Era tudo tão além da presença, que ainda escrevo como se você estivesse aqui.

E é tão lá essa distância e é tão aqui esse sentimento que simboliza tua falta na noite. Acho que te contaria uma história. Talvez, te marcaria na soma do amor enquanto os cães latem para alguma coisa que não consigo ver o que é. E os bibelôs parecem que conversam entre si e riem de minha insônia e falta de jeito para lidar com essa solidão.

Qualquer pergunta fica sem resposta e enquanto na rua reina um silêncio absurdo ouço o slogan da emissora de tv – plim plim – em alguma casa vizinha.

De noite, todos os gatos são pardos… – já li isso em algum lugar, mas é mentira. O Iglu – gato branco da vizinha da casa de baixo – passeia em cima do telhado como se estivesse em um desfile e os cães com sua gana de sangue rompe o silêncio da madrugada até que Iglu em sua pose de estrela atravessa todo muro como se provocasse os cães.
A madrugada chega dominadora. Quase refém dos ponteiros que insistem para o dia clarear.

Sinto o cheiro das ervas sendo tocadas pelo orvalho. A madrugada tem essa magia de tocar na suavidade das flores. O vento, é só um afago na alma enquanto chamo seu nome.

Cadê você que nem cabe nas letras? E quando a falta é só esse vazio de água, de maresia, de ar…
O que procuro nessa imensidão de noite quando a palavra rio ecoa feito onda? Só mais tarde entendi o que procurava – um mar.

Beijos

Mariana Gouveia
Carta publicada no Caderno de Notas
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Caderno de Notas · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

Vez ou outra é preciso respirar alguns silêncios…

“só o verde fala neste tempo de silêncio 
somos gastos pelos ruídos do lado de fora das árvores  
espera, pensei em folhas 
e a primavera explodiu‐me na boca”
Maria Sousa


Sabe, Ana, a vida é feita dessas confirmações rápidas quando o assunto é felicidade. Quando é espera, aí, já demora muito. Já percebeu quanto tempo demora um minuto? É quase uma alquimia essa coisa de tempo… e o silêncio, Ana? Já viu como é difícil essa coisa de silêncio?

Quando não se quer ouvir nada, está lá o silêncio sendo voz silenciosa, ou gritos ensurdecedores na alma.

Vez ou outra é preciso respirar alguns silêncios, Ana… Vamos falar dessa alquimia de silêncio? Amanhece e lá estamos as duas com um oceano imenso no meio em silêncio. Você já sentiu quanto cabe de silêncio nessa imensidão de oceano? E já sentiu também quanto de vento canta em seu mar?

Ah, Ana, a pele é apenas a tradução do sentimento. O arrepio na pele é fase de silêncio, a voz que cala no peito e até mesmo o voo das borboletas brancas são feitas de silêncio e não sei se você sabe, Ana, mas até nossos diálogos são abraçados de silêncio.

O meu rio abraça seu mar em silêncio e dentro dessas vontades somos águas diferentes apenas pela geografia do mundo e suas separações. A vida tem essa blindagem naqueles que se amam. Seria tão bom gritar teu nome para ali, além da janela e teu riso ecoar atrás do muro, tal qual igual minha vizinha quando o gato dela invade – em silêncio – meu quintal e eu chamo por ela…

A gente troca de estações… somos adversas nas luas, nas marés soltas e no vácuo do tempo. Somos adversas nos fusos e no momento que a vida te acorda, o silêncio me faz dormir. A minha madrugada é quase sua manhã e é tão tarde esse tempo para além das tarefas.

Quando estou indo, você já volta… quando volto, você já não está e assim, somos silêncios que respiram uma além do mar e outra, além do rio. E é esse eco que reverbera aqui… um abraço de alma, feito de silêncio.

Beijo meu,

Mariana Gouveia
Carta publicada no Caderno de Notas
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Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Obdulio Ortega – Roseli Pedroso

Caderno de Notas · Mariana Gouveia

Pé de vento

is life 207-1

         Apenas os espelhos esvoaçam em redor da cabeça morta violentamente sobre ideias.
E a imagem conglomera-se.
Oh cabeça, escuro labirinto duplo,
madeira trémula, espelho espelho,
com sua imagem de um lado delirante,
e sua arguta flor, seu pássaro cheio de sons emplumados.

(Herberto Helder)

Em frente da casa dela tinha um pé de vento. Morava ali desde quando era menina. Bastava passar pelo o portão e o vento surgia rotineiro nas saias dos seus vestidos, nos seus cabelos. Havia um menino que brincava com o vento. Corria a empinar sua pipa. Nessa hora entrava para dentro e dava as costas para a noite, que se desenhava lá fora.
E o vento se tornava enfurecido na janela. Assoviava amedrontando as cortinas.
A árvore tão forte e que já era grande quando ela nasceu, retorcia seus galhos e espalhava suas folhas pelo quintal. Durante o dia aventurava-se a enfrentar o vento. Saía devagar e debaixo da figueira e abria os braços e dançava. Trazia o riso de louca no olhar. Enfrentava vez ou outra o desafio de ser ela mesma, ali, na rua nua de risos. Janelas fechadas, portões que rangiam em sintonia com o vento. Ninguém nas calçadas perdidas. Nenhum som se ouvia pela rua inteira. Apenas o menino que corria com sua pipa ladeira abaixo. Parecia voar e olhava para ela com medo. Sentia isso. Seu olhar percorria o olhar do menino e ao sentir o medo dele entrava na casa de novo e dali da janela, entre as cortinas medrosas, olhava o vento dominante. Sabia que ria dela.

Olhava a mesa e havia ali, deixado pela mãe o copo de água e o comprimido. Lembrou do cata-vento que ganhou para brincar com o vento e que ela preferia usar os dedos imitando um. Alguém dissera que o vento ali, era amigo. Alegrava a alma. Mas, ela não sabia se isso era verdade. Nem sentia se era.
O que era verdade, vinha da palavra loucura que assombrava os dias. Tremia nos silêncios dela. Via ela estampada nas lembranças que insistiam em percorrer todas as noites os mesmos caminhos.

Na casa dela os objetos mudavam de lugar. As fotografias ficavam na cozinha no balcão cheio de tecidos do lado da máquina de costura, onde a mãe ficava o dia todo e parte da noite debruçada fazendo roupas para as pessoas. As fotografias ali, entre as linhas e agulhas. Volta e meia via a mãe espiar os parentes nos retratos amarelados pelo tempo. Percebia que chorava às vezes. Havia sempre uma cadeira na varanda que atrapalhava o corredor. A cama da mãe era na sala. Mas, ela desconfiava que a mãe não dormia nela há muitos anos. O sofá, que ficava perto da pia, já tinha o corpo da mãe tatuado do lado direito.

Havia mais janelas que cortinas. Esqueceram o rádio ligado e o gato de porcelana que ficava a olhar o pé o tempo todo e a mãe sempre dizia que havia ganhado no dia do casamento morava na mesa ao lado das taças que ninguém nunca bebeu nada nelas e embaixo de um quadro sem definição alguma e que ela nunca entendia porque a mãe ainda mantinha um quadro ali. Era um quadro bordado por uma bisavó ou tetravó. Tinha não sei lá quantos anos. Um rosto bordado que acabava em vários outros, onde as linhas haviam sido rompidas por uma limpeza mais abusada.

Assim, ela passava os dias e durante a noite ficava com as cortinas abertas, para que a luz da lua entrasse e seus dedos ágeis imitavam cata-ventos. Via a treva engolir a noite e o dia ir. Assim como ela ia sempre embora para dentro de sua loucura no fim da noite. Ia embora com o pé de vento.

Mariana Gouveia

 

*Este post é parte integrante do projeto Caderno de Notas – Quarta Edição, do qual participam as autoras Aurea Cristina, Claudia CostaFernanda FarturettoLunna GuedesMaria CininhaMariana Gouveia e Tatiana Kielbeman

 

Caderno de Notas · Mariana Gouveia

A noite é quando tudo se junta dentro de nós.

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Tropeço nas coisas que eu mesma esqueci pela sala. O interruptor acende ao meu toque e a luz pálida ilumina lugares que prefiro nem ver. As fotos dispostas em fila no balcão, a agenda esquecida ainda de manhã. Na geladeira, não há quase nada comível. Apenas um tomate que escapou da última salada, alguns biscoitos recheados e um iogurte com data de validade suspeita. Respiro resignada.

A mente me leva para lugares onde eu gostaria de estar. Talvez nem desejasse tanto, mas era exatamente onde me caberia nesse instante.
Da janela, vejo vultos das folhas do hibiscus mutabilis que dançam a melodia noturna e brinca com a lua que desafia o equilíbrio da cortina.
Não gosto desse espaço de solidão dentro de mim. Converso com os cachorros para esvair a sensação do sozinha que me atinge, mas parecem tão solitários nos sonos de cada um que nem me ouvem. Abanam o rabo quase que instintivamente para voltar a sonhar no mundo dos cães.

O chuveiro me convida para o banho. A melodia da água caindo quase me acorda desse torpor, mas foi só a solidão desamparada que esfrega na minha cara do quanto essa casa foi cheia de vida, de gente, de presenças. Eu estou só. Pela primeira vez em tantos anos que não lembro quantos. A cama é só minha e isso é mais angustiante do que os barulhos que ouço.
Conto carneiros, conto estrelas, canto canções e o sono vagueia pelo lugar onde os cachorros dormem. Fugiu da minha cama, acelerado, como se adivinhasse que as lembranças e a tal liberdade conquistada não são coisas para se viver dormindo. Por companhia, só a lua que agiganta diante de mim e do vazio da solidão.

Mariana Gouveia
*Este post é parte integrante do projeto “Caderno de Notas – Quarta Edição”, do qual participam as autoras Aurea Cristina, Claudia Costa, Fernanda Farturetto, Lunna Guedes, Maria CininhaMariana Gouveia e Tatiana Kielbeman