Fiz biscoito de polvilho e revisitei as coisas que me acompanham a vida toda. Descobri que meus tesouros são os mesmos que eram de minha mãe. A caixa de costura e suas agulhas de vários tamanhos, em cobre, e o dedal. O bastidor, tão antigo — ela dizia — a mãe, a avó o usaram, a bisavó não… E a máquina Singer, com suas correias cantoras.
Quando minha mãe se foi, o pequeno tesouro ficou comigo. A panela preta de três pés — que hoje serve de suporte para as flores que enfeitam a mesa, também. O caldeirão de fazer o feijão, o bowl de alumínio batido e a compoteira de vidro.
As compotas eram servidas ali, combinando com as taças e a colher. A frigideira de fritar ovos, com o cabo de madeira… Minha irmã mais velha disse que acompanhou o nascimento de todos os sete filhos, ali, pendurada na prateleira com as panelas de alumínio. O tacho de cobre e o pequeno filtro de barro — uma das miudezas que guardo dentro da estante e faz companhia para as porcelanas. Os três frades com um copo-garrafa nas mãos. O elefante amarelo, a xícara de ágata e suas florzinhas vermelhas.
É como se eu tivesse ficado com os tesouros da família. E nos encontros com os irmãos, os objetos servem para reavivar as lembranças.
As panelinhas tão minúsculas — quatro ao todo — que minhas irmãs e eu brincávamos de cozinhadinha. A rabinha de fazer café, em alumínio puro… Cada uma das irmãs — as quatro — têm as suas miniaturas.
No baú, a foto em preto e branco, a última carta escrita pela minha mãe e uma caixa de chapéu com os riscos de bordados que ela criou. Tudo exposto dentro de minhas lembranças.
Agora que o tempo ultrapassou o próprio tempo, conto os anos que cada objeto tem. Alguém da família disse uma vez: tal mãe, tal filha. Como se as relíquias guardadas nas caixas, expostas em uma mesa com a toalha de crochê fossem tralhas.
Cada um deles tem um significado,
com nossa história particular.
Das minhas coisas, para além da herança, a fita de veludo laranja que enfeitava minhas tranças, o caderno de poesia com as letras miúdas que eu “roubei” da irmã mais velha. O primeiro vestido da sobrinha com flores miúdas azuis… A primeira camisa do meu filho, que eu mesma costurei quando ele completou um mês… O papel da balinha e o palito do sorvete que dividi com Ana — a de Marte — os tsurus e os quadrinhos com os kanjis… O coração da Maricota — a boneca de pano despedaçada pela Meg — minha cachorrinha que já se foi…
Um único brinco em forma de grão de arroz, par do outro perdido e as lembranças tantas, expostas em um quadro único, em letras garrafais contando a minha história em delicados instantes.
Mariana Gouveia
Texto publicado no Coletivo Armário das Maravilhas
Scenarium Livros artesanais


Adoro esse coletivo e cada texto que está nele. É uma delícia… um dos meus melhores projetos do ano passado.
Abrir o livro, é como abrir portas secretas e visitar realidades particulares, como a sua. Uma viagem…
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Adorei fazer parte dele. Me enche de orgulho estar entre tantas pessoas lindas!
grazie sempre ❤
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Gosto muito da maneira que você escreve, Mari.
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fico lisonjeada, Mari! grata!
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🤍
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❤
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Que lindo!
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Grata! ❤
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Que lindo
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Grata! ❤
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