6 on 6 · Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – resquícios

Guardo numa gaveta de velhos objectos as tuas palavras, 
até que o bolor do futuro as apague
 – para que só eu saiba o que nunca me disseste.
Nuno Júdice

Leonor,

o ano já rompeu seus dias por aqui e só hoje lembrei de que não te escrevo há algum tempo. A moça que me escuta uma vez por mês diria que isso é bom e mandou que eu retirasse seus resquícios por aqui. Mas como se faz isso, Leonor? Pode me dizer como? Ainda tenho a moldura com sua foto antiga. Confesso que já coloquei ela na lata do lixo duas vezes e corri para recuperar antes que os garis levassem.

As louças que você trouxe e deixou aqui, com a promessa de que buscaria. Até a faca, Leonor? Lembra da faca que você comprou para cortar peixe? E as borboletas que enfeitavam a mesa e os pratos… não posso simplesmente jogar fora, como se não tivessem qualquer valor. E se um dia você aparecer e querer de volta?

De seu também ficou o vidro de perfume vazio – que ainda tem seu cheiro mesmo depois de tanto tempo – e o saquinho com ervas que eu mesma bordei. Era para você ter levado. Não sei se você deixou de propósito, com o intuito de deixar lembranças suas pelo meu lugar.

E as conchas, Leonor? Era para trazer o mar até o meu quintal… ficaram em cima da estante, com suas cores vibrantes e a estrela vermelha – tão nossa – se sobressai. Vai me dizer que não são resquícios seus? E nem falei das cartas emboladas no baú e dos envelopes abertos, com sua caligrafia.

Sabe, Leonor, de todas as lembranças as das manhãs são as mais recorrentes. O bule decorado com las farfallas ficou intacto na mesa. nunca mais coloquei o chá nele… e o quer café, flor? – eu ainda pergunto toda manhã, nas conversas com os cães.

Mas aqui, só ficou a xícara vazia dentro da memória. O pires exposto, sendo pouso para a colherzinha assim como suas mãos foram pouso para as minhas. São tantas coisas, Leonor, que não consigo enumerar assim, de súbito, numa carta – a primeira do ano. Será que ainda te escreverei mais vezes? Vou deixar que o tempo cuide disso e que suas lembranças comecem a ser aqui, para mim, apenas resquícios.

Beijo meu,
Mariana Gouveia
Projeto fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna Guedes Suzana MartinsRoseli PedrosoObdúlio Nunes Ortega

6 on 6 · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Last Six Months

Confesso que foi difícil escolher apenas seis fotos representado os últimos seis meses. Foram tantos momentos registrados que dariam um livro, mas segue abaixo algumas que me marcaram. Espero que gostem!

Julho
É lua cheia! O calendário avisa que há dias em que é melhor ser apenas plateia. Hora de desvendar afetos. A rota lunar sempre é uma opção de fuga. De vez em quando eu atiro facas em mim mesma.  As tremuras das mãos são quase um ocaso para o bordado que não faz mais. Era lindo o abraço do silêncio. 

Agosto
A vida esconde o pólen da noite quando o vento é só essa música que a cortina acompanha. Lembrei-me das folhas escondidas em cadernos.
A rua de cima tem garoa enquanto as folhas secas protegem a vida miúda.
Conta o calendário que é inverno ainda e meu diário se perde na contagem das estações.
Tem noites em que todas as estações mudam de rumo em equinócios não relatados.

Setembro
Houve uma noite em que o dia brilhou. Das sementes que plantei, nasceram sete. Cavei cada buraco a procura do sol para girar. Nem sempre o dia tem essa precisão noturna.
O dia da dor parece parafuso repetindo ciclos.
Ensaiei a despedida vinte vezes, contadas no cronômetro do celular.
Rabisquei no caderno os rascunhos das cartas… Queria deixar um testamento sobre as relíquias que nunca cataloguei…
– “Deixo para você as palavras escritas nos rascunhos do email” – depois, fui lá e apaguei porque senti a sua dor de viver sem mim.
Será que eu deveria falar das flores?

Outubro
Quando chegou a hora do descanso,
eu já era pouso e fui colo.
Quando chegou a hora do aconchego,
eu já era carinho e fui amor.
Quando já era hora de voar, eu fui céu e minha mão, nuvem

Novembro
Nas manhãs regadas a asas
o céu vestiu-se do azul mais bonito.
Às nuvens brincavam de pinturas – das mais variadas formas – e a borboleta veio ser encanto enquanto eu falava de cerejeiras para alguém.
O quintal guarda sua magia para o dia continuar sendo no sopro de asas dentro de mim.

Dezembro
Entendi a densidade da chuva. As micros flores parecem diamantes expostos.
A cortina dança ao som do vento e a vida tece significado das coisas.
O pássaro de todo dia busca abrigo na minha mão.
As manhãs de sábados improvisam instantes de ternura.
O ninho foi preenchido com vida outra vez.
Faço orações nas gotas da chuva para agradecer.


Mariana Gouveia
Projeto fotográfico 6 on 6
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Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Suzana Martins – Roseli Pedroso

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6 on 6 – Meus rituais

Migrou-se como os pássaros do lugar onde mora. Foi para a Lua.

Ana,

Talvez o meu ritual mais comum, feito aleatoriamente seja pensar em você, te descrever momentos do dia, como se fosse uma carta mesmo e olhar o céu e ver a lua. Juro que dependendo da fase fico buscando Marte em forma de estrela em cada canto do céu. Às vezes, encontro… em outras, a lua fica solitária, apenas sendo observada por mim.

Depois, meu olho procura pelos pássaros – você sabe como sou apaixonada por eles – e vez ou outra sou abençoada com novos voos e pousos por aqui. Lembra-se de quando me dizia que eu poderia voar se quisesse, bastava juntar as aves para me carregarem? Quase sou levada por eles, só de observá-los.

Você não conheceu o Chiquinho, Ana, mas ele é a parte do meu ritual diário nas manhãs que se desenham em meu quintal. Logo cedinho, antes mesmo que eu abra a porta, ele me chama com seus chilreios e se aconchega em minhas mãos, causando ciúmes entre os cães. Chiquinho é parte de rituais diários aqui. Seja no varal, em meio aos prendedores, ou mesmo no aconchego de minhas mãos.

Outro rito por aqui, Ana, são minhas flores… com a xícara em mãos e sorvendo o café converso com elas. Dou a água necessária, retiro as folhas mortas, as ervas daninhas e vibro com os botões novos que se abrem…

Sabe, Ana, antes meus rituais eram outros… antes, eu corria para a rua de cima e te acordava cantando… era a forma mais bonita de ver seu sorriso. Hoje, meus rituais mudaram e claro que as borboletas fazem parte deles. Antes de começar os afazeres, vistorio os nascimentos de algumas, a formação de casulo de outra e só daí, recomeço meu dia.

Eu poderia, Ana, ter várias maneiras de começar meu dia em rituais distintos… poderia falar do misticismo que faço, dos mantras e até mesmo sobre as canções que canto. Mas, te escrever, mesmo que mentalmente, é o primeiro e último rito de todos os dias. É a maneira com que lido com sua ausência e saudade.

Te amo infinitamente,
Mariana Gouveia
Projeto Blogvember – Scenarium Livros Artesanais
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6 on 6 · Das palavras das cartas · infinitamente · Mariana Gouveia

6 on 6 – MISS you

Em voz alta, ensaiei o teu nome:
a palavra partiu-se
Nem eco ínfimo neste quarto
quase oco de mobília

Quase um tempo de vida a dormir
a teu lado e o desapego é isto:
um eco ausente, uma ausência de nome
a repetir-se

saber que nunca mais: reduzida
a um canto desta cama larga,
o calor sufocante

Em vez: o meu pé esquerdo
cruzado em lado esquerdo
nesta cama

O teu nome num chão
nem de saudades

Ana Luísa Amaral

Leonor,

Muitas vezes eu quis mudar o calendário, ultrapassar as rotinas e te esquecer. Mas, todos os dias, nos rumores que a casa vazia faz – logo pela manhã – vem seu nome ecoando lembranças e saudades. Mentalmente, refaço os rituais e passos dos dias em que esteve aqui e dos dias em que se foi, deixando apenas a casa cheia de saudades.

Já te contei que mudei minha rota para não passar perto de onde seu olho se encantou pelas flores do ipê? E que mesmo não atravessando a alameda onde antes era um lixão, eu canto a canção que fala dessa saudade.

Devo confessar que já rasguei algumas cartas sem enviar e que rabisco seu nome em tudo que é lugar. E quando vejo as nuvens se enfeitando como se fossem bolas de algodão, eu recordo as manhãs que o céu do meu lugar te presenteou.

Para a gente, o olho buscava sempre a imagem que marcaria o momento – tão nosso – e se eu soubesse que você se afastaria de vez, não iria permitir tantas lembranças para memorizar agora. A gente sempre via coração em todo lugar e hoje, só vejo metade dele nas folhas, nas flores, no céu.

Como se até a natureza soubesse que sou essa metade insana dentro da saudade que sinto.

Acho que já me acostumei com sua ausência, Leonor… o que não me acostumei foi com essa saudade quando ouço as canções que falam de nós, dos poemas escritos como declarações de amor e com o vazio que ficou em mim.

Mariana Gouveia
Projeto fotográfico 6 on 6
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6 on 6 · Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Espaços em branco…

No espaço branco entre o sentir e o não sentir.
O pensar e o não pensar.
O espaço branco entre o som e o silêncio. No espaço branco entre palavras desenraizadas e histórias abandonadas. O espaço alado da própria pele. O espaço entre os espaços em branco, todos os espaços que se desbravam por ele. Onde tudo existe como sussurro de um longínquo e imaginário passado de personagens, num fantástico e ilusório enredo.

Fátima

Leonor,

Assim que o avião subiu ao céu e deixou apenas um espaço branco em meio as nuvens eu já senti sua falta. O ir embora parecia tão distante… Os dias voaram e assim como você chegou em meio as brancas nuvens, da mesma maneira partiu. E não foram só as nuvens que se embranqueceram no azul do céu…

as cortinas já não traziam sua silhueta ao balançar nas minhas manhãs e eu ficava horas ali, a espreitar o vento que não exibia seu sorriso entre a penumbra da madrugada e a brancura suave das manhãs…

Sabe, Leonor, deixei em branco seu lugar à mesa com a xícara sem café e o livro que você esqueceu. Tive vários diálogos com as páginas em um idioma que não entendo e juro que fiz as mesmas perguntas desde então: quer café, flor? Mas não havia resposta e minha voz se esvazia em eco em uma cozinha e mesa tristes.

Também deixei em branco – sem dedicatória – o livro que era para ser seu, com poemas escritos para você. Esse vício antigo de escrever amores que eu sofro na sua ausência. Como pode ter esquecido tudo que prometeu? Como pôde simplesmente sumir no mundo como se aquela nuvem que engoliu o avião tivesse também te transportado para outro além?

Quando alguém me pergunta sobre você tento parecer que é natural o seu silêncio… Lembro apenas que você deixou em branco também a parede quando trocou sua fotografia pelos quadros de artesanatos que fiz e que os dias de falta são marcados pelas folhas da jiboia que você plantou. Cresceram tanto nesses mais de 4015 dias que você partiu e nunca mais voltou.

Leonor, deixei as folhas em branco no caderno sem escrever uma só palavra para você. Já rasguei tantas que escrevi, outras tantas eu apenas embolei e deixei no baú, com a data e seu nome na introdução da carta. Logo eu, que gostava tanto das folhas do caderno em branco para principiar histórias não consigo nem escrever nelas hoje a palavra saudade.

Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
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6 on 6 · Das palavras das cartas

Beda – 6 on 6 – a… gosto.

Ando devagar porque já tive pressa
E levo esse sorriso
Porque já chorei demais
Hoje me sinto mais forte
Mais feliz, quem sabe
Só levo a certeza
De que muito pouco sei
Ou nada sei

Almir Sater

César,

Eu sempre quis te escrever e nunca consegui… hoje, as palavras ganham reforço onde o dia seria seu e coube diretamente minha palavra dentro do seu olhar. Você chegou na minha vida como um olho curioso de padrasto do meu marido e logo se posicionou como avô do meu filho. Daqueles desejos que grávidas têm… você cumpriu todos. Desde o mamão que eu vomitava ao comer até a fruta do conde roubada da vizinha. Você era o olho grudado em nossos desejos e meu filho virou seu neto de verdade, dentro do seu amor.

Para mim, você era sempre uma canoa à espera. Bastava chamar seu nome e você aparecia, como se fosse um super herói… como se estivesse sempre à espera. Como se fosse sempre o condutor do barco que me levava para outras margens. Era a forma segura de travessia… uma placa a indicar para qual lado era melhor seguir. Você foi guia.

Você estava sempre ali, como se estivesse preparado para ser o “pai”, o avô e o amigo. Era pescador e pescava ilusões em seus sonhos… Pescava vontades para os que você amava e peixes para alimentar a gente. E mesmo quando não trouxesse nada em seu embornal, o riso encorajador era mais do que alimento.

Você sempre foi essa margem para onde a gente podia ancorar… e o rumo torto onde a gente seguia mesmo com medo de se perder no caminho. Mas, você, sempre nos levava ao porto seguro e a trilha sonora eram as canções sertanejas, as modas de violas que até hoje quando ouvimos seu nome ecoa na saudade e nos nossos corações.

O lugar que você mais amava era o rio… a vara esperando o peixe… as nuvens alcançando a água como se determinando que seu limite fosse o céu… acho que é seu endereço hoje. Será que depois que a gente morre, o aniversário fica marcado em alguma folhinha?

Sabe, César… acho que não tivemos tempo de agradecer. Você foi embora tão ligeiro como se fosse um peixe que escapou do anzol… Mas, você teve uma importância tão grande em nossas vidas que a gente sempre ri quando vê um rio, um peixe, um anzol, uma isca… e quando a gente ouve uma canção que nos leva a você. Agosto é marcado para mim como seu… e aposto que você também gosta. Minha gratidão profunda por tudo que fez por nós e que seus dias onde quer que estejam sejam como seu aniversário, com moda de viola e amor.


Mariana Gouveia
Agosto é o mês de pescaria e de Beda
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura – 
Suzana Martins – Roseli Pedroso

6 on 6 · Livros · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Natureza na urbe.

Quando ando pelas ruas da minha cidade, ou até mesmo dentro dos muros do meu quintal, percebo a diferença que já é tão notória por aqui. Cada vez mais percebo a natureza “invadindo” os espaços da cidade, já que nós roubamos o espaço dela.

O que aos meus olhos parecia tão rural, hoje atravessa as avenidas, invade os canteiros e se tornou tão presente nas ruas que é como se estivessem sempre ali.

Os ipês, de variadas cores, que antes eu só via no cerrado, hoje compete com edifícios e a urbanidade toda. E embora grande parte deles tenham sido retirados em nome de uma “revitalização” em nome da Copa de 2014 – Sim, AINDA temos obras paradas em nome da Copa que aconteceu aqui – alguns ainda encantam com suas floradas.

O jacarandá do cerrado enfeita a paisagem de uma grande avenida e além dele, várias outras espécies do cerrado e do Pantanal transforma a cidade. É a natureza buscando abrigo na cidade como forma de proteção? Ou é apenas o reflexo da mão do homem trazendo a natureza para mais perto dele? Não é a função desse post discutir o meio ambiente e suas relações com a ação do homem. Posso até fazer isso como um grito de alerta, já que hoje seria votada, pela Assembleia Estadual de Mato Grosso – foi adiada para a semana que vem – o Projeto de Lei 561, que abre brechas para obras de infraestrutura que podem impactar o bioma, sua biodiversidade e as comunidades que nele habitam. A tramitação acelerada do Projeto de Lei não respeitou as regras do regimento, havendo pouca transparência no processo, por exemplo, reuniões a portas fechadas e apenas, com o setor produtivo. Se aprovado, o impacto será devastador para o Pantanal.

Mas, confesso que já me assusto ao andar nas imediações de um parque público, dentro de um bairro de condomínios de luxo. Os animais que antes eu só observava na natureza, como capivaras, pássaros silvestres, jacarés e outros animais estão cada vez mais perto de nós… de nossas casas e longe da natureza, além de estarem correndo risco de vida. Ou de morte. Nunca me dei bem com essa frase.

Na semana passada me deparei com um barulho no poste de energia elétrica, bem em frente minha casa com esse pica-pau que tentava furar sem sucesso o ferro que segura a caixa do relógio. Lembrei-me do pica pau do desenho e o que foi mais estranho, é que para ele, parecia normal a humana aqui, com sua câmera a incomodá-lo, procurando uma pose melhor.

E hoje, descobri que tenho novos vizinhos, no mesmo poste em que o pica-pau estava dias atrás. Um casal de joão de barro construiu sua casinha, não lá no galho da paineira, como diz a canção antiga que meu pai ama e sim, logo ali, ao alcance dos olhos. Prefiro acreditar que vieram para perto de mim, ou que sou eu quem atraio essas coisas da natureza. Me assusta o domínio do homem sobre ela. Me assusta a utilização e a transformação dessa natureza. Enquanto o homem vive uma busca incessante de domínio sobre todos os espaços, a natureza luta diariamente para continuar tendo aquilo que lhe sobrou. Mesmo que seja dentro da urbanidade que lhe cabe.

Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
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6 on 6 · Mariana Gouveia

6 on 6 – 3×4

Exato
De fato,
o corpo briga,
a vontade chega.
Retrato,
de 3×4
na semana inteira.


Quando revirei o baú de retratos as carteirinhas com os retratos 3×4 feitos para os documentos trouxe para o momento as memórias antigas. Junto delas, os monóculos que trazem lembranças de um tempo que não voltam mais.

Desde a morte de meu avô paterno minha mãe vivia sempre de luto. As fotos – tão poucas – que restam dela, não difere tanto uma da outra. Mesmo quando precisava de fotos para algum documento, lá estava ela e seu vestido preto. Ela só veio tirar o luto um mês antes de sua morte. Foi quando vestiu o vestido florido que ela mesmo fez.

Algumas fotos arrancam risos por aqui e muitas vezes me pergunto quais os sonhos que povoava a cabeça daquela menina-mulher? A foto acima era para o crachá da emissora de rádio e naquele tempo eu só queria usar o microfone para falar de poesia e canções.

Com o passar do tempo os cabelos foram modificando e os sonhos também. Mas a arte sempre presente de alguma maneira e as borboletas também.

O baú, além de fotos antigas, guarda também momentos. O filho tão menino ainda, na foto que o colocava como cidadão do mundo no primeiro documento.

Para tão logo depois – como o tempo passa rápido dentro dos dias – ser senhor de si e sair à procura de seu lugar.

As fotos desbotadas mostram os dias dentro de nossas vidas. Os monóculos guardam memórias. O casamento de meus pais. Eu, a segunda na foto, em cima de uma cadeira. A mãe e o olho de luto nesse dia em que a vida se perdeu. O baú hoje, trouxe apenas saudades.

Mariana Gouveia
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Obdúlio Nunes OrtegaRoseli PedrosoLunna Guedes

6 on 6 · Mariana Gouveia

6 on 6 – Crepúsculo

Não contei as horas do dia
porque imaginei que os poemas nasciam no ocaso
no poente
onde o crepúsculo me trazia
sua voz mil vezes ou mais
entre o gradiente das cores
e a canção que eu ouvia.
Mariana Gouveia

Aumente o som

O crepúsculo acontecia sempre dentro de mim antes do sol adormecer lá fora. Eu ficava horas a esperar por ele e em muitos momentos eu dancei com as nuances de cores no céu. Você pode estranhar o fato de sempre eu falar de dança, mas sou movida a música e de alguma maneira, meu corpo sempre responde a canção.

Quando ele acontece é a hora que a minha cidade fica mais bonita, feito moça se aprontando para a festa. As nuvens parecem o veludo da fita que prende o cabelo e as silhuetas me levam para lugares guardados na memória.

Do meu quintal, alcanço apenas um pequeno rasgo do céu entre a árvore seca no quintal do vizinho e torre de alta tensão da rua de cima, bem diferente de quando o sol nasce pela manhã atravessando o telhado da vizinha da esquerda.

Mas quando consigo ir até o campo, logo depois da curva, onde antes havia um bosque eu me derreto com as coisas e reverencio o universo. Respiro as cores que me atinge e é ali que busco forças para continuar seguindo.

Me sinto tão pequena, às vezes, diante da beleza e das formas que as nuvens criam em um céu tão meu… No meu lugar.

Depois disso, a cidade se prepara a a noite, mas durante algumas horas, o crepúsculo ainda dura aqui, dentro do meu coração.

Mariana Gouveia
Projeto fotográfico 6 on 6
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Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Isabelle BrumRoseli Pedroso

6 on 6 · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Arte de rua

Meu caro M,

Bem, era um destes dias ou lugares talvez…

Roubei essa frase acima de você só para te contar que daqui a dois dias Cuiabá completará 303 anos e eu me vi caminhando pelas ruas e decidi, aproveitando o projeto fotográfico 6 on 6, te mostrar um pouco do que vi-vejo pelas ruas do meu lugar. Já faz um tempo que não falo com você e confesso que sinto falta… Aliás, sinto falta de saber mais de você e de contar coisas minhas também e de perguntar se é mesmo verdade que é avoador… Essas coisas bobas que amigos conversam-perguntam e riem juntos.

Eu apanhei um artista no instante em que ele criava sua arte. Parece a poesia quando sai da alma do poeta e ganha vida nas letras, nos cadernos, nos livros. A arte de rua ainda é considerada uma afronta a sociedade e eu poderia escrever muito sobre isso, mas eu perderia o foco de te levar comigo, quase de mãos dadas apontando aqui e ali a Cuiabá dos muros e paredes…

O artista que fez a pintura é o mesmo que tatuou as borboletas nas minhas costas… também passaria horas falando de como ele enfrenta o mundo das ruas com a arte e de como seu grito de luta às vezes é calado com repreensão… mas isso, é uma outra história. Eu só quero mesmo te passar a arte e sua essência de voz ecoando pelas ruas.

Sabe, Cuiabá possui seu nicho de artistas e com isso, os viadutos ganharam vida através das pinturas que retrata a cultura e o cotidiano de um povo de beira de rio, de viola de cocho, de Pantanal… Fica mais fácil atravessar as ruas e ver algumas paredes velhas contando arte e histórias… mas, nesse mundo tão corrido tem gente que passa e nem vê.

Sempre quando eu passo em frente a essa casa – um casarão histórico, abandonado pelas autoridades, prestes a cair, feito de adobo – parece falar comigo. Não nego o riso ao responder: o que você quer? Parece que a alma do casarão ainda está ali, à espreita de que alguém o acuda. É triste, mas é poético, eu diria.

Também tem casa que parece toda feliz… embora, eu conheça essa casa e as nuances da tristeza dela… Mas, sinto, que ela todos os dias luta para que as pessoas que cruze suas esquinas leve com elas um riso de cores na memória.

Sei que seis fotos não pode traduzir uma cidade nem a arte que habita em suas ruas… Mas, sei que caminhar com você foi só um pouco da metade do caminho… ainda iremos caminhar por florestas, por estradas e até mesmo por cartas, como essa que leva até você meu carinho e agradecer.
Você sabe porquê.

Mariana Gouveia
Scenarium Livros Artesanais
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Ale Helga – Mãe Literatura – Darlene ReginaRoseli Pedroso

só porque a arte e as cartas se misturam