Das palavras das cartas

Beda – carta para as bobagens dos abraços.

Se eu pudesse escolher, gostaria de me transformar numa música,
porque além de bonita ela desaparece.
Sumir por um tempo deve ser o máximo.

Luciane Recieri

Luci,

Mais uma vez te escrevo uma carta. Sabia que te escrevo infinitas cartas na mente? Basta ver uma coisa que minha alma defina como poesia, escrevo para você mentalmente e cada vez que vejo a sua frase acima – que acho pura poesia – fico imaginando se você seria uma música de Belchior ou de quem seria…

Vi que no meio do seu caminho tinha uma borboleta, e minhas borboletas vagueiam no céu do meu lugar e pousam em tudo que é flor… e que para você, as segundas-feiras são lindas. Já eu, gosto das quartas e não gosto muito dos domingos. Quando é para marcar algo especial, marco as quartas-feiras e foi numa quarta que vi meu pai de novo, Luci. Te contei que eu ia lá ver ele? Eu fui, Luci! E meu pai estava como se fosse fruta da época – com o riso tímido de sempre, como se quisesse fazer uma confissão e não fez.

O olho dele, Luci… ah, o olho dele… cada vez que volto do meu pai a minha alma fica pelo caminho… e o olho dele vem junto. Ele falou tantas coisas e eu fui me perdendo nas palavras dele. Contou histórias que eu nunca tinha ouvido – ou não lembrava que ele contou – e parece que pai sabe sempre o que vai no coração dos filhos, Luci. Acho que dessa vez, o olho dele me contou coisas que não consigo confessar nem para mim mesma. Essa coisa de saudade que a gente sente e você sabe de noite quem seu coração chama.

Eu nem queria falar de despedida com ele… mas, ele sabia que eu tinha de vir embora e num abraço, beijei o cabelo dele, Luci. Parecia flocos de algodão. Lembrei-me dos rolos de algodão da fazenda e ele cheirava a algodão recém colhido. Depois, na volta, parei para além da cerca e via o campo todo branco, como se tivesse se vestindo de noiva… era alguma cerimônia e eu não estava preparada para isso. Me lembrei de tanta coisa que chorei. Fiquei a olhar os trieiros que separavam os pés de algodão. Na minha infância, isso era feito por ele, num equipamento chamado matraca… hoje, as máquinas gigantes fazem isso. Mas, o cheiro é igual de quando eu era menina.

A gente viu passarinho juntos… acho que ele ainda tem esse dom – que deve ter sido repassado para mim – sabia que os passarinhos vêm na mesa onde ele almoça e divide com ele os restos? Era tanta divindade que recusei registrar em fotos. Apenas orei, Luci… e mostrei você para ele. Falei do seu pai e do estuque verde. Li algumas cartas que trocamos e vi que ele chorou. Falei também para ele que você, Luci, para mim, é quase uma personagem de conto de fadas e de quanto você viajou só para ir me dar um abraço em São Paulo. Já fazem 6 anos isso e parece que foi ontem… ah, esse tempo doido, Luci! Parecem apontamentos dos dias que voam.

Contei que você se encanta pelas delicadezas das coisas e que sou muito sortuda. Ele disse que eu sou igualzinha a tu… Os iguais se atraem – meu pai disse isso em outras palavras e com a dificuldade de quem voa com a mente, mas se prende pelas sequelas do avc. Tem pai, Luci, que é essa ilusão de outro tempo. Fica registrado como se fosse um retrato 3×4 na carteira. Meu pai e o seu são assim.

Falei que a gente chora por qualquer coisa mesmo e que amamos cachorros… até os de rua e que aprendi com ele isso. Sabe, Luci, meu pai fez 91 anos e ele me falou de curas. As dores de quem perde um animal demora mais para curar – ele disse – porque a gente fica buscando presença em qualquer canto e cachorro é quase igual anjo. Mas ele me disse que tem dias que cheira a frio, mesmo nos meus quase 40º aqui. hoje é um deles e quis te escrever, só para nossos abraços se encontrarem nesse universo pleno de contato. porque a gente é assim, gosta de resolver bobagens e de abraçar, às vezes.

Contei para ele, Luci, que você tem a doença da saudade do Tetê e ouvi que essas doenças são cicatrizes que mesmo curadas, ainda ficam a marca. Faz parte – repetiu – e é sinal de que amou, assim como eu, que possuo a doença dos espaços imensuráveis dentro de mim… não tem cura, Luci… mas alivia sempre quando te escrevo… mesmo que sejam cartas que não te envio.

Grata por estar comigo sempre, mesmo longe.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês de escrever cartas e de Beda
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura – 
Suzana Martins  Roseli Pedroso


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12 comentários em “Beda – carta para as bobagens dos abraços.

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