É o paraíso, a moça!

Anna & Elena BALBUSSO

Se lança no infinito e nem me conta nada
Vira hippie na banca da esquina.
Sorri em dias despencados
quer morar dentro de um livro de Bukowski
e ainda reza.
Chove quando acorda, acorda sol maior no lado B da vida.
É o paraíso, a moça!
ri das minhas bobagens,
é corruptivel em seu ideal ecológico. Mas, só quando o professor pede.
Perdeu tudo quando a casa virou flor. Nem tinha seguro.
Mas, no caminho até ela eu descubro o Paraíso. É.

Mariana Gouveia
*imagem: Anna & Elena Balsusso

Aden Leonardo também escreve diário

Sim, a Aden Leonardo também escreve diário e escreve com jeito de quem brinca de viver ou de morrer. Aden é ácida, é doce, é amarga, é agridoce.

Varanda para abrigar o tempo é um diálogo solitário com as páginas. Aden Leonardo é um instante que dura a vida inteira. Quase sem pressa Aden se faz dentro dos dias e das estações.

“Um dia qualquer, você vai beber água e na sua sala um Benito di Paula vai tocar num piano de cauda um samba triste.
Só então você vai prestar atenção.
Que a sua vida estará sempre entre os dedos de um artista antigo. Se você merecer, claro, vai ouvir e chorar.
Porque tudo dura apenas alguns minutos. E é muito bom.”

Aden tem um quê de mistério que gosto de tentar desvendar e estará junto comigo, Roseli Pedroso e Lunna Guedes no lançamento de nossos diários em uma live via Facebook pela página da Scenarium. No dia 28/11/2020, às 16 horas (horário de Brasília). E você já pode adquirir seu exemplar na pré venda.
É só chamar (11) 99241-5985

Levei minha casa para a montanha…


Levei minha casa para a montanha.

Virou flor.
Nem sabia, nem fiz seguro, perdi tudo…
quanto mais perto do céu, mais risco de florir, mais essência se transforma…
por isso há flores no caminho.
Pedacinhos esfarrapados de quem sobrou…
por aqui.

Aden Leonardo
*imagem: Marta Orlowska

— escuto o silêncio de boca-a-boca, de porta-a-porta

Hoje fui acordada do meu – suposto – merecido descanso por uma ideia. De madrugada.

Sabia que não ia lembrar mesmo falando o mantran que aprendi no curso de meditação que fiz em 1997 (e que tem os mesmos mantrans dos cursos vindouros – que fiz).

A gata mais pazeamor, vendo minha inquietude espreguiçou com as patinhas na minha garganta. Tossi. Acordei a outra gata (não é de paz e amor).

Desisti de tentar repetir à exaustão pra que eu não esquecesse e acendi a luz. Abri o caderno da aula de amanhã, ou melhor, de hoje mesmo e lá estava mais anotações de outras ideias não esquecidas (só porquê anotadas).

Sim. Ideias são como a mãe da gente acordando pra ir pra escola. E faz maria chiquinha que nem dá pra piscar até o final. Ideias acordam a gente… como se estivéssemos atrasadas ou pecando.

Aden Leonardo

Na rua de cima os cães não latem para os garis.  O caminhão passa tranquilamente sem barulhos, latidos e bafafás.

Percebi isso na madrugada quando acordei e mergulhei no texto estampado em neon – tipo me leia e guarde-me antes que a Aden acorde e me apague – mania latente de marcar a gente com palavras/poemas como se fosse ferro a brasa e mesmo apagado já fica ali, na pele…

A rua de cima é morna dentro das minhas ideias. Um gato preto anda sobre o muro e o silêncio chega a fazer barulho nas portas pintadas de azul. Há um outro – gato – pardo que atravessa os muros laterais dos vizinhos e vem justamente na minha rua, cheia de barulho provocar os cães, atrapalhar a ideia que grita dentro do silêncio, na madrugada.

A ideia me arrasta como correntes e fiz o quarteirão repetindo gestos no ar como se louca fosse e percebi que algumas janelas se entreabriram para as vizinhas que não entendem como a madrugada me abraça. O último poema ainda adoça a boca que perdeu o sentido de sabor. A ideia da Maria Chiquinha leva o pensamento para além da infância e o cabelo sente o repuxo que a mãe fizera na última vez. Isso já foi a tanto tempo!
Os dias se perdem nessa dimensão do espaço.

O caderno ganha as anotações depois que o poema ativou a palavra solidão no calcanhar… e quando você busca o poema que te inspirou, ele evaporou-se no baú dos apagados – não falei que ela – Aden – ia fazer isso? – e as ideias se perderam dentro do poema apagado…
para no instante seguinte florir no carinho da amizade.

Mariana Gouveia
Projeto Scenarium Plural Editora
Crônicas de Outubro