Mariana Gouveia

Agosto.

Em agosto derramava ouro sobre meu quintal. Era amarelo o dourado que banhava o terreiro ao lado do pé de ipê. Mas, também derramava sonhos rosados do outro lado da cerca. Era como se um artista tivesse deixado ali sua obra de arte estampada para todo mundo ver.

Minha mãe me ensinou a gostar do mês que todo mundo esbravejava. Uns, diziam que era o mês do cachorro louco. – e às vezes era mesmo – vi muitas vezes os cachorros do outro lado da cerca, com a baba amarelada a vagar sem rumo. Eu morria de medo dos meus enlouquecerem. Aliás, eu sempre tive medo até que eu mesma enlouquecesse. Havia sempre alguém a contar uma história sobre uma ou outra pessoa que enlouqueceu em agosto.

No meu quintal, os vultos amarelos balançavam durante a noite e da janela eu assistia ao duelo do ipê rosa e do ipê amarelo para conquistar a lua. Sempre fui volúvel com eles. Ora suspirava por um; ora por outro. Ficava horas embaixo deles a esperar que as flores caíssem e por fim, na minha rotina de dar colo para as flores, eu deitava em um tapete florido e ali, ficava a sonhar.

Apesar da fumaça desenhar de gris as tardes de agosto, as cores dos ipês acentuavam ainda mais a beleza do dia. E nisso, minha mãe tinha razão. Agosto era lindo de viver no meu lugar.
O inverno nem era tão castigante e nossos cachorros por fim, nunca endoideceram. Nem eu. Pelo menos até hoje.

Lembro-me que minha mãe dizia que cada mês tem seus sintomas bons e ruins. – não era a sina dos dias que fazia um mês melhor que o outro. Mas sim, aquilo que despejávamos no desejo secreto que tínhamos dentro de nós.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês dos ipês e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia Leonardi Obdúlio OrtegaLunna Guedes Roseli Pedroso – Adriana Aneli – Darlene Regina



8 comentários em “Agosto.

    1. Olha só a sintonia! Enquanto comentava em seu blog, veio a notificação do seu comentário aqui.
      Meu quintal parece forrado de amarelo. O ipê soltou todas as flores todas. Beijos

      Curtido por 1 pessoa

  1. Preciso pensar a respeito de agosto… eu nunca me acostumei com esse mês por aqui. Eu observo, mas não me entendo com ele. Parece outro mês, outra coisa. Tento focar no que vejo-sinto… e sou toda lembranças de outro agosto, que insiste em mim. Então quando você disse: em agosto derramava outro no meu quintal, respirei fundo. Não tenho uma frase que defina esse mês desde que mudei de continente. Adoro essa palavra: con.ti.nen.te.
    Nessa parte do mundo, agosto é feito café frio e nesse ano não floresceram os ypês por aqui. Mas, está tudo tão estranho…

    Curtido por 1 pessoa

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